O barulho branco do álbum negro do Anthrax

Houve uma época, distante agora, em que alguns metaleiros descobriram que, misturando seu estilo de devoção a uma pegada acelerada, punk/hardcore, poderiam passar seu recado sonoro de forma mais direta, dependendo um pouco menos de firulas instrumentais. Descobriram também que letra de música não é apostila de História nem fanfiction do Tolkien, e deixaram de falar de dragões, cavaleiros da Távola Redonda e duendes para falar só de guerra, morte e loucura. Nascia o thrash metal e seus Big Four: Metallica, Slayer, Megadeth e Anthrax.

Houve uma época, inacreditável agora, em que o thrash metal foi extremamente popular. No Brasil, então, nem se fala… Os clipes dessas bandas entravam na parada da MTV, elas eram capa das revistas de música, e o que não faltava eram meninas de 14 anos fãs do Metallica e que achavam o Dave Mustaine gato.

Há uma época, compreensível após o passar dos anos (embora nem por isso menos lamentável), em que todo adolescente vira uma criatura extremista e meio babaca, e comete atos como jogar fora o álbum de figurinhas que é do Jaspion de um lado e dos Changeman do outro (a digressão foi apenas para dizer que espero que alguém o tenha encontrado no meu lixo e me venda de volta pelo Mercado Livre) e livrar-se de todos seus discos de heavy metal porque descobriu a melhor coisa do mundo que é o punk rock. Assim, lá se foram todos os álbuns do Black Sabbath – primeiro aqueles com o Dio, afinal, quanto mais melódico, mais longe do punk você está, depois os com o Ozzy, porque, apesar dos quatro álbuns iniciais terem uma sonoridade tão lo-fi quanto um disco dos Ramones, porra, eles são os inventores do heavy metal! Aí, os do Guns – “The Spaghetti Incident” sobreviveu um pouco mais, por ser composto basicamente de covers punk. E, por fim, os álbuns de thrash metal, que eram quase punk, porém… têm solos demais, então, boa tentativa, mas vocês vão pro lixo do mesmo jeito (“lixo” é modo de dizer, esses discos foram todos trocados, vendidos ou desgravados (era o tempo das fitas K7)). E então, depois de uma década, mais ou menos, começa-se a corrida atrás do prejuízo. Dá-lhe recuperar os discos do Sabbath (só os com o Ozzy, porque o radicalismo também ensina), meu querido “Taken by Force”, do Scorpions (eu juro, esse álbum É muito bom!), e, claro, o grande Anthrax, representado pelo magnífico “Sound of White Noise”, de 93.

Num tempo em que éramos doutrinados pela MTV, ver quatro videoclipes com quatro músicas sensacionais de um mesmo disco era mais do que motivo para correr até uma loja e comprá-lo. Foi o caso desse, o primeiro do Anthrax com John Bush (ex-Armored Saint) substituindo Joey Belladonna – que, com tal sobrenome, não causa espanto ao mostrar-se meio afrescalhado, com seus vocais a um passo de serem parodiados pelo Massacration. Bush, pelo contrário, não tinha a menor vaidade. Bush é que era vocalista de verdade. Sem agudos, falsetes ou o diabo a quatro. Sua voz soa potente e rasgada. Encaixa como uma luva na nova roupagem instrumental dos ícones thrash, menos acelerada, mais climática e cheia de groove.

Verdade seja dita: o Anthrax sempre foi a mais criativa e original das bandas thrash. A mais debochada. Nunca se levou tão a sério quanto seus pares. Dispensava as “poses de prisão de ventre” em que Metallica e Slayer apareciam em seu material promocional. Quer ouvir a melhor combinação entre inventividade e escracho? Escute “I’m the Man”, de 87. Quer saber o quão diversificado pode ser o som dos caras? Procure “Bring the Noise”, de 91, parceria com o Public Enemy.

Mas em “White Noise” o papo é outro. Humor e hip hop são deixados de lado para dar lugar a uma obra-prima adrenalizante, capaz de transformar sua casa em uma louca exibição gratuita de air guitar e moshs solitários. Irás até fazer a dancinha do Scott Ian. E eu ainda nem falei dos refrões ganchudos. O Anthrax sempre foi bom de melodia, daqueles recheios de música que te levam a cantar junto com a banda. Pois aqui eles se superam. Uma ou outra pode não grudar tanto na cabeça e nas cordas vocais. A maioria vai te fazer assobiar e cantarolar até os riffs.

Falando das quatro músicas lançadas como videoclipe, a primeira delas, “Black Lodge”, destaca-se como uma das canções mais diferentes da banda. Co-autoria de Angelo Badalamenti, compositor das trilhas sonoras de algumas obras de David Lynch, é sombria e bela, exatamente como os filmes do diretor esquisitão. “Hy Pro Glo” é rápida feito um velho carro envenenado e vai direto ao ponto, o que, no caso, deve ser um muro de pedra. Durante a viagem, Bush muda seus vocais de um estilo pra outro com a finesse de quem sabe muito bem o que está fazendo. “Only”… o que dizer de “Only” quando o vocalista do Metallica já disse tudo? “The perfect song.” (HETFIELD, J. 1993) “Room for One More” crava seu lugar na história como uma das melhores introduções de todos os tempos, e segue vibrante e pegajosa até o final. Entre as músicas que não foram lançadas como single, é impossível não citar “Potter’s Field”, que abre o álbum de um jeito que não deixa dúvidas quanto ao que você vai encontrar pela frente, “Packaged Rebellion”, “Invisible”, “1000 Points of Hate” e “Burst”, também refrões magníficos.

Acho que “Sound of White Noise” pode ser considerado o “Black Album” do Anthrax. Foi o lançamento da banda que alcançou a melhor posição nas paradas de sucesso, estreando no 7º lugar do Top 200 da Billboard, e recebeu disco de ouro. Assim como o álbum que redefiniu a carreira do Metallica e transformou-os na maior banda de metal do mundo, “White Noise” tirou o quinteto nova-iorquino do gueto thrash, graças, também, a uma sonoridade mais pop, mas, principalmente, às qualidades individuais de cada canção e a um fator que já colocou a carreira de muitos grupos a patinar, a mudança de vocalista. Aqui, a troca preencheu uma vaga que nunca antes fora tão bem aproveitada.

 

Dica da noite: vale a pena procurar também a faixa “Poison my Eyes”, gravada nas sessões de “White Noise”, mas lançada somente na trilha sonora de “Last Action Hero”.

Anúncios

Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
Esta entrada foi publicada em Música. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s