“Alta Fidelidade”, o manual dos homens quase normais

“Eu ouvia música pop porque era infeliz, ou era infeliz porque ouvia música pop?” Se esta fosse a única questão levantada por Rob Fleming, protagonista de “Alta Fidelidade”, o romance que transformou seu autor, Nick Hornby, em uma figura tão importante para a cultura pop quanto os astros musicais citados na obra, já valeria uma leitura. Conforme as páginas avançam, porém, percebemos que Fleming – ou Rob, já que a honestidade, a dura e cruel honestidade, do personagem-narrador, torna-o nosso amigo muito íntimo já nos primeiros capítulos – é muito mais do que simplesmente um nerd musical (além de cinematográfico e televisivo, em menor grau), embora seja essa característica que o diferencie de tantos outros personagens literários urbanos do século XX. No caso dele, a própria nerdice se confunde com cada aspecto de sua vida pessoal, profissional, amorosa, ao mesmo tempo em que possibilita que tome consciência, através da analogia com o universo pop, de seus desejos, frustrações, medos… Mas, afinal, a música e o cinema não ajudam a nos definir, a criar parâmetros para nossas vidas comuns? Não é assim com todo mundo? É, eu sei que não é assim com todo mundo. Mas bem que poderia ser.

Assim é Rob. Alguém que espera que todas as pessoas tenham bom gosto musical, que se interessem por boas canções, que se interessem, enfim, por qualquer coisa que transcenda suas existências cotidianas. Um cara que anseia que a vida seja minimamente emocionante e excitante. Sem perceber, um otimista.

Quando essa filosofia se transfere para o âmbito amoroso, transforma Rob em um sujeito meio galinha, que fica pulando de galho em galho. A justificativa vem quando ele, recém-abandonado pela meio-esposa, Laura, vê, pela janela do ônibus, num sábado à noite, uma garota qualquer caprichosamente arrumada, e se dá conta de que, após tantos anos de relacionamento sob o mesmo teto, é disso, principalmente, que sente falta. Que alguém se arrume apenas para vê-lo, e esteja feliz por fazer isso. Em certo ponto, ele comenta que precisa parar de permitir que uma mudança de acordes em um single dos Pretenders provoque-lhe um desvario emocional. Conquanto as mulheres possam achar que não se trata de uma justificativa, e sim de uma desculpa, ao menos mostra que, quando os homens pulam a cerca ou terminam repentinamente com suas namoradas, o buraco pode ser mais embaixo, ou melhor, os buracos podem nem ser o motivo principal, sexualmente falando.

Aliás, mulheres, se quiserem entender melhor os homens – os homens com certo grau de sensibilidade -, leiam “Alta Fidelidade”. Além de divertir-se com a sinceridade de Rob, vão entender o quão pavoroso para um cara pode ser reencontrar uma velha namorada e perceber que a vida dela é movimentada e interessante – muito mais do que seria se ainda estivessem juntos. Ou o alívio ao descobrir que a garota que nos deu um pé na bunda pra ficar com nosso amigo acabou se casando com ele, ou seja, quem somos nós para enfrentar a grandiosidade do destino? Ou como é estar prestes a transar com uma cantora/compositora e ficar morrendo de medo de que a cabeça fique presa na gola da blusa na hora de tirar a roupa e nos deixe parecendo idiotas desajeitados (especialmente quando se pensa como Rob: “sexo é a única coisa de adulto que eu sei fazer bem”). De lambuja – por que não? -, vão aprender sobre nossas canalhices e nossa mesquinhez.

Mais do que os amorosos, o livro discute todo tipo de relacionamento. A amizade e as discussões de Rob com Barry e Dick, os dois funcionários de sua loja de discos, Championship Vinyl, ajudam a brindar os leitores com as listas de “5 Mais” tudo, que viraram febre depois do lançamento – e que é uma mão na roda para quem quer descobrir grandes músicas -, além de trazer à tona o desejo nem sempre secreto do protagonista em ser uma pessoa bacana, cool, enfim, menos esquisita e cheia de manias, ainda que saiba que é muito parecido com a dupla, e que, no final das contas, é preciso fazer o melhor possível com o que se tem (a sequência em que Rob tenta levar amigos para o pub a fim de comemorar seu aniversário ilustra magistralmente isso). Há também a relação do personagem com seus pais (a ida ao cinema com eles e o consequente encontro com o Homem Mais Patético do Mundo é talvez a parte mais engraçada do livro) e com a família de Laura, e sua inabilidade em comportar-se, de forma adulta, em momentos como o velório do sogro. Por fim, o relacionamento que afeta todos os demais é o consigo mesmo. O modo como imaginava seu futuro aos vinte anos e como lida com a realidade presente, a vontade e o receio de arriscar algo novo quando se está preso a uma imensa bagagem de hábitos e conceitos, e, claro, a influência de décadas de uma visão lírica sobre a realidade embutida nas canções de Elvis Costello, Marvin Gaye e Bruce Springsteen, entre outros.

Se, após ler tudo isto, você já está procurando a versão cinematográfica do romance para baixar, saiba que, por melhor que ela seja, o livro ainda ganha fácil. Só o fato de transferirem a ação de Londres para Chicago (além de terem mudado o sobrenome Fleming para Gordon) já pesa bastante. Por outro lado, o filme é muito bem estrelado por John Cusack – e, se você assistir antes de ler, só vai conseguir ver a cara e o jeitão de Cusack em Rob – e Jack Black, irritantemente engraçado como só ele sabe ser.

“Alta Fidelidade” continua sendo meu livro preferido. Li duas vezes (o que raramente faço) e logo irei pra uma terceira. Preciso. E, pra encerrar, só me resta fazer minha versão de um dos Top 5 presentes no livro. Aí vão, 5 músicas pra ouvir quando ela te deixar:

1º “Lover, You Should’ve Come Over”, de Jeff Buckley

2º “Last Goodbye”, de Jeff Buckley

3º “I Know It’s Over”, dos Smiths

4º “Stumbleine”, do Smashing Pumpkins

5º “Wild Horses”, dos Rolling Stones

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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