Rock (R)Evolution – Parte 15

ROCK (R)EVOLUTION

EPISÓDIO 15:

O PESO DO SUCESSO

Para ler ao som de: Ozzy Osbourne, W.A.S.P., Mötley Crüe, Poison, Twisted Sister, Bon Jovi, Whitesnake, Guns N’ Roses, Beastie Boys, Slayer, Metallica, Megadeth, Anthrax, Faith No More

Em 1980, poucos poderiam prever que a morte prematura do carismático vocalista de uma banda em ascensão resultaria não em perda de popularidade e de rumo, e sim em um sucesso inédito até então, tanto para os membros remanescentes quanto para o redivivo heavy metal.

Para preencher a vaga deixada por Bon Scott, o AC/DC recrutou alguém que ele admirava. Brian Johnson, ex-vocalista de uma banda inglesa chamada Geordie – e tão rústico quanto Scott -, juntou-se aos australianos para completar o álbum que começara a ser criado antes de a tragédia ocorrer. Três meses após seu lançamento, “Back in Black” se tornava disco de platina, e permaneceria na parada da Billboard por um longo tempo.

No mesmo ano, Ozzy Osbourne colocava seu trem louco de volta nos trilhos, sob o comando de Randy Rhoads. O êxito comercial de “Blizzard of Ozz”, primeiro álbum solo do ex-frontman do Black Sabbath, mostrava que o primoroso guitarrista era fundamental na recuperação de Ozzy.

Seriam dois anos de uma fértil parceria, interrompida pela morte de Rhoads em um estúpido acidente de avião. Porém, assim como aconteceu com o AC/DC, o sucesso só aumentou, mesmo com a perda de alguém tão importante para a banda. Ozzy agora sabia como converter seu irrefreável comportamento, alimentado pela mesma combinação álcool-e-drogas da época do Sabbath, em combustível para sua lenda pessoal. Algumas prisões e episódios bizarros, como quando arrancou a cabeça de um morcego a dentadas em pleno palco, renderam-lhe a alcunha de “Príncipe das Trevas”.

"Ei, Ozzy, tem um resto de comida preso nos seus dentes..."

Se, por um lado, havia o príncipe, por outro havia Satã em pessoa. O Iron Maiden o estampava na capa de seu álbum “The Number of the Beast”, de 82, e transformava os tais algarismos, entoados pelo novo vocalista Bruce Dickinson, em um dos refrões mais hipnotizantes do ano. Enquanto o conceito do álbum catapultava as vendas, também o condenava – junto com LPs de Ozzy – a grandes queimas organizadas por grupos religiosos e conservadores.

O heavy metal já era o novo alvo das autoridades e terror das famílias cristãs quando, em 84, foi definitivamente para o banco dos réus.

Ozzy foi processado pela família de John McCollum, um garoto que cometera suicídio ao som de sua “Suicide Solution”, por tê-lo encorajado a tirar a própria vida, inclusive por meio de mensagens subliminares. Os autores, no entanto, alegavam que o tema da canção era o alcoolismo de Bon Scott. Após análise, a existência de tais mensagens foi refutada, e o cantor venceu o processo.

No ano posterior, a mira se voltou para a banda californiana W.A.S.P. Com seu visual agressivo, letras e aparatos de palco explorando perversões sexuais, eles viraram prato cheio para o Parents Music Resource Center, um comitê que tentava influenciar o Senado a censurar músicas e capas de álbuns consideradas prejudiciais aos jovens. Os mesmos que acusavam o W.A.S.P. de incitar a violência passaram a ameaçar a banda de morte – por duas vezes atiraram no vocalista Blackie Lawless, sem que o atingissem.

O PMRC lutou para censurar a capa com o cinto de castidade de Blackie Lawless

Ainda que a bordo de muita controvérsia, era inegável que o metal vivia uma era de ouro. A década ainda veria a explosão comercial de Def Leppard e Van Halen, auxiliada por um fator que mudaria para sempre a equação álbuns-rádios-shows: a estreia da MTV.

Imagem de uma das primeiras - e mais clássicas - vinhetas da Music Television

Com uma emissora especializada na veiculação de vídeos musicais, a imagem, de importância inegável para o rock desde os tempos de Elvis, jamais havia sido tão indispensável. Isso favoreceu a proliferação de um subgênero onde aparência era 50% da mistura. Baseada principalmente na Sunset Strip, em Los Angeles, e um reflexo da combinação exata de luxo e decadência que emanava da área, a cena glam metal tomou de assalto o mercado com cabeleiras pufantes, maquiagem, figurino colorido e melodias com forte apelo pop.

Uma das primeiras bandas a despertar atenção foi o Mötley Crüe, tanto pelo visual e pela música quanto pelo comportamento de seus garotos-problema. As festas intermináveis, com direito a exércitos de groupies e substâncias ilícitas, faziam parte do imaginário que cercava o Crüe, embora boa parte disso fosse sua mais pura realidade.

Vindos de vários pontos dos EUA, grupos como Ratt…

… e Poison…

… encontraram em Sunset Strip um cruzamento entre parque de diversões e mina de ouro. O glam metal ainda revelou os patinhos feios do Twisted Sister…

… e o Bon Jovi. Capitaneada pelo fabricante de hits e galã Jon Bon Jovi, a banda emplacou seu álbum “Slippery When Wet”, de 86, como o mais vendido do ano seguinte.

Mesmo veteranos como Ozzy e Whitesnake – formado por ex-membros do Deep Purple – renderam-se à onda, fosse apelando para o laquê e as roupas cintilantes, fosse lapidando refrões grudentos e baladas poderosas.

Ozzy foi ao camarim do Mötley Crüe para perguntar que tonalidade de blush era a tendência de 84

Em meados da década, a bela família glam daria à luz seu bebê de Rosemary. Com genes de duas bandas californianas, L.A. Guns e Hollywood Rose, o Guns N’ Roses usava a aspereza punk para arranhar a polidez que dominava o estilo. Seu álbum de estreia, “Appetite for Destruction”, de 87, combinava os excessos da fama típicos do Mötley Crüe com a atitude niilista dos Sex Pistols, e iria alçá-los ao status de estrelas máximas do rock pesado da época.

Esta primeira versão da capa de "Appetite" foi imediatamente censurada e substituída...

... por esta, que Axl Rose gostou tanto que tatuou no braço.

Ser uma das principais influências do Guns e do cenário glam metal em geral não poupou o Aerosmith do ostracismo. Depois de falências, problemas com drogas, idas e voltas de membros e baixas vendagens, era um milagre que ainda estivessem vivos e em atividade. Manter a fama de outrora seria pedir demais. Dessa vez, contudo, não era o rock n’ roll que iria salvar algumas almas, e sim o hip hop.

O barbudão Rick Rubin com seu sócio Russell Simmons e o Run-D.M.C.: considerado nas quebradas

Quando um músico egresso de bandas punk chamado Rick Rubin colocou suas mãos de produtor sobre a nata do rap nova-iorquino através de sua gravadora Def Jam, ele não deixou para trás as raízes roqueiras. O trio Run-D.M.C. foi o tubo de ensaio perfeito para que ele experimentasse a fórmula de MCs rimando sobre bases de rock pesado. Em 86, Rubin achou que um cover de “Walk This Way”, canção do Aerosmith de 1975, cairia bem tanto entre os fãs de hip hop quanto de rock. Mas não bastava samplear trechos da música. A energia de Steven Tyler e Joe Perry tinha que estar presente, viva. Assim, gravando a parceria e o videoclipe com o Run-D.M.C., os “Toxic Twins” acabaram por não apenas revitalizar a carreira de sua banda, como também contribuíram para criar as bases – feitas de guitarras altas e batidas cheias de groove – de uma nova e importante fusão…

… abraçada igualmente pelos Beastie Boys. Trajetória parecida com a de Rubin – que os produzia -, os rapazes do Brooklyn eram uma banda punk antes de começarem a gravar como um trio de hip hop. De 86, o primeiro álbum, “Licensed to Ill”, registrava suas rimas sobre cerveja, sacanagem e direito a festa com o acompanhamento inusitado – e de encaixe perfeito – de samples de Led Zeppelin e Black Sabbath, além de guitarras inéditas de Kerry King, membro do Slayer…

"Licensed to Ill" foi o primeiro álbum de hip hop a chegar ao primeiro lugar da Billboard

Os Beastie Boys tirando um sarro das bandas de glam metal

… quarteto californiano representante de uma corrente diametralmente oposta ao glam metal: o thrash. Caracterizado por um som extremamente veloz herdado do punk e da NWOBHM, guitarras graves e temática sombria e realista, o thrash metal era a válvula de escape ideal para os jovens da Bay Area, em San Francisco, que se sentiam deslocados no hedonismo colorido de Mötley Crüe e cia.

Alguns desses outsiders haviam se reunido em 81 em uma banda chamada Metallica, liderada pelo guitarrista e vocalista James Hetfield e pelo baterista Lars Ulrich. Logo no início, a dupla dispensou o guitarrista Dave Mustaine por causa do seu temperamento agressivo e envolvimento com drogas e álcool. Seguiram em frente com Kirk Hammett em seu lugar.

Quem ficou para trás não iria deixar barato. Pouco depois da expulsão, Mustaine formou uma nova banda, Megadeth, movido especialmente pelo desejo de vingança contra o Metallica. Como em uma letra de uma canção thrash metal, Mustaine queria o sangue dos ex-companheiros. E, para atingir seu intento, iria tocar mais pesado e mais rápido do que os inimigos.

Pra mostrar que muitos dos trechos de guitarra do primeiro álbum do Metallica eram de sua autoria, Mustaine compôs “Mechanix”, que tem o mesmo riff usado em “The Four Horsemen”, de sua ex-banda

Ainda que não devido à disputa com o Megadeth, sangue foi derramado no caminho do Metallica em 86, na Suécia, quando um acidente com o ônibus da banda provocou a morte do baixista Cliff Burton. Embora o futuro do grupo fosse incerto, a superação da tragédia com Burton iria levá-los ao início de sua fase de maior popularidade…

Cliff Burton

… enquanto o subgênero veloz e vestido de negro consolidava-se através de nomes como Exodus e Anthrax…

Exodus

… e ramificava-se em vertentes ainda mais extremas, como o death metal. Foi essa a linha adotada por alguns garotos do colegial para a banda de garagem na qual tocavam depois das aulas. O Mr. Bungle começou a gravar seu metal vanguardista em fitas demo, e uma delas foi parar nas mãos de Jim Martin, guitarrista de uma promissora banda underground chamada Faith No More, que havia acabado de demitir seu vocalista, Chuck Mosley, alegando falta de profissionalismo. Na fita do Bungle, encontraram uma voz que se encaixava na proposta sonora do FNM, bem como certa genialidade juvenil. Mike Patton foi convidado para assumir os vocais do grupo. Aceitou – sem abrir mão do seu próprio -, e, além de escrever todas as letras do novo álbum em duas semanas, reforçou as influências de funk e hip hop que já faziam parte do som. Em 89, chegava às lojas o primeiro álbum do Faith No More tendo Patton como frontman: “The Real Thing”, um êxito mundial, que mostrou ao público as possibilidades do chamado “funk metal”.

Mike Patton aproveita o videoclipe pra fazer propaganda da sua outra banda

Ao lado do Red Hot Chili Peppers, outra banda californiana que adicionava tempero funk ao seu rock pesado, o FNM apontava o caminho que o heavy metal iria seguir nos anos futuros…

No próximo capítulo: Dançando sobre as sepulturas.

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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