5 filmes de polícia e ladrão

Confessem. Vocês gostam de uma listinha, que eu sei. Assim como Rob Fleming, não vivem sem um “Os 10 + Alguma Coisa”. Não precisa nem ser um Top 100. Um “5 Melhores” já tá valendo, só pra dar uma alimentada no vício. Sendo assim, de tempos em tempos, me dedicarei a essa tão canônica atividade organizacional humana.

Nesta estreia, relacionei 5 grandes filmes de polícia e bandido, nos quais (e só me dei conta disso depois da lista pronta) a fronteira entre uma categoria e outra são bastante borradas, quando não inexistentes.

Os filmes não estão na ordem de preferência. Nem levam em conta os méritos artísticos tanto quanto o grau atingido no “arrepiômetro”, como diria Fábio Massari. Então, vamos a eles:

“Os Infiltrados” (“The Departed”), 2006. De Martin Scorsese

É Scorsese de volta à selva. À sujeira das ruas. E, na minha opinião, nenhum cineasta retrata tão bem o wild side quanto ele. Remake de “Infernal Affairs”, uma produção de Honk Kong (procurem, e descubram que o cinema de lá não vive só de John Woo). A história não sofreu tantas alterações quanto se poderia esperar. Mas, com certeza, a saga do policial (Di Caprio) infiltrado entre os gângsteres e do gângster (Matt Dammon) levando uma vida dupla como um respeitado policial ganhou em complexidade, tanto psicológica quanto narrativa, e atuações. Se você imaginava que Jack Nicholson jamais poderia parecer tão insano quanto em “O Iluminado”, dê uma conferida na cena em que ele surge em seu bar com o corpo sujo de sangue, os cabelos eriçados feito um super-sayajin e um olhar ao mesmo tempo vago e maquiavélico. E, além de tudo isso, tem a cena de Martin Sheen no telhado do prédio. Tenso.

“Chuva Negra” (“Black Rain”), 1989. De Ridley Scott

Se me perguntarem qual o melhor filme de Ridley Scott, direi “Blade Runner”. Se me perguntarem qual o filme de Ridley Scott que mais gosto, aí é “Chuva Negra”. Não dá pra negar que “Blade Runner” é um filme inigualável. Mas este me pegou pela gola da camisa e me jogou em um Japão que… bem, que é muito Japão. Metrópoles futuristas onde algumas pessoas ainda andam de quimono, mafiosos de corpos tatuados que, embora possam parecer uma gota de tumulto e rebeldia no mar plácido da sociedade nipônica, seguem um código de conduta tão rígido quanto o dos antigos samurais, e o velho choque cultural Ocidente/Oriente, aqui, literalmente sentido na pele pela dupla de tiras americanos (Michael Douglas e Andy Garcia) que escolta o cínico e assustador yakuza Sato (Yusaku Matsuda) até Osaka. No aeroporto mesmo o meliante escapa, e os dois têm que recapturá-lo, trabalhando junto com a polícia japonesa, o que não será nada fácil, já que o personagem de Douglas aparentemente tem um jeitinho bem brasileiro, ops, americano de lidar com questões éticas. Ponto alto: Garcia encurralado pelos motoqueiros yakuzas em uma garagem. Veja como Scott segura o tom de brincadeira estúpida até ficar insuportável, e comece a amar este filme.

Tropa de Elite, 2007. De José Padilha

Um dos grandes filmes brazucas de todos os tempos, é, sim, do gênero policial até a medula, embora as “cabeças pensantes” do país prefiram catalogá-lo como “drama de denúncia social”. Como se uma coisa excluísse a outra. Alguém poderia levá-los até uma locadora para mostrar que dá pra encher algumas sacolas com filmes inteligentes, socialmente relevantes e protagonizados por heróis de ação casca-grossa como o Capitão Nascimento (Wagner Moura). Herói? Eis a grande pergunta do filme. Nele, um bambambã do BOPE que está explodindo aos poucos devido ao estresse do trabalho, à corrupção/burocracia/indulgência dos órgãos mantenedores da lei e à linha cada vez mais tênue entre traficante e consumidor, precisa desesperadamente encontrar um maluco para substituí-lo. Fascista para uns, rico em ironia para outros, “Tropa” pode até ter surtido, em algumas cabecinhas não tão pensantes, o efeito contrário daquele desejado pelos realizadores, mas uma coisa é certa: o debate gerado por ele abrangeu da pirataria da cultura até a cultura do “atirar primeiro e perguntar depois”. Sem contar que cravou frases e personagens no imaginário popular como poucas produções brasileiras haviam feito. E este ano – outro fato pouco comum por aqui – tem sequência. O que virá depois de “Na cara, não”?

“Dia de Treinamento” (“Training Day”), 2001. De Antoine Fuqua

Até quando pede uma Caninha 51 no balcão do boteco, Denzel Washington é indicado ao Oscar. Com este filme não foi diferente. Ele levou o careca dourado pra casa por ter dado vida ao policial esperto (com “s” de carioca), malandro, que conhece bem as ruas. Mais até do que é saudável para a integridade de um agente da lei. Ao ganhar a companhia de um novo parceiro (Ethan Hawke), ele dá início a uma jornada ao inferno das negociatas, das cifras milionárias do tráfico de drogas, do balé corporativo e cooperativo onde quem não dança conforme a música está fadado a sair de cena, e, no processo, vai demolindo toda a concepção do ofício de policial de seu “aprendiz”. Acho que, além de “Cidade de Deus”, só este filme fez com que eu me sentisse realmente no seio de uma comunidade onde o crime se infiltra em cada aspecto do cotidiano. Ponto alto: Hawke sendo abandonado por Washington na casa de uns hispânicos que têm uma ideia muito particular do que é levar outro alguém pra banheira.

“Justiça Cega” (“Internal Affairs”), 1990. De Mike Figgis

Ser o tira que investiga outros tiras deve tratar-se de uma ocupação tão tranquila e bem-vista quanto a de soldado das forças de ocupação no Iraque. Você sabe que está cercado por todos os lados por pessoas que querem te ver morto. E, a qualquer momento, uma delas irá tentar. Em “Justiça Cega”, essa é a situação do agente da Assuntos Internos (Andy Garcia, de novo) incumbido de investigar as atividades paralelas de um policial veterano (Richard Gere), que, mesmo sempre se destacando no serviço, permanece trabalhando com aquela farda azul-escura dos tiras de rua. Isso porque, dizem as más línguas, seu lucro é muito maior estando em contato direto com o tipo de pessoa que ele deveria prender. A relação quase paternal de Gere com seu parceiro mais jovem (William Baldwin), na verdade, é a cobertura açucarada de um dia-a-dia de traições – tanto morais e éticas quanto conjugais – e violência. Provavelmente o filme mais subestimado da lista. Faz tempo que não o vejo, e talvez guarde dele uma memória mais emocional do que crítica, mas continuo a achá-lo uma história inteligente e impactante, em que vale muito dar uma conferida.

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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