Quantos tiros e explosões forem necessários

 

Ontem eu e um amigo passamos um longo tempo conversando sobre cinema. Como fizemos o mesmo curso de graduação e somos da mesma área profissional, compartilhamos a experiência de haver assistido a muitas horas de produções audiovisuais universitárias. Foram algumas (poucas) pérolas em meio a um oceano de ostras impenetráveis, de ostras assustadoramente pretensiosas, capazes de transformar um simples conflito amoroso adolescente em um ensaio sobre a angústia e a transitoriedade da condição humana, embalado por uma trilha sonora minimalista e com atuações de anfiteatro ateniense. Não seria tão desesperador se isso parasse na colação de grau. O pior é que essa galera pseudo-pseudo (o “cult” ainda está um passo adiante) carrega tais vícios pela vida artística afora.

Será que é por isso que as telenovelas brasileiras estão cada vez mais parecidas com as mexicanas? Onde qualquer casalzinho imberbe sofre em seu próprio poço de significância com uma intensidade que faz Romeu e Julieta parecerem icebergs emocionais? É, hoje em dia temos personagem que morre, recebe selo do Inmetro do legista, e depois reaparece com a maior cara deslavada e o mirabolante esclarecimento de sua mirabolante estratégia. Temos vilã que vira mocinha pra enganar o marido ricaço, mas que, mesmo completamente sozinha em casa, continua agindo como mocinha. Yes, Televisa, nós temos guacamole! Será que é por isso também que as nossas telenovelas cada vez mais perdem audiência – audiência esta que migra pros seriados americanos, onde uma comédia de terceiro escalão conta com diálogos mais perspicazes do que a maioria dos folhetins brazucas, e que só se sustenta quando apelam pro jurássico expediente do “quem matou fulano”?

E essa ideologia esquizofrênica dos “pseudões”, através do qual um filme é ruim por ter tiros e explosões demais? Imaginem uma dimensão paralela, onde a crítica especializada e a crítica amadora “wannabe” fossem formadas por pessoas que consideram “Duro de Matar” digno de um Oscar. Agora imaginem a análise de um drama do Godard: “A profusão de diálogos questionando a natureza do ser humano torna este mais um entre dezenas de filmes europeus que são lançados todos os anos”. Pra mim, reclamar que um filme de ação contém ação faz tanto sentido quanto reclamar que um drama contém muitos diálogos. Ou uma comédia, muitas piadas.

Acredito que uma boa parcela desse preconceito com os filmes de massa dependa de dois fatores: espaço e tempo. Ou origem do filme e época de lançamento. No fator espaço, se um filme é produzido em Hollywood, bem, detesto ter que dar a má notícia, mas ele possui enormes chances de ser hollywoodiano. E, pra muita gente, consequentemente ruim. Agora, “Cidade de Deus” e “Os Sete Samurais” têm sangue e mortes a dar com pau, mas como não são “parte da máquina de entretenimento de Hollywood”, tudo bem. Quanto ao fator tempo, basta percebermos que películas como “Os Goonies”, “De Volta para o Futuro” e “Curtindo a Vida Adoidado” são hoje consideradas belos e importantes filmes. E então lembrar que, quando foram lançadas, não passavam de blockbusters hollywoodianos/filmes-pipoca/Sessão da Tarde. Como agora são velhos, foram alçados ao status de “clássicos”, o que já é meio do caminho para a autenticação como “grandes filmes”. Corre lado a lado com isso o fato de que muitos dos críticos de cinema em atividade atualmente foram crianças ou adolescentes nos anos 80, e, deste modo, veem tais obras com outros olhos (neste exato momento, eles estão apontando suas metralhadoras para os blockbusters hollywoodianos/filmes-pipoca/Sessão da Tarde da metade dos anos 90 em diante – filmes que serão legitimados pela geração seguinte, e assim gira a roda). Ou seja, dentro de anos John Woo será celebrado como hoje em dia é Sergio Leone, e Zack Snyder bem pode se tornar um Ridley Scott. Esperem eles completarem 50 anos de carreira.

O fator tempo, como se pode ver, resolve-se sozinho. Já o lado geográfico da questão é muito mais complicado. Vamos ver até quando irá imperar esse tão desgastado “nós contra eles”, ou, no português escancarado, “nós, latinos do Terceiro Mundo (cuidado, estamos quase chegando ao Segundo), contra eles, os malvados americanos que fazem filmes que o planeta todo irá comentar pelas próximas décadas”.

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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3 respostas a Quantos tiros e explosões forem necessários

  1. Tá na hora do povo não classificar o filme pelo estúdio ou tamanho do budget! Mandou muito no post! Acho um preconceito infundado essa galera que fica no alternativo e deixa de considerar van damme, stallone, arnold, etc., como clássicos também! E é aquilo que nós falamos… daqui 20, 30 anos, o que será clássico e para o que torcerão o nariz?

    Aquela conversa rendeu! Vou colocando lapsos dela durante meus posts, acho que será o suficiente… para os “melhores momentos” vc já fez o post ideal!

  2. Marcelo, excelente texto; uma ótima análise, mas devo confessar que faço parte do grupo que acha “Os Goonies”, “De Volta para o Futuro” e “Curtindo a Vida Adoidado” verdadeiros clássicos! pelo meno são melhores que High School Musical! rsrsrs

    • Eu também acho, Michele. Não só clássicos, como ótimos e inventivos filmes. Minha crítica foi às pessoas que criticam qualquer filme com apelo comercial na época em que são lançados, para, décadas depois, celebrá-los, dizendo “isso sim é que são blockbusters com valor”!
      Será que daqui algumas décadas estaremos fazendo o mesmo com “High School”? Bem, eu acho que não, mas só o tempo dirá se não somos dessa mesma laia, haha…
      Obrigado pelo comentário.

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