Cinema de uma nota só

Semana passada comecei a assistir a um filme nacional que já fazia um tempo que queria ver: “A Máquina”, de João Falcão, produção de 2006 que parte de uma premissa interessante (não vou passar a sinopse aqui, já que o post não é especificamente sobre o filme, mas dêem uma procurada). Pois é, admito que só aguentei a experiência até mais ou menos metade do filme. Percebi que já não tenho mais saco pra esse “lirismo nordestino” que faz os cineastas brasileiros suspirarem. Beleza, “Auto da Compadecida” é muito legal, “Lisbela e o Prisioneiro” também, mas aí vem “O Homem que Desafiou o Diabo” (fujam desse filme como o Diabo da cruz!), e uma infinidade de longas que usam a mesma fórmula da “cidadezinha-perdida-no-sertão-nordestino-e-povoada-por-figuras-exóticas,-cômicas-e-ingênuas-que-falam-rapidinho-e-cheias-de-trejeitos-mas-que-possuem-um-lado-poético-e-encantador-que-faz-com-que-elas-sejam-mais-felizes-do-que-as-pessoas-da-cidade-grande”. Dar um tom de fábula ao cotidiano do sertão pode ser uma boa ideia, mas, depois de 50 filmes nessa linha, eu começo a ter certeza de que as minhas opiniões sobre o protecionismo intelectual brasileiro não são só fruto de alguma má vontade minha para com o cinema nacional. Já ouvi muitas vezes a velha máxima de que o cinema americano só se alimenta dos mesmos clichês. E os filmes brasileiros, não? Por que o malandro de bom coração, a mocinha sonhadora, o prefeito sacana, o padre atrapalhado são menos clichê do que o tira durão, o veterano do Vietnã indestrutível, as líderes de torcida e os capitães de futebol americano que zoam os nerds? Ah, claro, o primeiro grupo “faz parte da nossa cultura”. Tá. Se é assim, o segundo grupo faz parte da cultura americana, também. Ficar colocando na balança a “nossa” cultura e a cultura “deles” é, no mínimo, um bairrismo enjoativo.

Não é de hoje que eu venho batendo na tecla de que o cinema nacional PRECISA virar indústria. Não concorda? Então pense comigo: você sai de casa para ir ao cinema, decidido a ver um filme brazuca. Só que seus gêneros preferidos são terror, ficção científica, ação, policial e suspense. Sinceramente, ou você vai acabar trocando o cineminha por um chopp no boteco, ou vai repensar a decisão de assistir a uma produção nacional e abraçar Hollywood, pela pura falta de opções que fujam da comédia nordestina ou “copacabanense” e do drama de problemática social. O cinema americano é uma indústria? Fabrica filmes feito uma linha de produção da Ford? Com certeza. Mas, por outro lado, democratiza os gostos, abre o leque de um jeito que o cinema brasileiro não faz, talvez por medo, talvez por puro preconceito. As pessoas que mandam na produção cinematográfica nacional acreditam que, se “abrir a porteira”, como dizem no interior, para o cinema de massa, a verdadeira arte será esmagada pelas produções de apelo mais popular. Parecem não perceber que, nos EUA, há espaço pro novo blockbuster do Wil Smith e pro novo drama-existencialista bergmaniano do Woody Allen. Tem pra todo mundo. Em maior e menor número, mas tem. Por aqui, ou se tem a nova comédia do Didi ou a nova análise social do Sérgio Bianchi. O meio-termo entre um e outro não é recheio, mas vácuo. Com música acontece algo parecido. Há muito tempo que a Música Popular Brasileira não é popular. Popular é pagode, axé, sertanejo e funk pancadão. O meio termo entre o complicado e o de fácil assimilação é uma terra de ninguém. E daí, amiguinhos, pra que lado você acha que o ponteiro vai pender? Com cinema está acontecendo a mesma coisa.

Os donos da grana por aqui não investem em uma ficção científica, por exemplo, porque é arriscado. Pode-se ficar tosco (temos profissionais competentes nas áreas de maquiagem e efeitos especiais, mas o público exige do resultado final uma excelência comparável a de Hollywood), e, pior de tudo, se é um filme assumidamente “de massa”, precisa fazer bonito, muito bonito, nas bilheterias. Com os filmes de favela, tanto faz a bilheteria. Tanto faz se alguém se interessará em assistir. Foi feito com dinheiro de edital. Essa falta de obrigação em atrair o público ajuda a criar uma gordura na pança da sétima arte que, como toda barriguinha, começa tímida, e, quando menos se espera, já dominou o corpo. É o que está acontecendo. Não sou contra os editais, mas acho que eles têm que ser apenas uma das primeiras fases do desenvolvimento de uma indústria cinematográfica brazuca. Depois de alguns anos, o governo precisa dar um tapinha na bundinha do nenê e deixar que ele caminhe sozinho. Porém, com esse círculo vicioso, onde só ganham incentivo projetos que emulam o tipo de filme que já vem sendo feito desde os anos 90, a coisa vai ficar ainda por muito tempo estagnada. E nem vou entrar no mérito de que gente do quilate de Walter Salles e Fernando Meirelles AINDA ganham grana do governo pros seus filmes.

Por isso, apesar de tosco, ou talvez por isso mesmo, eu fico feliz com iniciativas como “Os Mutantes”, da Record. Muita gente meteu o pau. É claro que é podreira. Mas tem que se começar por algum lugar, caramba! Quem hoje sai do cinema extasiado por causa de “A Origem” não vê que Hollywood vem fazendo ficção científica desde o cinema mudo. Foram necessárias décadas de discos voadores pendurados por cordinhas e monstros com zíperes nas costas para se chegar à Los Angeles repleta de andróides de “Blade Runner” e à filosofia zen-cyberpunk de “Matrix”.

Não adianta ter uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. É preciso mais do que UMA ideia. Ou você pode acabar fazendo um samba de uma nota só. Como boa parte dos cineastas brasileiros, que vem tentando refazer “Deus e o Diabo na Terra do Sol” até hoje. Eu quero é mais do que uma nota só. E quero mais do que samba. Quero polka, blues, valsa, bolero e baião. Quero poder escolher.

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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6 respostas a Cinema de uma nota só

  1. Ótimo artigo! E é exatamente isso que acontece… e o problema nem é “querer que seja como os efeitos hollywoodianos”, porque temos profissionais desse calibre aqui! Muitos deles, inclusive, são chamados pra lá. Cai também na questão de que os caras querem fazer cenas de computação gráfica com 2 pessoas pagando pouco…. e não é assim que funciona… se quiser evoluir, tem que tirar o escorpião do bolso e dar a cara a tapa!

    E mesmo fora do mérito desse tipo de filme… veja o que o Kevin Smith faz nos filmes dele… é uma fórmula dele em que ele vendeu a coleção de quadrinhos pra rodar Clerks, e que deu certo. Sem dúvidas falta a variedade… chega de sertão com trovadores cômicos, delegacias escuras com delegados rabugentos ou então favela/cadeia… tá na hora de ir pra frente

    Parabens ai! Do caralho!

  2. Pitoco diz:

    Belo post!
    Mas vai dizer que você não curtiu o trocadilho da banda “The Sconhecidos” em “A Máquina”?

    Haha
    Abraços

  3. amelie diz:

    money que é good nóis num have.

  4. amelie diz:

    gostei de ver que fez um blog e vou poder concordar e discutir com vc em 5 linhas. ahahahha
    agora o chicote tá estalando nas minhas costas, mas depois lerei os outros com calma.

  5. Pingback: Top 5 Mais Esperto Q A Maioria Dos Ursos 2010 | Mais Esperto Q A Maioria Dos Ursos

  6. Mônica diz:

    Puxa! Que texto!

    E depois querem que o cinema nacional deslanche. Sua análise foi correta em todas as partes. Queremos mais do cinema nacional, mas parece que eles não se atentam a isso.

    Parabéns pelo blog que eu já sigo através dos posts que recebo por e-mail.
    Abraços

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