“One Hot Minute”, nada antes, nem depois

Se, em 1995, você fosse um adolescente altamente impressionável como eu, ao terminar de assistir ao videoclipe de “Warped”, primeiro single do álbum “One Hot Minute” do Red Hot Chili Peppers, você imediatamente iria querer: colocar um piercing em cada mamilo como Dave Navarro; ter aquele visual rocker-gótico do Dave Navarro; e tocar guitarra diabolicamente como Dave Navarro. Não, eu não quis beijar o vocalista Anthony Kiedis na boca como Dave Navarro ao final do clipe. Mas nada contra. Afinal, essa ambiguidade sexual, provavelmente mais pra molecagem do que pra ativismo gay, era apenas uma das facetas daquilo que, mais do que tudo, os Chili Peppers sempre representaram pra mim: liberdade. Eram quatro moleques criados no paraíso americano do sol, do surfe, do skate e de um rock mais “up” do que o praticado na Costa Leste, que aparentemente passavam as 24 horas do dia sem camiseta (às vezes só de meia), mostrando suas tatuagens pouco convencionais (o encarte de “Blood Sugar Sex Magik” não me deixa mentir), transando feito coelhos possuídos por Michael Douglas e mandando ver uma paulada sonora que era um cruzamento muito especial entre Funkadelic e punk rock.

Claro que existiam sombras no paraíso. E, embora elas tivessem se tornado visíveis para o público com a morte do guitarrista Hillel Slovak em 1988 e com os vai-e-voltas de Kiedis e John Frusciante (substituto de Slovak) do mundo da heroína (Frusciante foi mesmo, e só voltou depois de muitos dentes, quilos e respeito próprio perdidos), musicalmente elas só se manifestaram em “One Hot Minute”. O álbum vinha após um hiato de quatro anos, desde o premiadíssimo, multiplatinado, irretocável e funkeado até a medula “Blood Sugar”, e (mais uma) troca de guitarristas, visto que Frusciante, como já dito, tinha outros interesses mais imediatos e intravenosos. A escolha para a vaga mostrou-se, de cara, bem menos natural do que no caso Slovak-Frusciante. Navarro (ex-Jane’s Addiction) era um cara bem mais soturno e esquisitão do que seus novos colegas. E era aí que residia o fator que iria tornar “OHM” um álbum sem precedentes na carreira do RHCP. A banda não fizera nada parecido antes, e nem faria depois. “Californication”, criançada, parece uma tentativa equivocada de dar continuidade aos elementos presentes no álbum de 95. Embora conte com grandes músicas, pegou os tons sombrios e melancólicos de seu antecessor e cobriu completamente o colorido funk. Daí pra frente, o quociente de groove da banda sofreu uma queda que parece irreversível. Triste. Perderam justamente aquilo que os diferenciava da leva grunge da qual são contemporâneos.

Enfim, estamos aqui pra falar de outro álbum, que abre com “Warped”, e por ela a gente já vê o que vem pela frente: introduções faladas, vocais estranhos, mas tudo isso surfando sem dificuldade sobre o tsunami funk-distorcido característico dos rapazes. Segue “Aeroplane”, com seu coral de crianças (a turma do jardim-de-infância da filhinha do Flea), canção que teria seu lugar assegurado caso lançassem uma coletânea só com as músicas mais alto-astral do quarteto. “Deep Kick” – na minha opinião, um dos grandes destaques – abre também com um trecho falado, este, bem mais longo do que na primeira faixa, chuta o pau da barraca com categoria absoluta quando a música começa “de verdade”, e encerra de forma magistral com os vocais emocionantemente desafinados de Flea (que canta também a baladinha fofa-esquizofrênica “Pea”). Verdadeira celebração funk, “One Big Mob”, com seus vocais em uníssono, emula uma festa em alguma tribo perdida. A parte “viajante” dessa faixa, com direito a um choro de boneca, só torna ainda mais poderoso o momento em que a pauleira ataca com tudo de novo. Aí vem “Walkabout”, com sua manemolência – meio samba-rock, até – e… uma cuíca? Ou, pelo menos, a guitarra de Navarro aprontando das suas (a danada só falta falar)! A “sabbathica” faixa-título dá lugar à pérola “Falling Into Grace” (ninguém me convence de que não é a Gal Costa fazendo backing vocals no refrão!), e por aí vai, durante mais de uma hora de audição, que prova que os Red Hot Chili Peppers são, sim, capazes de ser quentes e ardidos mesmo enquanto passeiam por recantos frios e dark. Esse chiaroescuro, claro, precisa ser muito bem dosado, na ponta da agulha (com perdão do trocadilho), ou eles podem acabar como uma banda amaldiçoada com um groove frouxo, que só se sai bem em momentos melancólicos. Mas peraí! Isso já aconteceu! O que não ofusca a inesquecível sequência de álbuns perfeitos que eles soltaram entre “Uplift Mofo Party Plan” e este aqui.

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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4 respostas a “One Hot Minute”, nada antes, nem depois

  1. Berna diz:

    grande Beat!
    Parabéns pela iniciativa!
    abraço

  2. Doélio diz:

    Nunca te perdoarei por não citar Coffee Shop! rsrss
    Muito bom o post, Beat! Disco essencial.
    O blog vai pra frente fácil assim 🙂

    • Marcelo Beat diz:

      Esse é o mal de se lançar um disco perfeito: às vezes uma ou outra música fica pra próxima! Mas concordo plenamente com a sua reinvindicação!

  3. lucas cantino diz:

    liberdade : “i am the power free” – Shallow Be Thy Game

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