Brian Michael Bendis e os quadrinhos falantes

Os anos 80 foram talvez a época mais interessante dos quadrinhos mundiais. Tivemos as duas principais obras das hqs de super-heróis, “O Cavaleiro das Trevas”, de Frank Miller, e “Watchmen”, de Alan Moore, “Crise nas Infinitas Terras” e toda a reformulação da DC, a grande fase do Demolidor, Camelot 3000, Novos Titãs… isso, só pra ficar no lado mais mainstream da coisa.

A década atual, porém, tem tudo para, acredito, consolidar-se como a herdeira natural de tudo o que foi feito duas antes. Apesar de muitos esforços de editores e businessman que pouco ou nada entendem do que é fazer uma boa história, contamos com uma geração de escritores realmente decididos a abordar a nona arte de forma ousada e instigante, sem renegar o que veio antes – pelo contrário, utilizando-se de anos e anos de cronologia para mostrar que, salvo raras exceções, não existem personagens ruins, e sim personagens escritos com incompetência.

Um desses sujeitos é o americano Brian Michael Bendis, o homem que escreve todos os títulos da Marvel. Ok, exageros à parte, Bendis está para a Casa das Ideias como Geoff Johns está para a DC. A chefia da editora simplesmente confia a ele não só as jóias da coroa, mas também o ouro de menores quilates, do ponto de vista mercadológico.

Bendis começou sua carreira nos quadrinhos independentes, e não demorou a ser cooptado pela Marvel. Ao contrário de muitos escritores underground, que deixam transparecer alguma inadequação, até certo incômodo, ao ocuparem uma cadeira mais “estofada” em editoras de peso, o carecão tirou os sapatos, cruzou as pernas em cima da mesa e degustou um belo charuto (tem cara de quem os fuma). Estava em casa. Na casa das suas ideias, a partir de então.

É aqui que eu costumo traçar um paralelo entre Bendis e Quentin Tarantino. Assim como Tarantino, que, antes de lançar-se como cineasta, era balconista de uma videolocadora e consumidor voraz de todo tipo de título, de nouvelle vague a podreiras asiáticas, o quadrinista teve uma formação povoada pelos personagens Marvel dos anos 70 e 80. E não só os carros-chefe como Homem-Aranha e Capitão América. Também Punho de Ferro, Mulher-Aranha, Tigre Branco… Bendis sente tanto prazer em pegar um herói de “segundo escalão” como Luke Cage e colocá-lo entre os maiorais em uma das melhores formações dos Vingadores quanto Tarantino, ao pinçar um arquétipo onipresente nas produções chinesas de kung fu setentistas feito Pai Mei e inseri-lo em “Kill Bill”, seu épico hollywoodiano. Além disso, ambos não dispensam uma boa referência a outras obras, geralmente obscuras, e nem páginas e páginas… e páginas de puro e delicioso diálogo. Basta ver o quanto se alonga o papo entre o vilão Hans e o chefe de família que esconde judeus em sua casa, no início do último filme de Tarantino, “Bastardos Inglórios”, e o modo como Bendis faz questão de “gastar” vários e vários quadros, tão preciosos nas hqs, ou melhor, fazer o desenhista encher a página com mais quadros do que o habitual, apenas para dar o ritmo que aquela conversa teria caso se desenvolvesse na vida real – ele, inclusive, pesquisou a fonoaudiologia a fim de tornar-se mais sensível aos andamentos e às modulações no jeito de falar das pessoas, e utilizou a técnica com maestria em “Ultimate Spider-Man”, “Alias” e “Demolidor”. Tanto nos trabalhos de Tarantino quanto nos de Bendis, o resultado é nada menos que hipnotizante.

O que fãs mais xiitas (entenda-se, leitores com zero de sensibilidade) podem criticar no estilo do careca é seu total desapego à estrutura tradicional de uma história de ação e à obrigatoriedade de que os super-heróis vistam logo seus uniformes e partam pra porrada. Em sua fase no título do Demolidor, ele fez com que Matt Murdock, o alter-ego do capetão, passasse várias edições seguidas sem nem tocar na sua roupa vermelha de combate ao crime, e a violência e as sequências de ação só acontecessem nos momentos certos dentro do quadro geral que esboçara. Não há pressa. O fato é que ele é um escritor que enxerga muito adiante, e acompanhar a trajetória de vida que impõe aos seus personagens é, por si só, uma aventura, extremamente recompensadora.

Se não bastassem todas as inovações que trouxe às hqs americanas, e toda a dedicação, não só a personagens, muitas vezes, esquecidos, mas à sua arte como um todo, Bendis foi o principal responsável por colocar a franquia dos Vingadores, que surgiu como um mash-up dos principais super-heróis da Marvel, em seu lugar de direito, como a mais importante da editora. Após décadas de domínio dos heróis mutantes, boa parte delas, dominada por histórias repetitivas e injustificadamente confusas, os Maiores Heróis da Terra, hoje, possuem uma gama enorme de títulos, e vivem uma fase de sucesso que será coroada em 2012, com o lançamento de seu filme.

Então, que Brian Michael Bendis continue fazendo os personagens falarem, e falarem, e falarem, pois, assim como seu escritor, eles têm muito a dizer.

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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