Rock (R)Evolution – Parte 13

ROCK (R)EVOLUTION

EPISÓDIO 13:

LONDRES ESTÁ ARDENDO

Para ler ao som de: Sex Pistols, Clash, Siouxsie & The Banshees, Generation X, Damned, Elvis Costello, Jam, Buzzcocks

Após a temporada pouco rentável com os New York Dolls, Malcolm McLaren retornava a uma Inglaterra assolada por desemprego, greves em massa e ausência de perspectiva. Ele, ao menos, tinha um emprego, à frente da loja que abrira com sua namorada fashionista, Vivienne Westwood. A SEX, a partir de então, passou a vender roupas inspiradas na cultura sadomasoquista e no visual dos roqueiros underground de Nova York, principalmente Richard Hell. McLaren, que já empresariava o The Strand, banda formada por alguns frequentadores da loja, viu no grupo a oportunidade de vender mais do que somente o figurino punk. Ele poderia vender a música, a atitude, o pacote punk completo!

McLaren em frente ao seu negócio

Para isso, promoveu várias reformulações no Strand, como colocar um balconista da SEX, Glen Matlock, na função de baixista, e, obviamente, vestir os rapazes com as roupas de sua loja. Mesmo assim, ainda faltava um vocalista, alguém que não apenas cantasse – o que, na realidade, era um mero detalhe -, mas também parecesse o frontman de uma banda com o nada sutil nome de Sex Pistols, como ela seria rebatizada. A resposta aos seus anseios veio malcriada, insolente, na forma de um rapaz com cabelos verdes arrepiados, dentes arruinados, vestindo uma camiseta rasgada do Pink Floyd em que ele mesmo rabiscara as palavras “I hate”. Em suma, podre.

Depois de provar que era capaz de ficar atrás do microfone sem perder um décimo da postura provocadora, John Lydon – agora Johnny Rotten – juntou-se aos novos colegas.

Nesta foto, Rotten já tinha assumido o cabelo vermelho, com o qual se tornaria mais conhecido

Não demorou para arrebanharem um fiel contingente de seguidores, que adotavam o visual e o comportamento niilista da banda, além de se inspirarem nela para montar as suas próprias, como Siouxsie and the Banshees e Generation X.

Do Generation X saíram alguns “farofas”, como Billy Idol e Tony James, do Sigue Sigue Sputnik

O impacto dos Pistols atingiu mesmo quem já possuía certa experiência no ramo musical. Ao ter o show de sua banda, The 101ers, aberto por eles, o vocalista Joe Strummer imediatamente percebeu que seu repertório, mais clássico, voltado para o circuito de pubs, era coisa do passado. O punk rock era o futuro. Especialmente para quem não tinha nenhum.

Joe Strummer

Strummer vinha de uma formação completamente distinta de Johnny Rotten e cia. Filho de um diplomata, ele havia nascido na Turquia e vivido no Egito, no México e na Alemanha Ocidental antes dos nove anos, o que o ajudara a desenvolver um gosto musical extremamente variado. Pouco depois de ficar impressionado com os Pistols, ele foi procurado por Mick Jones e Paul Simonon, que buscavam um vocalista para a banda que estavam iniciando, The Clash. A proposta dos dois vinha de encontro ao que Strummer almejava: um som mais energético, cru.

“White Riot” fala sobre um conflito entre a polícia e jovens de um bairro negro de Londres

Além disso, encontrou nos rapazes almas gêmeas musicais, pois eles haviam absorvido a música que pulsava nos subúrbios de Londres, povoados por imigrantes jamaicanos: o reggae.

Se os punks representavam um levante contra a opressão, era natural que se identificassem com um ritmo vindo justamente de uma ex-colônia explorada pela Grã-Bretanha. Não só o reggae se entranhava nas composições do Clash, como também reinava absoluto nas festas punk inglesas, pois ainda nenhuma das bandas do movimento tinha lançado sequer um single.

Isso mudou em 1976, quando os excêntricos do The Damned lançaram “New Rose”. Com forte influência do rock teatral de Alice Cooper e algo tão bombástico como o primeiro registro fonográfico do punk britânico, o Damned logo atraiu atenção. Mais tarde, seriam também os primeiros da cena a lançar um álbum e excursionar pelos EUA.

“New Rose” seria regravada até pelo Guns n’ Roses

Na mesma época, os Pistols assinavam um contrato com a EMI, e, em novembro, lançavam o single “Anarchy in the U.K.”.

Rotten berrava que era um anticristo, anarquista, e queria destruir. Como se isso não ferisse suficientemente os pudores da sociedade inglesa, o quarteto ganhou mais uma oportunidade. No lugar da poesia político-caótica, entrava a prosa punk. No lugar das lojas de discos, a televisão.

Escalados para o programa do apresentador Bill Grundy, os Pistols acabaram soltando diversos palavrões – os primeiros da História da tevê inglesa – durante a transmissão ao vivo. No dia seguinte, os principais jornais estamparam o incidente em suas primeiras páginas, elevando a banda à condição de acontecimento (leia-se “ameaça”) nacional.

A estréia dos palavrões na tevê inglesa…

... e o dia seguinte.

Aproveitando a exposição, os Pistols saíram em turnê, ao lado de Damned, Clash e Heartbreakers. Porém, de cerca de vinte shows programados, poucos chegaram a se realizar. A tumultuada Anarchy Tour sofreu o boicote e a perseguição moral de religiosos, políticos e até de funcionários da EMI, que, não aguentando a pressão, acabou por rescindir o contrato com o grupo em fevereiro de 77.

No mês seguinte, McLaren firmou acordo com o selo A&M. A escolha do local para a assinatura do contrato – em frente ao Palácio de Buckingham – já antecipava a próxima injúria: o single “God Save the Queen”, uma releitura irônica e furiosa do hino do Reino Unido.

Os Pistols assinam o contrato bem debaixo dos narizes reais

Seis dias depois, a A&M também dispensava os Pistols. Foi apenas após se juntarem a um selo independente que eles conseguiram liberdade artística para a gravação do álbum de estréia, “Never Mind the Bollocks, Here’s the Sex Pistols”.

A troca de guarda não acontecia só no respeitável palácio. Em fevereiro, Matlock era demitido, para que em seu lugar entrasse alguém mais com a “cara” da banda. Sid Vicious, ex-baterista do Siouxsie and the Banshees, não possuía qualquer habilidade como baixista. Por outro lado, era a epítome de tudo que um punk deveria ser.

Distante da imagem consolidada dos adeptos do movimento, o The Jam revisitava a onda mod dos anos 60. Com seus ternos bem cortados, mais dispostos a celebrar uma Inglaterra idealizada do que destruir a existente, o trio explorava o som do Who e da Motown com mais perícia em seus instrumentos do que a maioria das bandas da cena…

… situação parecida com a dos Buzzcocks. Vindos de Manchester, eles adicionavam o apuro pop aos três acordes distorcidos do gênero, criando melodias perfeitas.

Enquanto isso, a Inglaterra era outra vez chacoalhada pelos Pistols. Ao passo que “God Save the Queen” se tornava a canção mais censurada de todos os tempos na Grã-Bretanha – e, também graças a isso, vendia feito água –, a banda se preparava para comemorar o Jubileu da Rainha à sua maneira. Dois dias antes do desfile oficial pelo Rio Tâmisa, os Pistols e seu séquito realizaram o mesmo percurso, tendo seu estrondoso single como trilha sonora. A “homenagem” terminou em prisões e mais notoriedade.

A ultrajante capa do ultrajante single: presentão pra Rainha

A repercussão do inocente passeio de barco

E, embora a fama do quarteto se espalhasse também pela América, em sua turnê pelos EUA em 1978 eles se viram escalados por McLaren para shows principalmente no sul do país, em bares de caipiras, onde eram vigiados pelos xerifes locais e hostilizados pelas plateias. Era tudo o que o empresário queria, e, na maior parte do tempo, Vicious convenientemente agia como catalisador da confusão.

O hospício itinerante foi saindo de controle. Vicious, cada vez mais afundado na heroína, mal conseguia tocar. McLaren e Rotten discordavam em tudo. O desgaste levou o vocalista a abandonar o palco durante o último show da turnê. Mais tarde, era anunciado o fim da banda.

Se os EUA significaram a ruína para os Pistols, com o Clash era bem diferente. Gozando de enorme popularidade por lá, eles estenderam sua temporada na Broadway – de sete para dezessete shows -, e chegavam ao terceiro álbum, “London Calling”, de 79, tanto artística quanto politicamente respeitados. Gravavam quase sempre na Jamaica, onde reforçavam suas influências de reggae e ska, mas, com o novo álbum, a abrangência sonora passou a englobar também rockabilly, jazz e funk.

O primeiro álbum duplo da História do punk - e a banda exigiu que fosse vendido pelo preço de um álbum simples

Requintado sem perder a crueza, o Clash representava o passo seguinte para o movimento punk, tornando-se uma banda de sucesso planetário sem trair seu passado. No álbum subsequente, “Sandinista!”, de 80, seriam influenciados, da mesma forma que acontecera com o punk, por outro gênero que florescia em Nova York, o hip hop. Com maestria e inventividade, o círculo se fechava.

No caso de Sid Vicious, estava mais para espiral. Descendente. Vivendo em Nova York com sua namorada Nancy Spungen, ex-groupie e ex-stripper, ele até tentou levar adiante uma carreira solo, porém o relacionamento conturbado, tanto entre ele e Nancy quanto entre ambos e a heroína, degenerou para ostracismo artístico e dependência mútua.

Sid e Nancy Spungen, a primeira encarnação de Courtney Love

Em outubro de 78, Nancy foi encontrada morta a facadas no quarto de hotel onde residiam. Vicious foi preso, acusado de assassinato.

Cerca de quatro meses se passaram, e ele foi libertado. Horas depois, morria devido a uma overdose, aos 21 anos. Apesar de diversos pontos nebulosos sobre o caso, este foi encerrado.

O músico que melhor (ou pior) simbolizava o modo de vida punk teve uma existência tão curta quanto a primeira encarnação inglesa do movimento. As chamas que esquentaram Londres consumiam-se rapidamente, como, afinal, tinha que ser. O incêndio já cumprira sua tarefa.

No próximo capítulo: Metaaaaal!!!

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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