Venha para o triste mundo de Marlboro

O Velho Oeste é, sem sombra de dúvida, a região onde o norte-americano cravou as raízes de seus mais heróicos ideais. Ali, em um mundo de paisagens áridas, planícies verdes, cavalos selvagens e liberdade, os EUA viveram suas Ilíadas e suas Odisséias, exercitaram o bushido de samurais que duelavam usando Colts em vez de espadas. O Oeste indomado foi a África e a Índia de uma nação que colonizou apenas seu próprio território.

Nem por isso, essa mitologia esteve a salvo de vir sendo desmistificada, desconstruída e reconstruída sucessivamente, até hoje, em um movimento que passa pelos westerns spaghetti – de diretores como Sergio Leone, que surrupiaram o mais americano dos gêneros cinematográficos para provar que cowboys podiam falar italiano e soar autênticos; de mocinhos que, quando existiam, não levavam tão a sério o sentimento de honra quanto seus pares do Novo Mundo, e eram mais rápidos, brutos e mortais, bons, maus, feios -, por Clint Eastwood e seu “Os Imperdoáveis”, Robert Rodriguez e a trilogia do Mariachi, e culmina na, possivelmente, maior afronta ao arquétipo dos cavaleiros indômitos, “O Segredo de Brokeback Mountain” – a paixão entre a dupla de cowboys gays, ironicamente, é impulsionada pela solidão daqueles vastos campos verdejantes.

É em 1960 que encontramos um dos primeiros exemplares desses westerns desiludidos: “Os Desajustados” (“The Misfits”), de John Huston. A trama, simples, mostra uma mulher recém-divorciada (Marilyn Monroe) sendo disputada por três homens – interpretados por Clark Gable, Montgomery Clift e Eli Wallach (que, em 1966, viveria justamente o feio de “Três Homens em Conflito” (“The Good, the Bad and the Ugly”), de Leone) – que haviam vivido dias melhores (será mesmo?), em meio à desolação – geográfica, espiritual – do estado de Nevada.

Sempre defendi que uma obra artística deve ser boa por si só, independente do momento histórico ou das condições de sua criação. Mas, se a noção do contexto em que ela se insere torna-a ainda melhor, vamos relaxar e curtir, não? Assim como torcemos mais por Mickey Rourke em “O Lutador” por sabermos como a vida do personagem encontra eco na de seu protagonista, ou da mesma forma como Tony Stark, o super-herói alcoólatra de “Homem de Ferro”, parece ter sido criado para um Robert Downey Jr. que conhece bem o demônio na garrafa e também em outras embalagens, “Os Desajustados” merece ser julgado de acordo com o histórico de seus realizadores e protagonistas.

Encabeçando o elenco, o tiozão Clark Gable, que via seu status de galã sendo levado pelo vento para um passado já distante. Seu sorriso, seus olhares, enfim, seu charme, não convenciam mais. Até o bigodinho parecia deslocado em uma era veloz, que começava a abandonar mesmo os tão modernos topetes e costeletas de James Dean e Marlon Brando. Doente, Gable morreria no ano de lançamento do filme. Marilyn Monroe estava em uma forma física considerada por alguns como abaixo do padrão característico (pra mim, estava mais gostosa do que nunca), no decorrer de uma fase bem pirada (com álcool e pílulas no estômago e na cabeça, andou nua por um hotel e penteou os pelos púbicos durante uma entrevista), e a dois anos de sua morte esquisita. Montgomery Clift acabara de recuperar-se do acidente de carro que destruíra seu rosto (ao menos pros padrões hollywoodianos), competia com Monroe em termos de birutices e certamente ganhava – o Clash tem uma música sobre tudo isso no álbum “London Calling”, de 1979, chamada “The Right Profile”, cuja letra cita “The Misfits” -, lutava para manter sua homossexualidade no armário, e morreria em seis anos. E Arthur Miller? Ele, um dos maiores dramaturgos dos EUA, roteirista da película e marido de Monroe, via desmoronar o sonho de todo nerd quatro-olhos, o de ficar com a garota mais tesuda da escola. Estava prestes a se separar dela. O roteiro é, ao mesmo tempo, um presente de despedida, através do qual a esposa poderia enfim realizar o seu sonho, o de ser levada a sério como atriz, e uma alegoria do casamento que se desfazia e da personalidade contraditória e conturbada de Monroe. Por tudo isso, “Os Desajustados” já foi considerado um dos filmes mais depressivos da História.

No formol que é o preto-e-branco, vemos um “desajuste” entre o que os personagens aparentam ou pretendem ser e o que são na verdade. Tem o grande peão de rodeio que cai e machuca-se feio, passando parte do filme com a cabeça enfaixada; o grande pai de família, “adorado” pelos filhos, que não aparecem realmente, mas que o levam a protagonizar uma cena de auto-humilhação intensa e perfeita, capaz de despertar a mais genuína sensação de vergonha alheia misturada com piedade em qualquer um que a veja; o grande aviador, ex-combatente da Segunda Guerra, que usa tal mérito na tentativa de impressionar a garota… A sequência final – a caçada aos cavalos selvagens, dolorosa, brutal e injusta, tanto para homem quanto para animal -, por si só, ilustra e amarra o sentimento que permeia toda a obra. Em tempos que já não eram os mesmos dos cowboys canônicos, os cavalos, nesse caso, não serviriam como meio de transporte ou instrumento de trabalho, mas como ração para cachorro. O diretor, John Huston, autor de clássicos do cinema de aventura, como “Uma Aventura na África”, parecia registrar que a era do heroísmo chegava a seu crepúsculo, e que outra, bem mais complexa, anunciava-se no horizonte sem fim de Nevada. É obrigatório destacar também a sequência do rodeio, inteirinha, e a fotografia arrepiante, o filme todo.

Depois de ver “Os Desajustados”, dá pra acreditar que talvez o mundo de Marlboro nunca tenha sido verdadeiramente aquela maravilha que nos era vendida. Quem sabe, por isso, o cowboy-símbolo tenha se acabado em seus cigarros envenenados.

 

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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