Rock (R)Evolution – Parte 1

Entre 2008 e 2009, eu roteirizei uma série de documentários sobre a História do rock para exibição no Luna e no Armazén Bar (este, o mais antigo bar de rock em atividade no Brasil), em Bauru (SP). Foi um trabalho longo e delicioso, que eu gostaria de compartilhar através do blog, agora num formato bastante diferente, porém podendo lançar mão de recursos que apenas a internet permite. Além de roteirizar a série, eu a dirigi, produzi e narrei com sotaque interiorano, juntamente com meus fiéis companheiros Daniel Araújo (edição e conversas aleatórias), Natália Miguel (produção, edição e capas dos vinis do pai dela), Bernardo Marquez (sonorização e palhinha musical), Fernanda Rodrigues (design gráfico e quebra de galhos urgentes) e Gustavo Bortoletto (sonorização).

Vamos dar os acordes iniciais, então, com uma breve introdução sobre os dois principais culpados pelo ritmo que transformou a música e o planeta: o blues e o country.

Let it roll.

 

ROCK (R)EVOLUTION

EPISÓDIO 1:

ANOS 30 E 40: RAÍZES LAMACENTAS, FRUTOS EMPOEIRADOS

Para ler ao som de: Robert Johnson, Charley Patton, Muddy Waters, Howlin’ Wolf, Hank Williams, Ernest Tubb.

O leito de nascimento do blues é o leito lamacento do rio Mississippi. A lama do delta do Mississippi deixou as terras férteis em algodão… e em escravidão. Mesmo após a abolição, a liberdade para o povo negro era ainda apenas um conceito.

Na mentalidade sulista dominante, um negro olhando para uma branca era sinônimo de estupro, e o seu linchamento era algo completamente legítimo, mesmo para quem não fazia parte da temível Ku Klux Klan.

Se o blues não existia, ele precisava ser criado. Dizem que o Diabo deu uma mão. Ou duas. As mãos de Robert Johnson.

Robert Johnson

Anos 30.

Johnson tinha o costume de tocar no cemitério para avivar sua inspiração. Da madrugada para o dia, ele surgiu tocando de forma inacreditável. Segundo o evangelho maldito do blues, certa noite, em uma encruzilhada, Johnson pediu para que o Diabo afinasse seu violão em troca de sua própria alma. A partir de então, as lendas em torno dele não pararam de surgir. Como a que dizia que ele se apresentava de costas para o público pois, enquanto tocava, seus olhos se tornavam vermelhos feito sangue. O fato era que o músico fazia isso para evitar que copiassem sua técnica no violão. Porém, entre o fato e a lenda, a última sempre tem preferência quando o assunto é blues.

Aos 27 anos, Johnson teve sua dívida cobrada. Depois de beber uísque envenenado com estricnina, obra de um marido traído, o bluesman passou mal e morreu quatro dias depois. Em seus últimos momentos, foi acudido por um homem conhecido como “Tush Hogg”, que alguns diziam tratar-se de Satã em pessoa…

“Travelling Riverside Blues”, que o Led Zeppelin regravaria em 1969

Muitos bluesmen passaram a vida se apresentando em espeluncas rurais. Charley Patton, W.C. Handy, Leadbelly, Blind Lemon Jefferson… A lista é enorme, bem diferente de seus cachês, que se limitavam a garrafas de uísque, tigelas de frango frito e prostitutas.

Charley Patton

Leadbelly

Outros, como John Lee Hooker, Muddy Waters e Buddy Guy, conquistaram a liberdade – econômica e artística – que seus antepassados jamais tiveram. Mesmo assim, continuaram com um pé na lama. A lama do Mississippi.

John Lee Hooker

Enquanto o blues imperava nas espeluncas do Mississippi, nas honky tonk – as espeluncas do Texas – a última moda era a country music.

Uma honky tonk de respeito – ironicamente falando – era necessariamente formada por caminhoneiros, trabalhadores do campo, bebedeiras, brigas e artistas country tocando o mais sujo e amplificado possível, para que sua música se sobressaísse em meio à atmosfera rude.

Final dos anos 40. George Jones, Hank Snow, Ernest Tubb… Os maiores talentos do country peregrinavam à Meca do estilo: Nashville, Tennessee.

George Jones

Hank Snow

E não demorou para que os programas de rádio e as gravadoras da região se curvassem às melodias do maior rebelde da música rural americana: Hank Williams.

Solitário, alcoólatra, briguento, auto-destrutivo e genial, Williams inaugurou o modo de vida rock n’ roll, antes de morrer aos 29 anos devido ao abuso de álcool e morfina.

Williams antecipou em três décadas a atitude e as poses fotográficas de Sid Vicious

Vida breve aos semeadores.

No próximo capítulo: Está vivo!! O nascimento do ritmo que todos amam odiar.

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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5 respostas a Rock (R)Evolution – Parte 1

  1. Infelizmente não vi os vídeos, espero ver um dia! Mas do caralho Beat! Quando chegar nos anos 2000, se precisar de uma mãozinha no nu metal, metalcore, mathcore e afins, só falar! Desde os agasalhos adidas até os moleques que usam técnica instrumental extrema, ao contrário do que pensam os anos 2000 dão muito pano pra manga!

    Enfim, post foda! História de qualquer coisa é massa… religiões, guerras, profetas, construções, etc…. mas nada bate a história do estilo musical que, queira ou não, domina o mundo! ahhaha

  2. Bernardo diz:

    Beat, que alegria rever vc falando de blues!
    Keep on rock!

  3. Bernardo diz:

    Kra, não vou resistir..
    Esse Sonny Boy Williamson II é um fanfarrão!
    O cara roubou o nome e a fama do Sonny Boy Williamson original.. foda!
    Mas para surpresa de todos o II tocava tão bem – se não melhor – do que o I.
    Até o Eric Clapton, que já sabia de tudo na época e não escondeu sua desconfiança, não resistiu em dividir seus solos de guitarra com ele no Yardbirds.
    Segue uma música então dos dois tocando juntos em um dos meus cds prediletos de blues.

    Valeu beat!
    abs

    • Cara, eu jurava q ele era FILHO do Sonny I! Assim como a gnt encontra o Hank Williams II e até o III (neto dele). Mas esse, no caso, foi um esquema meio SBT, q vira e mexe passa um Titanic II pirata, hahah! O mais louco é q o Sonny II é alguns anos mais velho q o I! É, o mundo do blues é bem atípico, haha!
      Ótimas dicas, garoto!!

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