Os números de 2012

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2012 deste blog.

Aqui está um excerto:

600 people reached the top of Mt. Everest in 2012. This blog got about 11.000 views in 2012. If every person who reached the top of Mt. Everest viewed this blog, it would have taken 18 years to get that many views.

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Rock (R)Evolution – Parte 23 – Capítulo final

ROCK (R)EVOLUTION

EPISÓDIO 23:

2000 A 2010: O MILÊNIO DIGITAL

Para ler ao som de: Strokes, Hives, Vines, White Stripes, Kings of Leon, Yeah Yeah Yeahs, Interpol, Killers, Arcade Fire, Libertines, Franz Ferdinand, Bloc Party, Kaiser Chiefs, Arctic Monkeys, Gorillaz, Audioslave, Velvet Revolver, Blink-182, My Chemical Romance, Fall Out Boy, Klaxons, Hot Chip, MGMT, Vampire Weekend, Vaccines       

O século XXI começou para a música em um cenário que estranhamente parecia saído das profecias dos autores de ficção científica. Batidas eletrônicas dominavam as paradas, o álbum símbolo do rock em 2000, “Kid A”, do Radiohead, também apelava para sons criados em máquinas a fim de transmitir justamente a percepção da banda sobre a velocidade violenta do mundo contemporâneo, e um programa de compartilhamento de arquivos mp3 pela internet inventado por um jovem de 19 anos mudava a maneira como se consumia música – e como se fariam novos astros dali em diante.

Para os executivos da indústria da música, o gatinho do logo do Napster estava mais era pra capeta.

Projetado pelo estudante Shawn Fanning, o Napster logo se tornou objeto de uma cruzada judicial empreendida pela indústria da música, que o acusava de violação dos direitos autorais dos artistas cujas faixas eram compartilhadas gratuitamente entre os seus usuários. A questão ganhou ainda mais repercussão quando alguns (poucos) músicos, como os membros do Metallica, passaram a militar fervorosamente contra o programa. Mas tudo indicava que o download grátis de músicas pela internet era uma realidade sem volta, e o Metallica chegou a perder popularidade junto a seus fãs devido à atitude. Em sentido inverso, vinha toda uma nova geração de bandas, para as quais a divulgação virtual mostrava-se saudável e imprescindível, e que estourava inicialmente na internet para então ganhar o mundo.

A primeira delas foi o The Strokes. O quinteto nova-iorquino começou a gerar interesse no Reino Unido, através de uma demo enviada para a gravadora Rough Trade Records. Em seguida, a NME caiu de encantos pelo grupo, e, em 2001, disponibilizou o download da faixa “Last Nite” em seu website, pouco tempo antes do EP “The Modern Age” ser lançado e desencadear uma disputa entre as majors pelo passe dos Strokes.

Quase que da noite para o dia, a banda se transformava em uma sensação pop, comentada nas principais publicações culturais, com shows extremamente concorridos e ingressos inflacionados. O primeiro álbum, “Is This It”, de 2001, só ajudou a sacramentar o hype. Como se não bastasse, duas polêmicas atraíram ainda mais os holofotes para o lançamento: a substituição, no mercado americano, da capa original e da faixa “New York City Cops” – uma crítica pouco conveniente, após os atentados de 11 de setembro, aos policiais da Grande Maçã – por “When It Started” na versão em CD.

A capa "de mau gosto" de "Is This It" mostra um ângulo interessante da namorada do fotógrafo Colin Lane...

... enquanto esta revela uma colisão de partículas, algo que só um físico quântico consideraria sexy.

Esta é uma das muitas músicas que se tornaram “malditas” imediatamente após o 11 de Setembro.

À revolução garageira deflagrada pelos Strokes juntaram-se os suecos do The Hives…

… os australianos do The Vines…

… e a dupla de Detroit conhecida como The White Stripes. Com um apurado senso estético – figurino e iconografia invariavelmente em vermelho, branco e preto -, o guitarrista/vocalista Jack White e a baterista Meg White (que se declaravam irmãos, embora houvessem sido casados até 2000) apareceram para o grande público em 2001, com o álbum “White Blood Cells”. O frontman logo foi saudado como o guitar hero do início do milênio, por sua criativa e energética infusão de blues e country em uma sonoridade punk – ou vice-versa.

"Das latas de Coca-Cola à propaganda nazista": Jack White diz que as cores-símbolo do White Stripes são a mais poderosa combinação cromática de todos os tempos

O tributo aos ritmos de raiz americanos também marcava o Southern rock de garagem do Kings of Leon. Considerada um misto de Strokes e Lynyrd Skynyrd, a banda familiar de Nashville – formada por três irmãos e um primo – rapidamente destacou-se no sempre receptivo mercado britânico.

O sucesso dos Strokes ajudou a impulsionar a carreira de outras bandas de Nova York, que levaram adiante o resgate do rock produzido na virada dos anos 70 para os 80. O revival pós-punk foi encabeçado pelo Yeah Yeah Yeahs…

… Interpol, com seu som evocando as texturas sombrias do Joy Division…

… e The Rapture, que apostava no lado dance do estilo.

Com seu nome tirado do videoclipe da música “Crystal”, do também dançante New Order, o The Killers, natural de Las Vegas, mostrava no álbum de estreia, “Hot Fuss”, de 2004, a influência não somente da banda de Manchester, mas de toda a new wave oitentista, com uma inclinação à grandiosidade e ao espetáculo tão típicos de sua terra natal.

Em 2005, a frase “I’ve got soul but I’m not a soldier” de “All These Things That I’ve Done” foi incorporada por Robbie Williams, Coldplay e U2 em seus shows.

Mas talvez nenhuma outra banda do período tenha conseguido transformar grandiosidade em arte do modo como o Arcade Fire o fez. Contando com quase uma dezena de membros e instrumentos tão diversos e estranhos ao rock como harpas e acordeões, o grupo canadense afirmou sua complexa identidade já no primeiro álbum, “Funeral”, de 2004.

No Reino Unido, o rock da década 00 havia começado alguns anos antes, em Londres, quando os amigos Carl Barât e Pete Doherty largaram tudo para formar o The Libertines.

Barât e Doherty: quase irmãos siameses

Percebendo a “Strokesmania” ao redor do mundo, a empresária da banda, Banny Poostchi, comprometeu-se a conseguir um contrato com a Rough Trade no prazo de seis meses. Missão cumprida no final de 2001, no ano seguinte o quarteto lançava seu primeiro single, “What a Waster”, produzido pelo ex-guitarrista do Suede, Bernard Butler.

Atrair medalhões do rock britânico provou-se tarefa fácil para os Libertines: no álbum de estreia, “Up the Bracket”, de 2002, eles contaram com a produção de ninguém menos que o ex-Clash Mick Jones.

Por essa época, Doherty começou a usar crack e heroína com frequência, o que levou a tensões internas, especialmente com Barât. Na tentativa de fazer as pazes com o velho amigo, Doherty organizou um show surpresa em comemoração ao aniversário dele. Por já estar em outra festa, Barât acabou não comparecendo. A vingança do “garoto-problema” foi não embarcar para tocar com o Libertines na Alemanha. Impedido, então, de retornar à banda até que tratasse sua dependência, ele montou uma nova, chamada Babyshambles.

Pouco depois, enquanto seus ex-companheiros se apresentavam no Japão, Doherty foi preso por haver invadido o apartamento de Barât e furtado diversos objetos. Após passar cerca de dois meses na prisão, juntou-se novamente à banda, mas seus problemas com drogas continuaram, e gradualmente ele foi se afastando. Em 2004, quatro meses após o lançamento do segundo e homônimo álbum, Barât decidiu colocar um fim à trajetória dos Libertines, formando, em seguida, o Dirty Pretty Things.

Uma das imagens mais icônicas do rock recente, esta foto foi tirada durante o "Show da Liberdade", que o Libertines fez apenas algumas horas depois de Doherty ser solto da cadeia, em 2003.

Nesse mesmo ano, chegava às lojas o homônimo primeiro álbum de uma banda escocesa cuja intenção, segundo eles mesmos, era misturar Sex Pistols com Donna Summer. O Franz Ferdinand virou hit mundial com uma música que consumava completamente essa pretensão: “Take Me Out”.

Durante um show em 2003, Alex Kapranos, frontman do Franz Ferdinand, recebeu como presente de um fã a demo de sua banda. Impressionado com a qualidade das canções, Kapranos a convidou para tocar na festa de aniversário da gravadora Domino, com a qual o Franz tinha contrato. Menos de dois anos mais tarde, o tal fã, Kele Okereke, e a tal banda, Bloc Party, tornavam-se peças fundamentais do novo rock britânico…

… tais como Kaiser Chiefs…

Os Kaiser Chiefs dão uma de Mãe Dinah e antecipam os tumultos londrinos de 2011!

… Kasabian…

… e The Arctic Monkeys. O quarteto de Sheffield fez suas primeiras apresentações em 2003, e seu despojamento em relação ao sucesso ficou evidente desde cedo, com a distribuição gratuita de cópias de suas demos nos shows. O consequente compartilhamento via internet não os incomodava, até porque eles afirmavam não saber como disponibilizá-las – mesmo o popular My Space da banda fora criado pelos fãs. A divulgação espontânea surtiu efeito, e o hype em torno do Arctic Monkeys aumentava exponencialmente, embora eles preferissem lançar seus singles e o primeiro álbum, “Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not”, de 2006, de forma independente. Isso parecia não fazer diferença, pois o álbum se tornou o debute de vendagem mais rápida na História do Reino Unido, repetindo o feito dos compatriotas Oasis na década anterior.

Chris McClure, da banda The Violet May e amigo dos Monkeys, é o "modelo" na capa do álbum. Quem achou que ele não era modelo de nada foi o pessoal do Serviço Nacional de Saúde da Escócia, que criticou a foto por, segundo eles, passar a ideia de que fumar é uma boa

A nova safra do rock feito na Grã-Bretanha era resultado mais do punk e do pós-punk do que da “Geração Invasão Britânica” que alimentara o britpop. E mesmo um dos principais expoentes deste iniciou o milênio afastando-se das referências patriótico-nostálgicas e indo em direção ao hip hop americano. Fruto da mente inquieta de Damon Albarn, do Blur, juntamente com o quadrinista Jamie Hewlett, o projeto Gorillaz reuniu diversos músicos, como os produtores de hip hop Dan the Automator e Del the Funky Homosapien, ocultos por trás de uma banda de desenho animado – literalmente, pois as apresentações ao vivo consistiam em enormes telas que exibiam o quarteto virtual “dublando” os músicos reais, que ficavam escondidos atrás delas.

O inusitado projeto virou mania no mundo todo, gerando shows esgotados, vários álbuns, bonecos e colaborações com artistas como o rapper Snoop Dogg, Lou Reed, e os ex-membros do Clash, Mick Jones e Paul Simonon.

A gorilada reunida nas melhores lojas do ramo: em sentido horário, Murdoc Niccals, 2D, Noodle e Russel Hobbs

Com o último, mais Simon Tong, ex-guitarrista e tecladista do Verve, e o baterista nigeriano Tony Allen, Albarn desenvolveu outro projeto, chamado The Good, the Bad & the Queen, no qual retornou às suas raízes musicais e à sua obsessão temática, a vida londrina.

Outras superbandas surgidas durante os anos 00 foram o Audioslave, formado pelo ex-vocalista do Soundgarden, Chris Cornell, com os instrumentistas do extinto Rage Against the Machine…

O videoclipe de “Show Me How to Live” foi banido da MTV por mostrar a banda no melhor estilo Dick Vigarista na Corrida Maluca

… Velvet Revolver, que reunia Slash, Duff McKagan e Matt Sorum, saídos do Guns N’ Roses, com Scott Weiland, ex-vocalista do Stone Temple Pilots…

Êta trem bão!

… e Them Crooked Vultures, com Josh Homme, do Queens of the Stone Age, Dave Grohl, do Foo Fighters, e John Paul Jones, que fizera parte do Led Zeppelin.

Enquanto isso, o punk rock, que vinha vivendo seu período de maior popularidade desde que Green Day e Offspring haviam conquistado o mainstream, adquiria tonalidades ainda mais pop e alegres através do trio californiano Blink-182…

… e ficava à flor da pele, em sua vertente conhecida como emotional hardcore ou emocore. Caracterizado por uma sonoridade mais melódica e temas introspectivos, em contraste com o hardcore rude e político dos anos 80, o emo estabelecia uma conexão direta com os jovens que não se identificavam com a postura cheia de testosterona característica de Black Flag e cia. Nascido no cenário underground de Washington, D.C., o subgênero resultou em bandas díspares como Dashboard Confessional…

… Jimmy Eat World…

Para evitar uma má interpretação após o 11 de Setembro, “Bleed American”, o álbum que contém esta música, foi rebatizado simplesmente como “Jimmy Eat World”

… My Chemical Romance…

“Helena” é uma homenagem à falecida avó de Gerard e Mikey Way, membros da banda

… Fall Out Boy…

… e Panic! at the Disco.

Embora com tempo de vida muito mais curto, new rave foi outro termo a ficar conhecido nos anos 00. Criado como uma piada para ridicularizar a mídia por artistas e gravadoras envolvidos em uma cena que misturava rock, música eletrônica e new wave, e que era marcada por um visual com largo uso de cores fluorescentes, acabou sendo vinculado principalmente à banda inglesa Klaxons.

Outros grupos que exploraram a fusão do rock com a dance music foram o Hot Chip…

… LCD Soundsystem…

… e Friendly Fires.

Os últimos anos da década viram a ascensão de inúmeras novas bandas e tendências, do pop rock psicodélico da dupla MGMT…

Não, a dupla não é formada por um mineiro e um mato-grossense. MGMT é uma abreviação do nome anterior, The Management, que já era usado por outra banda. 

… ao indie africanizado do Vampire Weekend…

… passando por mais um retorno ao rock de garagem, promovido pelo The Vaccines.

Assim, em uma era em que toda manifestação artística parece acessível de uma maneira jamais vista, em que a diversidade resultante disso cria por si só milhares de nichos e segmentos, em que a música perde a sua (ilusória) materialidade e o poder das gravadoras é minado, em que o sucesso é ainda mais instantâneo e fugaz, os espíritos de velhos bluesmen do Mississippi e caubóis de Nashville permanecem vivos e radiantes em bits e arquivos virtuais. Eles e todo o restante do Olimpo roqueiro serão para sempre almas na máquina, seja ela um iPod, seja o inconsciente coletivo humano.

 

“Não dura até junho!” (Revista Variety de 1955, sobre o rock n’ roll)

 

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Rock (R)Evolution – Parte 22

ROCK (R)EVOLUTION

EPISÓDIO 22:

PERDIDOS NA ILHA

Para ler ao som de: U2, Primal Scream, Blur, Suede, Elastica, Placebo, Manic Street Preachers, Oasis, Supergrass, Ocean Colour Scene, Verve, Pulp, Radiohead, Travis, Stereophonics, Coldplay

 “Sonhar tudo de novo”. Foi a frase que o U2 usou para definir sua retirada do showbusiness na transição entre os anos 80 e 90. O quarteto irlandês apostava em sua própria reinvenção como única forma de manter a banda em atividade, após o desgaste resultante do estrelato alcançado com o álbum “The Joshua Tree”, e relevante, em um mundo que mudava tanto política – a queda do Muro de Berlim sinalizava o limite da Guerra Fria – quanto musicalmente – o que estava sendo produzido de mais excitante no rock era fruto da fusão do velho gênero de Chuck Berry com as batidas da house music e do hip hop. A banda, então, espalhou os ares efervescentes vindos de Madchester pelos ventos da mudança que sopravam na Alemanha reunificada, onde gravou boa parte de “Achtung Baby”, álbum lançado em 91.

O tal sonho por pouco não virou pesadelo enquanto eles tentavam acertar o caminho para sua nova identidade, que agora incluía dance music, texturas sombrias, cinismo, ironia e auto-depreciação. A turnê que se seguiu, a inovadora Zoo TV, carregava a audiência para dentro do universo multimídia de “Achtung Baby” através de paredões de telas de tevê que borravam as fronteiras entre o real das imagens da Bósnia em guerra e a ficção dos programas de entretenimento.

Encarnando seus personagens The Fly e MacPhisto, Bono passava trotes na Casa Branca durante os shows, numa tradução perfeita da principal meta da nova fase do U2: confundir as pessoas a respeito da imagem consolidada de uma porção de coisas, especialmente de si mesmos.

Os alter-egos de Bono: The Fly...

... e MacPhisto, mandando um salve pra Bush pai.

Lançado menos de dois meses antes de “Achtung Baby”, o terceiro álbum da banda escocesa Primal Scream também mostrava o rock caindo na noite ao som da dance music. Mas se o álbum do U2 era um flerte com os ritmos eletrônicos, no caso de “Screamadelica” a relação se consumava com tudo a que tinha direito. Chefiada por Bobby Gillespie, ex-baterista do Jesus & Mary Chain, a banda havia deixado para trás o pop alternativo praticado durante a década de 80 para abraçar de vez as experimentações psicodélico-dançantes movidas a lotes de substâncias ilegais.

Bandas menores e com menos experiência também vislumbraram no alvorecer da década de 90 o reinado da fusão entre acid house e rock, sem perceber que a onda Madchester já estava mais para uma manhã de domingo do que para uma noite de sábado. Assim, os ingleses do Blur estrearam com o álbum “Leisure”, em 91, para um considerável sucesso comercial e uma rigorosa recepção da crítica, que o acusava de datado e fora de época. Algo com que mesmo a banda parecia concordar.

Foi durante uma malfadada turnê pelos EUA, onde o Blur acabou ignorado em meio ao furacão grunge, que o vocalista Damon Albarn descobriu uma alternativa para o beco sem saída em que se encontravam. Infelizes e frustrados, o que os quatro integrantes mais desejavam era voltar para casa. Albarn começou a compor canções que evocavam o espírito da Inglaterra, inspirado principalmente por grupos como Kinks e Jam. O resultado foi o declaradamente anti-americano “Modern Life is Rubbish”, de 93.

Seu sucessor, “Parklife”, de 94, promoveu uma imersão ainda mais profunda no estilo de vida inglês, e elevou-os à condição de ídolos no Reino Unido.

“Parklife” – a música e o videoclipe – tem a participação do ator Phil Daniels, que estrelou o filme “Quadrophenia”, baseado no álbum de mesmo nome do Who.

“Modern Life is Rubbish” e “Parklife” recuperaram uma boa parcela da atenção dos britânicos, que, a essa altura, havia se voltado para outra banda londrina, o Suede. Formado pelo casal de namorados Brett Anderson e Justine Frischmann, o grupo encontrou, através de um anúncio na revista NME, aquele que formaria com Anderson uma dupla capaz de reviver a mística da parceria Morrissey/Marr: Bernard Butler. A referência aos Smiths não se limitava à característica do vocalista e letrista com influências literárias e do exímio e melódico guitarrista compondo juntos canções com altas doses de ambiguidade sexual – também incluía o embate de personalidades que iria aflorar com o passar dos anos.

No entanto, a primeira desavença interna envolveu Frischmann. Após romper o namoro com Anderson, a guitarrista começou um relacionamento justamente com o líder da banda rival, Damon Albarn. A situação foi se tornando insustentável, e só se resolveu quando ela deixou o grupo. Junto com outro ex-membro do Suede, o baterista Justin Welch, Frischmann formou o Elastica em 92.

“Connection” não deve ter sido o videoclipe do Elastica que o baterista Justin Welch mais gostou de gravar…

Enquanto isso, o Suede vivia um conto de fadas roqueiro ao ser festejado pela imprensa britânica com um hype visto até então somente em torno dos Sex Pistols. Antes de lançarem um single sequer, eram estampados na capa do semanário Melody Maker como “a melhor nova banda britânica”.

Suede: moral pouca é bobagem

E o apoio incondicional da crítica especializada não parava por aí: a NME promoveu uma campanha para que o quarteto se apresentasse na cerimônia de entrega do Brit Awards, território dos artistas consagrados – e ultrapassados – da música pop britânica, como Phil Collins e Rod Stewart. Chamado na última hora graças à pressão popular, o Suede desempenhou seu glam rock carregado de sexualidade, androginia e tonalidades obscuras para uma plateia que se dividia entre a apatia e o ultraje. Momento mais do que emblemático para simbolizar a nova geração substituindo a antiga.

A célebre apresentação do Suede no Brit Awards fez muito tiozinho desligar o Sonic 2000.

O primeiro álbum do Suede e sua capa ambígua

Embora se sentisse desconfortável com o título, o Suede – cujo álbum homônimo tornava-se, em 93, a estreia de vendagem mais rápida da História do Reino Unido em quase uma década – era celebrado como criador de um movimento que reavivava entre os jovens o prazer em ser britânico: o britpop. Este ia se caracterizando pelo resgate do rock inglês dos anos 60 e 70, pelas letras que examinavam temas essencialmente britânicos, e, ao contrário do grunge, por artistas que abraçavam sem medo ou culpa a fama e a fortuna.

Dentro do britpop, o glam rock era a opção estética também do Placebo…

… e do Manic Street Preachers. Formado no País de Gales em 86, o quarteto angariava influências tanto do punk do Clash quanto do hard rock do Guns N’ Roses, e dividia o trabalho de composição entre duplas, com o vocalista e guitarrista James Dean Bradfield e o baterista Sean Moore cuidando da música e o guitarrista Richey Edwards e o baixista Nicky Wire, das letras, de teor escancaradamente político. A estranha combinação de delineadores com ideologia de esquerda despertou a desconfiança do jornalista Steve Lamacq, da NME. Durante uma entrevista para ele em 91, Edwards usou uma navalha para provar a sinceridade da banda, cortando em seu antebraço a expressão “4REAL” (“de verdade”).

O incidente rendeu dezessete pontos, mas também um contrato com a Sony Music para o primeiro álbum, “Generation Terrorists”, de 92. Dentro de poucos anos, iria se provar algo muito mais perturbador do que uma simples jogada de marketing.

O peito de Edwards adorna a capa do primeiro álbum dos Manics

Os Manics conquistavam seguidores fiéis e entusiasmo da crítica na mesma medida em que Edwards perdia sua mente. Os episódios de auto-mutilação continuaram, bem como sua crescente depressão, dependência de álcool e anorexia. Ele acabou se internando em uma clínica em 94, ano de lançamento do álbum que era um verdadeiro raio-X de sua psique fragilizada, “The Holy Bible”.

Passado o período de tratamento, retornou à banda para a turnê promocional, que deveria levá-lo e a Bradfield para os EUA. No dia 1º de fevereiro de 95, porém, apenas o vocalista apareceu no aeroporto. Edwards havia deixado o hotel e desaparecido. Seu carro foi encontrado semanas depois, abandonado próximo à Severn Bridge, notório local de suicídios. O mesmo não aconteceu com o guitarrista, e sua ausência levou os companheiros a cogitar a separação, que só não se concretizou devido ao apoio da família de Edwards à continuidade da banda. Com mudanças sonoras e visuais para o álbum seguinte, o pop e épico “Everything Must Go”, de 96 – que contava com várias contribuições deixadas por Edwards -, os Manics atingiram o auge de sua notoriedade até aquele momento.

“Kevin Carter” é uma homenagem ao fotógrafo sul-americano responsável pela famosa foto de uma criança faminta observada de perto por um abutre igualmente faminto.

Richey Edwards se tornava o mito perdido do novo rock britânico menos de um ano após a morte de Kurt Cobain, desfecho simbólico do grunge, quando, mais do que nunca, o britpop pôde reinar absoluto na velha ilha. E, reprisando a História das novidades musicais inglesas, era em Manchester que as joias da coroa estavam guardadas.

Roadie de um dos principais grupos da onda Madchester, Inspiral Carpets, Noel Gallagher vinha aprimorando suas habilidades como guitarrista e compositor na mesma época em que seu irmão mais novo, Liam, penava para fazer acontecer sua banda, The Rain. A dificuldade em compor um bom material levou Liam a pedir para que Noel se juntasse a eles. Já com o nome de Oasis, e apoiado nas canções de seu novo guitarrista, o quinteto passou a despejar uma sonoridade que unia Smiths, Stone Roses e Jam em roupagem beatlemaníaca. Foi durante um show na Escócia que impressionaram Alan McGee, dono da Creation Records e experiente empresário. O Oasis voltou para casa com um contrato, e seus primeiros singles, todos incensados pela imprensa musical, alcançaram facilmente as paradas, pavimentando o caminho para o debute de vendagem mais rápida de todos os tempos no Reino Unido, “Definitely Maybe”, de 94.

A capa de "Definitely Maybe" traz referências a ídolos do Oasis, como o compositor Burt Bacharach e o jogador do Manchester City Colin Bell.

Com o sucesso e o dinheiro repentinos, os Gallaghers, que já tinham fama de hooligans, dedicaram-se a viver em tempo integral o pacote completo do rock n’ roll: concertos sob influência de drogas, declarações bombásticas à mídia, comportamento imprevisível e uma arrogante rebeldia, além de muitas brigas – ainda que costumeiramente elas acontecessem no seio da família. Liam e Noel mantinham uma relação conflituosa, com não raros confrontos físicos e ameaças, por parte do mais velho, de abandonar o grupo.

Mas em 95 os Gallaghers se uniram contra um “inimigo” comum. A rivalidade crescente (e estimulada pela imprensa) com o Blur ganhou ares bélicos quando o lançamento de seus novos singles foi marcado para o mesmo dia. A “Batalha do Britpop”, como ficou conhecida, colocou frente a frente “Roll With It”, da banda de Manchester, e “Country House”, dos londrinos.

O embate atingiu uma dimensão que extrapolava o mercado. Era Norte contra Sul. Classe trabalhadora contra classe média. Por uma pequena vantagem, o resultado pendeu para o Blur, o que levou Noel a declarar ao jornal The Observer que desejava que Damon Albarn e Alex James, da banda rival, “contraíssem AIDS e morressem”. A controvérsia foi tanta que ele precisou voltar atrás e desculpar-se publicamente.

A derrota na “Batalha do Britpop” não impediu que o segundo álbum do Oasis, “(What’s the Story) Morning Glory?”, de 95, tivesse um desempenho estrondoso tanto no Reino Unido quanto nos EUA.

O Oasis era agora a banda de frente do britpop, e podia escolher quem levava consigo para o primeiro escalão. Graças, em parte, ao apoio de Noel, grupos com mais anos de estrada tiveram enfim sua chance de atingir o mainstream. Foi o caso do Ocean Colour Scene…

… e do The Verve. A banda da região de Manchester havia se formado em 90 com a proposta de um resgate psicodélico, e logo se tornou uma sensação entre os críticos. Mas foi com o segundo álbum, “A Northern Soul”, de 95 – cuja faixa-título era uma homenagem a Noel -, com uma sonoridade mais voltada para o rock alternativo contemporâneo, que eles arranharam o topo.

Contudo, a única constante no grupo era a instabilidade, e o vocalista Richard Ashcroft anunciou seu fim nesse mesmo ano. Em 97, como se o momento houvesse permanecido congelado, o Verve se reuniu novamente e retomou seu caminho para o sucesso planetário. Embora alvo de um processo de plágio movido pelos detentores dos direitos sobre a obra dos Rolling Stones, por, segundo eles, utilizar “demais” o sample de uma versão orquestrada de “The Last Time”, de 65, o single “Bitter Sweet Symphony” foi extremamente bem sucedido…

… e abriu espaço para o álbum “Urban Hymns”, no qual o quinteto abraçava por completo o britpop.

Tente fazer isso nas ruas de São Paulo.

Se o Verve demorou sete anos para atingir as massas, o que dizer do Pulp? Mais de uma década e meia se passou entre a formação da banda e o lançamento do álbum “His ‘n’ Hers”, em 94. Durante esse tempo, as inúmeras mudanças de integrantes e de estilo e os fracassos comerciais não minaram a persistência do frontman Jarvis Cocker – de fato, apenas incrementaram seu repertório de observações sagazes sobre a vida, a celebridade e os relacionamentos humanos.

Mas seria outra banda, também anterior à onda britpop, que provocaria a revolução mais inesperada. Juntos desde meados dos anos 80, os cinco membros do Radiohead poderiam não ter passado de artistas de um único sucesso caso tivessem tentado repetir o êxito de seu single “Creep”, de 92.

O sucesso de "Creep" certamente não se deve à BBC Radio 1, que achou a música "depressiva demais" e recusou-se a tocá-la.

O mergulho em uma sonoridade que se distanciava da abordagem grunge do início da carreira, e que, ao mesmo tempo, destoava daquela praticada por Oasis, Blur e cia., rendeu-lhes uma fiel base de seguidores quando do lançamento do segundo álbum, “The Bends”, em 95.

As canções melódicas e melancólicas, ainda que, em certos momentos, grandiosas, podiam até sinalizar o passo seguinte, mas a surpresa global provocada pelo sucessor “Ok Computer”, de 97, transformou o Radiohead em uma das bandas mais respeitadas da década. O álbum trazia guitarras distorcidas explodindo em texturas e camadas oriundas do rock progressivo, com um toque eletrônico conferindo às letras sobre alienação, capitalismo e globalização um tom de profecia. “Ok Computer” era um manual para o milênio que se aproximava…

O título desta música é uma referência ao personagem Marvin the Paranoid Android, da série de livros “O Guia do Mochileiro das Galáxias”

… e o Radiohead, uma inspiração para a música feita nos últimos anos da década, que veriam a ascensão dos escoceses do Travis…

… dos galeses Stereophonics…

… e do Coldplay…

… todos eles menos comprometidos com o estilo de vida britânico do que a primeira leva de bandas do britpop, e, talvez por isso, com uma penetração mais massiva no mercado mundial. Era o necessário para manter a Union Jack tremulando no cenário musical dos anos 00.

No próximo capítulo: Episódio final – Garotos do século 21.

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Rock (R)Evolution – Parte 21

ROCK (R)EVOLUTION

EPISÓDIO 21:

SOM, FÚRIA E REINVENÇÃO

 

Para ler ao som de: Pantera, Sepultura, Metallica, Guns N’ Roses, Faith No More, Red Hot Chili Peppers, Living Colour, Infectious Grooves, Primus, Body Count, Rage Against the Machine, Biohazard, Helmet, Tool, Ministry, Nine Inch Nails, Marilyn Manson, White Zombie, Korn, Limp Bizkit, Deftones, Slipknot, Kyuss, Queens of the Stone Age

O início dos anos 90, com o advento do grunge e do rock alternativo em geral, marcou a deposição dos alegres adeptos do glam metal da ponte de comando da música de guitarras. Porém, nem mesmo eles seriam capazes de imaginar que um dos mais certeiros golpes em sua hegemonia viria justamente de dentro de suas próprias e coloridas fileiras.

Liderada pelos irmãos Diamond Darrell e Vinnie Paul Abbott, a banda texana Pantera vinha atravessando a década de 80 em colantes espalhafatosos, lançando álbuns independentes – produzidos pelo patriarca dos Abbott e compositor de música country, Jerry – que pouco engrossavam o caldo da bem-sucedida e, por isso mesmo, saturada onda de rock festivo, baladas poderosas e cabelos armados. Paralelo a isso, a contraparte do glam metal, o thrash, ganhava cada vez mais força, com bandas como Metallica e Megadeth criando alguns de seus mais impactantes álbuns. Os irmãos Abbott foram aos poucos se rendendo ao lado negro da Força metal, arriscando composições mais pesadas, o que provocou o rompimento com o vocalista Terrence Lee em 86. O escolhido para substituí-lo foi Phil Anselmo, dono de um vocal muito mais potente.

O Pantera - já com Anselmo - como muita gente nunca viu.

Contudo, embora o som mudasse, o visual permanecia o mesmo. Até que, durante uma reunião entre os membros, Vinnie Paul defendeu que não eram as roupas, e sim eles, que faziam a música acontecer, e que, afinal, deveriam se vestir de maneira confortável e ver no que resultaria. Com o álbum de 90, “Cowboys from Hell”, o novo Pantera colocava as garras de fora, e o quarteto achou melhor fazer isso cortando todos os laços com seu passado extravagante. Para eles, “Cowboys” representava sua legítima estreia, e a sonoridade extremamente pesada, com uma pulsação repleta de groove, o rugido que anunciava que o heavy metal possuía um novo macho alfa.

E groove não poderia ser um componente estranho para uma banda vinda do país do samba. O Sepultura, também formado por dois irmãos, Max e Igor Cavalera, praticava seu death/thrash metal agressivo urrado em inglês desde o começo dos anos 80. Evoluindo a cada álbum independente, o grupo logo caiu nas graças da gravadora americana Roadrunner. Com distribuição internacional, os lançamentos seguintes atraíram o público em escala planetária, o que os levou a transferir-se para os EUA. Ao contrário do que haveria de se esperar, as raízes brasileiras não se enfraqueceram – de fato, entranharam-se definitivamente na concepção musical do álbum “Chaos A.D.”, de 93, através de um poderio percussivo que evocava uma ancestralidade tribal perdida…

… materializada especialmente na participação dos índios xavantes em “Roots”, de 96.

"Roots" e o índio da nota de mil cruzeiros

“Ratamahatta” tem participação de Carlinhos Brown

A época era de total reinvenção para o heavy metal. E uma das maiores provas disso foi que os reis do thrash surpreendentemente desaceleraram em sua corrida até o topo do gênero. Após ter atingido a velocidade máxima em longas composições musicalmente intrincadas, em 91 o Metallica colocava nas lojas seu álbum homônimo, também conhecido como “Black Album”. Despido dos excessos “para iniciados” que caracterizavam o thrash, “Metallica” era um tiro certeiro radiofônico, com suas baladas funcionando tão bem quanto o material mais pesado.

Por incrível que possa parecer, a inspiração para a sonoridade do "Black Album" foi o disco "Dr. Feelgood", do Mötley Crüe, produzido pelo mesmo Bob Rock

Com o sucesso absoluto de seu álbum negro, o Metallica se tornava uma das duas bandas de heavy metal mais populares do planeta. Era quase natural que medisse forças com a outra, mas imprevisível que elas fariam isso excursionando juntas, em uma das turnês mais controversas concebidas até então.

A Guns N’ Roses/Metallica Stadium Tour deu a partida em julho de 92, em meio à turnê em que a trupe de Axl Rose promovia seus mais ambiciosos álbuns, “Use Your Illusion” I e II, de 91, e reforçava sua fama de “banda mais perigosa do planeta”.

O comportamento indomável de Axl colocava à prova músicos e plateia, através de atrasos e confusões. Os casos mais infames aconteceram em St. Louis e Moscou. No primeiro, o vocalista se lançou sobre um fã que filmava o show para lhe tomar a câmera, e, após ser devolvido ao palco pelos seguranças, encerrou a apresentação. No outro, com o Guns tendo antecipado sua entrada após um acidente pirotécnico no show do Metallica, que provocou queimaduras em James Hetfield, a banda teve problemas com o som, e Axl logo abandonou seu posto, alegando dor de garganta. Em ambas as situações, a consequência foi tumulto generalizado, com o público em frenesi colocando os arredores abaixo. Tais incidentes começaram a minar o relacionamento entre os membros. A primeira baixa foi o guitarrista e compositor Izzy Stradlin, que se desligou do grupo ainda em 91.

Enquanto o Guns N’ Roses pouco a pouco se desintegrava, vítima da própria mitologia, o Faith No More, banda convidada para abrir a turnê com o Metallica, atingia o ápice de sua energia criadora. Derivando do funk metal praticado anteriormente – contra os desejos de sua gravadora, que esperava outro arrasa-quarteirão como “The Real Thing” -, o quinteto flertou com todos os ritmos e gêneros a que tinha direito em “Angel Dust”, lançado em 92. O lado dançante vinha temperado não apenas com funk, mas com camadas enlouquecedoras de samples inusitados; o peso se apoiava tanto no melódico quanto no gutural – e tudo isso podia acontecer dentro da mesma música. Afinal, era o primeiro álbum que o vocalista Mike Patton realmente compunha com sua banda mainstream, e ele não hesitou em levar toda a esquizofrenia presente no seu Mr. Bungle. Encarado por muitos como um autêntico suicídio comercial, “Angel Dust” era mais um desafio ao conformismo criativo de artistas estabelecidos – o guitarrista Jim Martin, metaleiro tradicionalista, acabou ficando para trás, deixando a vaga em 93.

Embora o Faith No More já não pudesse mais ser rotulado simplesmente como uma banda de funk metal, o subgênero foi um dos muitos que tiveram seu pico de popularidade na primeira metade da década. O que não significava que era novidade, ao menos não no caso do Red Hot Chili Peppers. O quarteto californiano já havia passado por poucas e boas quando o sucesso maciço aconteceu, incluindo vendas decepcionantes, inúmeras mudanças de formação e problemas com drogas, que levaram à morte o guitarrista Hillel Slovak, em 88.

Slovak como veio ao mundo, um pouco antes de ir embora dele

Seus amigos de longa data, Anthony Kiedis e Flea, respectivamente vocalista e baixista, por pouco não colocaram um fim na banda. Ao invés disso, selecionaram para a função um fã devotado de Slovak, John Frusciante, de apenas 18 anos, que, junto com o novo baterista, Chad Smith, revigorou o grupo. A formação reformulada gravou o álbum “Mother’s Milk”, de 89, que finalmente lhes angariou a atenção devida.

O império de liberdade e libertinagem funk-punk-metal dos Chili Peppers cravou suas bases em uma mansão – supostamente assombrada – em Los Angeles, em 91, para a concepção da obra que os tornaria mega-astros mundiais: “Blood Sugar Sex Magik”. A vida comunitária impregnou as gravações com uma alma – fantasmagórica ou não – muito mais hippie-psicodélica do que lhes era comum. Ainda assim, as sombras se projetavam longamente sob o sol californiano. O espectro do vício em heroína rondava o grupo, e a materialização da fama total assustava Frusciante. O guitarrista abandonou os companheiros em 92, durante a turnê do álbum, e deu início a uma longa descida ao submundo junkie.

O videoclipe de “Suck My Kiss” documenta o que foram as gravações de “Blood Sugar” na mansão mal-assombrada

Os Chili Peppers, entretanto, continuaram espalhando a vibração do funk, juntamente com a banda nova-iorquina apadrinhada por Mick Jagger, Living Colour…

… Infectious Grooves, supergrupo formado pelo vocalista Mike Muir e pelo baixista Robert Trujillo – ambos do Suicidal Tendencies – com Stephen Perkins, baterista do Jane’s Addiction…

Até Ozzy caiu no funk em “Therapy”

… e o tresloucado e experimental Primus.

Os vocais de rap que marcavam presença no funk metal do Faith No More e Chili Peppers eram a manifestação do espírito de uma época em que o hip hop começava a chegar aos brancos da classe média americana, fosse em sua forma mais pura, fosse através da mistura com o rock pesado – algo que os Beastie Boys, além da parceria Aerosmith/Run-D.M.C, faziam desde a década de 80. Em 91, outro ataque conjunto estremeceu ainda mais a barreira entre os dois mundos: o Anthrax regravou a música “Bring the Noise”, do Public Enemy, com a participação dos próprios.

Apesar da miscigenação entre os gêneros mostrar-se desde o início bem-aceita, ela suscitou uma das maiores polêmicas musicais e sociais do período. Tudo começou quando Ice-T, um celebrado rapper sediado na Costa Oeste, canalizou sua velha paixão pelo rock pesado em uma banda de heavy metal chamada Body Count. Formado apenas por negros, o Body Count debutou em uma faixa, homônima, do álbum de Ice-T, “O.G. Original Gangster”, de 91.

No ano seguinte, chegava às lojas em um álbum próprio, também homônimo, cuja última canção, “Cop Killer”, era um conto em primeira pessoa sobre um sujeito que, cansado da brutalidade policial, resolve fazer justiça com as próprias mãos.

Foi questão de (pouco) tempo para que organizações de policiais se manifestassem através dos EUA, por meio de protestos e boicotes contra a Warner Bros. Records, a fim de que o álbum fosse relançado sem a música, sob a alegação de que ela estava inspirando atentados contra agentes de polícia e inflamando os ânimos das minorias raciais. Até o então presidente George Bush se colocou contra “Cop Killer”. Por fim, Ice-T decidiu retirar a faixa, por acreditar que a polêmica havia se tornado tão gigantesca que acabara por eclipsar o real valor da música.

O rap metal prosseguiu sustentando opiniões fortes e controversas com o surgimento do Rage Against the Machine. Assim como as letras vociferadas pelo frontman Zack de la Rocha em meio à inovadora base guitarrística proporcionada por Tom Morello eram escancaradamente de esquerda e anti-imperialistas, a mistura entre hip hop e rock pesado jamais estivera tão evidente quanto no som do grupo. Do movimento zapatista mexicano aos direitos civis de presos políticos do Terceiro Mundo, o RATM atraiu os olhos e os ouvidos de seus fãs – e mesmo de seus detratores – para causas muitas vezes “esquecidas” pela mídia. Seu alvo preferido, porém, era a própria política americana.

A América retratada nas letras do Biohazard podia ser tão desigual quanto a das canções do RATM. Mas eram os problemas sociais que assolavam o seu Brooklyn o foco do quarteto nova-iorquino, que transitava com desenvoltura entre o hardcore, o heavy metal e o hip hop. Em 93, o Biohazard foi convidado pelo grupo de rap Onyx para contribuir em uma nova versão de seu single “Slam”. A parceria, batizada de Bionyx, seria repetida ainda no mesmo ano, na faixa-título do álbum que dissiparia definitivamente qualquer dúvida sobre o poder da junção entre rock e hip hop. “Judgment Night”, trilha sonora do filme de mesmo nome, documentava algumas associações inusitadas, como Pearl Jam e Cypress Hill e Mudhoney com Sir Mix-A-Lot, e outras nem tanto, como Ice-T com Slayer e Faith No More e Boo-Yaa T.R.I.B.E.

"Judgment Night": a trilha sonora acabou ficando mais famosa que o filme

O Helmet era outra banda cujo flerte com o hip hop limitava-se a “Judgment Night”. No entanto, assim como no caso do rap metal, o rock pesado praticado pelo grupo não era algo que podia ser chamado de convencional.

Sua abordagem dissonante e minimalista do hardcore tornou-os uma das principais bandas do chamado metal alternativo, junto com os representantes de Seattle Alice in Chains, Soundgarden e Melvins, o semi-progressivo Tool…

… e os papas do rock industrial, Ministry e Nine Inch Nails. Crias dos anos 80, quando ambas as bandas manipulavam sintetizadores, samplers e sequenciadores em uma abordagem eletrônica mais pop, elas foram aos poucos incorporando elementos do rock pesado, como riffs repetitivos, distorções e vocais mais agressivos. Enquanto Al Jourgensen, do Ministry, redescobria a paixão pelo som de sua guitarra, Trent Reznor assumia, em estúdio, todas as funções no Nine Inch Nails. Reznor reuniria uma banda de verdade apenas para os shows, tão intensos musical e visualmente quanto os da barulhenta orquestra do Ministry.

O videoclipe de “N.W.O.” utiliza cenas do espancamento do motorista negro Rodney King por policiais e os subsequentes tumultos que se espalharam por L.A.

Fala aí se esse videoclipe não foi inspirado por “Rock You Like a Hurricane”, do Scorpions…

Em 93, Reznor não só descobriu, como adotou o bebê de Rosemary.

Batizado com a junção dos nomes de um símbolo sexual feminino e de um assassino em série – assim como todos em sua banda -, Marilyn Manson surgiu para o grande público em um álbum produzido pelo líder do Nine Inch Nails, “Portrait of an American Family”, em 94.

Para religiosos e líderes de direita, foi como se o garoto Damien, o Anticristo de “A Profecia”, houvesse crescido para se tornar o líder de toda uma geração de jovens, que, por sua vez, viam no cantor um símbolo de transgressão e liberdade. Assumindo o papel que lhe haviam atribuído, em 96 ele lançou “Antichrist Superstar”, e, anos mais tarde, iria se ver no fogo cruzado resultante do massacre de Columbine, que reviveu a velha polêmica dos anos 80 em torno do heavy metal e sua suposta influência nociva sobre a juventude.

Mas Manson e sua banda não eram os únicos a resgatar a tradição, inspirada pelo pioneiro Alice Cooper, de chocar o público com uma temática macabra. Levando-se menos a sério do que o “Anticristo Superstar”, o quarteto White Zombie transformava suas músicas em verdadeiras odes de amor bizarro aos monstros sagrados dos filmes-B.

A iguana está entre nós! Iggy Pop dando uma força pros zumbis

O heavy metal chegava a meados dos anos 90 como uma síntese de todas as experimentações realizadas durante a década. Alcunhado de nu metal, o novo híbrido era caracterizado pelo groove do Pantera e Sepultura, e enfatizava as texturas e os climas sonoros do Faith No More em detrimento dos solos instrumentais típicos do metal, mais a incorporação de scratches e samples e letras calcadas em angústia e revolta adolescente. A safra contava com bandas como Korn…

… Limp Bizkit…

… Deftones…

… e Slipknot.

Antes que o novo milênio se anunciasse no horizonte, uma tempestade de areia ergueu-se no deserto da Califórnia. Seu nome era Kyuss. Construindo sua base de fãs através de vigorosos e psicodélicos shows ao ar livre nas áreas desérticas do sul do estado, o Kyuss se tornou a linha de frente do chamado stoner rock, de instrumental pesado, arrastado e viajante, e conquistou um status cult com o álbum “Blues for the Red Sun”, de 92.

Isso não impediu que o quarteto desbandasse em 95. Seu inventivo guitarrista, Josh Homme, que costumava plugar seu instrumento em um amplificador de baixo para obter um som fora do convencional, não ficou muito tempo sem emprego: juntou-se ao Screaming Trees como músico de turnê, mas logo saiu para formar sua própria banda. Sem conseguir convencer Mark Lanegan, cantor do Screaming Trees, a assumir os vocais do seu Queens of the Stone Age, Homme tomou para si a tarefa – ainda assim, era sua técnica na guitarra o que continuava surpreendendo o público e músicos tarimbados. Mesmo Lanegan voltou atrás e juntou-se ao QOTSA como membro fixo a partir do segundo álbum, “Rated R”, de 2000…

Rob Halford, do Judas Priest, que estava gravando em um estúdio vizinho, passou pra dar um alô e gravar uns backing vocals nessa música

… que abriu as portas de mais uma era para o heavy metal, o gênero do rock que, como na letra de uma típica canção do Black Sabbath, adentrou o reino dos mortos inúmeras vezes, apenas para sempre retornar triunfante.

No próximo capítulo: Manhãs de glória para o pop britânico.

E não se esqueçam: meu livro “O Safári Doméstico” está à venda pela Agbook, em versão impressa e e-book, no http://www.agbook.com.br/book/44234–O_Safari_Domestico

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Rock (R)Evolution – Parte 20

ROCK (R)EVOLUTION

EPISÓDIO 20:

REALIDADE ALTERNATIVA

Para ler ao som de: Smashing Pumpkins, Jane’s Addiction, Lemonheads, Buffalo Tom, Flaming Lips, Afghan Whigs, Rocket from the Crypt, Weezer, Pavement, Black Crowes, Blind Melon, Jeff Buckley, Green Day, Offspring, NOFX, Rancid, Mighty Mighty Bosstones, No Doubt, Sublime   

O grunge havia mudado tudo. A explosão do Nirvana trouxera visibilidade não somente às bandas de Seattle, mas a toda uma geração de artistas, a maior parte deles, com longas trajetórias no circuito independente. O que antes era o “lado B” da indústria musical tornava-se a sua “cara”. O que fora a alternativa, passava a ser a palavra de ordem.

Embora se beneficiasse dessa virada de jogo, as coisas não eram fáceis para o quarteto de Chicago chamado The Smashing Pumpkins. A imprensa dizia que os Pumpkins seriam o que o Nirvana era caso o Nirvana não houvesse aparecido. Insistia em rotulá-los de banda grunge. Explorava os boatos – verdadeiros – de que o líder Billy Corgan era um maníaco controlador, que gravava sozinho quase todas as partes de guitarra e baixo pois conseguia fazê-lo de forma mais rápida e eficiente. Para completar, alguns músicos da cena independente acusavam-nos de carreiristas e pretensiosos.

De qualquer maneira, a ambição do quarteto – mesmo que não apenas musical –, aliada à sua contrastante gama de influências, que desdobrava a estética punk de seus pares em um amplo espectro que incluía heavy metal, psicodelia, rock gótico e progressivo, foi o que os destacou feito um corpo estranho no cenário alternativo emergente do início dos anos 90. Tanto que a banda tomou como obrigação a realização de um álbum que fosse tão enorme quanto “Nevermind” – caso contrário, para eles, seria o fim.

A resposta ao segundo álbum de Cobain e cia. foi “Siamese Dream”, de 93. Com ele, os Pumpkins cumpriram sua missão autoimposta, e, mesmo assim, só não se dissolveram – devido ao estresse das gravações – por muito pouco.

Cair na estrada poderia ser um bom jeito de aliviar as tensões, então, em meio às turnês que se seguiram, eles se juntaram à caravana ensandecida do Lollapalooza, festival itinerante idealizado por Perry Farrell, vocalista do Jane’s Addiction, uma banda que, tal qual o Smashing Pumpkins, unia rock pesado, psicodelia e arroubos progressivos, e era uma enorme influência para o grupo de Chicago. As arrasadoras performances do Jane’s Addiction nos clubs de Los Angeles provocaram uma disputa entre poderosas gravadoras pelo passe da banda, que passou a angariar um êxito comercial maior a cada lançamento, principalmente com “Ritual de lo Habitual”, de 90.

Por causa da "escandalosa" nudez frontal dos bonequinhos (arte de Farrell), "Ritual..." teve que sair também com uma capa alternativa, totalmente censurada

A extensa turnê para divulgação do álbum, porém, levou o relacionamento entre os membros a um estado crítico. Já que estavam decididos a acabar com o grupo, Farrell resolveu fazê-lo em grande estilo: não com uma simples turnê de despedida, mas com um festival que reunisse a “Nação Alternativa”, como ele mesmo batizara, em um verdadeiro circo musical, completado com atrações que iam de comediantes a monges Shaolin, e espaço para debates sobre política e meio-ambiente.

Cartaz da primeira edição do Lollapalooza, em 91

O Lollapalooza começou a atravessar os EUA anualmente a partir de 91, demonstrando a força da geração alternativa e do seu público, que começava a empurrar para o mainstream artistas como The Lemonheads, do popular frontman Evan Dando…

Sim, é o Johnny Depp

… Buffalo Tom, que fora apelidado de “Dinosaur Jr. Jr.”, mas logo encontrou sua própria sonoridade, de melodias emocionantes sob um intenso ataque de guitarras…

… The Flaming Lips, e suas experimentações pop-psicodélicas espaciais…

… The Afghan Whigs, que adicionou distorção e sujeira à soul music – ou vice-versa…

… os malucos cheios de estilo do Rocket from the Crypt…

Entre outras doideiras em shows, o RFTC costumava decidir seu setlist girando uma roda estilo “Roletrando”

… Weezer, os nerds que uniam Beach Boys e Ramones em canções ingênuas e de melodias irresistíveis…

… e o imprevisível Pavement, especialista em estruturas musicais fraturadas e letras ácidas, que gerou um verdadeiro culto underground, embora se provasse excêntrico demais para as massas.

Ganha uma abóbora quem adivinhar qual banda leva uma cutucada nesta música

Peixe fora d’água – de algum rio lamacento do sul dos EUA – no cenário musical da época, o The Black Crowes, da Geórgia, resgatou o southern rock de Lynyrd Skynyrd e o som negróide dos Stones, e acabou agradando a grunges e hippies perdidos no tempo.

O revival setentista capitaneado pela banda dos irmãos Chris e Rich Robinson fez escola, e tornou-se a opção sonora também do Blind Melon. A banda californiana colocou-se em evidência não apenas com as incessantes apresentações, mas também graças à participação do frontman Shannon Hoon nos backing vocals de várias faixas do multiplatinado álbum “Use Your Illusion1”, de 91, do Guns N’ Roses, a convite de seu amigo Axl Rose. No entanto, com seu problemático histórico de uso de drogas, Hoon seria igualmente a causa da dissolução do Blind Melon, após sua morte por overdose no ônibus de turnê do grupo, em 95.

Shannon Hoon

Cerca de dois anos depois, outra tragédia atingiria mais um promissor talento roqueiro.

Jeff Buckley

Herdeiro de uma tradição musical que não se limitava ao folk praticado pelo pai famoso, Jeff Buckley ia do jazz de Nina Simone ao punk do Bad Brains com a mesma desenvoltura vocal emocionante. O fato era que o rapaz só havia se encontrado com seu pai, Tim Buckley, uma única vez, quando tinha oito anos – pouco tempo antes de Tim morrer de overdose -, e conduziria sua carreira de forma a evitar a sombra do respeitado artista. Seu começo não poderia ser mais modesto: guitarrista em bandas de estilos variados, e, mais tarde, atração solo no circuito de cafés em Manhattan. Descoberto pelas gravadoras, Buckley gravou aquele que seria seu primeiro e último álbum de estúdio. “Grace” saiu em 94, e garantiu espaço imediato nas listas de melhores do ano e na preferência de alguns dos heróis do músico, como Jimmy Page e Bob Dylan.

O sucessor de “Grace” começou a ser preparado em 96, mas o resultado não deixava seu criador satisfeito. Entre mudanças de produtor e de local de gravação – Buckley se instalou em Memphis -, o álbum era construído em passos lentos. Enquanto sua banda não chegava à cidade para prosseguir com o trabalho, ele foi dar um mergulho em um afluente do rio Mississipi, à noite, quando então, após a passagem de um rebocador, submergiu e não foi mais visto. O dia era 29 de maio de 97. Seu corpo foi encontrado quase uma semana mais tarde. Assim como seu pai, Buckley morria prematuramente. Contudo, por mais fugaz que sua trajetória houvesse sido, o material remanescente alimentaria o culto dos fãs e a inspiração de um sem-número de artistas nos anos seguintes.

O ano de lançamento do lírico “Grace” foi marcado pela ascensão, a um nível de popularidade até então inédito, de um gênero que sempre primara pela aspereza, ainda que, para isso, ele passasse justamente por um processo de polimento. O punk rock estava de volta à pauta do dia, mais pop e melódico do que a velha guarda de cabelos espetados um dia poderia ter sonhado. Assim como no grunge, tudo começou com bandas de gravadoras independentes vendendo surpreendentemente bem para um mercado tão pequeno, e, logo em seguida, sendo cobiçadas pelas majors. A diferença entre o Green Day e o The Offspring foi que o primeiro logo aceitou a côrte do mainstream, e alcançou vendagens arrebatadoras com o álbum “Dookie”, enquanto o segundo conseguiu um êxito equivalente com seu “Smash” – ambos em 94 -, porém através de uma gravadora independente, a Epitaph Records, de Brett Gurewitz.

A banda de Gurewitz, Bad Religion, foi tanto precursora do novo status do punk rock quanto beneficiada por ele, tal qual o NOFX…

… e o Rancid.

“Smash” se tornava o álbum independente mais vendido de todos os tempos, e, para o lançamento seguinte, o Offspring acabou assinando com a Columbia Records, sofrendo o mesmo tipo de crítica que o Green Day, de que haviam se vendido e não passavam de punks impostores. Quem soube melhor se equilibrar entre o mainstream e a independência foi o Rancid. O quarteto jamais perdeu sua base de fãs underground, consolidada desde que dois de seus membros, Tim Armstrong e Matt Freeman, tocavam na formação de ska punk Operation Ivy.

O Operation Ivy e o Rancid foram responsáveis por mais esse revival de meados da década, que remetia às incursões do Clash pelo ritmo jamaicano quase vinte anos antes. O ska punk fez a fama do The Mighty Mighty Bosstones…

O MMB é a banda que aparece tocando em um bailinho de colégio em “As Patricinhas de Beverly Hills”

… No Doubt…

… e Sublime, que viu seu momento de maior sucesso – com o lançamento de seu álbum homônimo, em 96 – acontecer apenas alguns meses após a morte por overdose do vocalista Brad Nowell.

"Sublime", lançado dois meses depois da morte do vocalista

As maiores paixões de Brad Nowell reunidas

Assim, entre mortos e vitoriosos, entre ondas passageiras, popularidade instantânea, credibilidades preservadas ou sob ameaça, o rock alternativo “deu as caras”, e cavou seu espaço no primeiro escalão da música pop.

No próximo capítulo: Manos do metal.

E não se esqueçam: meu livro “O Safári Doméstico” está à venda pela Agbook, em versão impressa e e-book, no http://www.agbook.com.br/book/44234–O_Safari_Domestico

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Making of de um livro

Interrompemos a programação do “Rock (R)Evolution” para um comunicado realmente muito especial para mim, e, espero, para todos aqueles que participarem desse momento comigo!

Estou lançando pela Agbook um romance, intitulado “O Safári Doméstico”. Ele está sendo vendido somente online, através do site da Agbook, nas versões impresso e e-book. O endereço para adquiri-lo é este aqui: http://www.agbook.com.br/book/44234–O_Safari_Domestico

Nele, vocês podem encontrar todas as informações a respeito do livro, como preço, número de páginas, formato e sinopse, além de ler gratuitamente os dois primeiros capítulos! Mas, para facilitar a vida dos leitores do blog, aí vai a sinopse:

“Hugo Pacheco e Aline Lorencetti. Marido e mulher, parceiros em uma série de livros infantis… e, desde a primeira noite em sua nova velha casa na interiorana Teixeira dos Prados, e em todas as noites dali em diante, testemunhas de um hediondo assassinato ocorrido quatro anos antes.

Em um quarto vago no andar superior, o casal é capaz de presenciar Santino Goulart, filho de ouro de Teixeira dos Prados, cometendo o crime que abalaria a cidade, o homicídio de sua esposa, Lúcia. Uma cena que se repete através do tempo, na mesma exata hora. Um déjà vu estranho e perturbador que colocará em rota de colisão a mente analítica de Hugo e a fé de Aline, gradualmente deteriorando seu relacionamento, sua vida profissional e a convivência com os demais habitantes.

E, quando tudo parece suficientemente terrível, a possibilidade de interagir com a cena leva-os à encruzilhada que, em uma tétrica ironia, poderá definir o destino de ambos para sempre. Enquanto o sempre existir.”

A belíssima capa é de Fernanda Rodrigues. Vocês podem encontrar seus trabalhos e contatos em: http://www.behance.net/fer_er

Bom, quanto ao porquê de esse livro existir, e às condições em que isso aconteceu… vamos voltar lá para o início de 2010. Eu tinha acabado de escrever outro romance, “Os Grandes Sucessos de Julian Gordon”, ainda não publicado – vejam a bola fora das editoras nacionais, né?! -, que era bem extenso, que levou uns quatro anos para ficar pronto, e, então, para combater a estafa dessa epopeia, resolvi escrever alguns contos – dois deles vocês podem ler aqui no blog, na seção “Contos”. Tudo curtinho, tiro e queda. “O Safári Doméstico” era para ser desse jeito. Acontece que a história tinha um fator psicológico, de desgaste emocional para os personagens, de degradação de crença, de filosofia, muito, muito forte. Não dava para condensar tudo isso em quinze páginas, principalmente dentro de uma narrativa de suspense/terror, com toques de… Enfim, não vamos revelar muito, certo? E assim, o conto foi crescendo, aumentando, e, quando vi, estava com o tamanho que realmente deveria ter. Confesso também que estava difícil me separar desses personagens.

A ideia inicial veio de – e isso pode parecer uma daquelas lendas que autores adoram criar em torno de sua obra ou de si mesmos, mas juro que é verdade – um acontecimento bobo, certamente uma coincidência, uma motherfucker de uma coincidência, quando eu caminhava regularmente nos finais de tarde, sempre fazendo o mesmo percurso, na minha cidade natal. Toda tarde eu passava diante de um certo muro. E toda tarde, em cima desse muro, havia um pássaro, um bem-te-vi ou algo parecido, que, assim que me aproximava, saltava para trás do muro. Uma vez, beleza, é a coisa mais normal do mundo – tanto que nem sei por que comecei a prestar atenção. Duas vezes, já é um tanto esquisito. Da terceira vez em diante… aquela coceirinha atrás da orelha foi despertada. Será que estava testemunhando um fenômeno temporal? Um flashback recorrente, sempre na mesma hora, sempre no mesmo lugar? Aquele pássaro era tipo o gato de “Matrix”? Estaria ele preso em um paradoxo de espaço-tempo? Ou era minha cabeça que tinha algum defeito de fabricação, acionado toda vez que me aproximava daquele muro com aquele bicho empenado em cima? E se isso acontecesse em outro contexto, e o pássaro fosse pessoas, e uma delas estivesse sendo morta? E se essas pessoas não saíssem voando se nos aproximássemos delas, mas pudessem fazer coisa bem pior conosco?

E por aí foi… até que chegamos a Teixeira dos Prados. E a uma casa que pode ser a sua.

Tá, vai… Os dois primeiros capítulos, aqui, pra vocês. Espero que “O Safári Doméstico” também os deixe com aquela coceirinha atrás da orelha. Melhor ainda: um arrepio na nuca.

I

“A Aventurosa Jornada de Melinda” era a responsável pela caminhonete cabine dupla que os havia levado até ali, com o resto das suas coisas na caçamba. Por boa parte dessas coisas, era ela a responsável também. E agora, pela casa nova. Ali, na velha casa nova, tomaria forma o sucessor do livro que havia concedido a tão almejada, tão repetidamente decantada através dos séculos pós-advento do capitalismo – e tão desproporcionalmente experimentada, que chegava a ganhar ares de lenda urbana -, guinada profissional nas carreiras de Aline Lorencetti e Hugo Pacheco. Tal como o público a que era destinada, a próxima aventura de Melinda necessitava de um espaço apropriado e uma atmosfera saudável onde crescer. Os pais da rebenta – para eles, feita de papel, tinta, criatividade e dedicação; de uma combinação nada modesta de algarismos, para a editora; e, finalmente, de carne, osso, bons princípios e coração aventureiro, para a sonhadora e fiel legião miúda – tinham encontrado o ambiente durante as férias de dois anos antes.

Ponto pequeno no mapa mineiro, um pouco maior nos guias de turismo, Teixeira dos Prados, clima de montanha entre morros, havia conquistado o casal. Ao se decidirem por abandonar a capital, a escolha da cidade fora tão harmonicamente compartilhada quanto as boas memórias da semana passada ali. Haviam visitado as poucas imobiliárias do lugar com uma noção tão arraigada do que desejavam que a seleção não se mostrara tão complexa.

Despejando seus dois andares sobre bases que, a despeito de certa idade, pareciam tão sólidas quanto as elevações naturais que o circundavam, o casarão surgia contra o fundo verde tal qual um efeito de chromakey – como se houvesse brotado do solo ou sido ali colocado pelos dedos de um gigante, que posicionara a peça branca para o xeque-mate derradeiro de sua vida de enxadrista, indo em seguida hibernar preguiçosamente sobre os montes atrás de si. Claro que a reforma após a saída dos últimos moradores reforçava esse aspecto inabalável, de perpetuidade. Porém, assim como novas tintas e novas telhas não eram capazes de lhe caiar a elegância trintona, tampouco lhe conferiam uma vitalidade artificial.

Apesar do porte, a construção era um convite à vida pacata, ao aconchego em tardes frias (e haveria muitas a partir das semanas seguintes), a cadeiras na varanda em noites de verão… do pátio de entrada, nada mais que uma senda magra de cascalho cortando a grama baixa, às janelas de madeira, sem grades!, duas no segundo andar e duas embaixo na parte da frente, tudo remetia à palavra “sossego”, a mais bela do dicionário para a escritora e seu ilustrador. Estavam cientes de que a estradinha de terra a oito metros do casarão era trilha de turistas, mas também não haviam abraçado a causa ermitã de forma tão xiita. Como num clichê sagrado de comercial de condomínio, sua nova morada oferecia exatamente o que buscavam: tranqüilidade e espaço amplo. Uma parte dela seria gradativamente convertida no estúdio de Hugo. O restante ficaria para Aline, já que, embora as letras da esposa demandassem pouco mais que um canto, ela gostava de variar seu ambiente de trabalho. Hugo não se surpreenderia se a pegasse, qualquer ocasião, com o laptop no alto de um morro. Talvez até se juntasse a ela, já que volta e meia acabavam mesmo fazendo tudo próximos um do outro.

Hugo subia a escada de madeira escura olhando para baixo, tentando se acostumar com os degraus. A caixa de papelão estufada que carregava nos braços já cansados não colaborava com o reconhecimento topográfico-doméstico. Perdoou-lhe somente por ser a última de muitas. Depois dela, Aline e ele estariam oficialmente empossados como senhores de uma casa grande sem escravos exceto ele mesmo.

Não por comodismo – embora pudesse parecer (a esposa é que não o censuraria) -, Hugo havia destinado o dormitório logo no fim da escada para o ajuntamento de todos aqueles objetos que, ao longo de três anos, tinham oscilado pra lá e pra cá no apartamentoem Belo Horizonte. Eramcaixas e caixas de jornais e revistas com trabalhos seus ou de Aline ou matérias sobre os livros, esboços, telas, algum material de desenho e pintura da época do instituto de artes que, jurava, um dia tornaria a usar, prêmios, a coleção de DVDs e VHS, livros, volumes, volume. A sorte era que muitas vezes trabalhavam nos mesmos projetos, o que talvez ajudasse a reduzir o montante desses espólios de casal. Inclusive, em algum lugar ali estavam exemplares do primeiro livro assinado por ambos, início insuspeito da dobradinha, que rendera um coquetel de lançamento, a tradicional troca de elogios, um convite para uma cerveja qualquer dia desses (partindo dela – ele ainda não podia se dar ao luxo de convidar escritoras-revelação para sair), e vida sob um teto em comum não muito depois.

– Toda casa tem que ter o seu quarto da bagunça. Nós passamos três anos sem nos darmos conta disso. – esbaforiu ao encaixar sua carga num canto, fechando uma fileira como se estivesse em uma partida live action de Tetris. Passou a mão pelos cabelos ruivos, sentindo-os úmidos de suor. Apesar de tudo, estava radiante, e não só por haver terminado com as caixas.

– Eu não tinha me dado conta – Aline descansou o braço sobre o ombro do marido, e afagava seu peito arfante – é de quanta bagunça nós temos pra colocar aí.

Alguns segundos apenas observando o cômodo, e Hugo então disse, com seu semblante aberto num sorriso e arrematado por um olhar de devaneio que contrastavam com o teor da frase:

– E pensar que daqui a um tempo teremos que tirar tudo…

O casal não pretendia encerrar a prole com Melinda.

II

Enquanto não chegavam as primeiras páginas de texto de Aline, Hugo, à mesa da cozinha, matava o tempo esboçando no papel a pintura do futuro quarto do planejado bebê, unicórnios de esvoaçantes crinas saltando em fila uma cerca azul-celeste – sua criança contaria unicórnios ao invés das mundanas ovelhas! Por que dar o País de Gales se a arte permitia o cenário daquele filme com o Tom Cruise em início de carreira? Desenhou também o gorila com roupas e bigodinho chineses que sempre acabava fazendo quando se deixava perder no freestyle, o Hong King Kong, dando um golpe no ar com a mão espalmada e com uma enorme banana entre os dedos dos pés. Por fim, por mais simpatia que nutrisse pela versão símia do Bruce Lee que vinha criando meio sem perceber, achou melhor ater-se à iconografia unisex. Mas, se viesse um menino!…

Loucura era pensar que a criança, ela mesma, não passava de um esboço ainda. Mesmo Melinda era mais palpável. As inúmeras versões de capas para o livro que tivera de desenhar, as ilustrações internas, o material promocional. Os desenhos nos autógrafos. E depois, os blogs e fóruns de fãs, os comentários perdidos que às vezes captava nas livrarias, em supermercados, até no avião, sem que soubessem quem ele era. Tudo isso fora, de certa forma, solidificando, concretizando Melinda. E Aline e ele haviam decidido aguardar que chegasse ao fim a próxima “encarnação” da menina aventureira para que seu filho de sangue pudesse sair do papel. Loucura…

Foi o som da porta do armário sendo aberta que o trouxe de volta para o momento. Aline sacava a barra de chocolate aerado tamanho família, consagrada arma em tempos de labuta literária. Enquanto abria a embalagem, movia os lábios, e o esposo sabia que pela cabeça dela frases corriam como em uma esteira de linha de montagem.

– Como vai o trabalho? – perguntou sorrindo.

Os lábios se detiveram por um segundo, para então retomarem o ritmo, dessa vez acompanhados de áudio:

– Tô naquele capítulo em que a jovem, talentosa, esbelta escritora – sorriu – se vê diante da abominável folha em branco sem saber como dar a largada. – Encostou-se na pia e separou dois tabletes da barra de chocolate. Hugo se levantou e caminhou em sua direção.

– Sei. Mas já não rolou um capítulo parecido no livro anterior?

– Em todos eles, my baby.

Riram, abraçados, um no ouvido do outro. Era quase possível aspirar aquela doce cumplicidade de se saber tudo sobre o modus operandi da cara-metade. Cada pequeno mecanismo já havia sido exposto nesses três anos conjugais de forma interessante e natural.

– Quem sabe seja o ambiente novo? – foi o palpite de Hugo, antes dele abocanhar um tablete da barra, ainda em poder de Aline.

– Vai ver que é. Mas sabe o que ajudaria mesmo? – Olhou-o com grandes olhos negros e brilhantes de menina, olhos que outras mulheres da mesma idade, com ofícios menos lúdicos, teriam perdido lá pelos dezesseis, e respondeu – Meia-horinha de narguilé turco.

– Hum… – Ele balançava a cabeça, a considerar a sugestão. – Tô dentro. Tá lá em cima, né?

– Quarto da bagunça, isso mesmo. Vai lá pegar?

Hugo soltou um “deixa comigo” na cozinha e rumou pela sala até a escada. Foi saltando um em cada dois degraus, mostrando a casa quem é que mandava. Num piscar de olhos estava no andar de cima, diante da porta fechada – Aline preferia que a bagunça que alcunhava o quarto não ficasse tão à vista. Sabe como é… O pessoal que freqüentava o apartamento na capital não era do tipo que se incomodava. Até achava charmosas as quinquilharias espalhadas por cantos inusitados. Mas vai saber como seriam os novos amigos na nova cidade…

Pensava justamente nisso, nas pessoas que conheceriam ali, que levariam para o círculo interno de seu permanente clube de inverno, quando abriu a porta e o conceito de “visitante” saltou sobre seu rosto feito um felino entocado. Diante de si, passos adiante, não mais do que dois metros quarto adentro, havia um homem esfaqueando uma mulher. Viu o instante exato em que a faca de cozinha, de cortar carne, desceu sobre ela, na altura da clavícula esquerda, para então erguer-se lustrosa de sangue quase até o cabo, arrancando, com sua ascensão, um urro afogado da mulher. Hugo sentiu as pernas lhe faltarem. Perdeu o controle da bexiga por um segundo. Aquilo em que estava pensando ao abrir a porta e o que via embaralharam-se em sua mente e seu sistema nervoso. Este reagiu enviando um pulso primitivo, descargas de adrenalina que se espalharam pelo corpo estático como em uma bomba de pregos, assumindo diferentes formas e efeitos, dos pêlos arrepiados à garganta bloqueada para qualquer manifestação maior do que um soluço. A mão se cravou na maçaneta arredondada de tal maneira que as unhas engoliram lascas de tinta cinzenta. Aos seus ouvidos, tão atordoados quanto os demais sentidos, chegavam os gemidos entrecortados da vítima, a respiração ofegante do agressor, o farfalhar das roupas, os passos errôneos, de dança trôpega, sobre as tábuas do chão: ruídos que, embora culturalmente identificáveis como os sons de um embate físico, causavam estranheza quando captados de tão perto. Visualmente, era tudo tão claro, tão nítido, aquela afronta à inviolabilidade do recém-adquirido lar, ali, debaixo da lâmpada do teto, que não havia escolha a não ser olhar. Pior de tudo, não havia dúvida, engano. Estava acontecendo. Dois estranhos em um cômodo de sua casa, matando, morrendo.

Quando seus órgãos e músculos recuperaram as funções Hugo conseguiu puxar a porta. Teria feito barulho ao fechá-la? Deus, a chave precisava estar na fechadura! Se aquele homem saísse do quarto e descesse a escada!

Recuou, olhou para os dois lados semi-escurecidos do corredor, e de volta para a porta. Onde tinha colocado a chave? No porta-chaves, perto da geladeira, era lá? Tinha que ir lá buscar, voltar e trancar o quarto! Não, avisar Aline antes, claro! Voltar aqui como?! Tinham que chamar a polícia!

Se tinha subido saltando um em cada dois degraus, a descida, por sua vez, não respeitou lógica matemática ou normas de segurança doméstica. Usou o corrimão como guard rail na insana carreira até a sala – novamente temeu estar fazendo barulho, como se ele fosse o invasor -, quase se espatifou no tapete de centro ao ignorar o último degrau. Ainda na cozinha, preparando um chá, Aline ouviu o tropel escada abaixo, e a única coisa que pensou foi que Hugo ia acabar derrubando e quebrando o narguilé.

Aline!

Se ela estivesse manuseando a caneca com água, certamente a aparição do marido na entrada da cozinha, a segurar-se no batente para não varar reto, teria sido pivô de um pequeno e ardente drama caseiro. O máximo que provocou, contudo, foi uma interjeição de sobressalto, a qual Hugo atropelou:

– Aline, liga pra polícia!

Invadiu o espaço que a esposa ocupava – e, nesse instante, ela notou seu aspecto atônito, a pele ainda mais branca do que de costume, o que fazia as sardas se manifestarem com todo o esplendor de sua genética – e passou por ela em direção à porta dos fundos, andando de lado feito caranguejo, como se vigiasse a retaguarda. Os braços riscavam instruções no ar, apontando ao mesmo tempo para Aline, para o telefone na bancada sob o armário, para a sala.

– O que aconteceu?! – Como o arranque de uma Ferrari, Aline podia atingir um grau estratosférico de ansiedade em questão de segundos, especialmente ao ver seu homem daquele jeito.

– Tem gente na casa! – Hugo fazia com que as palavras soassem no menor volume que sua aflição e urgência permitiam – Lá em cima, com uma faca! Liga pra polícia! – Os olhos miravam a entrada da cozinha, antecipando o surgimento do sujeito com a faca, enquanto as mãos buscavam a maçaneta da porta dos fundos.

– Ai, minha nossa! – Aline levou a mão à boca num gesto que, conquanto fosse puro reflexo, dialogava com a preocupação de Hugo em se fazer silencioso. Hesitou pouco mais do que alguns segundos, o tempo de que seu mecanismo de crença necessitou para se desprender da atmosfera de amenidade doméstica e atrelar-se ao alarmante, quase inverossímil fato, e então se lançou ao telefone.

Enquanto ela discava o 190, Hugo contornava a casa, seus chinelos de borracha guinchando contra o passeio de concreto que torneava a construção. O suor da testa morria incansável nas sobrancelhas, a respiração explodia nos ouvidos como se a cabeça estivesse metida em um balde. Diante da situação, pela primeira vez era capaz de perceber a amplitude do isolamento do atual endereço, o quão sós ele e Aline encontravam-se no novo lar. Cercado por morros, o verde vivo do dia transformava-se em plena escuridão noturna. Pensava em Aline lá dentro, sozinha com o cara, que desceria a qualquer momento, pensava exclusivamente nisso quando o luar potencializou sua visão e, perto da garagem, ele encontrou o que procurava.

Ao retornar à porta dos fundos, tentava afastar a precipitação mortificante de um cenário onde o invasor já havia descido a escada, encontrado Aline sozinha, e ele chegava somente quando tudo já estava terminado. Tudo.

Mais uma vez precisou usar o batente para que não se atirasse à cozinha e fosse se chocar com o fogão. A mão direita estava tão firmemente cerrada ao redor do corpo de madeira da pá e tão programada para brandir a ferramenta suja de terra do jardim que Hugo, ao deparar-se com o piso livre do rio de sangue que corria pelo seu hipotético panorama mental e com a esposa morta, apenas, de medo, sentiu um espasmo lhe subir pelo braço, em um coito interrompido de medo e fúria.

– Onde você tava?! – sussurrou Aline, olhos escancarados, desolados, evocando sua proteção. Encolhia-se contra a quina da parede, na direção da entrada da cozinha, de onde podia observar a escada. Aproximando-se, Hugo notou a faca, quase tão grande quanto a que vira em poder do sujeito, que ela segurava entre as duas mãos trêmulas.

– Isso é o melhor que temos contra alguém como ele. – Ergueu a pá. Viu no olhar de Aline que ela concordava. Mas ela indagou:

– “Como ele”?

Hugo engoliu saliva.

– Não quis te dizer naquela hora… Também, não tinha tempo pra contar tudo… Ah, cara, – seus olhos reviraram – talvez a polícia viesse mais rápido se tivéssemos avisado…

– Do que cê tá falando? – O lábio inferior dela tremia, desconjuntado.

– Tinha… uma mulher no quarto com ele. – Hugo viu as sobrancelhas da esposa se arquearem diante da iminência de revelações que adensariam a já insólita ocorrência. – Tão desconhecida quanto o cara. Ele… ele tava esfaqueando essa mulher.

A voz de Aline sumiu, como se sugada garganta abaixo. Novamente, ela jogou a mão sobre a boca fendida. Não que houvesse necessidade… A fala só voltaria no decorrer da vigília: ela e Hugo, cada qual com sua arma em punho, amontoados no canto da cozinha de onde visualizavam a escada, à espera que o estranho que havia rompido a santidade da primeira noite no novo lar descesse os degraus, quem sabe carregando um corpo retalhado, quem sabe somente uma faca de cortar carne.

Dez minutos, mais ou menos, e eles bateram à porta. Boa idéia não tocar a campainha. Hugo atravessou a sala – não sem desviar um olhar para o topo da escada – e atendeu – não sem confirmar quem era, através do olho mágico. Estava em estado de alerta laranja, feito um americano.

Eram dois. O calvo atarracado, de braços curtos e cabeça acima da média, o Horácio em uniforme corporativo, apertou a mão de Hugo, e, de cara, fez menção, com o olhar, à pá na outra mão. Chamava-se Mattos. O loiro esticado, braços compridos caídos ao redor da barriga solta, era o Nepomuceno. Enquanto Hugo fechava a porta atrás deles, perguntaram se havia a possibilidade do sujeito ter saído do quarto para outra parte da casa. Hugo explicou que, de onde ele e Aline se encontravam, não conseguiam enxergar o quarto, mas que, naquele silêncio, teriam ouvido o cara abrir a porta e caminhar pelo segundo andar. Então, emendou o detalhe do qual não haviam sido postos a par: a vítima. Notou certo estranhamento no olhar trocado entre os policiais. Estava claro, Hugo refletiu, que coisas assim não faziam parte da rotina deles, dos colegas. Dos conterrâneos.

Revólver à mão, a dupla se dirigiu até a escada, atenta a todo o ambiente interno – só então foi que viram Aline na entrada da cozinha, e fizeram-lhe uma mesura com a cabeça. Sua faca não chamou atenção como a pá. Cautelosa e silenciosamente subiram os degraus, Mattos à frente.

Do pé da escada, Hugo e Aline acompanhavam o lento avanço. Sentindo-se amparada pela presença da polícia, ela havia se livrado da faca. Já Hugo mantinha sua pá atravessada sobre o peito, quase um cartaz de propaganda socialista soviética. Os pescoços doíam, reclamavam da constante posição rígida e alongada que tinha lhes sido exigida desde o início da vigília. Não havia escolha. Que unissem sua dor à dos olhos, secos e ardentes devido à fixação à cadeia de degraus, que, dali de baixo e à sombra dos acontecimentos, especialmente os próximos, desdobrava-se no que parecia uma seqüência irritantemente interminável. Os ouvidos, por sua vez, antecipavam o som da porta do quarto sendo aberta subitamente pelos policiais, e, então, vozes duelando, misturando-se, o sapateado caótico…

– Vocês podiam subir aqui?

Nepomuceno os chamava do topo da escada.

Mesmo escoltados pelo grandão, Aline e Hugo aproximaram-se do quarto tomados por um receio não muito menor do que o que fora cultivado até então. Apesar disso, era perceptível que nenhuma movimentação fora do normal desenrolava-se ali dentro, e, conforme adentravam seu ainda não tão familiar quarto da bagunça, que nada havia reinado de forma tão patente sobre aquele espaço quanto a mais pura ordem. Algo devidamente sancionado pela opinião especializada.

– Olha, seu Hugo… Dona Aline… – começou o Mattos, levando o olhar de um para o outro daquele jeito respeitoso que não era predicado exclusivo da polícia de Teixeira dos Prados, mas qualquer coisa inerente à população. – Nós demos uma averiguada no quarto… uma boa averiguada… checamos todo o andar, os outros cômodos, e, sinceramente, não existe nenhuma evidência de que alguém tenha invadido a casa. Principalmente, de que tenha feito o que o senhor nos contou aqui. – completou, com os polegares metidos na cinta e a tranqüilidade de quem sabia o que estava dizendo.

– Tem certeza? – Hugo perguntou, certamente por impulso, haja vista que nem mesmo o autor da questão poderia colocar em dúvida a ausência de sangue na “cena do crime”. Sangue que, em contrapartida, vira irromper ao primeiro golpe da faca do atacante no corpo da vítima.

– Absoluta. Como vocês podem ver, não há sinais de agressão por arma branca. – O quarto se encontrava perfeitamente iluminado pela lâmpada fluorescente recém-instalada. – O cômodo teria que estar respingado de sangue. Além do quê, não se desaparece assim com uma mulher esfaqueada.

– É, eu sei… – balbuciou Hugo, tentando evitar que sua imagem de ignorante se perpetuasse. Enquanto isso, Aline reparou que Nepomuceno cravava nela e no marido um olhar duro, severo.

– Veja, – prosseguiu Mattos – não há sinal de arrombamento em nenhuma das janelas dos quartos e do banheiro. O sujeito poderia ter entrado por uma das portas lá de baixo?

– Nós teríamos visto. – adiantou-se Aline. E, olhando para Hugo – Não é, amor?

– É. – Ele balançou a cabeça sem ânimo, com o olhar vago e a boca semi-aberta.

– Ele tava na cozinha, e eu, na sala. São as duas únicas entradas.

– Nós podemos dar uma olhada nas janelas lá de baixo, mas, pelo que parece, o que o senhor viu, seu Hugo…

Não aconteceu, era o que todos ali queriam dizer, e talvez dissessem, todos juntos ao mesmo tempo, pensava Hugo, então ele os atravessou:

– Eu posso descrevê-los.

Fez-se silêncio – isso em termos verbais, pois os olhares conversavam com a loquacidade de políticos em um debate televisivo: de Mattos para seu parceiro e no sentido inverso, de Aline para Mattos e então para o esposo (e neste, que se alongou mais do que os outros, uma gradual mutação ocorreu, do constrangimento inicial para uma incredulidade ansiosa, culminando em certa fé, algo solidária, na autenticidade da visão do marido).

– Foi tudo muito rápido, mas me lembro de alguns detalhes. – Hugo insistiu, tendo recuperado parte de sua fibra.

Mattos deu de ombros.

– O senhor pode falar.

Nepomuceno bufou. Seu olhar agora era de pura zanga, mas Aline estava concentrada em Hugo e, dessa vez, não percebeu.

– Bom… O cara era alto, pouco mais que eu… Magro, mas forte… Cabelo castanho ondulado… Tinha um nariz grande… Tava de camisa, com as mangas dobradas. Uma camisa vermelha. – Mattos pontuava cada traço acrescido ao retrato falado improvisado com um chacoalhar da cabeça calva. – Ele segurava a faca com a mão direita, e com a outra prendia a mulher pelo colarinho da camisa. Amarela. Amarelo-clara. Ela tinha cabelo curto, quase branco de tão loiro. Também magra. Os dois pareciam ter… acho que quarenta e poucos.

– Tá, é melhor isso parar por aqui! – Nepomuceno, que acompanhava tudo de braços cruzados, a certa distância, aproximou-se irradiando uma raiva genuína, direcionada, sem qualquer reserva, aos donos da casa. Estes mal tiveram tempo de se surpreender. – Não sei que tipo de graça vocês acharam que isso poderia ter, mas já deu, certo?

Agora estavam suficientemente surpresos. O policial os fuzilava com olhos faiscantes, despejava as palavras com tal ferocidade que pareciam poder machucar. Mattos, que ficara meio sem-jeito, talvez tivesse dito alguma coisa no sentido de acalmar o colega, mas, o que quer que fosse, teria sido afogado pelo tom da voz do grandão.

– É essa a imagem que vocês querem passar pra cidade pra qual se mudaram? – completou, deu as costas e saiu do quarto. Mattos encarou Hugo e Aline, completamente embasbacados pelo que acontecia, e, com olhos apáticos e um silêncio que sugeria apoio ao gesto do parceiro, seguiu-o.

Sentado na beira do sofá da sala, braços cruzados sobre o cabo da pá, cravada no piso, Hugo nem se dava conta do ridículo de sua figura. Não que Aline estivesse mais “digna”, sentada à mesa, mordendo a tampa da caneta, laptop rodando o protetor de tela há minutos, mas, na cabeça de Hugo, além da bizarra reviravolta final durante a visita da polícia, pesava também, até mais, muito mais, a cena que testemunhara no quarto, devidamente desmentida a despeito de sua convicção, extinta na origem por um exame do qual fora igualmente testemunha, e, nesse caso, suficientemente acompanhado.

– É isso que vai ser a nossa primeira noite aqui?

Ele voltou os olhos caídos para Aline, que o fitava da cadeira, aguardando uma resposta, qualquer uma, que colaborasse para dissipar o humor enjoado que se instalara ali. Erguendo-se, encostou a pá no braço do sofá.

– Tem razão.

Atravessou a sala, resoluto, e pôs-se a subir a escada, crente de que era exatamente o que Aline esperava de seu homem. Ela seguiu a trajetória do marido com um giro de cabeça, e os ombros escorregaram os poucos milímetros que haviam conseguido galgar.

Encontrou-o no quarto da bagunça, cinco minutos depois, absorto, de joelhos, a franja espanando as tábuas enquanto ele corria os olhos – quase literalmente – pelo chão. Dando vazão a uma faceta que Aline até então desconhecia, a de cientista forense – embora a posição remetesse mesmo a um cão farejador -, aparentemente procurava alguma molécula de sangue ou um resíduo de pele dos estranhos. Atitude louvável, considerando que necessitaria, no mínimo, de um microscópio. Aline permaneceu quieta, à porta, pensando se realmente achava louvável a atitude, quando começou a ficar com pena dele e deu-se conta de que não.

Seus passos fizeram com que se voltasse imediatamente. O acontecimento, independentemente de ser real, havia o deixado atento, à flor da pele. Ele se colocou em pé e esfregou os joelhos. Tinha abandonado o desalento no andar de baixo para encontrar nova chama no cenário de sua visão.

– Dei uma conferida. – disse, alternando o olhar entre Aline e a janela. – Estranho, tá do jeito que nós deixamos. Pra entrarem, teriam que ter quebrado umas tábuas… forçado de alguma maneira.

– Hm-hm. – Aline piscou demoradamente, amparando-se em um sorriso compreensivo, maternal. – Foi o que o policial disse.

Hugo respirou fundo, olhou sério para ela.

– Eu sei o que eu vi, Aline.

– Não duvido, amor. Mas já tá tão tarde… Eu tô tão cansada. Essa noite exigiu muito da gente. E aquele estúpido daquele policial, – soltou o ar pela boca – meu Deus, me deixou com dor de cabeça… – Hugo a encarou com o semblante vago. Ela o pegou carinhosamente pela mão e começou a conduzi-lo à porta. – Vamos pro nosso quarto. Deixa esse pra lá.

Deixou-se levar. Sua memória, concentração e imaginação, contudo, permaneceriam ligadas ao cômodo como se por um fio translúcido, mesmo depois de apagada a luz e fechada a porta, mesmo após horas na cama, a encarar o teto.

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Rock (R)Evolution – Parte 19

ROCK (R)EVOLUTION:

EPISÓDIO 19:

90 A 94: MINA DE OURO DE FLANELA

Para ler ao som de: Green River, Mudhoney, Mother Love Bone, Screaming Trees, Alice in Chains, Soundgarden, Melvins, Nirvana, Pearl Jam, Temple of the Dog, Hole, L7, Stone Temple Pilots, Bush, Silverchair, Foo Fighters

Na virada dos anos 80 para a década de 90, o relativo sucesso comercial de bandas como R.E.M. e Sonic Youth dava mostras de que o rock alternativo era algo viável para as gravadoras estabelecidas. Ao mesmo tempo, também mostrava que o status quo musical não corria o risco de ser abalado; que a música underground não representava uma ameaça aos artistas do “primeiro escalão”. Talvez justamente por isso a transformação que estava prestes a acontecer tenha pegado o universo pop tão desprevenido… como uma gigantesca árvore despencando sem aviso de uma cidade povoada por lenhadores chamada Seattle.

Localizada no estado de Washington, Seattle não oferecia muitos atrativos aos seus jovens habitantes. Chuvosa e fria, ela parecia empurrar os entediados para suas garagens, das quais acabaria saindo uma geração de bandas surgidas do descompromisso e do isolamento. Uma cena compacta, onde estilos que ocupavam pólos opostos em locais como Los Angeles e Nova York misturavam-se em uma nova sonoridade, que devia tanto ao hardcore do Black Flag quanto ao heavy metal do Black Sabbath.

Exemplo disso era o Green River. Unindo a energia crua e a temática lírica do punk ao peso arrastado e a maior complexidade instrumental do heavy metal, a banda formada em meados dos anos 80 foi a primeira da cena a lançar um disco.

Seu segundo EP, “Dry As a Bone”, de 87, saiu pelo recém-inaugurado selo independente de Seattle Sub Pop, que, no material de divulgação, descreveu-o como “grunge que destruiu a moral de uma geração” – o termo grunge ganharia força conforme bandas da área, com estilos similares, lançassem seus álbuns, até passar a designar o “som de Seattle”.

Ainda nesse ano, águas turbulentas dividiram o Green River: enquanto o guitarrista Stone Gossard e o baixista Jeff Ament achavam que era hora do grupo tentar contrato com uma major, o vocalista Mark Arm preferia se manter independente. Com a cisão, Arm se juntou ao guitarrista Steve Turner, que havia deixado o Green River anos antes, para criar o Mudhoney, fortemente influenciado pelo punk…

… ao passo que Gossard e Ament, além do outro guitarrista da banda, Bruce Fairweather, formavam o Mother Love Bone, com tendências glam e hard rock.

Apoiado na experiência dos ex-membros do Green River e em seu espalhafatoso e magnético vocalista, Andrew Wood, o Mother Love Bone não encontrou dificuldades em atrair atenção, e, logo, estava sendo integrado ao cast de uma subsidiária da PolyGram. Enquanto a banda se preparava para o lançamento de seu primeiro álbum, Wood procurou a reabilitação para livrar-se do vício em heroína. O esforço, porém, foi em vão: em 16 de março de 90, o vocalista entrou em coma devido a uma overdose, morrendo três dias depois.

Andrew Wood, a primeira baixa do grunge

O álbum, “Apple”, foi lançado em julho, quando a banda já não existia, e ajudou a aumentar ainda mais o hype em torno da cena de Seattle…

… reforçada por bandas como Screaming Trees, com seu potente resgate psicodélico…

Um tostão da voz do “garganta de ouro de Seattle” e homem dos mil projetos, Mark Lanegan

… e Alice in Chains, quarteto que encaixava intrincadas harmonias vocais e passagens acústicas em um heavy metal sujo e arrastado. Enquanto ganhavam projeção, os membros do Alice in Chains substituíam o figurino glam do início da carreira pelo despojado visual roqueiro que imperava em sua cidade, como camisas de flanela xadrez (típicas dos lenhadores da região) e jeans surrados – uma estética que aos poucos passava a ser tão associada ao grunge quanto a própria música.

O vocalista Layne Staley também caminharia no fio da agulha, como Andrew Wood

Contudo, foi o Soundgarden, a fábrica de riffs sabbathianos comandada pelo vocalista Chris Cornell, a primeira banda grunge contratada por uma grande gravadora. Com uma indicação ao Grammy e um pé no mainstream, o Soundgarden se tornou a aposta da imprensa especializada como a banda que iria escancarar as portas para o rock alternativo.

Durante tudo isso, em Aberdeen, cidade nos arredores de Seattle, uma banda chamada The Melvins se distinguia de seus pares ao explorar inusitadas e bizarras estruturas musicais que não davam espaço a qualquer aproximação mais pop.

O pioneiro trio virou não somente uma influência artística, mas também um incentivo para que um amigo de adolescência e ocasional roadie chamado Kurt Donald Cobain começasse a compor.

O Quik Morango que ajudava a suavizar as dores estomacais de Kurt. Logo, ele estaria apelando para drogas mais pesadas

Com Dale Crover e Buzz Osborne, respectivamente baterista e vocalista/guitarrista do Melvins, Cobain formou em85 abanda punk Fecal Matter, que teve vida curta. A demo gravada por ele e Crover, entretanto, foi instrumental para que Cobain convencesse seu amigo Chris Novoselic a criarem juntos um novo grupo. Começava aí um rodízio de guitarristas, bateristas e nomes para a formação. Esta se estabilizou por um tempo em Cobain nos vocais e guitarra, Novoselic no baixo e Chad Channing na bateria. Quanto ao segundo problema, o vocalista queria algo que destoasse completamente da tendência punk de nomes “malvados”. Algo que fosse belo e agradável. Como Nirvana.

Entre 88 e 89, com as baquetas sob responsabilidade de Crover em diversas faixas, o Nirvana gravava seu primeiro álbum, “Bleach”, com produção de Jack Endino, o “faz-tudo” da Sub Pop, pela bagatela de pouco mais de 600 dólares, pagos por Jason Everman, um guitarrista que ficara impressionado com a demo do grupo. A boa ação renderia a Everman um lugar na banda como segundo guitarrista e seu nome creditado em “Bleach”, mesmo sem ter tocado em qualquer faixa.

Everman depois tocaria baixo no Soundgarden… e, mesmo tendo tocado em duas das maiores bandas dos últimos 25 anos, ninguém se lembraria dele em ambas 

Por volta dessa época, Bruce Pavitt e Jonathan Poneman, os fundadores da Sub Pop, estavam colocando em ação suas mirabolantes estratégias para converter o selo em uma verdadeira máquina de sucesso e dinheiro.

Poneman e Pavitt, os "Berry Gordys" da Sub Pop

Uma delas consistia em alardear o tal “som de Seattle”. Outra, que se provou bastante eficiente, em promover a cena através da imprensa musical britânica. A dupla convidou o jornalista Everett True, da Melody Maker, para conhecer o que acontecia na cidade. Foi paixão à primeira vista. Os britânicos sentiram que aquele era um movimento genuinamente autônomo, descontrolado, exatamente do que necessitava o momento. Num piscar de olhos, o público dos shows em Seattle triplicou.

Tendo sido lançado em tais circunstâncias, “Bleach” foi uma sensação no circuito alternativo. O Nirvana saiu em turnê pela Europa e América por tempo suficiente para que a gratidão a Everman se dissipasse – o guitarrista realmente não se encaixava, e eles voltaram a ser um trio. A próxima baixa seria Channing. O descontentamento mútuo fez com que ele abandonasse o grupo logo após a gravação da demo do segundo álbum. Cobain e Novoselic acabaram preenchendo a vaga com um músico de estilo poderoso egresso da finada banda de hardcore Scream, Dave Grohl.

Nirvana com Grohl (o do meio)

Nesse meio-tempo, a demo havia transformado o Nirvana em objeto de desejo nos bastidores do mundo corporativo musical. Assim, não foi surpresa quando o grupo trocou a Sub Pop pela major DGC Records. A surpresa, mesmo, ficou reservada para quando o álbum “Nevermind”, lançado em 91, ultrapassou as expectativas de vendas da gravadora – 250.000 cópias -, passando a vender 400.000 cópias por semana. Menos de quatro meses após o lançamento, “Nevermind” mostrava quem era realmente perigoso ao derrubar “Dangerous”, de Michael Jackson, do primeiro lugar da Billboard.

Se Cobain não tivesse se mantido duro, a gravadora teria cortado o bigulim do bebezinho da capa

O êxito de “Nevermind” havia sido deflagrado pelo seu primeiro single, “Smells Like Teen Spirit”, uma composição em que Cobain assumidamente tentava criar uma canção típica dos Pixies e sua dinâmica de passagens calmas intercaladas por trechos pesados. Embora o título tivesse surgido de uma pichação – “Kurt Smells Like Teen Spirit” – feita por uma amiga de Cobain chamada Kathleen Hanna, significando que ele cheirava a Teen Spirit, o desodorante usado por sua namorada na época, Tobi Vail, e ainda que a letra fosse desconjuntada e o vocal, resmungado, a canção começou a ser descrita como “o hino da Geração X”. Uma geração desiludida e apática, e, ao mesmo tempo, pronta para explodir, que viu no grunge uma válvula de escape altamente inflamável.

Repentinamente, aquele ponto perdido no noroeste americano tinha se tornado o olho de um furacão cultural. Para a indústria, isso significava ótimos negócios. Começava a desesperada busca pelo “novo Nirvana”. Bandas de Seattle assinavam contratos milionários antes mesmo de terem feito seu primeiro show. Catálogos inteiros de selos independentes eram adquiridos de forma voraz. Até a alta costura se aproveitou do momento, vendendo o surrado visual grunge a peso de ouro.

Enquanto o Nirvana decolava, levava consigo vários conterrâneos. Foi o que ocorreu com Alice in Chains, Mudhoney, Soundgarden e Pearl Jam, a banda de Stone Gossard e Jeff Ament pós-Mother Love Bone.

A gênese do Pearl Jam está intimamente ligada a do Temple of the Dog, supergrupo criado por Chris Cornell em memória de Andrew Wood, seu grande amigo e ex-colega de quarto. Cornell chamou Gossard e Ament para gravarem ao lado dele e de Matt Cameron, baterista do Soundgarden, algumas músicas que havia composto em homenagem ao falecido vocalista. A dupla levou consigo o guitarrista Mike McCready, com quem trabalhavam na demo de um novo projeto. Esta, por sua vez, foi entregue a Jack Irons, ex-baterista do Red Hot Chili Peppers – eles estavam à procura de músicos para assumir as baquetas e os vocais. Irons não quis se juntar à formação, mas enviou a demo a um amigo que morava em San Diego, frentista de posto de gasolina à noite, vocalista da banda Bad Radio e surfista no resto do tempo. Foi justamente durante uma sessão nas ondas que Eddie Vedder criou as letras para algumas das canções instrumentais presentes na demo. Impressionados com o que ouviram, Gossard e Ament chamaram Vedder até Seattle, onde ele se tornou não só parte do Pearl Jam – completado pelo baterista Dave Krusen -, como também do Temple of the Dog, ao gravar vocais para o álbum homônimo, de 91. No mesmo ano, chegava às lojas o début do Pearl Jam, “Ten”.

O grupo de Vedder seria um dos mais afetados pela superexposição e exploração midiática do grunge. Embora boa parte das bandas da cena se sentisse desconfortável com o sucesso, o Pearl Jam foi aquela que tomou medidas drásticas para contê-lo, ao recusar-se a gravar videoclipes a partir de 93 e fugir de entrevistas e aparições televisivas.

Evitar os holofotes parecia ainda mais difícil para Kurt Cobain, especialmente após seu casamento com Courtney Love, da banda Hole, em 92. O casal logo foi apontado como “Sid e Nancy dos anos 90”, devido ao abuso de drogas.

Nancy e Sid? Não, Courtney e Kurt

Durante as gravações e a turnê de promoção do sucessor de “Nevermind”, “In Utero”, de 93, Cobain sofreu duas overdoses, uma delas devido à mistura de champanhe e remédios, naquilo que seria, segundo Love, sua primeira tentativa de acabar com a própria vida. Em 94, acatando o desejo da esposa e de amigos, ele se internou em um centro de reabilitação em Los Angeles, apenas para, dias depois, fugir e voltar secretamente para Seattle. Algum tempo se passou sem que ninguém tivesse pistas sobre seu paradeiro. No dia 8 de abril, o corpo de Cobain foi encontrado em sua casa no Lago Washington. O músico havia cometido suicídio com um tiro na cabeça, três dias antes. Em seu bilhete de despedida, ele deixava claro que perdera o prazer em criar música, que se sentia acabado enquanto artista e incomodado com sua posição de astro do rock. Simplesmente não seria capaz de enganar os fãs, e, assim, parafraseando Neil Young, era “melhor queimar do que se apagar aos poucos”.

Cobain, mais um astro do rock morto aos 27 anos

Longe de se apagar, a arte de Kurt Cobain tornou-se ainda mais influente após sua morte. Para o bem ou para o mal, o consequente fim do Nirvana não sepultou o grunge, e o termo, que já abrigava bandas como as californianas L7…

… Stone Temple Pilots…

… e o próprio Hole, de Love – que tivera seu álbum “Live Through This” lançado quatro dias após a descoberta da morte de Cobain…

Há quem jure que Cobain compôs este álbum inteirinho pra patroa

… seria aplicado também aos ingleses do Bush…

… e aos australianos adolescentes do Silverchair.

Ainda em 94, declinando de vários convites para juntar-se a outras bandas, Dave Grohl entrou em estúdio com uma grande quantidade de músicas que havia composto enquanto esteve no Nirvana. Grohl gravou todos os vocais e praticamente toda a parte instrumental sob o pseudônimo Foo Fighters, e então começou a montar uma banda real. Para o baixo e a bateria, ele recrutou, respectivamente, Nate Mendel e William Goldsmith, do recém-extinto Sunny Day Real Estate, de Seattle, e, para a guitarra base, Pat Smear, que integrara o Nirvana a partir de 93. Em 95, o Foo Fighters lançava seu primeiro e homônimo álbum.

A massiva exploração comercial do “som de Seattle” continuaria controversa, com alguns clamando que ela fora responsável pela destruição da cena alternativa, e outros, que fora necessária para agitar a repetitiva indústria musical. Porém, a única certeza era que, dali em diante, não existiriam mais certezas no mundo pop.

No próximo capítulo: Lado B, lado A.

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