O álbum do U2 que inaugurou os anos 90

“Precisamos ir para casa e sonhar tudo de novo.”

Com essa frase, em 1989, o U2 se despedia de seu momento de maior sucesso até então. A banda havia lançado, dois anos antes, o álbum “The Joshua Tree”, onde eles exploraram ritmos negros americanos como o blues e o soul. A proposta de namoro feita pelo quarteto irlandês aos EUA foi irrestritamente aceita, o que mudou suas vidas para sempre. Da plataforma de lançamento que é a terra do Tio Sam, de David Letterman e da Billboard, o U2 partiu para conquistar o resto do mundo. O álbum duplo/longa-metragem para os cinemas “Rattle and Hum” só fez confirmar a dominação planetária. O preço pago por tudo isso? Superexposição e desgaste físico, mental, e, na opinião deles mesmos, artístico.

Porém, contrariando a famosa frase lá de cima, a banda não voltou para casa. Mudou-se de mala, cuia e ambição para Berlim, exílio favorito de astros do rock com necessidade de reinvenção ou de fugir de suas próprias personas. Iggy Pop havia vivido por lá. Por lá, também, David Bowie parira uma trilogia, formada por “Low”, “’Heroes’” e “Lodger”, entre 77 e 79. Aliás, fazia parte da equipe do parto Brian Eno, ex-tecladista do Roxy Music, que o U2 escalou para a produção de seu primeiro álbum pós-recesso. O estúdio: o mesmo Hansa by the Walls onde Bowie finalizara os dois primeiros capítulos de sua “trilogia-Berlim”.

Círculo fechado, era hora de começar algo novo. Tudo de novo. Ao sinal de “Achtung baby!” (“Atenção, baby!”, em alemão) dado pelo engenheiro de som, o U2 inaugurou os anos 90. Sim, é o que muitos críticos tarimbados afirmam. Não foi Pixies, Nirvana ou R.E.M. que profetizou – ao mesmo tempo em que moldava – tudo o que a década nascente iria ser, e sim uma das bandas mais consagradas do mundo no sétimo álbum de sua trajetória. Quem duvida é talvez porque não se lembre de que os anos 90 não foram apenas sujeira, distorção e college rock. Essa foi a década da música eletrônica, da comunicação em massa, das tecnologias revolucionárias que – opa! – já ficaram obsoletas, do ecstasy e do cinismo. Pois bem, “Achtung Baby” era tudo isso antes do mundo ser tudo isso.

Não que o quarteto não tenha buscado muito da inspiração para o álbum um passo atrás. A fórmula de guitarras lisérgicas e funkeadas sobre batidas dançantes causava rebuliço no universo pop desde o final dos anos 80, cortesia de Madchester, movimento (des)organizado por bandas como Happy Mondays e Stone Roses. Faltava, no entanto, alguém do porte do U2 para fazer o resto do globo entender do que se tratava. Mais ou menos como os Sex Pistols fizeram com o som dos Ramones.

Falando em som, como não respeitar um álbum do U2 que abre com guitarras emulando furadeiras e a boa voz de Bono Vox completamente distorcida? “Zoo Station” é praticamente um cartão de boas-vindas ao reino do “não estou nem aí” – termo que faz mais sentido se aplicado ao despojamento da banda em relação à sua imagem cristalizada perante o público do que às questões políticas e sociais que sempre estiveram na pauta do dia de suas vidas artísticas e pessoais. Afinal, se eles trocaram o visual de classe operária pelo fashionismo de jaquetas de couro e óculos escuros “mosca”, foi numa tentativa de retratar a incerteza e a dualidade dos novos tempos. De uma forma parecida, Bono continuava disfarçando mensagens de cunho político em emocionantes letras sobre o amor entre duas pessoas (ele já confessou que precisa estar muito bêbado para conseguir compor canções de amor). As arrepiantes baladas espirituais, tão U2, continuavam presentes. O melhor exemplo é “One”, foco de interpretações tão diversas como “é um diálogo entre um pai conservador e seu filho portador do HIV” e “é um recado para Saddam Hussein”. Bono segue em frente na disputa por uma vaga no rol dos melhores letristas da música com “Until the End of the World”, que condensa toda a ambiguidade do ato mais famoso de Judas Iscariotes através das palavras do próprio. Irônica e sombria.

E é a dosagem das sombras e das luzes estroboscópicas das pistas de dança que faz de “Achtung Baby” um álbum tão singular na discografia dos caras. Nunca as guitarras de The Edge estiveram tão funkeadas como elas se apresentam em “Even Better Than the Real Thing” ou na oriental “Misterious Ways”. Nunca estiveram tão perfeitas e delirantes quanto no show que é “The Fly”, talvez a música-símbolo do álbum. Seria injustiça não citar também a cozinha de Adam Clayton e Larry Mullen Jr. Baixista e batera se adaptaram com maestria à abordagem mais dançante das composições.

Toda essa transformação pôde ser conferida ao vivo na primeira turnê temática do U2, a inesquecível “Zoo TV”. Por mais que a auto-ironia com a qual criticaram o consumismo e a efemeridade da música moderna na “Pop Mart Tour”, de 97, tenha sido bem sacada, a piada perdeu parte da sua graça depois que, como quase todo produto pop, foi assimilada. A carga de informações da “Zoo TV”, por sua vez, ainda levará anos para ser digerida. Faz e continuará fazendo muito sentido dentro de sua proposta de atacar, subverter e regurgitar os recursos midiáticos que elegem presidentes e ídolos musicais, que trazem a mais sangrenta guerra santa e política à nossa sala de estar da mesma maneira que promovem a “consciência social” das multinacionais petrolíferas. A cada apresentação comandada por The Fly, o personagem cínico e jocoso encarnado por Bono, a rede de tevê do U2 misturava George Bush Sr., David Bowie, Steve Jobs e Big Brother em uma frequência simultaneamente hipnotizante e libertadora.

Assim, não foi sem um arrepio na coluna que acompanhei um pequeno momento “Achtung Baby/Zoo TV” na última passagem dos irlandeses pelo Brasil, e, depois, no filme “U2 3D”, com os caras tocando “Zoo Station” e “The Fly”, reincorporando a sonoridade e a postura desafiadora desse que ainda é o melhor momento na carreira de uma banda que, mesmo estando há mais de vinte anos no topo da cadeia alimentar da música, não tem medo de parar e começar tudo de novo.

Anúncios

Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
Esta entrada foi publicada em Música. ligação permanente.

2 respostas a O álbum do U2 que inaugurou os anos 90

  1. eduardo diz:

    ñ curto U2 mas é inquestionável aceitar a banda como um icone de uma (ou mais) época

    http://oarlecrim.blogspot.com/

  2. Em primeiro lugar adorei ( e morri de rir) com a tua descrição de perfil.
    Quanto ao artigo, já gostei mais do U2; e não que a banda tenha deixado a desejar ou perdido qualidade, eu que me distanciei um pouco de música mesmo.
    Talento inquestionável!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s