Veias – Parte 2

Já faz algum tempo que ela vem me sondando. Quer que eu a inicie, que a oriente. Enfim, quer ser como eu. Estou quase chegando ao banheiro quando ela agarra minha mão por trás. Eu costumava ser melhor em meus desaparecimentos. O pouco do cavalheiro que resta em mim se volta, mas não consegue camuflar o aborrecimento. Ela parece não notar. É mais cínica do que eu já fui. Ou mais boba do que estou sendo. “Sabia que você apareceria. Só restava saber quando”, ela diz.

Então percebo que é pior. Nem cinismo, nem imbecilidade.

“E você ficou me esperando aqui todas as noites?”, pergunto, encostando-me na parede, no que ela me imita. “Todas as noites”, responde, e volta a tragar seu cigarro, agora tirando prazer do ato. Algumas pessoas passam pelo corredor. Alguém, poderia tirá-la daqui? Por um segundo me esqueço de que ela é uma solitária.

“Sabe mesmo o que está fazendo?”, faço a pergunta sem ter certeza de que quero ouvir a resposta. Mas ela vem. Vem imbuída de uma segurança desanimadora. “Tô absolutamente, estupidamente certa de tudo que faço, sempre”.

“Era o que eu temia”. Imediatamente fico em dúvida se só pensei ou disse isso.

“Não sei por que gosto de você.”

É pior.

“Seu sexo não é dos melhores… Sinceramente, você é bem morto na cama”.

“Se o problema fosse só esse… Nós somos meio mortos o tempo todo”, digo, meio rindo.

“O bom é que nossa relação não se baseia só nisso”, e ela completa, com um olhar fantasioso, “Vai além”.

Nem cinismo, nem imbecilidade. Essa garota me ama. O que cai pra imbecilidade. Não sabe que gente como eu não ama? Não de verdade. O que precisamos é ter em quem se apoiar. Se estamos cada vez mais perto do inferno, conseguir levar alguém conosco nos dá a sensação de sermos menos desprezíveis. Sim, somos o puro-sangue do egoísmo. O vício torna muito difícil pensar em alguém além de si mesmo. Mas somos egoístas sinceros, pelo menos.

Ela olha pras pessoas que passam por nós e pras que estão na pista de dança, e diz “Essa gente aqui não tem mais nada a oferecer. Nem pra mim nem pra você”.

“Aí é que você se engana”, respondo, com ar de professor. “Nós sempre encontramos algo a ser sugado. Sempre é possível usar as pessoas pro que precisamos”. Olho pra ela, e pergunto “Você não acha triste? Pensar dessa maneira?” Então é ela que me olha, bem fundo, nos olhos. “Não acho. Eu quero que você me use. Quero que jogue seu jogo comigo. Quero que me roube, que minta pra mim quando… enquanto for preciso. Tenho que entrar no seu mundo por completo. Sentir o que só vocês sentem”.

Isso é o que chamo de uma maldita declaração de amor.

Gostaria de falar pra ela que nem tudo o que sentimos é bom. A euforia com uma dose de primeira é sensacional, os sonhos também. O resto do tempo… já não sei dizer. Sou uma das partes envolvidas, afinal de contas. Nem eu sei, nem o padre pançudo, porque não faz idéia de como é a coisa toda. Mas, claro, nunca admitimos isso. Isso estragaria nossa imagem cool. Que é um dos elementos legais da coisa.

E, então, se ninguém pode dizer realmente como é, pros diabos!, vamos ser altruístas um pouquinho!

Agora sou eu que agarro sua mão, pra puxá-la pro banheiro. A única pessoa sai assim que entramos. O banheiro é mais iluminado, não há fumaça pra disfarçar as baixarias nas paredes e o bolor no teto, o cheiro está longe de ser doce e enjoativo não é o adjetivo mais exato para justificar o embrulho no estômago que ele provoca. Que seja, minha iniciação foi em lugar pior. A iniciação é onde começa a morte do glamour.

Entramos em um dos cubículos. Peço a ela pra se sentar sobre a tampa abaixada do vaso, enquanto fecho e tranco a porta. Sua ansiedade cheira quase tanto quanto o banheiro.

Eu me preparo. Não gosto de fazer às pressas, a não ser quando é estritamente necessário. O ritual é outro dos elementos legais. Alisava a parte posterior do seu braço, que se voltava pra cima, oferecendo-se virgem, uma fruta aberta com o caldo deslizando pelas veias pulsantes de alarme e excitação, quando ela disse “Ouvi falar que as veias do pescoço são as melhores”.

“É o que dizem. Mas aqueles com classe suficiente sabem que no braço é simplesmente sublime”, respondo, antes de dar-lhe um beijo no pulso.

Enquanto penetro sua veia vejo-a jogar a cabeça pra trás, o pescoço de que falava imóvel, rígido, enquanto mais nada, ar ou saliva, sobe ou desce pela garganta. Ela fecha os olhos, e eles se movem debaixo das pálpebras como um lento casal de amantes sob o cobertor. Seus lábios semi-abertos mais uma vez dizem algo, que novamente eu não ouço. Parece ser um gemido de contentamento.

Continua…

 

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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