Um cara Hanna-Barbera, parte 2

Como vocês viram no último post, as animações da Hanna-Barbera já haviam dominado a faixa matinal nos sábados da tevê americana. Porém, visualizando com algumas décadas de vantagem o que hoje todo produtor de animação está careca de saber, a dupla resolveu atender à demanda de uma audiência adulta. Inspirados pelas sitcoms de famílias disfuncionais, em especial uma intitulada “The Honeymooners”, H&B criaram a primeira animação a ir ao ar durante o primetime, o horário nobre nos EUA. “Os Flintstones” estrearam em 1960, e logo conquistaram uma fatia considerável da audiência, abrindo as portas para outras criações do estúdio, como “Os Jetsons” e “Manda-Chuva”, também exibidas no primetime. Disney deve ter arrancado os cabelos ao ver personagens de animação de sexos opostos dormindo juntos na mesma cama. Afinal, Fred (com Wilma) e Barney (com Betty) foram os primeiros a fazer isso em um cartoon. E ainda tiveram a audácia de serem pais em temporadas posteriores! É, criançada, se hoje vocês podem exibir orgulhosos sua coleção de 112 DVDs dos Simpsons na prateleira da sala, agradeçam aos pioneiros de Bedrock, mesmo que para vocês eles pareçam realmente da Idade da Pedra. A título de curiosidade: as duas primeiras temporadas de “Os Flintstones” foram patrocinadas pela marca de cigarros Winston, com os personagens, inclusive, estrelando comerciais do estoura-pulmão, em que davam suas “relaxantes” tragadas. Tipo de coisa que seria exorcizada da mídia hoje em dia, mas que na época era tão comum e inofensiva quanto os cigarrinhos de chocolate da caixinha vermelha que a criançada adorava. Se Disney arrancou o restante dos cabelos ao ver a propaganda? Não. Tio Walt também já havia aprontado das suas no terreno do politicamente incorreto, principalmente durante a Segunda Guerra, quando, sob encomenda do governo americano, utilizara seus mais famosos personagens em animações que ridicularizavam não só os Hitlers e Mussolinis da vida, mas generalizavam todos os alemães como nazistas e todos os japoneses como criaturas com dentes de rato. Claro que ele levou uma boa grana nisso, mas não deve ter sido a motivação principal, já que Disney era nacionalista cego, chapa do Macarthismo, e chegou a dedurar vários de seus desafetos como supostos comunistas. Não que isso limpe a barra de Fred e Barney e seus Winstons. É só pra mostrar que os tempos mudam, as consciências se abrem, e muitas das aberrações sociais do passado ficam eternamente gravadas nas manifestações artístico-culturais. Sorte nossa. Bem, se você já tem idade pra discernir o certo do errado, pode ver o comercial da Winston aqui: http://www.youtube.com/watch?v=NAExoSozc2c

HB também se aventurou, literalmente, pelas séries de ação e super-heróis. Animações como “Jonny Quest”, “Herculóides”, “Space Ghost”, “Homem-Pássaro”, “O Jovem Sansão”, e por aí vai, eram bem mais sérias do que os desenhos de animais falantes que fizeram a fama do estúdio. Não que uma ou outra não contasse com um mascote engraçadinho e atrapalhado, mas o negócio aqui eram heróis uniformizados, monstrengos espaciais e coisas do tipo. As histórias, hoje em dia, parecem simplistas e ingênuas. Os heróis não possuem motivação alguma, às vezes estão apenas passeando de lambreta por uma estrada quando – oh-oh! – se deparam com uma ameaça à humanidade. Mas, fala a verdade, pelo menos “Herculóides” daria um filme pra cinema bem legal! Até porque o visual desses desenhos são muito bons. Cortesia, em grande parte, de ninguém menos que Alex Toth. Esse desenhista trabalhou para a DC Comics na Era de Ouro dos quadrinhos, desenhando personagens como Lanterna Verde, Flash, entre outros. Seu traço é refinado, simples mas muito marcante. Ele fez uma grande carreira na HB, com seus uniformes legais, criaturas bizarras e heróis com queixos meio quadrados que, na minha opinião, influenciaram bastante as animações “queixudas” da DC a partir dos anos 90. Porém, acima de tudo isso, seu trabalho na série “Superamigos”, onde ele pôde trabalhar com os maiorais da Liga da Justiça, talvez seja o mais reconhecido, tempo e espaço afora.

Aquaman: no traço de Alex Toth não dá pra chamá-lo de "patinho feio" da Liga

Toth humilhando

Claro que nem tudo são flores, e aquelas chatíssimas associações de pais e mães mal-amados dos EUA começaram a fazer campanha contra a “violência exagerada” dessas animações. Vê se pode! Eles deviam era ir assistir a um “Akira” pra terem logo um ataque cardíaco…

Super-heróis proibidos, a HB não se fez de rogada, e lançou, em 1969, outra grande sacada, a série “Scooby-Doo, Where Are You!”, que misturava personagens animais falantes com personagens humanos. O desenho era um cruzamento de “The Archies” com filmes de terror, e mostrava uma turma de jovens e seu cachorro às voltas com vampiros, lobisomens, múmias e outras monstruosidades, que – a fim de evitar nova encheção de saco dos pais alertas da América – provocavam mais risos do que calafrios. A fórmula deu tão certo que a HB começou a se auto-referenciar (plagiar?) com a velocidade da reprodução das amebas. Logo vieram “Fantasminha Legal”, “Speed Buggy”, “Tutubarão”, todos com suas turminhas adolescentes e algum mascote atrapalhado viajando por aí em um veículo transado e desvendando crimes. A maioria é legal, apesar de serem variações sobre o mesmo tema. Embora haja duas séries do estilo que são as minhas preferidas, talvez até mais interessantes que “Scooby-Doo”: “Goober e os Caçadores de Fantasmas” (o melhor mascote!) e “Clue Club” (2 mascotes ao invés de um!).

No universo HB também rolavam uns crossovers entre personagens. “A Arca do Zé Colméia” contava com uma porrada de figurões, como Dom Pixote, Leão da Montanha, Pepe Legal… E sempre rolavam uns ensinamentos dentro de cada episódio. Justiça seja feita, não é só a Disney que sofre de moralismo agudo. Apesar de que, no fundo, a gente sabe que aqueles personagens estavam pouco se lixando pra moral e os bons costumes. Eram todos uns perdedores, marginais, ferrados da sociedade cartooniana, que, lá no fundo da arca voadora, deviam era rolar de rir do Mickey, que nunca iria faturar a Minnie, a não ser que ela desistisse do sonho de ser mãe. Ou tia.

Esses caras eram Hanna-Barbera até o fim.

Ah, e se você continua sem saber o porquê do título do blog, procure uns episódios do Zé Colméia. Pois um urso que usa chapéu e gravata verdes é alguém a ser respeitado.

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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Uma resposta a Um cara Hanna-Barbera, parte 2

  1. Alexandre diz:

    Sabe, Marcelo. Quanto mais eu me informo sobre Disney e sua obra, não dá para deixar de admirar ainda mais a obra e o universo Hanna-Barbera. Disney costumava se gabar: “Tudo começou com um ratinho”, que por sinal, além de ele não ter tido competência para “criá-lo” sozinho, não passava de uma cópia do Oswald, o coelho sortudo, criação de Walter Lantz que o Sr. Disney usurparia anos mais tarde, e que por sua vez, foi também uma cópia do (pasme) Gato Félix! Isso mesmo! Ao contrário do plágio, o império HB começou com um gato que um dia se chamou Jasper e que vivia atrás de um ratinho sem nome (você sabe quem são), e, embora a rivalidade gato e rato fosse velha, Hanna e Barbera encontraram, como você disse, Marcelo, inúmeras variações para um mesmo tema. Gostei do seu blog, Marcelo. Parabéns.

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