E quanto aos nerds futebolísticos?

De uns tempos pra cá (talvez desde a ascensão de Bill Gates e seus seguidores) o termo “nerd” tem sido difundido como nunca. Até mesmo em programas populares como o da Eliana é possível ver coisas como a Mulher Jaca tendo que aprender a viver como um nerd pasteurizado para ganhar um prêmio em dinheiro. Além do fato de que os “caxias” mandam no mundo moderno, produtos da cultura pop como “Big Bang Theory”, as cada vez mais hypadas convenções de quadrinhos (vide a Comic-Con deste ano) e a facilidade com que atualmente consegue-se acesso a animações, séries ou HQs de qualquer parte do mundo elevaram os nerds a um status de nobreza ao mesmo tempo invejada, ainda pouco compreendida e, por que não, até um tanto temida. Os leigos (também conhecidos como “pessoas normais”) sabem que um dia terão que conviver, quem sabe até trabalhar com ou – mais possivelmente – para um representante desse grupo cultural, porém não sabem direito se eles falam um dialeto próprio, se são dóceis ou podem ser agressivos, o que eles comem… Isso mete medo nas pessoas. A curiosidade vem da percepção de que terão de adentrar tal hermético universo caso queiram sobreviver em um futuro cuja palavra de ordem será “conhecimento”, ainda que em áreas até então consideradas supérfluas, infantilóides.

Chega a ser engraçada a contraditória e hipócrita noção por parte da maioria das pessoas de que quadrinhos, desenhos animados e games são coisas de criança. Bem, podemos afirmar que uma considerável, talvez gigantesca parcela de quem diz isso é formada por gente que gosta de esportes, não podemos? Gente que cola os olhos na tela da tevê, que apela até pra radinho de pilha, quando chega a hora de uma partida de futebol. Gente que grita, chora, briga, ri “feito criança” quando um cara de uniforme colorido acerta uma bola em uma rede, ou numa cesta, ou num buraco. E isso não é infantil? O fato de haver milhões de reais ou dólares e profissionais competentíssimos e altamente treinados envolvidos não muda esse conceito. Se muda, muda igualmente para uma animação, que consome um orçamento monstruoso, anos de desenvolvimento e o trabalho dos melhores artistas e técnicos do mercado. 80% da equipe de roteiristas dos Simpsons já foi composta por ex-alunos de Harvard.

E o colecionismo? Colecionar bugigangas de Star Wars ou de Dragon Ball é coisa de nerd. Ter em casa a caneca do Corinthians, o pôster do Fluminense campeão ou bonés da NFL não é. Se um cara de 40 anos sai pela rua com uma camiseta estampada pela imagem de Lara Croft, toda gostosona, muitos o olham de um jeito torto. Se o mesmo cara aparecer com uma camiseta do Barcelona escrito “Messi” nas costas, ele vai atrair várias pessoas pra sua roda de conversa. Camisetas de time são o cosplay dos fanboys do esporte.

Ser nerd (e consequentemente infantil) consiste em conhecer e lembrar-se de cada detalhe, nome e data referente à sua obra de devoção. É sério que é menos normal saber os nomes das regiões da Terra Média de “O Senhor dos Anéis” do que saber de cor a escalação da Seleção Brasileira de 1958? Ou o resultado de Ponte Preta e Juventus em algum dia da década de 70? Ou o número da camisa do Tostão? As mesas redondas televisivas, nas quais um bando de caras barrigudos, visivelmente tão sedentários quanto qualquer nerd, consegue por uma hora desdobrar (dotados de uma seriedade digna da cobertura jornalística do caso Watergate) um assunto como o atual “o Palmeiras entregou ou não entregou?”, vivem da sabedoria nerd futebolística. Da mesmíssima paixão devotada das pessoas que vão à pré-estréia de um novo “Harry Potter” vestidas de bruxos-mirins.

Em suma, para os leigos (também conhecidos como “pessoas normais”) é meio como se todo mundo que se importasse com algo que transcende a vida cotidiana, ou seja, todo mundo que conhecesse algo sobre alguma coisa, só pudesse ser, claro, nerd. Mesmo que eles saibam a quantos minutos do segundo tempo o Felipe Melo foi expulso nas quartas de final da Copa. E aí, de perto alguém é “normal”?

Anúncios

Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
Esta entrada foi publicada em Animação, Cinema, Literatura, Quadrinhos, Televisão. ligação permanente.

5 respostas a E quanto aos nerds futebolísticos?

  1. Léo diz:

    Olá,

    Uma reflexão instigante. Aliás, a comparação, apesar de muito apropriada, nunca me ocorreu. Gostei bastante.

  2. Led diz:

    Hahaha! Muito bem sacado Beat…e que cada um continue com suas esquizitices.
    E me deixe na minha “nerdice futebolística” em paz, porra! hahaha

  3. E aí beat!

    bem legal o post! e acho que não é algo tão “novo” assim… as coisas se desprenderam do “nerd”, que passou a ser algo mais generalizado, algo mais “escolar”… agora temos os geeks! de todos os tipos! tem até um desenho legal mostrando a evolução do geek:

    so olhando essa figura já me encaixo em uns 5 tipos! e é bem o que vc disse… agora essa categoria domina e estão ocorrendo alguns conflitos entre aqueles que abraçaram a nova realidade, os que usam os termos mas não confessam e os que ainda acham besteira e coisa de quem gosta de anime/comics/sci-fi.

    o que acho que deixa a transição um pouco mais lenta são os próprios esportes que predominam aqui… futebol e volei. claro, tem como ser um PVC da ESPN e lembrar escalação do madureira de 78, mas o esporte em si não dá muito material pra que as pessoas catalizem esse novo jeito de encarar os “gostos”. só falam em quem faz gol! nem em quem dá o passe, que seria a assistência… muito menos do resto, como roubo de bola, quantidade de defesas, etc… coisas que dá pra encontrar no cartola FC, mas não é muito explorada nas mesas redondas (ainda).

    E deveriam usar isso! é muito massa você ver que aquele cara, que talvez tenha marcado 2 gols no campeonato todo, é o maior roubador de bola… dá um valor pro cara, expande a visualização do esporte em si. se você parar pra ver as estatísticas do futebol americano ou baseball vai endoidar! tem de tudo, e saber isso, pelo menos pra mim, deixa o esporte mais interessante… me dá um motivo a mais pra ver cada jogador presente ali. mesmo basketball e hockey, que tem estatísticas em menor número, ainda tem mais que nosso futebol da bola redonda… e esse pouco a mais, acredite em mim, muda a forma de encarar o esporte.

    ia falar mais, mas oh o tamanho do comentário! hahahaha… praticamente um post!

    abrasss!

  4. Pingback: Top 5 Mais Esperto Q A Maioria Dos Ursos 2010 | Mais Esperto Q A Maioria Dos Ursos

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s