Beatles e os colhões de Pete Townshend

Algum tempo atrás, uma amiga minha, estudante de jornalismo, pediu a um colega meu uma resposta que possui o peso de uma declaração herética, capaz de condenar às chamas da Inquisição musical e social aquele que a proferir. A resposta para a pergunta: “Por que você não gosta dos Beatles?” Como aqueles que estão destinados à fogueira sentem-se menos miseráveis quando levam alguém consigo, meu amigo me incluiu na extensa galeria de, agora comigo, 2 anti-Beatles que dariam a entrevista! Por obra do destino, acabei não participando dela, possibilitando que eu vivesse, ao menos até a publicação deste texto, como um judeu não-convertido – o que, em tempos de Inquisição, é um passo para a fogueira, mas ainda assim o cheiro de carne queimada parece momentaneamente afastado de mim. Porém, fiquei tão frustrado por não poder emitir minha opinião daquela vez que resolvi me manifestar agora.

Não é que eu não goste de Beatles. Até acho legal. Já fui bem mais fã, já ouvi muito os vinis do meu irmão mais velho, então, acreditem, eu sei do que estou falando. Já dei mais valor à fase cabeça do quarteto, depois, às composições da época iê-iê-iê, mais ingênuas e impossíveis de não se guardar na mente através da vida, e, atualmente, se fosse pra escolher, ficaria com um Greatest Hits cobrindo toda a carreira. Melhor ainda, uma coletânea perfeita, uma que deixasse de fora aquelas faixas que tocaram irritantemente, que receberam versões orquestradas, versões MPB, versões no ukulele, que se tornaram, enfim, Beatles pra pessoas que nunca ouviram um disco dos Beatles, que não querem ouvir, e que não fazem muita distinção entre eles e os BeeGees.

Por outro lado, sempre existiu uma abelhinha – na verdade, um zangão – zumbindo no meu ouvido esquerdo, e seu zumbido dizia: “Nós somos melhores que os Beatles”. Esse zangão, capaz de fazer o barulho de toda uma colmeia, atende pelo nome de The Who. Sim, a banda dos mods. Do baterista que virou uma lenda, não só por ser um moleque hiperativo completamente pirado, mas também por ser fantástico com as baquetas em punho. Que, como li em algum lugar, era, em suas melhores noites, a maior banda de rock do mundo ao vivo. A banda que foi o ponto de partida para o Led Zeppelin construir sua imagem como grupo – vai me dizer que o Robert Plant de madeixas douradas e colete jeans aberto e sem camisa não é quase uma reprodução holográfica de Roger Daltrey? Que a formação instrumental superguitarrista-compositor-líder de banda/baterista mastodôntico/baixista caladão não te lembra alguma coisa que veio antes?). O The Who, que, enquanto os olhos do mundo concentravam-se sobre o quarteto de Liverpool e suas experimentações, cravava em um dos lados de seu álbum de 66 uma mini-ópera rock, “A Quick One (While He’s Away)”: intricadas melodias vocais, mudanças de andamento, paisagens sonoras extremamente visuais e um alto teor sexual, enfim, quase uma novela de rádio, terminando com a explosão de barulho que é marca registrada da banda. Que já destruía seus instrumentos no palco antes de Hendrix pensar nisso, e antes de Kurt Cobain nascer.

Agora eu cheguei no(s) ponto(s) que eu queria: complexidade musical em estúdio e performance ao vivo, e como a primeira pode minar, neutralizar, aniquilar a segunda. O Who vinha fazendo músicas complicadas, e, depois, álbuns complicados, desde seus primeiros anos. Depois de “A Quick One” veio “The Who Sell Out”, marco (um dos primeiros) da psicodelia e dos álbuns conceituais, “Tommy” (não preciso nem dizer), e, mais pra frente, “Quadrophenia”, outra ópera rock. Nunca abriram mão de tocar ao vivo, mesmo as faixas dos álbuns mais “difíceis”. Durante os anos áureos, sempre mantiveram, no palco, a formação básica, sem precisar de uma montanha de músicos de apoio. E jamais pareceram travados: Daltrey continuava rodando o microfone e chicoteando o ar, Pete Townshend, girando o braço sobre a cabeça para então descê-lo com gosto nas cordas da guitarra, John Entwistle continuava caladão e o cara mais cool do mundo, e Keith Moon continuava sendo Keith Moon e não precisava de mais nada.

E os Beatles? Bem, os Beatles não tocavam mais ao vivo. Não subiam em um palco desde que as coisas começaram a ficar complicadas. A desculpa oficial era que as fãs berravam tanto na platéia que eles próprios não conseguiam ouvir o que tocavam. Realmente, pelas gravações da época dava pra se ver – ouvir – que era infernal. Não que os Stones também não passassem por isso. Ou Elvis.

Se cavarmos mais um pouquinho, encontraremos uma razão talvez mais forte: os Fab Four tinham medo de um atentado às suas vidas em pleno palco, desde a polêmica com a frase “Os Beatles são mais populares que Jesus”. Dêem uma pesquisada.

Mas, se cavarmos um pouquinho mais fundo ainda, existe uma última camada de solo. Aquela onde jaz a hipótese de que a banda jamais conseguiria reproduzir em um palco a sonoridade de “Sargent Pepper’s”. A não ser que levassem um batalhão de gente pra ribalta. E olhe lá. Sem diminuir o valor do álbum de 67, o melhor do mundo pra quase o mundo inteiro, mas, quando se faz parte da mais bem-sucedida banda de todos os tempos, e se tem acesso a melhor tecnologia da época, e se tem um mago como George Martin comandando as gravações, grandes músicos conseguem fazer muita coisa. Só não dava mesmo era pra passar com esse elefante branco ornamentado pela porta do estúdio. Muito menos levá-lo pra cima de um palco.

Pronto. Eu sei que, depois de tudo isso, os inquisidores logo estarão em meu encalço. Mas, na vida, é preciso ter colhões, não é? Pete Townshend e cia. sempre souberam muito bem disso.

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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8 respostas a Beatles e os colhões de Pete Townshend

  1. Felipe (Oasis) diz:

    Do caralho seu texto, cara, especialmente a “defesa” ao Who. Vou tirar a poeira do meu “Live at Leeds” e dar play agora.
    Sobre os Beatles ao vivo, acho que o buraco é mais embaixo. Na superfície, a história dos berros das meninas; lá no fundo, as paranóias do Lennon (“I need a fix cause I’m going down”, um ano depois), a maconha na vida do McCartney, a Índia na vida do George e a ideia de “um disco que fizesse a turnê no lugar da banda”. A história dá muito pano pra manga. Sobre toda essas baboseiras e muito mais, recomendo o livro do mestre Clinton Heylin – http://is.gd/f9s1h – uma das melhores leituras musicais da minha vida.
    Parabéns, abraço e eterno salve a Greg Dulli

  2. Bulhões diz:

    Beat, meu velho, acho que você está fadado a ficar se justificando sobre esse tema até o fim dos seus dias..

    O pior é que fico com a impressão de que quem é fã do The Who meio que “despreza” os Beatles. Tenho um outro amigo que pensa igualzinho.

    E os estudos de guitarra, como vão?

  3. Andarilho diz:

    Ótimo texto! Bacana ver opiniões diferentes entre duas bandas que dividiam o mesmo período. Como disse o grande Oasis acima, o buraco é mais embaixo sobre os Beatles ao vivo, mas um fato importante é que eles eram praticamente obrigados à tocar sempre as mesmas grudantes músicas Lado A. Como disse Philip Normam no livro “John Lennon – A Vida”, pra quem andava formando canções do naipe de “A Day In The Life” e “Tomorrow Never Knows” era inaceitável tocar “She Loves You” pela enésima vez num show. Curto o Who bastante mas como sou beatlemaníaco deixo aqui uma saudável provocação: se Keith Moon segurava a baqueta do jeito que segurou, foi certamente influçencia do Ringo Starr 😉
    Abraços e parabéns pelo texto!

  4. Pingback: Top 5 Mais Esperto Q A Maioria Dos Ursos 2010 | Mais Esperto Q A Maioria Dos Ursos

  5. Lucas (Falso Pancada!!) diz:

    Ainda não tinha lido esse post, resolvi entrar no lance da retrospectiva!

    Excelente post, muito bem embasada a defesa do Who!

    Pra acirrar a disputa fica a pergunta: Quem tem os melhores filmes? Who ou Beatles? Apesar de beatlemaníaco, acho que os culhões do Who também estão na ousadia de um Quadrophenia do que na ingenuidade de um Hard Days Night!

    Grande abraço e – pela segunda vez nos comentários – eterno salve a Greg Dulli, que tá saindo aqui dos fones de ouvido!

    • Quanto aos filmes, sou The Who sem pestanejar! Dos Beatles vi A Hard Day’s Night com muito custo, e achei uma droga. Por outro lado, Tommy, do Who, é animal!!
      Agora, desviando um pouco de assunto pra filmes q não foram necessariamente ideia das bandas, o documentário The Kids Are Alright, do Who, é uma das melhores coisas na história dos docs musicais! E Anthology, dos Beatles, tmbm é sensacional! O problema é q há dezenas de docs sobre os Beatles, e muitos caça-níqueis entre eles…
      E salve Dulli, sempre!

  6. Lucas (Falso Pancada!!) diz:

    Ainda não vi esse doc do Who, preciso dar uma olhada. Acho Quadrophenia uma obra genial, a trilha do Who tá grandiosa, a história é muito bacana, até o Sting – de terninho – como líder dos Mods tá sensacional!

  7. Texto bem escrito. O Who tinha atitude rock, o que era ótimo. Mas pete Towshend jamais poderá negar a influência dos Beatles em tudo o que o Who fez. E desejo salientar que os estúdios da Abbey Road estavam longe de ser a melhor tecnologia da época. Eles, os Beatles, principalmente John Lennon e Paul McCartney imaginavam sonoridades, e junto com os engenheiros de som ‘inventavam’ um modo totalmente artesanal de produzir o som que queriam. Os melhores estúdios estavam em L.A. e é por isso que os Stones iam gravar lá, porque já tinham tecnologia de ponta. Era quase um milagre os Beatles conseguirem produzir o som que desejavam com o que oferecia Abbey Road. Foram eles também que mostraram aos produtores e donos de gravadora que só pensavam no mercado e aos outros roqueiros quem mandava. Eles abriram o mercado que foi preenchido ávidamente para a alegria de todos nós, que nos regozijamos com a vasta produção musical que os anos 60 produziu, e o que veio a seguir.

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