25 de dezembro, nascimento do menino… Kal-El?

Obra de Mauro Guzman

Uma inteligência superior envia seu único filho para que ele viva entre nós, seres humanos. Conforme cresce, o enviado se prova capaz de feitos extraordinários, alterando o destino de todo o planeta e até das gerações futuras. Esta é uma das histórias mais conhecidas de todos os tempos. A história de Jesus, certo? Certo. Mas também a origem do Superman.

Criado por dois judeus, Jerry Siegel e Joe Shuster, o mito de Kal-El, o kriptoniano com poderes além da imaginação que se disfarça como o frágil Clark Kent para poder viver entre nós, mantém mais conexões com a epopeia do Filho de Deus do que possa parecer à primeira vista. Há uma série de referências, como, por exemplo, o sobrenome original do super-herói, El, que significa Deus em hebreu. Tal metáfora faz de Superman um descendente direto do Criador, o mais poderoso dos judeus, um Ultimate Judeu, assim como Cristo. Outra similaridade: em sua cronologia clássica, o Superboy foi visitado em Smallville por três viajantes que sabiam de sua importância e admiravam-no enormemente. Eram os três Reis Magos, quero dizer, eram Cósmico, Satúrnia e Rapaz Relâmpago, membros da Legião dos Super-Heróis, equipe do século XXX que se uniu inspirada pela figura de Kal-El. Poderia citar aqui também a Morte do Superman e sua subsequente ressurreição, mas aí seria golpe baixo, considerando que, nos quadrinhos, até a Tia May já ressuscitou. Mas sabe quem deu cabo do Homem de Aço? Um vilão chamado Doomsday, algo como Juízo Final, e que foi batizado no Brasil como Apocalypse. Bastante bíblico.

Confesso que tenho enorme dificuldade em comprar a ideia desse Jesus Cristo “kriptoniano” descrito no Novo Testamento. Afinal, Deus enviou seu filho para que a humanidade se inspirasse a ser como Ele, não? Só que o cara tem uma porrada de superpoderes! Vai contando: levitação (ou caminhar sobre as águas, o que dá praticamente no mesmo), manipulação da matéria (a multiplicação dos pães), manipulação química (transformar água em vinho), dom da cura, premonição e – agora vem os maiores de todos – autorressurreição e ressurreição alheia (Páscoa e o “episódio Lázaro”, respectivamente). Convenhamos, se Jesus era realmente um Superman da Antiguidade, Deus estabeleceu pra gente um padrão muito alto. Um padrão inatingível. Ou tem algum mutante nível ômega lendo esse post que duvida disso?

Agora, vamos abrir um parêntese para relembrar a origem de outro personagem de quadrinhos, contemporâneo do Superman e tão importante quanto ele: Batman. O que é o Batman? Um ser humano. Nascido sem qualquer habilidade especial. Um sujeito que, não fosse por uma tragédia – o assassinato a sangue frio de seus pais -, provavelmente teria se tornado um professor, um cientista, um empresário ou simplesmente o Chiquinho Scarpa. Mas Bruce Wayne, seu alter ego, tinha um objetivo: tornar o mundo um lugar melhor, ou, pelo menos, mais seguro. A fim de se preparar para essa árdua missão ele treinou seu corpo e sua mente durante longos e rigorosos anos. Aprendeu um sem-número de técnicas de combate, o manuseio de armas diversas, ginástica olímpica, métodos de investigação criminal. História, geologia, linguística, química. Absorveu o máximo possível destas e de outras ciências graças à obstinação e paciência de um monge. Ainda que hipoteticamente, a maioria de nós, dotada de uma perseverança similar, poderia atingir esse grau de aperfeiçoamento. Há centenas de exemplos reais de pessoas que ultrapassaram limites físicos até então inimagináveis. As Olimpíadas estão repletas deles. Há, igualmente, pessoas que não nasceram geniais, mas esforçaram-se no sentido de aprimorar sua capacidade mental. Podemos deixar Leonardo Da Vinci de fora e ainda sobram exércitos de “crânios” nos mais variados assuntos. E há os que conseguem reunir as habilidades de um medalhista de ouro e de um vencedor do Nobel em um único corpo. Devem ser bem poucos, mas existem. É possível.

O que quero dizer com tudo isso se resume a: dá para ser o Batman. Mas não dá para ser o Superman. E não acho que o Todo-Poderoso desconsideraria tal fato.

Quer outro furo no roteiro “divino”? Satanás. Imagine uma entidade cósmica suprema, maior até do que Eternidade ou os Celestiais, do Universo Marvel. Ela é onipresente e onisciente. Sabe tudo o que está acontecendo, o que aconteceu e o que vai acontecer. A entidade resolve criar um ser quase tão poderoso quanto ela para que comande suas legiões, mesmo sabendo que sua criação irá lhe trair e convencer muitos outros a unir-se ao levante. Claro, sempre há a alternativa de expulsar o bastardo mal-agradecido de seu círculo de convivência. Mas a entidade também sabe que, fazendo isso, o traidor irá construir uma base de operações bem próxima do mundo dos homens, que vêm a ser suas criações favoritas, e passará todos os milênios vindouros atormentando essas almas que nunca pediram para ficar no meio de tal guerra infinita e nem foram dotadas das capacidades e habilidades necessárias para resistir às suas consequências. Se a entidade, mesmo ciente de tudo isso, ainda assim resolve dar o pontapé inicial no pandemônio e dá origem ao traidor, ela só pode ser: a) incompetente ou b) completamente insana.

Eu, particularmente, tendo a acreditar que a culpa é dos roteiristas. A mitologia, seja ela grega, romana ou cristã, sofre do mesmo problema da cronologia Marvel e DC Comics: tem gente demais metendo a mão nelas, e com objetivos na maioria das vezes bastante sórdidos.

Feliz Natal. Ou o que quer que se comemore em Krypton.

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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3 respostas a 25 de dezembro, nascimento do menino… Kal-El?

  1. Da Pinta diz:

    Bem, impossível não lembrar de Joseph Campbell e seus arquétipos universais, não??? A ideia de um salvador iluminado, dotado de sangue divino, ainda que vivendo entre nós, não é um privilégio da cristandade. O mito egípcio de Osíris, por exemplo, guarda vários paralelos. Se não me engano, até mesmo no número de seguidores próximos (12), conta baseada em observações astronômicas mais que antigas (ultrapassadas, não).

    Os quatro Evangelhos tidos como “oficiais” divergem entre si em alguns aspectos. Permitem diferentes interpretações a respeito de certos episódios e personagens — Maria Madalena é um deles. Foram copiados em diferentes idiomas da época e, posteriormente, traduzidos, o que torna óbvio concluir que a mensagem e o enredo original inevitavelmente seriam distorcidos. E não é diferente com o Antigo Testamento. Tanto é que inúmeros concílios foram convocados no período pré-Idade Média, com o intuito de padronizar as diferentes versões de alguma maneira.

    Sem querer ofender a fiel algum, não é absurdo pensar que Cristo sequer existiu, sendo um mito criado pela releitura de vários outros mitos antecessores. Quem, por acaso, se indignar com tal pensamento, poderia conter a ira antes de mais nada. Afinal, isso diminui em alguma coisa a importância de Jesus? Sinceramente, quem ele realmente foi ou o que literalmente fez ou deixou de fazer pouco interessa!

    A parábola de sua vida, fictícia ou não, por si só já contêm inúmeros ensinamentos e uma filosofia própria a respeito da vida. A beleza da Bíblia não se perde por isso. E até aumenta com a descoberta de novas revelações, como os evangelhos apócrifos! Ao interpretar ao pé da letra tais escrituras sagradas, muita gente contribui para alimentar o tal demônio. Que não está lá embaixo com seu caldeirão fervente, mas sim dentro de nós… tal qual a iluminação!

    • Realmente, o mito de Osíris e principalmente o de Hórus têm tantos pontos em comum com a história de Cristo que é impossível que seja mera coincidência. Basta assistir ao documentário “Zeitgeist” ou simplesmente dar uma olhada nesse link: http://hippiesbeatniks.blogspot.com/2009/01/comparando-osris-hrus-e-jesus.html
      Quanto à importância de Jesus diminuir ou não dependendo de sua existência ou inexistência, vale a pena lembrar outra famosa história, “O Mágico de Oz”. O fato do Mágico ser uma grande farsa diminui o valor da jornada física e espiritual que o quarteto empreende para encontrá-lo? Acredito que não. Mas isso levanta outro problema em relação à religião, pois boa parte dos religiosos está ávida por respostas prontas, saídas da boca de um líder espiritual ou das páginas de um livro antiquíssimo. Poucos querem entender que não é o destino, e sim a viagem o que realmente importa.
      Abração!!

  2. bernamarquez diz:

    Beat, conhece esse site?
    http://roteirodecinema.com.br/
    lembrei de vc, claro!
    abs

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