Rock (R)Evolution – Parte 2

ROCK (R)EVOLUTION

EPISÓDIO 2:

ANOS 50: OS REIS SUBINDO AO TRONO

Para ler ao som de: Elvis, Chuck Berry, Little Richard, Jerry Lee Lewis, Eddie Cochran, Buddy Holly

Anos 50.

Os heróis errantes do blues e as rádios country desaguaram seus estilos musicais na cidade de Memphis, Tennessee, onde o lamento negro e alma rural se miscigenaram com o rhythm’n’blues e o gospel.

O som multirracial que começava a surgir precisava ser registrado. Sam Phillips, ex-dj, criou uma pequena gravadora na cidade.

Sam Phillips, o homem das grandes descobertas

Em 1951, Phillips produziu a canção “Rocket 88”, cantada por Jackie Brenston e composta por Ike Turner, considerada o marco zero do ritmo que ainda não tinha nome, mas que outro dj, Alan Freed, viria a batizar usando uma gíria negra que fazia referência ao sexo: Rock and Roll.

Alan Freed

Um caminhão da Crown Electric Co. passava constantemente diante da Sun Records de Sam Phillips. Em 1953, finalmente estacionou e o motorista desceu. O caminhoneiro tinha quatro dólares reservados para fazer cumprir o slogan da Sun: “gravamos qualquer coisa a qualquer hora”. A “qualquer coisa” se tornou o primeiro single de Elvis Presley: “My Happiness”, com “That’s When Your Heartaches Begin”.

Phillips e Sua Majestade

Elvis Aaron Presley usava topete e costeletas como os negros. Vestia-se como os negros. Cantava e dançava como os negros. Tudo isso impressionou a secretária da gravadora, Marion Keisker. Phillips levou mais tempo para se impressionar. Ele chamou Elvis para gravar outras músicas, mas nada saía do jeito que queria. No intervalo da gravação, Elvis começou a cantar o blues “That’s All Right (Mama)”, de Arthur Big Boy Crudup. O ritmo mítico que só existia na imaginação de Phillips ganhava vida na garganta e no rebolado daquele branco que cantava música negra.

O rock n’ roll estava pronto. Pronto para sair do gueto.

Elvis tocava música negra para os brancos. Um certo Chuck Berry fazia exatamente o oposto.

No início dos anos 50, o principal instrumento das bandas negras americanas era o saxofone. A guitarra ficava quase escondida. Quando o saxofonista do Johnnie Johnson Trio ficou doente, o guitarrista Chuck Berry foi chamado para ajudar a preencher o som. No final da apresentação, Berry começou a tocar um country chamado “Ida Red”. O público negro torceu o nariz. Minutos depois, o salão inteiro estava dançando. Nas apresentações seguintes, havia quase tantos brancos quanto negros na plateia.

“Maybelline”, a música em que “Ida Red” se transformou

Elvis e Berry ajudavam a aproximar dois universos. As barreiras étnicas começavam a ruir. O mundo, mais do que nunca, era preto e branco. A ousadia de Chuck Berry abriu as portas para vários artistas negros, como Fats Domino, Bo Diddley, Larry Williams e Little Richard.

Bo Diddley e uma das guitarras mais feias do mundo

Larry Williams

Little Richard

Little Richard aprendeu a cantar e a tocar piano em uma igreja. Motivo de chacota entre seus irmãos devido ao jeito afeminado, fugiu de casa aos quatorze anos. Juntou-se a um grupo de músicos andarilhos, participando de medicine shows, espetáculos de variedades realizados para tentar vender algum tipo de remédio. A vida mambembe influenciou seu visual na nascente carreira como roqueiro. Richard passou a usar maquiagem carregada e um topete gigante. Negro, homossexual, espalhafatoso, com canções obscenas, aos poucos ele se tornava o inimigo número 1 da família americana. Estava preparado para a batalha. Tinha até um grito de guerra: “a-wop-bop-a-loo-lop-a-lop-bam-boom!”

Só havia um rebelde do rock n’ roll capaz de rivalizar com Little Richard no topete – literal e figurativamente – e no piano: Jerry Lee Lewis.

Conhecido como The Killer, ele vinha de uma família extremamente religiosa. Primo do pregador Jimmy Swaggart, fora expulso do colégio por tocar hinos religiosos no ritmo da “música do diabo”. Lewis fornecia arsenal para a perseguição dos conservadores. Seus shows eram marcados pela performance mais selvagem do rock. The Killer subia no piano, destruía-o e botava fogo no que sobrava.

1956. Elvis começava sua escalada de domínio global. Estava em cada rádio e tevê dos EUA. Em cada capa de revista. Nas conversas, nas mentes e nos quadris dos jovens americanos. Elvis The Pelvis, censurado da cintura para baixo na tevê por causa de sua dança, insinuante demais. A censura teve efeito contrário. Aguçou ainda mais a curiosidade dos fãs, e a popularidade de Elvis só cresceu. O rock n’ roll era uma força autônoma, um corpo estranho agindo no organismo careta e racista americano da época.

Bill Haley and His Comets, Roy Orbison, Eddie Cochran, Gene Vincent, Ritchie Valens, Buddy Holly… Toda uma geração que apenas esperava o momento certo para tomar as rédeas da cultura popular.

Bill Haley, o bebê gigante

Roy Orbison

Gene Vincent and his Blue Caps

Ritchie Valens

Estava criada a adolescência.

Ser jovem – numa América pós-Segunda Guerra – era muito mais fácil do que havia sido para os pais dessa geração. Com tanta boa vida e prosperidade o resultado só poderia ser tédio. A juventude tinha dinheiro para gastar e queria levar uma vida diferente da dos pais. O rock n’ roll parecia feito sob medida. De repente surgiam roupas, revistas, filmes, carros, comidas, tudo o que se podia vender voltado para o mercado adolescente. E tudo vinha na esteira do rock, a primeira manifestação cultural ocidental autenticamente jovem.

O rock era diferente de tudo o que os pais dos adolescentes dos anos 50 ouviam. Além disso, promovia a contestação dos costumes – segregação racial incluída. A Igreja não aprovava essa revolução. As autoridades tentavam impedir que os shows acontecessem. O ritmo estava na pauta do dia de líderes religiosos, políticos, associações de pais e formadores de opinião. A música subversiva precisava ser detida. Ou cooptada.

 

No próximo capítulo: Rock n’ roll must die!!

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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4 respostas a Rock (R)Evolution – Parte 2

  1. Bernardo diz:

    é impressão minha ou o Ritchie Valens é a cara daquele filho do cantor Leonardo?? hehe

    Então, pra fazer uma contra partida vou aproveitar pra mostrar um som brazuka atualizado q bebeu de todas essas fontes, blz beat?
    Ari Borger manda muito no boogie woogie! confere aí!

    Abs

    • Pedro Leonardo!! Hahaha!
      Ritchie Valens é o cara retratado no filme “La Bamba”, q eu vi qdo era pequeno e deve ter uma parcela de culpa pela minha paixão por rock n’ roll! Recomendadíssimo!
      Mas aguardem o próximo capítulo, pois o Valens tem um papel muito importante na “morte do rock”.

  2. Caramba! Quanta coisa que eu desconhecia! Conhecia as figuaraças citadas, mas essa parte detalhada da história inicial deles é novidade pra mim.
    Gostei muito!

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