Rock (R)Evolution – Parte 14

ROCK (R)EVOLUTION

PARTE 14:

1977 A 1980: METAL SEM FERRUGEM

Para ler ao som de: Motörhead, Judas Priest, Iron Maiden, Def Leppard, Saxon, Diamond Head, Scorpions, AC/DC, Van Halen

Se, na Inglaterra, o punk havia surgido para subverter o status quo musical, no caso do heavy metal não era preciso fazer muita força. Alguns dos fundadores do gênero estavam sendo abatidos por auto-indulgência e pelos seus próprios egos. A energia dos primeiros anos do Led Zeppelin era sacrificada em prol do gigantismo. O Black Sabbath se afastava de seu som pesado e cru na mesma medida em que se deixava afundar em álcool e drogas.

Os jovens fãs do estilo, porém, ainda não haviam desistido dele.

Correndo paralelamente à “nova onda” que o punk representava, embora, ao contrário desta, à margem da atenção midiática que sua inerente controvérsia atraía, a New Wave of British Heavy Metal, ou NWOBHM, lançava mão de algumas características do gênero comandado pelos Sex Pistols, como a distribuição de singles e álbuns de forma independente. Musicalmente, emprestava os tempos acelerados, em detrimento da levada blues da origem do estilo. À velocidade punk somaram-se a técnica – instrumental e vocal – apurada e a iconografia medieval, tanto no visual quanto nas letras de temática fantasiosa ou macabra.

O maior símbolo desse cruzamento entre o heavy metal revigorado e o punk era liderado por um ex-integrante do Hawkwind, banda de som psicodélico e pesado do início da década, chamado Lemmy Kilmister. Expulso de seu grupo anterior devido a uma prisão por porte de cocaína que os levou a cancelar alguns shows, ele passou a se concentrar em uma nova formação, que pudesse, basicamente, tocar rápido, alto e de maneira insana. Com o nome tirado do título da última canção que Kilmister escrevera para o Hawkwind, nascia o Motörhead.

Conquanto estivesse em atividade desde o final dos anos 60, foi somente com a gradual diluição da influência do blues em sua sonoridade e a entrada do vocalista Rob Halford que o Judas Priest mergulhou no heavy metal, tornando-se precursor da NWOBHM…

… seguido pelo Iron Maiden. Liderando a banda com o profissionalismo de um veterano do ramo, o baixista Steve Harris rapidamente colocou o Maiden em uma posição de destaque dentro da cena, amparado pelo virtuosismo dos membros – embora entre eles estivesse o instável vocalista Paul Di’Anno – e por uma memorável mascote.

O arroz-de-festa Eddie na capa do primeiro álbum do Maiden

Com os pés firmes no cenário britânico, o Def Leppard mirava o mercado dos EUA. Em pouco tempo, as rádios comerciais da Europa e da América iriam se curvar à capacidade nata da banda de criar melodias bem mais pop do que as de seus pares.

Reforçado por grupos como Saxon…

… e Diamond Head…

“Helpless” foi imortalizada pelo Metallica nos “Garage Days” da vida

… o movimento inglês de renascimento do heavy metal ecoava além da ilha. Na Alemanha, por exemplo, o Scorpions adotava o idioma de Shakespeare para gritar ao resto do mundo…

… enquanto, na Austrália, um rapaz em uniforme escolar deixava sua guitarra Gibson falar igualmente com punks, roqueiros de pub e headbangers (como ficavam conhecidos os “batedores de cabeça” fãs de heavy metal). O AC/DC fazia jus a seu nome. Seu rock simples e descompromissado eletrizava as paradas. As performances ao vivo não ficavam atrás, com o guitarrista Angus Young realizando o “Duck Walk” aprendido com Chuck Berry ao mesmo tempo em que disparava riffs pegajosos e cortantes.

Angus engatando a primeira marcha da sua versão do "Duck Walk"

A banda sabia que era um longo caminho até o topo, mas a “auto-estrada para o inferno” os deixava cada vez mais perto de lá – ainda que reservasse uma desagradável surpresa…

Em termos de surpresa, a que tomou de assalto o líder do Kiss, Gene Simmons, em 77 tinha um nome, ou melhor, um sobrenome: Van Halen. Fundada por Eddie e Alex Van Halen, irmãos de origem holandesa – guitarrista e baterista, respectivamente -, a banda ganhou reputação tocando no circuito de clubs californianos. Simmons resolveu apostar nos rapazes, e produziu uma de suas primeiras demo tapes. Embora a Casablanca, gravadora que trabalhava com o Kiss, acabasse não aceitando o grupo, eles chamaram a atenção da Warner, com a qual fecharam contrato. O visual colorido e a performance vigorosa e irreverente do vocalista David Lee Roth exalavam Califórnia onde quer que se apresentassem. E a surpreendente e inovadora técnica de Eddie fariam dele um herói da guitarra…

Eddie dando um tostão da sua técnica

… algo que também estava prestes a ocorrer com o talentoso guitarrista de uma banda de sucesso moderado chamada Quiet Riot.

Com seus colegas, Randy Rhoads, um entusiasta da música clássica, tentava converter o sucesso das apresentações ao vivo por Los Angeles em um contrato para gravar. Quando isso enfim aconteceu, seus álbuns acabaram sendo lançados somente no Japão.

Em 79, a fama do outro lado do mundo talvez ainda fosse mais do que possuía um dos deuses do metal. Ozzy Osbourne amargava o esquecimento provocado pela sua demissão do Black Sabbath por estar constantemente mais bêbado e drogado do que seus companheiros. Ele esperava reunir uma nova banda, o que podia ser apenas outra tentativa frustrada de retomar o sucesso. Faltava um guitarrista à altura de Tony Iommi. Ao conhecer Rhoads, contudo, Osbourne sentiu que sua procura terminava…

Ozzy e Rhoads: "Esse é o início de uma bela amizade".

1980. A promessa de uma virada na carreira – ou da continuidade dela – estava fora do alcance de alguns astros, como John Bonham. O baterista do Led Zeppelin morria por asfixia após uma intensa bebedeira, encerrando a trajetória de sua banda.

John Bonham

Bon Scott

Meses antes, a mesma causa mortis era atribuída ao vocalista do AC/DC, Bon Scott. No caso dos australianos, no entanto, a tragédia não seria o fim do caminho. Seria apenas o último percalço antes do topo.

No próximo capítulo: Satã e laquê.

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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Uma resposta a Rock (R)Evolution – Parte 14

  1. Renato Augusto diz:

    Esse seu post me fez lembrar bastante os primeiros capítulos do livro “Heavy Metal: a história completa”, escrita pelo jornalista Ian Christe, de uma tal de Kerrang! que retratou muito bem esse período que você descreveu no post.

    O NWOBHM foi pra mim meio que uma transição daquele Heavy Metal clássico inspirado pelo Sabbath para a agressividade das bandas de Power Metal que surgiram em meados dos 80, e que algumas delas depois passaram a ter uma temática mais política assumindo a “alcunha” de Trash Metal. A grata surpresa pra mim foi o Diamond Head, que eu conhecia mais pelas músicas do Metallica e só depois passei a conhecer o som original de “Am I Evil”, “Helpless” e por aí vai.

    Eu meio que sou um filho do New-Metal. Não é a toa, eu cresci ouvindo KoRn, Slipknot, Deftones, Mudvayne, System of a Down e afins. Com a morte do movimento, me vi obrigado a buscar coisas lá atrás, meio que de trás pra frente. Depois de ouvir e admirar bandas de Trash, a cada dia mais me encanto com essas bandas mais antigas de Hard Rock, NWOBHM, Heavy Metal e afins. A única que nunca me encantou foi o Black Metal, que nasceu com o Venom e que fazia parte do movimento NW.

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