Filosófico pra cachorro

Este bem podia ser o título de um filme da Sessão da Tarde sobre Sócrates ou Jean-Paul Sartre. Felizmente não é. Porém, se existe uma perfeita representação, em quadrinhos, das intempéries filosóficas humanas, esta surgiu no ano de 1950, em “Peanuts”, tiras para os jornais que, mais tarde, migraram para a televisão. Senhoras e senhores, eis o homem, o mito, o perdedor primordial: Charlie Brown.

É uma pena que, atualmente, para alguns brasileiros, o nome “Charlie Brown” traga à mente a banda liderada pelo infame Chorão, que carrega a bandeira dos malandrões, dos pegadores, do skatenaveiatcharroladrão. Não há nada mais distante da persona de Charlie Brown – o original – do que esse estilo de vida. Uma banda com o nome de Charlie Brown Jr. deveria, no mínimo, ser composta por uns caras tímidos, meio shoegazers, tocando músicas com melodias esquisitonas, quase sublimes de tão feias, e parecendo nada à vontade no palco. Pois esse é o garoto careca, cabisbaixo, com crises de ansiedade e não menos constantes ataques de entusiasmo que, invariavelmente, irão se dissipar com um implacável balde de água fria despejado pela vida. Ou com sua amiga, companheira de time e entusiasta do bullying Lucy tirando a bola de football da marca um milésimo de segundo antes dele chutar – o que não deixa de ser uma bela metáfora para os coitos interrompidos existenciais pelos quais todos os sonhadores e todos os otimistas incorrigíveis passam ao longo da vida.

E, pra Charlie Brown, otimismo pouco é bobagem. Ele é o cara que gasta os últimos dias de aula pensando num jeito de aproximar-se de seu objeto de desejo, a Garotinha Ruiva, tomando coragem pra isso, e, frustrada sua intenção por ter planejado demais, imediatamente abre um sorriso ao imaginar que, depois das férias de verão, quando as aulas recomeçarem, ele a verá novamente, e finalmente conversará com ela!

Aliás, o universo dos personagens de Charles M. Schulz (sujeito de atitude, o criador dessa turma teve a coragem de tornar o loser-rei seu xará! Além disso, ambos são filhos de um barbeiro) é repleto de amores não-correspondidos. Tem Lucy, que ama Schroeder, que só ama seu piano e Beethoven; Sally, a irmã sempre à beira de um ataque de nervos de Charlie Brown, que ama seu mais ou menos namoradinho Linus, que, ao menos na época de Natal, só liga pra Grande Abóbora, e, na Páscoa, pro Cachorro da Páscoa (figuras que, na sua mitologia particular e muito original, substituem os hypados Papai Noel e Coelho da Páscoa, respectivamente); e Patty Pimentinha, que ama Charlie Brown (eu acho isso relativamente estranho, pois tenho a mais pura convicção de que a andrógina Patty e sua fiel escudeira Marcie formam um casal. Mas vai saber os efeitos que Charlie Brown pode provocar em tipos menos convencionais de garotas), que ama, claro, a Garotinha Ruiva. Um clássico dos desencontros humanos.

Falando em flertes, chegamos ao beagle de estimação de Charlie Brown, Snoopy, e sua cisão de personalidades. O cachorro – que, em contraste com o dono, é do tipo que se sai bem em quase toda situação – ora encarna o Barão Vermelho, ás da aviação da Primeira Guerra, ora disfarça-se de Joe Cool, que é exatamente o que diz o seu nome. Como Joe Cool, Snoopy tenta viver feito os humanos, principalmente frequentando a mesma escola que a turma. De óculos escuros redondinhos e um moletom, fica encostado na parede perto do bebedouro, com ar blasé, esperando que todos sucumbam ao seu charme – e não o botem pra fora por ser um cão. Na época em que foi criado, Joe Cool constituía uma sátira aos beatniks. Hoje em dia, é indie até o último fio de lã do cachecol.

O que eu listei aí em cima são apenas algumas das características mais ousadas e criativas de uma das maiores criações dos quadrinhos mundiais. Então aproveita que está sendo lançado “The Complete Peanuts” nas livrarias e lojas especializadas em quadrinhos e se esbalde. Pena que as hqs não vêm acompanhadas daquele jazzinho espetacular que é trilha sonora do desenho animado.

Só um aviso: ler ou assistir às aventuras de Charlie Brown e sua turma – que, de aventuras, propriamente ditas, não têm nada – pode provocar em uma criança um trauma para toda a vida. É um chacoalhão que só irá ser sentido anos e anos depois. Talvez quando se estiver viciado em Woody Allen, de pleno acordo com ele sobre a falta de sentido da vida. Ou quando, de repente, se der conta de que, no fundo, os perdedores são muito mais interessantes.

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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