King Stephen – Parte 2

No final dos anos 70, com sucessos como “Carrie” e “O Iluminado” na bagagem, Stephen King queria muito mais. Queria ser mais do que ele mesmo. Como um de seus personagens esquizofrênicos, em 1977 ele criou Richard Bachman, não apenas um pseudônimo, mas um alter ego, uma nova identidade, através da qual poderia desovar sua incessante produção literária, já que, na época, os editores acreditavam que o público não aceitaria mais do que um livro de um mesmo autor por ano. E, quanto mais alguns fãs tentavam extrair de King a confissão de que ele e Bachman eram a mesma pessoa, mais elementos eram adicionados à “biografia” de sua identidade secreta. Bachman ganhou uma esposa fictícia, uma imagem fictícia (a foto nas contracapas eram, na verdade, do corretor de seguros do agente literário de King), e, após exposta toda a brincadeira, uma morte fictícia. A causa: câncer de pseudônimo. A explicação para que novos livros assinados por Bachman continuem sendo lançados após seu triste falecimento é a grande quantidade de romances que o autor deixou estocada. Assim, vira e mexe obras “póstumas”, como “Os Justiceiros” (“The Regulators”, 1996) e “Blaze” (2007), chegam às livrarias.

Confesso que não tive boas experiências com Bachman. “Os Justiceiros” tem uma história que empolga apenas raramente e um estilo de escrita um tanto irritante, como se King se forçasse a criar uma assinatura a mais distante possível da do seu pseudônimo. “O Concorrente” (“The Running Man”, 1982), que virou filme estrelado por Arnold Schwarzenegger (poucas semelhanças com o original), larga de um ponto de partida interessante para se perder pelo caminho. Portanto, a quem pretende começar suas aventuras pelo universo de King, sugiro que deixe Bachman para quando seu criador não estiver mais produzindo dois livros por ano.

E se você acha que criar uma mentira tão elaborada quanto um pseudônimo com família, cara e tudo o mais é coisa de gente lunática, espere até ler algumas das histórias mais alucinadas de King em suas coletâneas de contos, como “Sombras da Noite” (“Night Shift”, 1978), “Pesadelos e Paisagens Noturnas” (“Nightmares and Dreamscapes”, 1993) e “Tudo é Eventual” (“Everything’s Eventual”, 2002). Nas histórias curtas o escritor viaja em uma Hellman’s preparada por Timothy Leary: tem máquina de passar roupas assassina, monstro do armário, caminhões com vida própria, cervejas estragadas que transformam gente em criaturas nojentas, vampiro que pilota aviões, entre outras sutilezas. Mas não se deixe enganar, você que jamais alugaria um filme de Roger Corman: apesar dos temas típicos de filmes trash, a prosa de King, na maioria das vezes, faz com que o resultado final passe longe do rasteiro e descerebrado.

A mais interessante coletânea do autor talvez seja “Quatro Estações” (“Different Seasons”, 1982), que reúne quatro (jura?) noveletas, cada uma delas representando uma estação do ano (jura mesmo?). Das quatro, somente uma não foi transformada em filme de sucesso. E aposto que vocês já chegaram a um passo das lágrimas assistindo a pelo menos dois deles: “Conta Comigo” (“Stand by Me”, 1986), adaptação de “Outono da Inocência – O Corpo”, e “Um Sonho de Liberdade” (“The Shawshank Redemption”, 1994), adaptado de “Primavera Eterna – Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank”. O terceiro é “O Aprendiz” (“Apt Pupil”, 1998), de “Verão da Corrupção – Aluno Inteligente”. Some a essas histórias “Inverno no Clube – O Método Respiratório”, e temos um livro obrigatório. Foi o primeiro esforço editorial de King no sentido de provar que poderia escrever obras dramáticas tão bem quanto escrevia terror e fantasia – se ainda restaram dúvidas, estas foram dissipadas com “O Corredor da Morte” (“The Green Mile”, 1996), que deu origem ao filme “À Espera de um Milagre” (1999). A sensibilidade demonstrada na semi-autobiográfica “O Corpo” – por exemplo, quando o garoto, inspirado no próprio King, vê um gamo (ou veado) na mata, e decide nunca na vida contar isso a ninguém, para preservar a mágica do momento – e na construção dos personagens de “Rita Hayworth”, sem falar do andamento perfeito da perturbadora “Aluno Inteligente”, revelam um escritor que só não é mais celebrado pela crítica por causa de uma – ainda – certa dose de má vontade.

Afinal, não deve ser fácil para a intelligentsia dar o braço a torcer em relação a um escritor que bebeu na fonte das ficções científicas podreiras dos anos 50, algo que ele deixa claro em seu primeiro livro de não-ficção, “Dança Macabra” (“Danse Macabre”, 1981), mais do que um tratado, uma declaração de amor, divertida, engraçada e muito bem embasada, a tudo o que o horror produziu até os anos 80, na literatura, nos quadrinhos, no cinema, no rádio e na tevê. É isso mesmo: o cara fala de tudo. E gosta muito. A leveza com que conduz o texto, as críticas inteligentes, as milhares de referências, e, principalmente, a paixão que ele dedica ao tema, ajudam a criar o manual definitivo para qualquer pessoa que queira entender o terror, inclusive dentro de seu contexto histórico – claro que já se faz necessário um “Dança Macabra 2”, mas King disse que não terá paciência para entrar nessa de novo…

O livro até mesmo me inspirou a escrever minha monografia para o Trabalho de Conclusão de Curso. Quem quiser dar uma olhada, é só dar um pulo em http://www.labeurb.unicamp.br/rua/pages/home/capaArtigo.rua?id=89

Outro link legal é do “Stephen King Brasil” (http://www.skbrasil.no.comunidades.net/), site completíssimo sobre os livros do autor e seus desdobramentos – acredite, tem um dedinho de King em todo tipo de coisa, de rádio a seriados, passando por HQs e… Michael Jackson! Sem contar que suas obras são interligadas, com personagens e lugares que se repetem ou são citados em mais de um livro. Todas as referências estão no SKBrasil.

Ainda faltou falar de ótimos livros como “A Zona Morta”, “A Incendiária”, “Christine” e “Angústia”, mas, como eu não consigo ser tão prolífico quanto King, vai ter que ficar para a próxima…

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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