O doutor que fez o parto de “Seven” e “Jogos Mortais”

A década de 70 foi, com certeza, uma das mais interessantes para o cinema de terror. Nunca antes se vira tamanha variedade de subgêneros e estilos. Do começo desses loucos dez anos até “Sexta-Feira 13” (1980), muito sangue passou por debaixo dessa ponte. E quem melhor para iniciar os trabalhos do que um doutor tresloucado vivido pela lenda do medo chamada Vincent Price?

“O Abominável Dr. Phibes” (“The Abominable Dr. Phibes” (por milagre, no Brasil o título foi traduzido ao pé da letra!), 1971, Inglaterra, dirigido por Robert Fuest) conta a história de um sujeito insano que, após forjar sua morte em um acidente de carro – algo que custou seu rosto e a capacidade da fala -, resolve assassinar, um a um, os médicos e uma enfermeira responsáveis, segundo sua lógica distorcida, pela morte de sua esposa na mesa de cirurgia. Aproveitando que o Deus do Antigo Testamento nos providenciou um material de sadismo da mais fina qualidade, ele leva adiante sua empreitada realizando assassinatos inspirados pelas Dez Pragas do Egito. Abelhas, morcegos, rãs, gafanhotos, ratos… se você tem fobia de animais asquerosos, vá se preparando, pois boa parte das pragas tem a ver com isso (pensando bem, o Deus do Antigo Testamento merece um ponto a menos na criatividade aqui, já que Ele podia ter dado uma variada maior).

Acontece que, além de doutor em teologia – por isso a opção por atrocidades bíblicas – e gênio científico – ele usa seus conhecimentos de acústica em uma traquitana que lhe possibilita voltar a falar, e até lidera uma banda de músicos mecânicos -, o cara é um tremendo artista – toca um órgão estiloso que faria Rick Wakeman se achar um monge trapista, e esmera-se em cada mínimo detalhe estético em sua saga como anjo vingador. Como um vilão do Batman, principalmente as versões do seriado dos anos 60, Phibes possui um Phibesmóvel, com direito à sua imagem de perfil pintada nos vidros laterais; um figurino espalhafatoso, que só falta ostentar a inscrição “criminoso demente” nas costas; uma base secreta, luxuosa e de arquitetura vanguardista em cima, sombria e com ares de laboratório misturado com câmara de tortura em baixo; e Vulnavia, um pitel que faz as vezes de assistente, motorista, guarda-costas, testa-de-ferro e par de dança, e que é tão louca quanto ele, se não for mais. Além disso, segue obsessivamente um modus operandi em seus ataques. Mais do que se encaixar em uma tradição de doutores do mal, da qual já faziam parte Caligari e No, Phibes pode muito bem fazer companhia a Coringa e Charada.

Também a psicodelia presente na série do Homem-Morcego barrigudo contamina o filme. A direção de arte joga cores berrantes e ácidas em cenários como o esconderijo do vilão e o hospital onde ocorre um dos assassinatos, provocando um contraste muito legal com a fleuma típica da inglesada e com a própria iconografia do gênero terror, e o figurino, como dito acima, é irreverente e inesperado. Isso sem falar nos criativos ângulos de câmera e numa certa meta-linguagem, no momento em que Vulnavia está seguindo Phibes pela mansão. Ao deter-se, ela vira o rosto para o lado, e olha diretamente para nós, como se dissesse “nós sabemos o que vocês querem ver”. Tudo resquício do experimentalismo da década anterior. Outro destaque são as duas sequências iniciais, cerca de dez minutos sem uma única fala.

Essas qualidades fazem de “O Abominável Dr. Phibes” um exemplar de terror único, curioso, engraçado – humor britânico, negro, como não poderia deixar de ser – e imperdível. Está na cara que os criadores de “Seven” e “Jogos Mortais” beberam muito nessa fonte. O primeiro, por causa do tema de homicídios inspirados pela Bíblia, o segundo… bem, veja a sequência da Praga da Morte do Primogênito e tire suas próprias conclusões.

Ah, e Vincent Price nasceu pra encarnar esse maluco.   

 

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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