CQSem-graça

Inspirado pela discussão levantada pelos meus amigos do blog Haja Paciência (http://hajapaciencia4.blogspot.com/2010/11/salve-cqc-ou-nao.html e http://hajapaciencia4.blogspot.com/2010/12/cqsenta-la-claudia.html), resolvi falar um pouco sobre o CQC. Posso dizer que concordo com boa parte do que foi comentado nos dois posts. A discussão sobre quão tênue é a linha entre jornalismo e humor, ainda mais para um programa que resolve ser ambos, é algo realmente relevante, e mais sério do que muitos possam imaginar. Porém, gostaria de voltar o foco para um aspecto que não foi tão explorado por eles: afinal de contas, o CQC tem graça?

Já faz algumas semanas que desisti de assistir ao programa comandado pelo Marcelo Tas – que, concordo, é um dos caras que mais entendem de televisão no nosso tão televisivo país -, portanto, posso estar desatualizado, embora não acredite que, em pleno fim de ano com seus odiáveis “melhores momentos”, alguma grande revolução tenha tomado de assalto os telespectadores da atração. Sério, sentia que estava perdendo meu tempo com um programa onde só se salvavam o Top 5 – que não depende exatamente do cast para ser engraçado – e as matérias do Danilo Gentili, especialmente o “Controle de Qualidade” ou algo assim. O fato é que Gentili está a anos-luz de distância dos demais repórteres em termos de genialidade e desempenho humorístico. E, com sua pretensa simplicidade de Jeca Tatu, ainda ganha de lambuja quando é preciso sacanear um político safado e/ou ignorante. Rafael Cortez começou bem, mas tornou-se extremamente previsível, prisioneiro do seu tipo de conquistador barato. Tipos bem definidos, aliás, é o que não falta. Todos os outros repórteres sofrem do mesmo mal. Oscar Filho, disparado o pior de todos, é o pequenino safadinho, ou resumindo, um meio-Cortez diet, sem tempero e sem-graça. Felipe Andreoli é o amigão da garotada (a rima é por conta do freguês), deslumbrado com qualquer jogador famosão que encontra – sacrifica sem dó uma boa piada pela esperança de ser convidado para um churrasco na casa do Ronaldo ou uma suruba na casa do Adriano. E Mônica Iozzi ataca com sua pretensa simplicidade de Jeca Tatu, ou resumindo, é uma meio-Gentili, mas com tempero (que a ajuda muito na hora de arrancar declarações de entrevistados masculinos) e alguma graça. Talvez tenha futuro. Talvez seja contaminada pela incapacidade de pensar rápido dos colegas. As piadas de Oscar, Cortez e Andreoli são tão pré-fabricadas e manjadas que basta toparem com um entrevistado com um mínimo de jogo de cintura que a casa cai pro lado deles. A tréplica sai truncada, quadrada e insípida.

Bom, se são então humoristas fracos, deveriam se sair bem ao menos como jornalistas. Não saem. Qualquer um que tenha acompanhado a caçada desesperada de Cortez a Jack Nicholson em uma prova de automobilismo deve ter passado por uma das mais terríveis ocasiões de vergonha alheia da História televisiva recente, somada à vergonha de ser brasileiro naquele momento. Pior foi que, quando o cara enfim conseguiu dois dedos de prosa com Nicholson, ele só se mostrou capaz de babar o ovo do astro e de tentar lhe empurrar umas muambas. Andreoli ficaria orgulhoso. As piadas ruins em entrevistas coletivas, então, mereciam um levante generalizado, com os jornalistas “sérios” empunhando tochas e forquilhas e gritando “Queimem o monstro!” Na cobertura política é ainda pior. Já vi Sabrina Sato transitar entre os parlamentares com muito mais desenvoltura e penetração (o trocadilho, mais uma vez, é por conta do freguês) do que os “jornalistas” do CQC. A garota tem culpa de ter pernas lindas?

Às vezes sinto que o CQC nem é a principal ocupação do elenco. Está mais para um “bico”, que ajuda, e como, a atrair público para seus espetáculos de stand-up comedy. E a torná-los interessantes para as agências de publicidade. Já sacaram quanta propaganda eles andam fazendo? Cortez, Andreolli e Marco Luque já viraram sex symbols, o que é fatal para humoristas, uma categoria profissional que necessita de um tremendo desapego em relação à sua imagem. Medo de pagar mico é o fim para uma raça que evoluiu do palhaço.

E assim, o programa da Band vai se perdendo entre piadas frouxas e trocadilhos fracos, que não fazem rir e muito menos ameaçam o status quo (o que parece ser sua grande pretensão). Mas isso não é só culpa deles. Isso é o zeitgeist. O mal do humor brasileiro atual. O pavor de “forçar a barra”. De ofender alguém. Está tão fácil “ser engraçado” hoje em dia que a profissão se tornou confortável. Acaba todo mundo na vala comum do “humor do bem” tão exaltado por Marcos Mion. Tudo errado. Humor tem que ser do mal. Principalmente, urgentemente, nos dias de hoje. Já tem coisa demais “do bem” por aí. Ou alguém realmente acha que Pecê Siqueira e Felipe Neto são verdadeiros contestadores? Infelizmente, parece que é só a pessoa criar um vlog ou montar um show stand-up que automaticamente recebe um selo de “sou engraçado”. É mais ou menos como estar numa boy band, onde o selo é “sou gato”. E aí todo mundo tem que aceitar que o Pê Lanza é o padrão de homem para a nova década.

Podem falar o que for do Pânico na TV, mas, pra mim, programa humorístico tem que fazer rir. E quem me faz rir, e há muito tempo, é o programa da Rede TV. Tem apelação? Tem. Mas será que bunda ainda choca alguém? Seja como for, os quadros com bundas nem são os mais comentados. O Pânico possui uma galeria de momentos marcantes e personagens carismáticos (criados ou encontrados por eles) que não para de crescer. Lança moda, manias, bordões. Se algum programa conseguiu subverter o tal do status quo, foi ele. O ridículo do culto às celebridades nunca foi tão desvendado quanto nas mãos desses caras. Colocar Antônio Fagundes para dirigir caminhão de lixo é coisa de gênio. Azucrinar diabolicamente uma estrela “da casa” como Clodovil é coisa de quem tem colhões. Pôr INRI Cristo pra contracenar com gostosas de top less em um reality show é coisa pra se contar aos netos.

Então, a todos aqueles doutrinados politicamente pelo CQC, um Feliz 2011. Vou rir um pouquinho e já volto.

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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6 respostas a CQSem-graça

  1. As coberturas de eventos do CQC são vergonhosas. Totalmente desprovidas de objetivo.
    Equanto as do Pânico, por conterem elementos narrativos, como algumas “missões” e desafios as serem alcançados pelos seus apresentadores, funcionam muito mais.

  2. Led diz:

    Concordo com toda a parte do CQC, mas discordo na do Pânico…acho inclusive que o programa se perdeu com o passar do tempo. Não consigo mais rir um uma matéria em que o engraçado é repetir 50x uma fala errada de um entrevistado com inserções já mais que batidas da internet…enfim precisamos de algo novo no humor…e só pra constar eu duvido que venha do programa novo dos integrantes do finado (tardiamente) Classeta e Planeta.

  3. Mônica diz:

    Nossa! Que blog! Vou seguir.

    Confesso que assisti ao CQC apenas no início, depois enjoei. Assim como vc, gostava apenas do Top 5 que dá para assistir tranquilamente através do Youtube.
    Não gosto também do Pânico na TV, com este humor ” do mal” como vc disse. Detesto apelação!
    CQC, Pânico na TV, Zorra Total, Casseta e Planeta, tudo bobagem sem fim e sem risada (o que é pior).
    Falta bom programa de humor, falta senso de humor, falta tudo.

  4. ”Humor tem que ser do mal. Principalmente, urgentemente, nos dias de hoje. Já tem coisa demais “do bem” por aí.”

    Penso exatamente o oposto sobre essa frase.

    • O “do mal” é no sentido de incomodar, de não ser “chapa branca”, como quase tudo hoje em dia, não só no humor, mas na música, na tevê… É o de tirar sarro de tudo e de todos. O humor é pra isso mesmo, enfiar o dedo em qualquer ferida, e tem salvaguarda desde a Idade Média, quando os bobos da corte eram as únicas pessoas que podiam ridicularizar os soberanos, e, com esse privilégio, aproveitavam pra criticar o sistema vigente.

  5. Anna diz:

    CQC no começo tinha graça, legendário eu achava inspirador, mas nao tão engraçado assim, Pânico sempre em primeiro lugar mito engraçado, porém a há muito tempo não assisto ambos.

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