Greg Dulli e o soul grunge

Greg Dulli com o Afghan Whigs: nada como um cigarrinho depois. De tocar

Nos anos 90, quando o indie se chamava rock alternativo ou college rock e as bandas aprendiam a fazer música antes de aprenderem a se pentear e se vestir, os videoclipes de uma banda chamada Afghan Whigs, composta por caras, por sua vez, mais bem-vestidos do que seus pares grunge, embora fazendo um som basicamente na mesma praia, começaram a chamar a atenção, principalmente no programa Lado B, da MTV. Bom, chamaram a minha atenção, pelo menos. Os videoclipes “Debonair” e “Gentlemen”, juntamente com “She Don’t Use Jelly”, do Flaming Lips, e mais um punhado de hits underground, foram as minhas portas de entrada em uma camada desconhecida da música atual (atual naquela época). A partir daí, o Lado B passou a ser meu ponto de referência para descobrir música boa. Lembrem-se que eram hard times, uma era sem internet (ainda que com uma MTV bem melhor), e eu morava em uma cidade onde as rádios e lojas de disco descobriram o Nirvana por volta de 95.

Corte para julho de 2009. Estou no Bourbon Street, em São Paulo, numa noite com Mark Lanegan e Greg Dulli – sem viadagem; esse era exatamente o nome do show: An Evening with Mark Lanegan and Greg Dulli.  Lanegan e Dulli, dois dos caras mais ficha-limpa do rock mundial. O primeiro já havia cantado no Screaming Trees, Queens of the Stone Age, Soulsavers, e em dupla com Isobel Campbell (Belle & Sebastian), além de contar com uma respeitadíssima carreira solo. É dono de uma voz tão poderosa que, na cena de Seattle, berço de cantores do calibre de Chris Cornell e Eddie Vedder, é chamado de “a garganta dourada”. O outro cara, Dulli, vinha passando por ótimos grupos como Twilight Singers e Gutter Twins (que formou com Lanegan). Fora honrado como um dos membros da banda/realeza The Backbeat Band – ao lado de músicos do R.E.M., Nirvana e Sonic Youth -, que gravou a trilha sonora de “Os Cinco Garotos de Liverpool”. E havia sido o vocalista do Afghan Whigs. O show foi histórico por, no mínimo, quatro motivos: a dupla em si; que, por sua vez, se apresentou não como Gutter Twins, com banda e tudo, mas com apenas um guitarrista, no violão. Porque a apresentação foi acústica. Voz, violão, piano; e foi pra pouca gente – pelo tamanho do Bourbon Street não poderia ser diferente; e, no Brasil, fizeram um único show. Cinco motivos: o set list cobriu, de forma brilhante, a carreira dos dois músicos, que ainda meteram de lambuja vários covers.

Greg Dulli (que está cada vez mais parecido com James Belushi) comprovou que é um dos músicos/compositores/band leaders mais legais, e, por que não, subestimados dos últimos vinte anos. É um cara que começou no final dos anos 80, no Afghan Whigs, fazendo um rock sujo, distorcido, tão grunge (sempre acreditei que esse rótulo serve mais pra designar um estilo de se vestir do que de tocar, mas acho que hoje em dia ele já é suficiente para dar uma ideia do som a que me refiro), que mereceu ser gravado pelo selo Sub Pop, de Seattle. Até o álbum “Congregation”, de 91, essa era a pegada da banda. E já era boa. No “Gentlemen”, de 93, a coisa começa a mudar de figura (e de figurino). Guitarras pesadas e distorcidas: confere. Vocais gritados: confere. Black music: opa! É, esse álbum marca o início do namoro entre o grunge do começo de carreira e as levadas soul-funk herdadas dos heróis de Dulli, como Marvin Gaye, Ottis Redding e todos os operários da Motown. Falando em namoro, a sexualidade, algo inerente ao “som de negão”, é um elemento constante no ritmo e nas letras, e o instrumental passa, se não por um banho, ao menos por um perfuminho, que o deixa mais refinado. Faixas inesquecíveis como “Debonair”, “What Jail is Like”, “Be Sweet”, “My Curse” e a canção-título são carregadas de guitarras marcantes – cortesia do ótimo Rick McCollum, um guitar hero esquecido da década passada -, refrões ganchudos, e um permanente tom sombrio que faz com que você, mulher, não saiba se Dulli vai tentar te levar pro motel mais caro da cidade ou pra uma rapidinha num beco escuro. No álbum seguinte, “Black Love” (96), a coisa segue nessa toada, mas o fator black, como o título já entrega, é ainda mais enfatizado. Eles ficam menos sujos e mais “elegantes”, como dá para conferir em “Faded” e “Night by Candlelight”. Mas as guitarras continuam apitando em “My Enemy”, “Blame, Etc.” e “Honky’s Ladder” (talvez minha preferida de toda a carreira da banda). Dessas duas correntes, emerge a emocionante “Summer’s Kiss”. Difícil é saber qual disco é melhor: este ou o anterior. Se você já estiver atormentado pela dúvida, coloque na balança ainda “1965” (98), o álbum de despedida. Neste, você já vai estar chamando Dulli de Reverendo, e desejando que toda banda de rock faça um estágio em corais gospel e botecos do Harlem. Ele abre com “Somethin’ Hot” te acertando na cara. Mais pra frente, “Sweet Son of a Bitch”, uma vinhetinha com sons de rala-e-rola, como já diria o Faustão, entrega o que vem depois. E, acreditem, garotos, se a sua cópia de “Let’s Get it On” já estiver furada, podem colocar esse álbum pra rolar, que, com ele e uma garrafa de vinho, a noite está garantida. Os metais malandros de “Omerta” e “The Vampire Lanois” não me deixam mentir. Nem o refrão inesquecível de “Citi Soleil” e a melodia irresistível de “Neglekted”. “1965” é o disco com mais mojo do Afghan Whigs. Soul até a alma.

Nessa altura do campeonato, Greg Dulli já havia feito tudo o que queria fazer com sua banda mais clássica. Mas ainda tinha tanta música boa na cabeça, que logo vieram o Twilight Singers, um álbum solo e a parceria com seu gêmeo de sarjeta, Lanegan. Tipo de coisa que é só pra quem pode mesmo.

Volta para julho de 2009. O show de Dulli e Lanegan termina. Todo mundo feliz e satisfeito. Mas ambos retornam ao palco. Não pra outro bis. Pra distribuir autógrafos e trocar umas palavrinhas com o público. E eu, que nunca fui muito de ansiar por uma assinatura dos meus ídolos em um pedaço de papel, fui lá pegar o meu. Vai saber quando o Reverendo irá me abençoar com outro milagre desses.

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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