Veias – Parte 1

Este é outro conto de minha autoria, que humildemente apresento-lhes em três partes. Enjoy!

Abro os olhos depois de longas horas de sono. Não há muito que ver sob as faixas de luz fraca que entram, mutiladas, pela persiana. O apartamento está nu, como sempre esteve. Nada de mobília, ou quase nada, e um colchão esfarrapado atirado sobre as tábuas empoeiradas do piso da sala. Eu chamo de sala, mas muitas vezes ela se torna quarto, porque durmo onde me jogo. Mas isso não tem tanta importância, já que o quarto não está muito melhor.

Despertar é uma coisa. Levantar, do tal colchão esfarrapado, é outra. Fico ali deitado, barriga sugada para o teto, tentando me lembrar dos sonhos. Esforçando-me pra preservar o gosto deles por mais um pouco de tempo. O que nunca dá certo. As horas dormindo são quase sempre abarrotadas de sonhos, são tomadas por eles. Não adianta nada. Quando acordamos, sempre precisamos de novos. Precisamos nos encher com eles mais uma vez.

É a dor que me obriga a me levantar. Dor pelo corpo todo. É ela que sempre me coloca de pé. Às vezes acho que eu deveria agradecer a Deus por isso. Tem tanta gente por aí que reclama por não ter um motivo pra se levantar da cama… No começo do vício, o que me fazia levantar era um tipo de comichão interna, algo parecido com fome ou tesão. Era como ter um bicho faminto dentro do corpo. O tempo vai passando, e não vou dizer que a comichão deixa de existir, só que ela perde espaço pra dor. Perde por nocaute. Antes, eu alimentava o animal. Hoje, eu dou analgésico pra ele. Antes, era mais divertido. Tinha mais paixão envolvida, uma paixão quase ingênua. Fazer o quê…

Já dá pra ouvir a cidade noturna rugindo lá fora. Tentando estabelecer contato com o meu animal dolorido. “Vem, vem correr com a gente! Nós temos o que você precisa pra curar seu mal, esta matilha desvairada que sabe lamber feridas como nenhuma outra!”

Caminho pelo corredor até o banheiro, meio andando, meio resvalando. Dor e fraqueza. Os Gêmeos Tóxicos. Dou de cara com a banheira, quase cheia de uma água não muito limpa. Mal me lembrava que a festa tinha se deslocado até aqui. Gente na banheira, jogando água pra fora, molhando o chão e as paredes.

As paredes. Nunca tinha parado pra reparar em como há respingos de sangue nos azulejos. Isso me faz lembrar de uma história sobre Iggy Pop e os Stooges. Quando eles moravam todos juntos na mesma casa, apelidada de “Funhouse”, “Casa da Diversão”, havia um quarto onde costumavam se picar. Eles esguichavam o sangue das seringas nas paredes. Depois de um tempo, elas eram quase uma obra-prima do grafitti moderno.

Troco a camisa com que dormi por outra, um pouco menos amarrotada, que pego do suporte na parede. O cheiro não é bom, está suja, mas quem liga? Não o tipo de pessoa com quem vou me encontrar. Esse tipo está preocupado com assuntos a curto prazo, como viver até amanhã. E não estamos todos, afinal? A diferença é que nós damos um passo de cada vez. Quem está de fora acha que abraçamos a morte todo dia. A verdade é que sabemos como nos preservar mais do que qualquer um pode supor.

Por exemplo: nós conhecemos a cidade. Não, não como um bom cidadão. Um bom cidadão não passa de um turista, comparado a nós. Nós corremos através das veias da metrópole, cavalgamos o aparelho circulatório deste lugar enquanto seu sistema linfático não nos jogar pra fora. O coração da cidade nos bombeia feliz pra artérias obscuras, sem nome. Porque, se queremos pureza, às vezes temos que descer até o esgoto. Paradoxal, mas é assim que é.

Quando se sai pra conseguir mais, é preciso saber não apenas aonde ir, mas por onde andar. Ajuda a evitar transtornos dispensáveis. Prova prática: aqui estou eu, caminhando por ruas bem iluminadas segundo os padrões das famílias residentes, famílias estas, aliás, que cruzam a todo o momento comigo. A maior parte nem me nota. Ou finge que não. Qualquer das alternativas está ótima, pra ambos os lados. Porém, há sempre aqueles que não assinam embaixo nesse contrato. São eles, Donos da Palavra e da Natureza Humanas. O padre, na esquina, com a sua camisa clergyman mal escondendo a pança de pão e vinho. Ele compra essas camisas pela internet, e come a carne e bebe o sangue do Senhor, e acha que pode se pôr contra o que nós colocamos dentro dos nossos corpos. Com seu grupo, está ali, dando de comer aos que têm fome. Há muitos tipos de fome por esse mundo, Vossa Santidade. A minha é de um tipo muito singular, que Vossa Santidade não é capaz de compreender. Como seria, se nunca esteve faminto?

Pra evitar transtornos, como disse, eu dobro uma esquina, sigo por três quadras, e logo me encontro numa daquelas negras e inominadas artérias. Artérias desbloqueadas, livres. É nessas que o sangue circula como tem que ser. As garotas e garotos que fazem ponto por aqui, os cafetões e os traficantes sem categoria me olham, como se fôssemos velhos conhecidos. Podemos até ser, eu ando por estas bandas há mais tempo do que consigo calcular. Mas os rostos dos funcionários da noite mudam com a constância das doenças, das overdoses, dos mocinhos e dos bandidos, da clientela e das perversões da clientela. Será que, como De Niro profetizava em “Taxi Driver”, um dia a chuva virá e limpará estas ruas, levando essa gente com a enxurrada? Acho mais fácil acreditar que esses serão os sobreviventes do holocausto, não as baratas.

Ao entrar na casa noturna, a fumaça me abraça, úmida. Seu cheiro doce enjoativo se agarra à minha roupa, impregna-a. Esse lugar nunca me deixa. Eu o levo pra casa quando vou embora. Quando o cheiro sai, é porque está na hora de voltar. Aqui é compacto e apertado. Mesmo quando não tem muita gente, lotou. Excelente opção pros solitários. Não é o meu caso.

Eu a vejo, fingindo não ver. Ela não me vê, ela quase me sente, sou capturado pelo seu radar natural. É quando eu percebo que, por mais que as pequenas concentrações se tornem multidões aqui, ainda há brechas demais. E que ela conseguiria ser solitária em qualquer lugar. Encostada na parede próxima à pista de dança, sua única companhia é o cigarro, mas mesmo dessa ela parece querer se livrar, ao lançar a fumaça para o alto com uma negligência avassaladora. A batida eletrônica densa e grave não lhe arranca sequer um sacudir inconsciente. Apenas quando seus olhos me localizam, o torpor cai aos seus pés com um estalido que quase consigo escutar na minha cabeça. Por trás do cigarro pela metade, seus lábios parecem dizer algo. Eu não ouço e nem quero ler. Miro o corredor que leva ao banheiro e é pra lá que rumo.

Continua…

 

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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