Rock (R)Evolution – Parte 12

ROCK (R)EVOLUTION

EPISÓDIO 12:

1975 a 1977: DesCONCERTOS PARA A JUVENTUDE

Para ler ao som de: Ramones, Dead Boys, Dictators, Blondie, Patti Smith, Talking Heads, Television, The Heartbreakers, Richard Hell & The Voidoids

Os anos 70 se encaminhavam para o seu desfecho. As bandas de rock que atravessaram a década haviam acumulado fama, dinheiro e uma “gordura” musical em proporções mastodônticas. As longas canções com influência sinfônica e letras alienantes só contribuíam para o progressivo distanciamento entre ídolos e fãs. Em tempos de crise econômica, desemprego e conservadorismo, uma parte da juventude buscava refúgio da realidade justamente em astros musicais maiores do que a própria vida. Outra parte tentava construir um mundo próprio e novo, com o qual pudesse se identificar – ainda melhor se, para isso, fosse necessário destruir o antigo.

Em Nova York, estes últimos tinham seus pontos de convergência em dois nightclubs: o CBGB e o Max’s Kansas City. O Max’s era onde se reunia a trupe de Andy Warhol, incluindo músicos como Lou Reed, Iggy Pop e David Bowie. Egressos da decadente cena glam, com seu som sujo e básico, eles se tornavam precursores da onda musical que emergia na cidade, anunciando um oceano de caos, atitude e ruptura.

David Johansen, do New York Dolls, e seu xará Bowie numa mesa vip do Max's

As portas de ambos os clubs estavam abertas para bandas iniciantes, muitas delas adeptas do estilo que aos poucos ficava conhecido como punk, principalmente por causa de um fanzine sobre música underground de mesmo nome.

A publicação, artesanal e completamente independente, compartilhava o espírito “faça-você-mesmo” com bandas como The Dictators, The Dead Boys e The Ramones.

Formado em 1974 por quatro fãs do rock inocente dos anos 50 e 60, o Ramones tinha como grande ambição soar feito seus ídolos: Beatles, Beach Boys e Stones. Porém, o fato de não saberem como tocar seus instrumentos fez com que soassem diferente de tudo. O som se tornou acelerado e primitivo, com guitarras parecendo motosserras e uma batida marcante. E, não conseguindo tocar covers da maneira que deviam, a saída era criar suas próprias músicas. Três minutos, no máximo, era o que precisavam para desfiar letras sobre namoros adolescentes e cheirar cola.

Joey, Johnny, Dee Dee e Tommy assumiram não apenas o sobrenome artístico, como também o modo de vida Ramone, do qual faziam parte o uniforme básico, composto por jaquetas de couro e jeans rasgados, os gritos de guerra – “Hey Ho Let’s Go!” e “Gabba Gabba Hey!” – e a irreverência e total urgência, deflagradas no palco após o sinal de “one, two, three, four!”

A capa do primeiro álbum dos Ramones é uma das imagens mais marcantes da História do punk

O punk rock, no entanto, não se limitava a canções primordiais e rápidas. Tampouco era impermeável à influência do gênero que constituía, ao lado do rock progressivo, o alvo principal das bandas da cena CBGB: a disco music. A febre das discotecas ardia entre os membros do Blondie, mas apenas fez bem à saúde comercial do grupo. Hit após hit, o Blondie ia escalando o mainstream, e sua vocalista, uma ex-Coelhinha da Playboy chamada Debbie Harry, voltava a estampar as revistas, agora como uma musa pop.

Menos musa e mais madrinha – Madrinha do Punk, como seria apelidada -, a poetisa Patti Smith enveredou pela música com a mesma visceralidade com que transitava pela literatura. Com seu primeiro álbum, “Horses”, de 75, produzido por John Cale, ex-Velvet Underground, ela injetou lirismo na crueza punk, através de algumas das letras mais inspiradas do período.

Também adeptos de uma abordagem mais cerebral, os Talking Heads ajudavam a moldar a face funkeada e eletrônica do punk, a new wave.

Seu experimentalismo sonoro encontrava paralelo no trabalho da primeira banda punk a tocar no CBGB, o Television, formado pelo virtuoso guitarrista Tom Verlaine e o baixista Richard Hell.

Amigos desde a adolescência, eles haviam abandonado a escola e se mudado para Nova York a fim de viverem como poetas. Suas mentes criativas, contudo, começaram a entrar em conflito assim que o grupo surgiu. O trabalho de composição deveria ser dividido igualmente entre ambos, mas Verlaine sempre favorecia suas próprias canções, além de reclamar da inquieta postura de palco do companheiro. Assim, em 75 Hell deixou a banda, levando consigo suas criações, inclusive a música que denominaria a sua geração, “Blank Generation” (“geração em branco”).

Richard Hell deveria ter patenteado seu visual

Na mesma época, Johnny Thunders e Jerry Nolan, respectivamente guitarrista e baterista dos New York Dolls, também abandonavam sua banda, após a tumultuada experiência de serem empresariados por Malcolm McLaren. Considerando uma boa ideia unir-se a Hell, eles formaram com o baixista o The Heartbreakers.

Estava nas ruas a formação roqueira mais junkie de Nova York! “Venha ver estes caras enquanto eles ainda estão vivos” foi um dos slogans referentes aos Heartbreakers que se proliferaram pela cidade. A heroína era para eles mais do que recreação – era componente básico de seu charme marginal. Inspiração. Tanto que, ao lado de Dee Dee Ramone, Hell compôs uma declaração de amor conturbado a um novo tipo de heroína que circulava pela Grande Maçã. “Chinese Rocks” se tornou um dos hinos do grupo.

Entretanto, o choque de personalidades, desta vez entre Hell e Thunders, levou o primeiro a deixar mais uma banda. O fato era que Hell só conseguiria satisfazer sua gana artística caso se transformasse em único frontman. Para isso, ele juntou uma nova gangue, e, a fim de não deixar dúvidas sobre a liderança, colocou seu nome à frente: Richard Hell & The Voidoids.

Em 77, chegavam às lojas tanto o primeiro álbum do Television, “Marquee Moon”, quanto do novo projeto de Hell, “Blank Generation”. Ambos, cults instantâneos.

“Marquee Moon” e suas guitarras de outro mundo

Finalmente, o retrato distorcido da juventude criada no asfalto sujo de NY era registrado na faixa-título do álbum dos Voidoids.

Poucos anos antes… Com o fim dos New York Dolls, Malcolm McLaren voltava para a Inglaterra de mãos vazias, porém com a cabeça cheia. Dono de loja de roupas e namorado da estilista Vivienne Westwood, ele havia encontrado em Richard Hell o mais excitante e transgressor dos visuais. Cabelos espetados, roupas rasgadas e presas por alfinetes, com frases escritas a mão… Poderia dar certo na terra da Rainha…

No próximo capítulo: O luxo do lixo.

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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