Rock (R)Evolution – Parte 16

ROCK (R)EVOLUTION

EPISÓDIO 16:

80 A 83: SINTETIZANDO A ESCURIDÃO

Para ler ao som de: Devo, B-52’s, Gang of Four, Pretenders, Cars, Police, Joy Division, Bauhaus, Siouxsie & The Banshees, Sisters of Mercy, Cure, New Order

Final dos anos 70. O movimento punk havia sido tão eficazmente niilista que terminara por destruir a si próprio. Entre a explosão do gênero e a debandada da tribo para outras tendências que começavam a aflorar – além das baixas, como Sid Vicious – foram cerca de três anos, tão intensos quanto aquelas canções de três minutos.

Uma das correntes – em parte simultânea ao punk, em parte derivada dele – mais bem-sucedidas comercialmente na década que se anunciava era a new wave. Opção estética de artistas que, embora ligados ao punk, buscavam maior complexidade e experimentação sonora, a new wave abarcava habitués do CBGB como Talking Heads e Blondie, que jamais haviam escondido sua fascinação por funk, disco e sintetizadores. Juntavam-se a eles bandas veteranas do underground, como Devo e B-52’s, com seu rock básico e ao mesmo tempo inovador, dançante e vanguardista, eletrônico e visceral.

Se o Devo caprichava no conceito por trás de seu inusitado visual, o B-52’s apostava em um colorido cruzamento entre pop, surf e dance music, apoiado no duelo entre os vocais de Fred Schneider, Cindy Wilson e Kate Pierson.

O termo new wave passou a ser usado para categorizar um sem-número de artistas pop que surgiam – por vezes bastante diferentes entre si -, desde o funk-punk politizado do Gang of Four…

… até o rock n’ roll com ecos setentistas do The Pretenders…

… passando pela versão mais comercial do Television, o The Cars…

… e pelo “reggae de branco” do The Police.

O Police assumia a mais econômica formação roqueira, o trio com guitarra – cortesia do experiente Andy Summers, ex-Eric Burdon & The Animals -, baixo – a cargo de Sting, também vocalista – e bateria – por Stewart Copeland. A técnica musical e o leque de influências do grupo é que passavam longe da simplicidade. Emergentes da onda punk britânica, tal como o Clash, eles dominavam com fluência o idioma do ritmo jamaicano e do jazz, e logo cedo começaram a dialogar com as paradas de sucesso e audiências cada vez maiores.

Se o vigor do punk havia se convertido no entusiasmo da new wave, sua raiva de tudo transformava-se em melancolia. A bipolaridade do movimento revelava sua face escura através do gótico.

A falta de perspectiva da juventude inglesa não mudara muito desde que os Sex Pistols haviam entoado seu grito de “no future” em 77. Talvez tivesse mesmo se agravado. Se bater de frente com o sistema não rendera tantos frutos quanto se esperava, por que não desistir de tudo e apenas esperar pelo pior? Por que não flertar com o “outro lado” e ver o que ele tinha para oferecer? Se fosse com romantismo e poesia, tanto melhor.

Morbidamente seduzidos pelo estilo de arte dos séculos XIII e XIV, resgatado em tempos mais recentes pelo romantismo, os góticos se rendiam a temas lúgubres, maquiagem carregada combinando com as vestes negras, e uma música calcada em atmosferas etéreas e sombrias, alcançadas por meio de uma batida repetitiva, vocais graves, baixo marcante e efeitos eletrônicos.

De vez em quando os góticos saíam dos seus quartos escuros para socializar...

Com exceção da maquiagem, tudo isso era parte do obscuro mundo de um quarteto da região de Manchester chamado Joy Division, formado após um show dos Sex Pistols que insuflara os ânimos roqueiros na cidade. O nome, com referência aos campos de concentração da Segunda Guerra, já dava uma mostra do clima que norteava o som da banda, com o vocalista Ian Curtis derramando sua poesia sobre isolamento e depressão pelo leito encorpado fornecido pelo baixo de Peter Hook. A combinação atraiu o apresentador de tevê Tony Wilson, que escalou o Joy Division para se apresentar em seu programa e na Factory, festa que comandava em um club, e cujo nome batizaria sua futura gravadora. Em 79, a Factory lançava o primeiro álbum da banda, “Unknown Pleasures”, no qual o produtor Martin Hannett usou uma afinação mais baixa, praticamente criando a marca registrada sonora do quarteto, e de todo um estilo que começava a surgir na Inglaterra.

A capa de "Unknown Pleasures", primeiro álbum do Joy Division

A despeito da visibilidade alcançada pelo grupo, Curtis vivia angustiado e em estado de alerta devido à sua condição de epilético, com ataques inclusive durante os shows – ainda que o público acreditasse tratar-se de sua performance de palco. Em maio de 80, dois dias antes de o Joy Division embarcar em sua primeira turnê americana, Curtis foi visitar sua esposa Deborah, que entrara com um processo de divórcio. Esperava reatar o relacionamento. Sozinho na casa, após a recusa dela, ele se suicidou, enforcando-se na cozinha. Dois meses depois, o segundo álbum, “Closer”, era lançado, reforçando ainda mais a lenda de Curtis.

Curtis, morto aos 23 anos

A capa de "Closer", que acabou sendo lançado como uma obra póstuma de Curtis - e também do Joy Division

Curtis foi o arquétipo perfeito para a legião gótica que vinha tomando as ruas britânicas, e o som cinzento do Joy Division, a matriz ideal para o goth rock.

Considerado a pedra fundamental do subgênero, o primeiro single da banda Bauhaus, “Bela Lugosi’s Dead”, de 79, trazia referências ao expressionismo alemão e ao célebre ator que encarnara Drácula nas telas em 1931…

… e encontrava ecos soturnos na música do Siouxsie & The Banshees, que realizara a conversão do punk para o gótico…

… e do The Sisters of Mercy, que consagrou sua bateria eletrônica, Doktor Avalanche, como um verdadeiro membro da banda.

Um dos maiores fenômenos comerciais do movimento gótico, porém, foi o The Cure, outra banda derivada da explosão punk, e que manteve essa linha até 79, quando uma turnê abrindo os shows do Siouxsie & The Banshees mudou tudo. Profundamente tocado pela experiência de substituir o guitarrista dos Banshees, John McKay, durante a turnê, o vocalista Robert Smith decidiu levar o Cure para uma linha musical similar, sem perder de vista o aproach pop que sempre buscara. Nos anos seguintes, a banda mergulharia mais e mais na sonoridade gótica, enveredando, vez por outra, pela psicodelia e pelo pop “para cima”, ao mesmo tempo em que imprimia a figura de seu líder no consciente coletivo da década.

Durante tudo isso, os principais responsáveis pela cena goth rock reinventavam-se enquanto parte dela. Respeitando um pacto firmado antes da morte de Curtis, que estabelecia que a saída de qualquer dos membros levaria os remanescentes a alterar o nome da banda, o trio que restara do Joy Division passou a se apresentar como New Order. No início ainda bastante presos aos humores soturnos de sua primeira encarnação, foi somente em 81 – ironicamente, em um tour pela vida noturna de Nova York – que eles encontraram a luz, em vários sentidos. Voltaram para casa fascinados pela música eletrônica dançante que haviam descoberto, e logo passaram a experimentar composições carregadas de sintetizadores e bateria eletrônica. Coroando a transição, inauguraram, em Manchester, seu próprio nightclub – em sociedade com a gravadora Factory -, The Haçienda.

The Haçienda, o templo do hedonismo dance dos anos 80 em diante

O investimento no Haçienda foi bancado, em parte, pelas vendas do single que colocou definitivamente o reinventado New Order no mapa musical da época. Lançado em 83, “Blue Monday” trazia inovação desde a capa – que não continha o nome da banda ou mesmo do single, algo que se repetiria em lançamentos posteriores, dando ao New Order uma aura de “anti-astros” -, e estabelecia um parâmetro para todo tipo de música eletrônica feita depois dele.

É alguma nova invenção dos jovens Bill Gates e Steve Jobs? Não, é uma invenção do New Order: "Blue Monday"

Num tempo em que se tornava praxe classificar como new wave todo e qualquer artista de música pop com largo uso de sintetizadores, “Blue Monday” ajudou a separar o joio do trigo – ou o descartável daquilo que realmente importava -, além de unir punks, góticos, new wavers e clubbers. Na mesma pista de dança.

No próximo capítulo: O império das guitarras.

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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2 respostas a Rock (R)Evolution – Parte 16

  1. dorinnha! diz:

    Oi, Marcelo!
    É como lhe respondi no varal do blogueiros do Brasil….. rock é tudo de bom, eu adoro isso, e ja pertensi ao mundo gótico durante 4 anos, quando namorei um cara assim, mesmo que a minha estadia la tenha sido de modo pacivo, o rock sempre correu pelas minhas veias.
    Ótima postagen, voltarei mais vezes!
    Abraços, ” Dorinha”.

  2. Que matéria bem feita, adorei e adorava o The Cure, que dizer adoro pq músicas são eternas

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