Como é ser a Lady Gaga

Eu já ouvia Lady Gaga em 95, 96. Principalmente na Jovem Pan, enquanto esperava pelo “Sobrinhos do Ataíde”, drops de humor em meio à programação, alguém se lembra?

Pois é. Estava lá, 14 anos atrás, tudo o que Lady Gaga faz hoje. O pop(erô) mequetrefe com centenas de camadas de produção, os manjadíssimos efeitos na voz, as batidas exageradas… Procure por qualquer volume da “7 Melhores da Jovem Pan” na seção de CDs anos 90 de um sebo, compre e confira. Depois jogue fora, claro – a não ser que você queira fazer uma graça com aqueles seus amigos que fazem a rapa quando encontram álbuns do Hadaway, Lou Bega ou Snap a 9,90.

Os músicos presentes nessas coletâneas de dance music eram artistas sem rosto, cantores de aluguel, testas de ferro de produtores tecnocratas, que eram quem geralmente assinava as canções. “Bota os vocais na faixa e passa no caixa” é um lema bem apropriado pra essa estirpe de proxenetas das mesas de mixagem.

A diferença desses combos pra Lady Gaga é que ela deu uma cara pro tipo de som que eles faziam. E um corpo, pra vestir figurinos tresloucados, que renderão algumas semanas de notas nas revistas de celebridades, de moda, e, vejam vocês!, até nas de música. São peças pensadas unicamente pra chocar, mas sempre dentro do aceitável. Contexto? Quando David Bowie, em 72, apresentou ao mundo seu alter ego alien-futurista-rock star Ziggy Stardust, de cabelos laranja arrepiados e um raio cortando um dos lados do rosto, existia toda uma história por trás do personagem, uma história que, por sua vez, dialogava com as faixas do álbum. Quando, poucos anos depois, o Kiss subiu ao palco como verdadeiros super-heróis de quadrinhos, quatro personagens diferentes entre si, existia justificativa. Quando os punks rasgaram suas roupas e encheram-nas de alfinetes, foi um grito de ódio estético contra a pompa da música dominante e a sisudez britânica. Com Lady Gaga, não há nada disso. É só “ei, olhem pra mim, estou vestindo um monte de aquários vazios!” Ou seriam globos de lâmpadas?

Vai ver, nem ela sabe. Retomando o assunto da “cara”, a de Gaga não é exótica como a de Björk. Nem seu corpo tem tanta, digamos, presença quanto o de Beyoncé. Por baixo de todo o figurino, ela é uma garota bem normal. Uma tabula rasa, com a qual dá pra começar do zero. Perfeita pras legiões de estilistas, maquiadores, cabeleireiros, fotógrafos, diretores de videoclipes. E, claro, empresários e produtores.

Estes últimos fizeram com que Gaga e, aproveitando o embalo, o resto do mundo acreditassem que ela é a nova Madonna. Quando, na verdade, daqui a dez anos, será lembrada, no máximo, como uma Cindy Lauper. E não sou só eu que estou dizendo. A cantora MIA declarou, poucos meses atrás, que o som de Lady Gaga é “disco music feita em Ibiza há 20 anos”, e que ela é a última tentativa da indústria musical em se fazer significativa. Disse também que sua música não reflete o quão freak ela pensa que é. Realmente. Consumir Lady Gaga é como comprar uma lata de Coca-Cola desenhada por Salvador Dali. A aparência sugere um mundo de novos sabores, mas, quando se chega ao conteúdo da lata, é o mesmo refrigerante de sempre. Isso, inclusive, é um problema crônico do pop atual. Essa pose fuck off, vanguardista, transgressora, que, quando chega no refrão, desmorona em um chicletão doce, grudento e que não representa perigo nem à dentição infantil. Vide Ke$ha. E, antes que alguém me acuse de não gostar de pop radiofônico, deixe-me dizer que considero Justin Timberlake um sucessor bem digno de Michael Jackson, o Timbaland, um cara que transforma em ouro – ou pelo menos em uma bijuteria das boas – quase tudo que toca, e “Umbrella”, da Rihanna, um clássico contemporâneo.

Dito tudo isso, não sei se a conclusão é a de que Lady Gaga me irrita. No fundo, acho que tenho mesmo é pena dela. Levar a vida de Gaga deve ser como acordar no sofá da sala depois de uma festa-monstro, e descobrir que aqueles caras que você pensa que são seus amigos juntaram garrafas vazias, copos plásticos, bitucas de cigarro, enfim, todo o lixo do lugar, e colocaram em cima de você pra te sacanear. Só que você ainda está chapado demais pra reagir, ou mesmo pra sentir raiva, pra sentir qualquer coisa, afinal. Então apenas continua ali, com um olhar de peixe morto, sem saber quando essa porra de manhã vai terminar.

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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