Veias – Final

Se as ruas, avenidas e vielas são as veias e artérias da cidade, e se, entre estas, há aquelas obscuras, então estamos em um dos órgãos vitais onde elas despejam o sangue e irrigam com vigor sombrio o tecido.

É a primeira vez que ela sai comigo pra conseguir uma dose. É o que temos de mais próximo de uma data especial em nossa relação. Como é sua estréia, deixo que cuide de todos os níveis do processo, até mesmo da escolha do fornecedor. Sei que selecionou bem. Pureza garantida. Agora vem o contato.

“Ele é tão jovem”, diz, amassando as notas na mão, talvez o único indício de certo nervosismo a emanar dela. “Isso é normal. Vai se acostumando”, respondo, sem realmente tentar confortá-la.

O menino por volta dos seis anos, agasalho gasto e furado, olhos tímidos, aproxima-se, com a sacolinha plástica na mão, do beco onde nos posicionamos sob a luz errática do único poste. Digo que há timidez em seus olhos, mas não é suficiente pra diluir a ansiedade que exalam. Ele se detém diante dela sem dispensar muita atenção a mim. Pega o dinheiro que lhe é estendido e enfia fundo no bolso como se fosse o que há de mais importante no mundo. Pra ele é mesmo. Não pra nós. Enfia então a mão pequena na sacolinha, tira de lá e entrega a ela a embalagem comprida e colorida de drops sortidos.

“Brigado, moça”.

É o sinal pra que ela salte sobre o menino e o agarre, o braço direito envolvendo seu corpo enquanto a mão esquerda lhe tapa a boca. Ela é rápida. Os gritos abafados do garoto têm o ritmo frenético do debater de suas pernas procurando o chão. Ele não vai se livrar. Sei disso só de olhar pra ela.

“Ainda o acho tão pequeno…”, diz, recuando para as sombras junto comigo e com nosso fornecedor. “Mas, entre as opções que você me apontou…”

“Confie em mim. Precisa começar com doses pequenas. Sem contar que, quanto mais jovem, maior a pureza do produto. Ainda mais neste lugar, logo eles crescem e enchem o sangue de lixo”.

Pensei em ensinar a ela a preparação. A cadência correta da respiração, a seleção da veia, a mente limpa, tudo o que confere mais deleite ao ato… Desisto ao ver que seus caninos se projetaram pra fora feito canivetes de mola na mão de um delinqüente colegial. Compreensível. É sua primeira dose. Não conseguiria mesmo se conter durante o ritual. A classe se adquire com a experiência. De qualquer forma, aqui não é um bom lugar pra nos demorarmos. O menino deve morar por perto, ter família… O que me faz lembrar…

“Não se esqueça de sugá-lo até o fim. Senão vamos ganhar um herdeiro, e ainda somos casal há muito pouco tempo pra isso”.

Ela ri. O menino desfalece. Ela pega o braço dele, volta a parte posterior pra cima, localiza quase que instantaneamente a veia que lhe interessa (nas primeiras vezes, todas são interessantes). Curva o corpo e crava os caninos perto da dobra. Do jeito que eu ensinei. Nem uma gota escorre pelos cantos. Essa garota tem futuro. Rio sozinho da minha afirmação. E não é que eu acabei sendo surpreendido em minha incursão pelo altruísmo?

Penso em dizer a ela pra aproveitar ao máximo, pois passamos a eternidade buscando a sensação da primeira dose. Mas decido ser altruísta mais um pouco. A noite é dela.

 

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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