Kung fu black power

Sabe aqueles filmes dos quais você não consegue se livrar? Que você não consegue deixar de assistir toda vez que esbarra neles? Um deles seria o clássico pop-black “O Último Dragão” (“Berry Gordy’s The Last Dragon”, 1985, de Michael Schultz)? Se a resposta é sim, então temos algo em comum. E provavelmente você vai concordar comigo em cada linha deste texto.

“O Último Dragão” é não só um dos filmes mais divertidos e criativos dos anos 80, como também um membro do exclusivo clube de obras cinematográficas que legaram toda uma mitologia. Assistir-lhe uma só vez é lembrar-se para sempre de Bruce Leroy (pegaram a sacada, né?), o lutador negro de kung fu fissurado por Bruce Lee, ao ponto de andar numa boa pelo Harlem vestindo trajes típicos chineses e comer pipoca com palitinhos no cinema. Eis um cara que vive o que ama. E o que dizer de seu arquirrival, Sho’nuff, o Shogun do Harlem (eis outro apaixonado sem autocensura), arruaceiro com um figurino meio Kool & The Gang-samurai que poderia ter fugido de uma cena de “Warriors”, e que não perde uma oportunidade de tentar fazer com que Leroy beije seus pés (“Kiss my Converse”, no original, frase lendária do filme, só perde para “Quem é o mestre?”, proferida também por Sho’nuff)? Some a eles Richie, o irmão caçula de Leroy, uma espécie de Arnold malandro que só pensa em pegar mulher e não se conforma em ter um virjão como irmão mais velho; a cantora pop (duvido que não seja inspirada em Cindy Lauper) namorada do empresário musical e gângster, que, por sua vez, possui como animal de estimação uma coisa de apetite voraz e presas afiadas moradora de um aquário gigante (cada vez isso fica melhor, fala aí!); e os alunos de Leroy, entre os quais destaca-se o oriental que não sabe lutar mas aproveita sua fuça de Bruce Lee pra dar uma enganada. Como não poderia faltar, há também o interesse amoroso do herói – e de seu irmão precoce -, uma apresentadora de videoclipes/mestre de cerimônias de balada black. Acredite, nenhuma dessas figuras fica sobrando, todas estão na trama por bons motivos, e estes se entrelaçarão no decorrer do filme.

A produção é assinada por Berry Gordy, Jr, nada menos que o fundador da Motown, a mais célebre gravadora de black music da História. Gordy deve ter percebido o sucesso que os filmes de kung fu chineses sempre haviam feito entre a comunidade negra. A explicação para isso, provavelmente, é mais simples do que possa parecer: nos EUA, tanto os negros quanto os asiáticos viviam em guetos, e raramente eram retratados como heróis nas produções hollywoodianas. Para mudar essa realidade, entraram em cena os filmes blaxploitation, onde os negros não eram somente bandidos ou coitadinhos esperando para serem salvos pelo herói branco, e o cinema de artes marciais asiático. Ambos cresceram juntos em termos de popularidade na América. Assim, não foi por obra do acaso que o mais famoso filme de kung fu dos anos 70, “Operação Dragão” (“Enter the Dragon”, 1973, de Robert Clouse), mega-sucesso e primeira grande produção estrelando Bruce Lee, teve como co-astro o lutador negro Jim Kelly (que, em 74, estrelaria “Jones, o Faixa-Preta” (“Black Belt Jones”, também dirigido por Robert Clouse)).

Além disso, há de se convir, os filmes de pancadaria americanos contavam com lutas mais burocráticas do que um show do Capital Inicial. Os chineses, por sua vez, vinham com algo novo e impressionante para os ocidentais: lutas frenéticas e intermináveis, golpes na velocidade da luz, shaolins voadores e muito, muito exagero.

“O Último Dragão” bebe nessa fonte, e toma um porre de excesso! Dá-lhe lutadores capazes de parar uma bala com os dentes, cujos corpos brilham durante as brigas.  Numa das melhores sequências, eles arrasam completamente um cinema em plena exibição de, olha só, “Operação Dragão”! Mais icônico, impossível. Mais divertido, idem.

No final das contas, o filme todo é uma imensa homenagem a Lee (são bonitos de se ver os videoclipes com cenas de seus filmes que a mocinha usa para chamar a atenção do herói), embalada por black music, muito humor e personagens extremamente carismáticos.

Até hoje fico pensando na oportunidade perdida por não terem transformado “O Último Dragão” em série de tevê, desenho animado, história em quadrinhos… A mitologia Leroy merecia.

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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2 respostas a Kung fu black power

  1. Pingback: Top 5 Mais Esperto Q A Maioria Dos Ursos 2010 | Mais Esperto Q A Maioria Dos Ursos

  2. gabriel ferreira diz:

    esse filme eh sho0w de briiga kk rs
    saudades de quando ele passava
    nas telinhas antigamente…..
    abçss.

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