Sobre monstros, robôs gigantes e a primeira menstruação

Dois posts atrás, eu comentei sobre meu álbum de figurinhas Jaspion/Changeman há longa data perdido (entenda “jogado fora”). Um dos maiores tesouros de qualquer infância oitentista que se preze, o livro ilustrado contava com centenas de fotos autocolantes dos super-heróis, vilões, monstros, robôs gigantes, armamentos e veículos hi-tech presentes nas duas séries que reinauguraram a paixão do público brasileiro pelo tokusatsu, formato que já havia dado as caras por aqui entre os anos 60 e início dos 80, também com enorme sucesso, através de “National Kid”, “Vingadores do Espaço”, Família Ultra, “Spectreman” e “Robô Gigante”. E era somente um entre a baciada de produtos com a marca desses seriados e de outros que chegaram ao Brasil no rastro do êxito das produções de 85. Como disse o especialista no assunto Ricardo Cruz, no ótimo blog Robô Gigante (http://blogrobogigante.wordpress.com/), naquela época nós “fomos vítimas do ataque de algum monstro emborrachado japonês. Um ataque cultural”.

Tratava-se justamente disso. Um ataque, um bombardeio cultural. Penetrar no universo tão amplo e sedutor do tokusatsu implicava em entrar em conexão com, talvez, uma das culturas mais distantes da nossa em termos de similaridades, a despeito das décadas de imigração e de contato entre Brasil e Japão. Significava encontrar o tão curioso espírito nipônico em cada pequeno detalhe de cada episódio desses seriados. Já se analisou em demasia a fixação dos japoneses por monstros gigantes destruindo suas cidades, atribuída ao trauma gerado pelas explosões atômicas em Hiroshima e Nagasaki. No que se refere à tecnologia envolvendo seus heróis, o consenso geral é o de que isso se deve à sua sociedade extremamente automatizada, líder de ponta tanto no desenvolvimento quanto no consumo de traquitanas eletrônicas. Todos esses aspectos, porém, são só a ponta da cauda do dinossauro. A forma como os japoneses encaram e “traduzem” alguns assuntos, muitos deles tabus para nós, ocidentais, é um dos fatores responsáveis por boa parte do fascínio que suas obras de cultura pop exercem sobre o resto do mundo. A noção de honra, a constante busca pelo autoaperfeiçoamento, a isenção da culpa judaico-cristã (espero comentar sobre isso em outro post)… Quando se sabe o valor que o japonês atribui ao coletivo – inclusive com certa anulação da individualidade -, saca-se porque nos seriados de equipes, como Changeman e Flashman, os golpes mais poderosos, os que realmente finalizam o inimigo, só podem ser desferidos com a união de todos os membros – as célebres bazucas, formadas por cinco peças separadas, não estão ali à toa. O mesmo vale para os robôs gigantes, originados do encaixe entre três ou mais veículos. É aí que entendemos também a importância do cosplay como válvula de escape, como uma afirmação da singularidade, ainda que através de um personagem de ficção. Mas isso é outra história.

E quanto ao sexo? Se nós, desta metade do globo, somos constantemente bombardeados por notícias chocantes sobre pedófilos e suas perversões, acho que o mesmo não acontece por lá. Revistas com meninas menores de idade em ensaios sensuais são comuns nas bancas, isso sem falar nos tiozinhos que pagam por calcinhas usadas de colegiais. Não faltam animês mostrando garotas às voltas com criaturas grotescas que usam seus tentáculos com uma criatividade que deixaria boquiaberto até um adolescente cheio de piadas de duplo sentido. Não é, porém, a intenção desse papo julgar se tais manifestações são doentias ou um reflexo cultural, e sim recordar alguns simbolismos em relação à questão sexual surgidos nos tokusatsus. “Changeman”, por exemplo, está repleto deles.

Um dos personagens mais marcantes da série é a vilã Shima. Boa de briga, implacável, interessante visualmente… e com voz de macho. A Ana Carolina das guerreiras intergalácticas foi um dos personagens que mais passou por transformações – psicológicas e físicas – no decorrer da série. No episódio “O Desaparecimento de Togo”, uma monstrenga estava usando seu leite esquisitão para transformar gatos em humanóides agressivos. Acontece que ela havia sido nada mais nada menos que a ama de leite de Shima, na época em que a vilã era a pequena princesa de seu planeta Aman. O que nos deixa pensando: seria Shima também uma criatura animalesca ou monstruosa, transformada em humana pela substância ingerida durante a infância? Boa questão. Muitos episódios adiante, percebemos que não é bem assim. Shima tem, sim, uma outra persona, mas é a de uma típica princesa, graciosa e com uma voz decente. Aparentemente, o leite não havia mudado sua forma, apenas a havia “contaminado” com atributos masculinos necessários na guerra. O golpe da espada de seu colega Buba, contudo, cuida de despertar sua feminilidade. É o desabrochar de uma garota que, diante das circunstâncias, fora obrigada a afastar-se do curso natural de seu desenvolvimento enquanto mulher.

Algo parecido acontece com a personagem Nana. A menina, uma alienígena perdida na Terra, passa a ser caçada pelos vilões quando eles ficam sabendo que ela chegou à idade de manifestar uma força chamada Aura Energética. Quem se banha nessa energia adquire poderes inimagináveis. Um detalhe: ao emanar a aura, Nana fica vários anos mais velha. Salta da infância para a adolescência. Metáfora indiscutível para a primeira menstruação, evento biológico que abre todo um novo campo de sensações, desejos e responsabilidades nas vidas das mulheres, concedendo a elas poderes até então adormecidos, latentes. Seja o de gerar descendentes, seja o de atrair o sexo oposto.

Para sorte de Nana, a Aura Energética é única, não ocorre uma vez por mês como para as pobres terráqueas. Embora o Comandante Giluke, após realizar uma missa negra (olha a religião cristã sob uma ótica japonesa aí, gente!), consiga provocar uma segunda emanação. Mas, como já disse, isso é outra história… E eu vou ficar aqui pensando o que isso significa, enquanto me divirto com monstros emborrachados e dublês saltando de uma pedreira com uma enorme explosão às suas costas.

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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