“Os Mercenários”: nossos heróis ficando velhos

Imagine que você próprio está organizando sua despedida de solteiro. Chama todos seus amigos dos velhos tempos, aqueles que trabalharam com você, aqueles que foram seus sócios em algumas empreitadas bem ou mal sucedidas, os parceiros da academia… Vão passar algumas horas divertidas juntos, relembrar os anos dourados… fazer o que costumavam fazer quando o mundo era mais simples e a sociedade lhes cobrava menos. Nada de mulheres por perto pra atrapalhar, nem mesmo as tradicionais strippers. No máximo, uma e outra garçonete pra servir a cerveja e os petiscos. Agora, imagine que você tem alguns milhões de dólares em caixa pra essa despedida de solteiro descompromissada.

Pois bem, aí está “Os Mercenários” (“The Expendables”), mais recente aventura cinematográfica de Sylvester Stallone, que, como sempre ultimamente, escreveu, dirigiu e estrelou. Mas, ao contrário de “Rocky Balboa” e “Rambo 4”, minha reação inicial ao saber do projeto não foi passar longe das salas de cinema. O elenco! O elenco justificava o entusiasmo, o ingresso, qualquer orçamento gigantesco que Sly pudesse explodir! Era ele, Jet Li, Dolph Lundgren, Schwarzenegger, Bruce Willis, e, de lambuja, o caçula – na verdade, mais pra filho único dessa geração de astros de ação -, Jason Statham. Se você não sabe quem são todos esses caras é porque, infelizmente, perdeu uma das épocas mais divertidas do cinema. E é nessa época, toda a década de 80 e boa parte dos anos 90, que o filme se desenrola. Não oficialmente, no roteiro, mas no sentimento que ele resgata.

Os anos 70 tiveram seus astros de ação: Clint Eastwood, Charles Bronson, Burt Reynolds, Bruce Lee, Steve McQueen… Mas foram os 80 que assistiram à ascensão da “realeza”. Schwarzenegger é, dentre os reis da pancadaria da década, talvez o que possui o melhor currículo cinematográfico: “O Predador”, “True Lies”, os dois “Conan”, e, no mínimo, duas obras-primas: “O Exterminador do Futuro” e “O Vingador do Futuro”. Nasceu pra encarnar tanto o Terminator T-800 (principalmente o mal) quanto o bárbaro da Ciméria, Conan. Além disso, estrelou uma das películas mais injustamente criticadas da História – que colocou sua carreira a patinar -, “O Último Grande Herói”, um achado de autoparódia, ironia e referências pop, talvez a verdadeira “maior declaração de amor aos filmes de ação” que a produção em pauta deveria ser. Lundgren… bem, esse tem uma filmografia mais complicada, pra ser educado. Estourou como o vilão Drago, de “Rocky 4”, ganhou alguns papéis como protagonista, em “O Grande Anjo Negro” e “Red Scorpion”, chegou ao seu ponto alto com “Soldado Universal” – um personagem bem mais interessante do que o do herói, interpretado por Jean-Claude Van Damme – e “Johnny Mnemonic”, como um ciborgue esquisitão com complexo de Messias, e, daí pra frente, foi só ladeira. Talvez, se ele tivesse optado por interpretar apenas vilões, a coisa teria dado mais certo. Bruce Willis atuou, simplesmente, no “Cidadão Kane” da ação, “Duro de Matar”. O melhor de todos os filmes do estilo? Possivelmente. Vai saber… Fez sequências legais pra “Die Hard”, “O Último Boy Scout”, e coisas bem diversificadas, como “O Quinto Elemento” e “Os Doze Macacos” – grande desempenho! É, em termos de atuação, o mais respeitado da “família”. Jet Li já tinha uma carreira consagrada na China quando foi pra Hollywood, onde, com exceção de “O Confronto”, não fez nada tão bom quanto os asiáticos “Tai Chi”, a saga “Era Uma Vez na China” e “Herói”, “filme de arte”. Mesmo assim, mantém um bom nível até hoje. Stallone foi o que mais teve altos e baixos na carreira. Passou por pelo menos duas “voltas por cima”. O cara foi Rambo, Rocky, Cobra, nomes que toda criança da década de 80 conhecia. Aí, queda na popularidade. Até que retomou o sucesso com “Tango & Cash”, “Risco Total”, “O Demolidor”. Ponto positivo no boletim por “Assassinos”, roteiro dos Irmãos Wachowski, os criadores de “Matrix”.

Falando nisso, depois do primeiro filme de Neo, Morpheus e cia., tornou-se quase impossível realizar uma película de ação como as das últimas duas décadas. Tudo havia mudado. As lutas, os tiros e as explosões continuavam sendo exagerados, mas agora tinham uma explicação física e metafísica. Os heróis não precisavam ser montanhas de músculos, coisa que nem fica bem dentro de colantes de couro negro. Não dava mais nem pra explodir uma republiqueta da América Central – não era muito estético. Aí ainda veio o 11 de setembro, e… xii…

Porém, nos últimos anos, Stallone resolveu dar mais uma virada na carreira, e até que está dando resultado. Resgata um personagem antigo aqui, outro ali, fecha sempre com o certo. “Os Mercenários” não fica atrás. Temos as velhas frases de efeito – Eric Roberts é responsável pelas melhores -, os diálogos que não dizem nada, o sexo travado – pô, nem uma bitoquinha na Gisele Itié? -, as mortes grandiosamente estapafúrdias… Temos até um vilão ex-membro da CIA, que devia estar congelado desde a Perestroika! Mas espera, que fica mais Guerra Fria ainda: ele está mancomunado com um ditador latino que passa o tempo todo de farda e usa seu país como uma gigantesca horta de narcóticos (além de parecer o Amigão, da ESPN, com um cavanhaque). Quer dizer, não tão gigantesca, já que o país se resume a um porto/aeroporto, o palácio/castelo do governo, e uma feirinha/favelão que os heróis atropelam com um caminhão (a rima vai de presente).

Tem também o Mickey Rourke, que devia ter acabado de sair do set de “Homem de Ferro 2”, porque ainda estava com o visual do Chicote. Coloca emoção até num papel no qual não precisaria fazer muita coisa. Momento profundo, com ele e Sly discutindo a alma dos homens.

No fundo, no fundo, o filme todo é extremamente poético se você cresceu assistindo a “Inferno Vermelho”, “Garantia de Morte”, “Fúria Mortal”, “Braddock” e “Falcão – O Campeão dos Campeões” no Domingo Maior, mesmo depois de tê-los visto no cinema e em VHS. Se preferiu não rever os clássicos da sua infância/adolescência, pra que eles continuassem eternamente bons, como eram quando você tinha 12 anos. Se você, às vezes, desdenha, caçoa desses caras, mas, por dentro, abre um sorriso quando se lembra de que estão todos vivos, e nem tão velhos ao ponto de não poderem fazer os mesmos filmes que faziam lá atrás. Se você torce pra que Van Damme, Steven Seagal e Chuck Norris estejam no elenco da sequência. Se ficou tão emocionado ao ver Stallone e Schwarzie no mesmo quadro quanto ficou ao ver Jason brigando com Freddie Krueger – toda a cena da igreja, com os três ex-sócios no Planet Hollywood, é antológica, fala a verdade…

Em “Os Mercenários”, Stallone só tentou fazer o maior Domingo Maior de todos os tempos. Se conseguiu, não sei. Mas sei que fez um filme que me deixou confortável como na sala de casa, vinte anos atrás. E feliz, por ver que o mundo de hoje em dia nem sempre anda tão depressa quanto a gente pensa.

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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