O dia de princesa do Foo Fighters

Existem bandas que nascem para os estádios, para as gigantescas arenas. Os supergrupos, formados por macacos velhos, como Audioslave e Velvet Revolver, enquadram-se nessa categoria. Também o Wolfmother e o Darkness. Definitivamente, não é o caso do Foo Fighters.

O FF começou como uma one man band, um projeto paralelo de Dave Grohl, o segundo e mais famoso baterista do Nirvana, então a maior banda do mundo (sem ter, com absoluta certeza, nascido para as arenas). Grohl já vinha dando suas puladas de cerca solitárias, praticamente masturbações musicais, desde 92, quando gravou sozinho o projeto Late! Com total despretensão, quase por baixo do pano, o embrião do Foo Fighters mostrava que poderia, sim, haver futuro pós-Cobain. Tinha que haver. No fundo, Grohl, como todos os discípulos de Mãe Dináh que vêm errando ano após ano a data da morte de Keith Richards, sabia que o líder e cabeça do Nirvana não duraria muito. E, dessa vez, as evidências se provaram corretas. Assim, em 95, depois do suicídio de Cobain, chegava às lojas o primeiro FF, com sua capinha inspirada pela ficção científica que Grohl tanto ama.

A aceitação foi quase instantânea, e o Foo Fighters logo deixou de ser “a banda do ex-batera do Nirvana que resolveu cantar”, principalmente devido ao fato de o som apenas vagamente remeter ao praticado pelo trio. A própria vibração é diferente. Longe do mar revolto que era o Nirvana, da bomba-relógio psicológica que era seu vocalista, e mesmo das opções musicais mais densas, Grohl pôde exercitar sua personalidade relax. Não que não houvesse humor no Nirvana, mas era mais sombrio e ácido. O FF é algo como as férias eternas de seu criador, um grande churrascão na sacada do apartamento de frente pra praia.

Some a tudo isso o enorme talento de Grohl – ainda hoje, mais como instrumentista e compositor do que como vocalista -, seu carisma e sua simplicidade – me diz se ele não parece com algum cara que tocou na sua banda em algum momento da sua vida? – e a capacidade de reunir muita gente boa em torno de si – Pat Smear, o guitarrista original, cuja presença de palco faz falta, é uma lenda do hardcore americano, tendo tocado no Germs e na reta final do Nirvana; a cozinha do Sunny Day Real Estate, que é considerada a primeira das bandas emo (ouça, e comprove que estilos musicais são tão perecíveis quanto um carregamento de peixe); e, mais tarde, Taylor Hawkins, um dos melhores bateristas da atualidade, que Grohl salvou da banda de Alanis Morissette -, e está pronto o colosso musical que enfiou 85.000 pessoas no Estádio de Wembley em 6 e 7 de junho de 2008 para a gravação de um DVD. Certo?

Errado. O FF foi se agigantando pouco a pouco, álbum a álbum, dando uma sensível guinada na direção dos mastodontes do rock com o terceiro filhote, “There is Nothing Left to Lose”, de 99, disco repleto de canções soft rock que Grohl logo enjoou de tocar. Mesmo assim, foi sucesso para as massas, e introduziu, de vez, o novo estilo Foo Fighters de canções ensolaradas, ganchudas, engraçadas (depois que seus videoclipes entram na cabeça é impossível não considerá-las como tal), dotadas de uma perfeição pop que 90% das bandas de rock dariam a mão direita de seu guitarrista-solo para atingir. Daí para a frente, foi só seguir o caminho aberto pelos heróis setentistas de Grohl, com direito ao obrigatório álbum duplo (o fraquinho “In Your Honor”, de 2005).

“Live at Wembley Stadium” veio coroar toda essa trajetória. A estrutura armada para celebrar e registrar o que, pela reação dos membros, seria a maior noite na história da banda é simplesmente um luxo, já diria Ataíde Patreze. Tem câmeras por todo lado? Tem, sim senhor. Palco giratório? Idem. Telões, luzes cegantes, um corredor que se enfia platéia adentro? Opa. E tantos músicos no palco que mesmo David Gilmour ficaria meio sem saber quem faz o quê. Mas não Grohl. Ele sabe que há um tecladista, um percussionista e uma violinista sexy, além da visita – ou volta? – de Smear, todos, como é de praxe, com seus instantes sob os spotlights – ainda que Hawkins, guloso, passe na fila do solo mais de uma vez.

É, Grohl conhece cada passo desse balé versão James Cameron. Showman como ele só, conduz banda e plateia com uma mão nas costas. Aliás, o entrosamento dos caras é incrível. O feeling demonstrado nos arroubos heavy-metálicos de músicas como “Stacked Actors” (infinita) e “Monkey Wrench” é coisa de Globetrotters. Apesar de ainda preferir as versões mais enxutas, não dá pra negar que a pegada da banda é poderosa. Falando nisso, a ordem do repertório é bem inteligente – porradaria no começo e no fim, com um miolo mais calmo, puxado pro acústico, e com todas as firulas citadas acima. Mas, convenhamos, em algumas faixas – “My Hero” incluída – o pianinho ficou meio sem noção. Mas é a noite deles. Não sejamos estraga-prazeres…

Após uma pausa, o grand finale. Que melhor forma de encerrar um evento desse porte do que com a participação de dois ex-Led Zeppelin? Ladies and gentlemen: Jimmy Page & John Paul Jones! Grohl vai pra batera, onde é, se não rei, ao menos um belo primeiro-ministro, e Hawkins assume os vocais em “Rock and Roll”, daí destrocam, pra “Ramble On”. A cara de felicidade dos dois é algo como se o Restart tocasse… sei lá, com o Twister. Chris Shiflett e Nate Mendel, por sua vez, meramente tiveram podada sua chance de fazer uma jam com duas das maiores lendas do rock. Chato, né?

Depois disso, só resta mesmo terminar o show com uma “Best of You” arrepiante e um dos maiores coros de toda a apresentação. E queima de fogos, já que uma cascata de champagne seria meio inviável. Será? Bom, fica pra próxima.

“Live at Wembley Stadium” é a filmagem da festa de quinze anos do Foo Fighters. Um daqueles vídeos exibidos no telão em festa de casamento, com os melhores momentos do casal. É o DVD que um filho artista mandaria pros pais, que queriam que ele fosse contador, pra dizer: “ops! Parece que eu cheguei lá”. É o FF finalmente no topo do mundo, e tão grandioso quanto suas referências musicais.

Será que eles vão querer descer?

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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Uma resposta a O dia de princesa do Foo Fighters

  1. Andarilho diz:

    Muito bem escrito. Deu até vontade de conferir o show, vou atrás desse DVD. FF é uma banda excelente com toda certeza e seu líder, Dave Grohl, é genial. Parabéns pela descrição do show que, devido aos méritos do FF, deveria realmente ser espetacular, como parece ter sido 😉 Abraços.

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