MTV Brasil: 20 anos com cabeça de 11

Semana passada, comecei a assistir à série de programas em comemoração aos 20 anos da MTV Brasil. Trata-se de um top alguma coisa, com os momentos mais marcantes, ano a ano. E lá estava eu, no segmento 1994 (não peguei o programa desde o começo), vendo Beastie Boys e Supergrass, perguntando-me onde foram parar os videoclipes desses caras. Desse tipo de artista. A resposta, talvez infelizmente, eu sei: estão espalhados pelas horas mortas da noite, em programas propícios para desempregados, notívagos e porteiros de prédio (dos quais só não sou o último).

A MTV Brasil é, hoje em dia, tão monotemática quanto qualquer FM. Quanto a vida de uma adolescente com os hormônios em rebuliço. A emissora esconde a boa música – e aqui nem me refiro ao meu gosto pessoal, e sim, simplesmente, a artistas que vão sobreviver ou já sobreviveram aos seus primeiros doze meses de sucesso – em horários sofríveis, quase como se fosse uma vergonha exibir um videoclipe de heavy metal, reggae ou techno. Qualquer coisa que não tenha uma cara imberbe emoldurada por um cabelo estilo Tico Tico e Beija Flor (deem um Google) ou não conte com um grupo de dançarinas exaustivamente coreografadas é varrida pra debaixo do tapete da madrugada.

Mas, afinal, a MTV não tem mesmo que ser jovem, colorida, alegre, descompromissada? Bem, talvez. Dependendo do público ao qual ela se destina. Que, atualmente, é colorido, alegre, descompromissado. Será, então, que recorremos àquela velha máxima, de que “cada povo tem o governante que merece”, pra justificar que “cada geração tem a MTV que merece”? Aí, sim, podemos estar chegando a alguma conclusão. Ou a outra velha máxima, de que é impossível saber quem veio primeiro, o ovo ou a galinha.

Não sou tão ingênuo ao ponto de pensar que uma emissora comercial manteria no ar uma atração que não lhe trouxesse retorno financeiro. A faixa etária de 11 a 16 anos, que assiste fielmente à MTV, que acampa à sua porta para esperar a mais nova boyband-que-já-tem-38milhões-de-acessos-no-YouTube-e-150milhões-de-seguidores-no-Twitter-e-uma-linha-de-roupas, que se dá ao trabalho de montar uma playlist pra rolar no Lab, com os mesmos videoclipes que passam a cada 45 minutos todo dia, essa faixa etária, é claro, será privilegiada na programação. A MTV não dita mais os gostos musicais da molecada, ela os segue. A geração My Space descobre as bandas na web, e então faz com que elas apareçam na MTV. O pessoal um pouco mais velho, que já passou da idade de gostar desse tipo de artista, trabalha, faz faculdade, e tem menos tempo para ficar pela internet tornando-se doentes S 2 Coraçãozinho por qualquer coisa fluorescente que surja (claro, há exceções. Muitas, acredite). Da mesma forma, não vai gastar o dedo votando insanamente nos seus artistas preferidos – parte desse pessoal já passa oito horas por dia realizando trabalhos repetitivos, e não quer entrar em outra linha de produção ao chegar em casa. Por isso, os coloridos ganham tudo quanto é prêmio, e fica essa sensação de que eles são “a” cena. Ainda que realmente sejam.

Nos primórdios, a MTV era uma tevê educativa. Ensinou muita gente a gostar de Sepultura e colocar uma canção com o singelo título de “Orgasmatron” nas primeiras posições do Top 20 Brasil. Como uma TV Cultura da vida, possuía a preocupação de atingir os mais diferentes públicos: contava com programas bem específicos, como Reggae MTV, Yo! MTV Raps, Território Nacional pros emepebês, Lado B pros indies, e Clássicos em vários horários. Não era um desfile de programas de auditório, o que consequentemente evitava que tantos wannabes de Serginho Groisman – ou pior, de Faustão – usassem a emissora como trampolim pra um emprego de animador na Globo. Tinha menos realities. Tinha mais música. Tinha mais gente que entendia de música, em ambos os lados das câmeras. Sei que um ponto eletrônico faz milagres, mas, quando vejo apresentadores como Fábio Massari, Gastão e Kid Vinil, minha tendência é acreditar que saber do que se está falando é requisito básico pra conseguir um lugar em um canal de tevê segmentado. Até a Astrid manjava de música, galera! É, a Fontenelle!

Ainda tem, sim, muita coisa legal na MTV Brasil (senão eu não a assistiria e não saberia tanto sobre as coisas horríveis, já que não sou crítico e não ganho pra me submeter a torturas televisivas), como as atrações humorísticas, algumas séries, um e outro programas de debates e entrevistas. Mas, quando o assunto é música – e deveria ser, na maior parte do tempo -, a situação é precária. No mais, parece que a emissora tem um organismo de cachorro, que envelhece sete anos em um, e já está chegando àquela fase em que o idoso volta a se comportar feito criança. Uma bem debilóide, no caso.

Talvez a solução seja fechar os olhos, tapar os ouvidos, prender a respiração, e torcer pra que essa geração – ou a infantilização da MTV, o que vier primeiro – termine logo.

 

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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