King Stephen – Parte 1

O escritor americano Stephen King pode não ser a menina-dos-olhos da crítica literária mais cabeçuda. Mas duvido que exista algum erudito que não conheça meia-dúzia de histórias criadas por ele. Pode não manter uma produção muito regular em termos de qualidade – mas manda o Saramago lançar uma média de dois livros por ano nas últimas três décadas e meia pra ver pra onde vai o Nobel de Literatura! Podem estas considerações não querer dizer muita coisa. Afinal, quanto à primeira, popularidade nunca foi sinônimo de mérito artístico (Paulo Coelho, tô te vendo aí atrás da nuvem voadora!), e, quanto à segunda, botar a culpa do serviço mal-feito no montante de trabalho parece coisa de fábrica de automóveis – um filtro de bom-senso não faz mal a ninguém, e evita recalls. Mesmo assim, King é um autor que todo mundo deveria conhecer mais a fundo. Não estou falando só em ver os filmes baseados em sua obra, mas em ler seus livros. King foi o Monteiro Lobato da minha adolescência, e seu Sítio fervilhava com criaturas que deixariam a espiga de milho acadêmica, a boneca falante e o suíno fidalgo de cabelo em pé.

O primeiro dele que li foi “Cão Raivoso” (“Cujo”, 1981), isso oficialmente. Eu era ainda um pobre astronauta perdido em alguma dimensão entre a Coleção Vagalume, empurrada pelos professores (mas nem por isso desagradável), e os quadrinhos (ê lugar bom pra se perder…), ou seja, os livros de King eram leitura de adulto, e me assustavam um pouco, não por causa de são bernardos hidrofóbicos cercando uma mulher e seu filho pequeno, mas simplesmente porque pareciam… chatos. Muitas palavras, muitas páginas, muitos detalhes. Exigiriam demais de mim. Que os céus perdoem aquele jovem pateta, que leu o livro com certa má vontade.

Como na mordida do cachorro raivoso, porém, alguma doença deve ter sido transmitida, porque, pouco tempo depois, eu estava me arriscando pelas ruas de Salem’s Lot, a cidade que serve de cenário e título original para “A Hora do Vampiro” (1975), e foi aí, , que esse desajustado me pegou! Foi nesse romance que achei a maior virtude de King como contador de histórias, e da qual muita gente parece não se dar conta, com todas as camadas de monstrengos e corpos em decomposição: ele te coloca naquelas cidadezinhas do interior do Maine, sempre iguais, sempre diferentes, sempre idênticas a qualquer pequena cidade brasileira em que você possa ter morado, e deixa você lá durante toda a história! Aquelas pessoas viram suas vizinhas. Você decora seus nomes e sobrenomes. Janta com elas, está na sala de suas casas quando pais e filhos discutem, sabe quem está traindo quem com quem. Até que chega ao ponto em que não se lembra de que a cidade está cercada por vampiros, que a velha mansão com fama de mal-assombrada é um antro de demônios. E por isso é tão macabro. E por isso o medo é maior. Você se importa com cada vizinho transformado em morto-vivo chupador de sangue, e isso faz toda a diferença em uma obra de terror. “A Hora do Vampiro” continua sendo meu preferido de King, talvez por ter sido o primeiro pra valer, talvez porque a combinação King-vampiros seja imbatível. Contudo, ainda acredito que ter morado em Salem’s Lot, com suas pessoas normais, durante aquelas semanas possa ser o principal motivo, e talvez nem precisasse de outro. Graças ao canal a cabo TCM, estou assistindo à minissérie de 1979, intitulada por aqui “A Mansão Marsten”. Onde vocês podem encontrar isso, não faço ideia. Mas vale procurar: a direção é de Tobe Hooper, de “O Massacre da Serra Elétrica”, antes que ele caísse em desgraça.

King aprimoraria o tema de lugares mal-assombrados em “O Iluminado” (“The Shining”, 1977), desta vez com um hotel, o famigerado Overlook. Só fui ler o livro vários anos depois de ter assistido ao filme, possivelmente a mais célebre dentre as adaptações de King. Assim como tantos que o consideram um dos melhores filmes de terror já feitos, eu não conseguia compreender por que o escritor não ficara satisfeito com a visão de Stanley Kubrick. Lendo o romance, depois revendo a película, tive que concordar com o autor: na versão cinematográfica, Jack Torrance (Jack Nicholson) já parecia um cara beem desequilibrado antes mesmo de mudar-se com a família para o hotel. Dar o papel a Nicholson, cujo último sucesso fora “Um Estranho no Ninho”, interpretando um presidiário que se finge de doido e vai parar num sanatório, serviu para reforçar essa impressão. Segundo King, as pessoas olhavam para Jack Torrance no início do filme, e já sabiam que aquele sujeito iria ficar maluco! A ideia do autor era que o mal não estava em Jack. Estava no Overlook. Cada metro quadrado, cada pedaço de madeira, tudo ali estava contaminado por uma força perversa que colecionava almas humanas. Realmente, o livro transmite com brilhantismo essa noção. E se Kubrick transformou uma história sobrenatural em um drama psicológico-familiar, foi, principalmente, devido à sua incapacidade de abraçar completamente o conceito de fenômenos sobrenaturais ocorrendo de verdade. King contou que, durante as filmagens, o diretor ligava para ele nas horas mais estranhas do dia ou da noite, com perguntas como “Você acredita em Deus?” A esta, o escritor respondeu que “Bem… sim”. E Kubrick: “Bem, pois eu não”, antes de desligar na cara do outro. Por essas e por outras, independente do valor da versão de Kubrick enquanto obra autoral, em 97 King fez questão de escrever ele mesmo o roteiro de uma minissérie baseada em “O Iluminado”.

Em contrapartida, uma das adaptações cinematográficas preferidas do escritor é a de “Carrie” – que tem o subtítulo brasileiro “A Estranha” -, dirigida por outra fera da sétima arte, Brian de Palma. O espírito e o tom do livro estão ali, intactos. King afirma até que de Palma conseguiu dar aos momentos mais suaves da história um lirismo que ele não foi capaz. Confessa que não se sentiu tão confortável explorando o universo feminino, nessa história tipo “o que aconteceria se a Jean Grey sofresse bullying na escola?”, e precisou muito da ajuda da esposa, inclusive para descobrir que existem máquinas, como as de refrigerantes, para venda automática de absorventes. “Carrie” foi o primeiro livro de King a ser publicado, embora fosse o quarto a ser escrito. Surgiu como conto, e, depois de ser jogado no lixo e ser posteriormente resgatado – mais um feito da esposa -, acabou expandido, e deu no que deu. Começava aí a longa trajetória de um dos mais envolventes escritores do século XX.

No próximo post, King cria uma identidade secreta. King mata sua identidade secreta.

Mostra o quão nerd pode ser.

E pira na batatinha.

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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2 respostas a King Stephen – Parte 1

  1. Gessica diz:

    O post me chamou a atenção pq King é A CARA de um professor meu da faculdade – que por sinal, também curte criar um cenário de terror envolvente e de meter medo em qualquer um! rs
    Também tive que ler muuuuuuuitos livros da Série Vagalume, foi meu iniciante no mundo da leitura (depois dos quadrinhos da Turma da Mônica, é claro, que eu satisfazia com 3 anos só de ver os desenhos)
    Altas identificações, gostei do post, gostei do blog 🙂
    E vim parar aqui pelo comentário que vc fez na comu sobre meu blog (dos origamis). Valeu mesmo! Vou adotar a dica 😉 Abraço!

  2. Jareta diz:

    Também tenho minha infância marcada pelas obras de Stephen King. Li apenas “O Iluminado”, mas acompanhei várias adaptações para o cinema e TV. Uma que não está no texto mas vale a pena lembrar é “A Tempestade do Século”. Não li “A Hora do Vampiro”, mas o sentimento que descreveu é o mesmo: cidade pequena e aproximação das personagens. Assisti Carrie hoje, e, junto com a leitura deste texto, me animei para continuar acompanhando as obras de King. Vou procurar outros filmes e livros já!

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