Um cara Hanna-Barbera

Algumas pessoas têm me perguntado o porquê do nome do blog. Eu aproveito a curiosidade alheia para parafrasear o grande Luís Thunderbird: “Eu sou um cara Hanna-Barbera”.

Sempre tive a teoria de que, no mundo, há “pessoas Superman” e “pessoas Batman”. “Pessoas Beatles” e “pessoas Stones”. Não que quem gosta de um não possa gostar do outro. Mas sempre se tende mais pra um lado do que pro oposto. Na verdade, não é preciso nem ao menos gostar de qualquer um deles para se encaixar em uma ou outra categoria. Ser uma “pessoa Batman” ou uma “pessoa Beatles” é muito mais um traço psicológico do que fidelidade a um personagem ou uma banda. E não se escolhe qual delas se irá ser. As “pessoas Superman” estão para as “pessoas Beatles” assim como as “pessoas Batman” estão para as “pessoas Stones”. O primeiro tipo possui uma conexão inerente com o lado mais ensolarado, colorido, simples, pop da vida. Elas têm a vantagem (ou não, dependendo da circunstância) de seus objetos de apreço, sejam eles filmes, livros e até comidas, serem os “carros-chefe”, os top de linha em termos de popularidade, os de mais fácil acesso. Não é preciso procurar muito, não é preciso revirar sebos empoeirados e sites obscuros hospedados na Sérvia, para encontrar uma infinidade de material sobre eles. Os seres do segundo tipo, por sua vez, são ligados ao “dark side of the moon”, ao obscuro, ao lado B da vida. Estão sempre à procura do filme de kung-fu chinês estrelado pelo ator que é a cópia da cópia do Bruce Lee (sim, há níveis abaixo de Bruce Li e Bruce Le). Querem porque querem a demo da banda que aquele músico punk, que já não é muito conhecido, teve no colegial. Derretem-se quando um super-herói semi-anônimo da DC aparece em dois quadrinhos de alguma “Crise” (e juram que a participação dele foi definitiva pra trama). Têm um pôster do Godines em cima da cama.

Seguindo esse raciocínio, posso dizer que existem as “pessoas Disney” e as “pessoas Hanna-Barbera”. E se você não sabe direito do que estou falando (não no caso da Disney, a não ser que você tenha sofrido um acidente ONTEM e esteja padecendo, amnésico, em um hospital no lado mais comunista da China comunista), basta comparar uma animação do Pateta com uma do Pepe Legal. E você vai entender a diferença. Estetica e ideologicamente.

A Hanna-Barbera já foi chamada de “a General Motors da animação”. Isso porque seus criadores, os saudosos William Hanna e Joseph Barbera, descobriram cedo, logo ali, no final dos anos 50, o potencial de um veículo chamado televisão. A dupla vinha de trabalhos para a MGM (onde criaram Tom & Jerry), animações feitas para o cinema, exibidas antes dos longa-metragens. O nível de sofisticação dessas animações, dado o orçamento disponível e o prazo para produção, era, e é, ainda hoje, impressionante. E foi exatamente por isso que elas entraram em decadência, até praticamente desaparecerem. Os grandes estúdios não queriam mais bancar seus setores de desenhos animados, e começaram a despedir verdadeiros gênios da comédia. H&B, então, desenvolveram técnicas de animação que barateavam enormemente o produto final, e passaram a criar diretamente para a tevê, que impunha orçamentos apertados e um ritmo de linha de montagem. Os dois pensaram: “pra que criar dezenas de cenários de fundo pras cenas em que os personagens estão caminhando ou correndo? Vamos criar um ou dois e ficar repetindo-os!” Se você prestar atenção, o Dom Pixote está sempre passando diante da mesma sequência de casinhas. “Pra que animar o personagem inteiro? Vamos mexer só o que interessa.” Assim, os personagens, quando estavam falando, mexiam só a boca, um dos braços e, no máximo, piscavam a cada meio-minuto. Picaretagem? Genialidade.

E, realmente, o movimento era o de menos. A força dos personagens HB residia nas falas, repletas de jargões, e nos efeitos sonoros, tão marcantes que você provavelmente já ouviu muitos, só não sabe que foram desenvolvidos pelos estúdios da dupla, haja vista que mesmo animações de outros estúdios ainda hoje se utilizam deles.

Falando nas falas, o humor desses personagens era incomparavelmente mais ácido e sarcástico do que o dos personagens Disney. E, enquanto Mickey & cia. levavam vidas regradas, dentro do american way of life, o universo HB era povoado por figuras maltrapilhas, andarilhos errantes, malandros de beco. Párias do mundo da tinta no celulóide. Enquanto Disney transformava seus ratos e patos em criaturas estéreis, que jamais geravam filhos, apenas sobrinhos, a fim de evitar qualquer alusão à sexualidade, no mundo HB, lá estavam Bibo Pai e Bobi Filho, um feliz núcleo familiar, e – escândalo dos escândalos – sem mãe! Bibo deve ter sido o primeiro pai solteiro da ficção infanto-juvenil.

Por esses motivos, o visual mais quadradão e anguloso e a animação limitada da HB não depreciavam o produto, pelo contrário, combinavam com a existência mais áspera dos personagens. Assim como as orelhas redondinhas e os olhos grandões e brilhantes da Disney combinavam com sua filosofia asséptica, moralista e cheia de não-me-toques.

O resultado de tudo isso foi que, em poucos anos, a HB passou a dominar o célebre Saturday morning (faixa de horário, nos EUA, dedicada principalmente aos desenhos animados). Mas isso não bastava. William e Joseph sabiam que havia outros terrenos a serem conquistados. Mais do que isso, foram os primeiros a perceber que não eram somente as crianças que adoravam ver um desenho animado…

No próximo capítulo: neanderthais no horário nobre, esses (muitos) garotos intrometidos e seu(s) cachorros, Alex Toth e os super-heróis, e muito mais, neste mesmo blog! Não percam!

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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