Rock (R)Evolution – Parte 17

ROCK (R)EVOLUTION

EPISÓDIO 17:

83 A 90: PALHETAS E PICAPES

Para ler ao som de: P.I.L., Echo & The Bunnymen, Jesus & Mary Chain, U2, Smiths, Stone Roses, Happy Mondays, Inspiral Carpets, Charlatans

Se uma parte dos remanescentes do punk havia abraçado a despreocupada e dançante new wave, e outra parte descia às catacumbas góticas, existiam também aqueles que ficavam no meio do caminho entre um e outro, abrindo mão de tribos, rótulos e códigos visuais de imediata identificação pela liberdade de explorar além do universo rock, de buscar referências em um passado mais distante do que o final da década anterior, e de poder se equilibrar, política e liricamente, entre o descompromisso e o pessimismo. Conforme avançasse a década de 80, o pós-punk revelaria muito mais surpresas do que os pioneiros do rock furioso de três acordes seriam capazes de imaginar.

Um deles, movido talvez menos pela consciência de uma futura transformação musical do que pela necessidade de desconectar-se de sua imagem pública, esteve na linha de frente da “ressaca punk”. Com a dissolução dos Sex Pistols, Johnny Rotten enterrou a alcunha dos tempos de blasfêmia contra a Rainha, reassumiu seu sobrenome verdadeiro, Lydon, e cercou-se de velhos parceiros para dar prosseguimento à sua controversa carreira. Os recrutados foram Jah Wobble, baixista e amigo de adolescência com quem Lydon compartilhava o amor pelo reggae, e Keith Levene, guitarrista da primeira formação do Clash. O Public Image Ltd, ou apenas PiL, deixou a urgência punk para trás em benefício de canções vanguardistas, fundindo dub, reggae e sintetizadores. Shows tumultuados e anárquicas apresentações em programas de tevê, contudo, provaram que ainda existia um Rotten sob a pele de Lydon.

John Lydon soltando o Joãozinho Podre que existe dentro dele num programa caretão de tevê

A arrogância rock n’ roll do líder do PiL encontrava paralelo no vocalista de um jovem grupo de Liverpool. No início dos anos 80, Ian McCulloch proclamava que seu Echo & The Bunnymen era a melhor banda do mundo, e ele, o melhor cantor. Seguiria afirmando isso década afora, enquanto, como que sacramentando suas palavras, os Bunnymen galgavam, álbum após álbum, uma posição de destaque e respeito no rock britânico, com seu resgate melancólico da psicodelia sessentista.

O sucesso em seu país natal já não era novidade para o quarteto quando se iniciou a produção do quarto LP. Repleto de orquestrações e guitarras certeiras de Will Sergeant, “Ocean Rain”, de 84, foi divulgado pela gravadora como “o maior álbum já feito”. Algo que a banda, como não poderia deixar de ser, e boa parte do público assinaram embaixo.

O melhor álbum do mundo? Da melhor banda do mundo?

A música mais perfeita dos anos 80? Aí os caras podem até estar com a razão…

Enquanto isso, na vizinha Escócia, o resgate do rock apoiado nas guitarras virava assunto de família. Os irmãos Jim e William Reid davam origem ao The Jesus & Mary Chain como uma afronta pessoal ao pop eletrônico que dominava a época. Influenciados pelo protopunk do Velvet Underground, pela técnica da “parede sonora” criada pelo produtor Phil Spector e por grupos femininos dos anos 60, perceberam que podiam se diferenciar dos milhares de bandas barulhentas já existentes adicionando a todas essas referências justamente… mais barulho. Para completar a peculiar receita, uma doce cobertura de vocais suaves, quase sussurrados.

O J&MC fazia barulho por onde quer que passasse, e não apenas musicalmente falando. Seus shows geralmente terminavam em tumulto – depois de meros vinte minutos. A banda fazia questão de tocar de costas para o público, completamente bêbada ou drogada – ou ambos -, o que estimulava a plateia a reagir atirando garrafas, invadindo o palco e destruindo equipamentos. A (má?) fama dos rapazes espalhou-se, principalmente após o lançamento do aclamado primeiro álbum, “Psychocandy”, em 85, e rendeu-lhes o título de “o novo Sex Pistols” no jornal The Sun. O público cada vez maior passou a ser composto também por muita gente somente em busca de violência e confusão. Embora, nos anos seguintes, a banda acabasse limpando sua reputação, ao mesmo tempo em que espanava a sujeira sonora em favor das melodias, sua chegada ao cenário rock ficaria para sempre marcada pela definição do empresário Alan McGee: “arte como terrorismo”…

… conceito que o U2, banda criada em Dublin, Irlanda, no final dos anos 70, assimilava à sua própria maneira. Com uma bandeira branca no lugar do “terrorismo”, sua arte e a política passariam a ser indissociáveis.

Se o quarteto abraçava o rock de forma tão reverente e espiritual, isso se devia em parte ao conflito ideológico vivido por três de seus membros, o vocalista Bono Vox, o guitarrista The Edge e o baterista Larry Mullen, Jr., que decidiram abandonar a banda por causa da incompatibilidade entre sua religião, o catolicismo, e a vida roqueira. Ainda que voltassem atrás e se unissem novamente ao baixista agnóstico Adam Clayton, o estigma de “banda cristã” era a santa chaga do U2 – e o idealismo despudorado, seu diferencial, em tempos em que cinismo, alienação e pessimismo davam o tom do universo musical.

Em 85, na contramão de tal zeitgeist, dezenas de artistas uniram-se em um concerto contra a fome na Etiópia, o Live Aid, organizado pelo músico irlandês Bob Geldoff, do Boomtown Rats.

A escalação do Live Aid não era fraca, não...

Em meio a nomes como David Bowie e Paul McCartney, o “pequeno” U2 acabou sendo um dos maiores destaques, com Bono instituindo uma prática que se tornaria comum nos shows da banda ao tirar uma garota da plateia para dançar. Enquanto isso acontecia, o restante do grupo apreensivamente alongava a canção “Bad”, que, depois de 14 minutos, impossibilitou a última música programada para o set. Na realidade, a atitude de Bono foi a de um salva-vidas: ele notara a garota sendo esmagada pela multidão, e então se lançou entre as pessoas para puxá-la.

A apresentação, televisionada para 60 países, poderia ter se constituído em uma enorme chance desperdiçada. Porém, nas semanas seguintes ao Live Aid, todos os álbuns do U2 foram retornando às paradas. O mundo inteiro agora sabia quem eram aqueles quatro irlandeses otimistas.

Os convites de participação em causas humanitárias não paravam de surgir. Durante uma delas, o projeto contra apartheid “Sun City”, Bono começou uma amizade com Mick Jagger e Keith Richards. Os dois stones, profundos conhecedores de blues e country, fizeram-no dar-se conta de que sua banda sofria de uma incômoda falta de tradição musical – era fato que o quarteto não possuía qualquer intimidade com os ritmos de raiz americanos. Isso, somado ao crescente fascínio de Bono pelos aspectos conflitantes da sociedade dos EUA, absorvidos também pelos demais membros através de anos de turnê pela América, deu a direção musical de “The Joshua Tree”, o álbum que, em 87, transformaria o U2 em uma banda de estatura global.

O álbum em que o U2 se naturalizou americano

Da capa da revista “Time” às arenas, tudo o que envolvia o U2 passou a ser imenso. O novo status dos irlandeses não poderia deixar de ser registrado com toda pompa, e isso aconteceu em 88 com “Rattle and Hum”, que consistia de um documentário capturando a “The Joshua Tree Tour” e um álbum duplo com participações de Bob Dylan e B.B. King.

No entanto, o projeto gerou críticas que o apontavam como pretensioso e confuso. Aparentemente, era algo com que mesmo a banda concordava. O turbilhão em que o U2 mergulhou podia ser excitante, mas também atordoava. Eles estavam descontentes com suas performances ao vivo, com o rumo da carreira e, mais profundamente, com os conceitos, imagens e comportamentos tão automaticamente associados ao grupo. Assim, em um show em Dublin no final de 89, Bono anunciou uma saída de cena. O U2 estava voltando para casa a fim de “sonhar tudo de novo”.

O gigante adormecido que o U2 se tornou talvez pudesse ter crescido diferente, e ainda com igual capacidade de condensar política e ideologia em música e de gerar um culto em torno de si, caso tivesse nascido em Manchester, com o nome de The Smiths. Em contrapartida, o grupo do vocalista e letrista Morrissey e do guitarrista Johnny Marr, ao ser batizado com um dos mais comuns sobrenomes ingleses e permanecer independente de grandes gravadoras e empresários, mantinha-se conscientemente à parte da grandiosidade que caracterizava a banda de Bono. Não foram poucos os que se identificaram com isso. As letras confessionais, mordazes e desesperadas de Morrissey tabelavam com suas declarações contra Margaret Thatcher e o Band Aid e em apoio ao vegetarianismo. Seu visual retrô era copiado pelos jovens britânicos, que não dispensavam nem mesmo os lírios enfiados no bolso de trás dos jeans. E a guitarra sublime de Johnny Marr soava como a marcha fúnebre do pop de sintetizadores predominante em meados da década.

Ironicamente, a sensação alternativa que a banda havia se tornado – amparada por seguidores fanáticos e pela imprensa, em polvorosa após o lançamento do terceiro álbum, “The Queen is Dead”, de 86 – alcançou as graças de uma major somente às portas de sua separação. Em 87, as desavenças entre Morrissey e Marr acabaram impedindo que os Smiths se convertessem na próxima maior banda do mundo, em seguida ao U2.

Nessa época, os Smiths estavam quase dead.

Essa honra – ou incumbência – estaria reservada a outro grupo de Manchester, se sua história não tivesse sido ainda mais breve do que a de seus conterrâneos. Os Stone Roses foram celebrados como a “salvação do rock”, e seu primeiro e homônimo álbum, de 89, foi considerado um dos melhores de toda a História da música britânica…

O primeiro álbum dos Stone Roses. Dizem que eles teriam se tornado a maior banda do mundo caso tivessem feito mais alguns desse...

… que, por essa época, sofria um verdadeiro abalo sísmico, com a juventude de Manchester, e, mais tarde, de toda a Inglaterra, dançando como se não houvesse amanhã.

A cena que ficou conhecida como Madchester deve tanto ao guitar rock de Jesus & Mary Chain e Smiths quanto às picapes dos DJs de acid house e à fusão de dance music e pós-punk dos locais do New Order. Estes eram os proprietários daquele que acabou se tornando o templo do movimento, o Haçienda. Com a gravadora Factory abraçando algumas das bandas, como James e Happy Mondays, estava tudo em casa.

James, banda apadrinhada por Morrissey

Happy Mondays

Capitaneado pelos irmãos Shaun e Paul Ryder como uma gangue de hooligans sob constante efeito de ecstasy – a nova droga da moda, que fornecia a energia necessária para dançar a noite inteira -, o Happy Mondays era a tradução musical, visual e comportamental de Madchester. A banda foi esperta o bastante para captar toda a efervescência do exato momento em que Manchester deixava de ser a “capital da melancolia”, assombrada pelo fantasma de Ian Curtis e governada por Morrissey, para tornar-se ávida consumidora da música dançante feita em Ibiza e exportada para terras britânicas. O toque de mestre iria dar-se com a inclusão de Mark “Bez” Berry, amigo dos Ryder e traficante local, como membro ativo da banda na função de dançarino e tocador de maracas.

Sim, você conhece o refrão dessa música… que, por sua vez, já é chupado de “Lady Marmalade”, de 74

Nessa fusão de rock psicodélico, guitarras distorcidas e batidas dançantes, ainda destacavam-se bandas como Inspiral Carpets…

… e The Charlatans.

A cultura rave começava a nascer, vestida em roupas largas de cores ácidas e aditivada com drogas, rock e house. Em uma reprise atrasada do “Verão do Amor” de 67, a “geração ecstasy” teve até seu próprio Woodstock, o concerto de Spike Island, organizado pelos Stone Roses em 90, onde o quarteto foi adorado por 27 mil pessoas.

Parecia que a festa nunca iria terminar. Exatamente como a disputa judicial entre os Roses e sua gravadora, que atrasava mais e mais o lançamento do segundo álbum e lentamente afastava-os dos holofotes. Sob a mira da justiça estavam também os clubs – o Haçienda foi o local da primeira morte devido ao uso de ecstasy registrada no Reino Unido e de confusões diversas, como tiroteios e tráfico de entorpecentes.

Outro golpe fatal, tanto para a cena Madchester quanto para a Factory – também dona do Haçienda –, foi a produção do quarto álbum do Happy Mondays, “Yes Please!”, de 92. A fim de afastar os Ryder da heroína, a gravadora enviou a banda e suas famílias para um estúdio em Barbados… onde então os irmãos acabaram se viciando em crack. Depois de ficarem sem dinheiro para a droga, eles venderam os móveis do estúdio, e, de volta à Inglaterra, ainda tomaram as fitas master do álbum como “reféns”, ameaçando destruí-las caso a Factory não lhes conseguisse mais verba. Tudo isso para que, após pago o resgate, a gravadora descobrisse que não havia vocais nas gravações, já que Shaun fora incapaz de escrever qualquer letra durante a temporada em Barbados. Não bastassem todos esses percalços, as vendas de “Yes Please!” foram decepcionantes, e a Factory se viu obrigada a abrir falência.

O álbum que f***u com a Factory

Mesmo com as luzes estroboscópicas apagando-se em Manchester, a cultura rave continuaria se consolidando na década que se iniciava, e, de tempos em tempos, colocaria suas picapes a serviço das guitarras roqueiras. Êxtase total.

No próximo capítulo: Sujeira americana.

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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2 respostas a Rock (R)Evolution – Parte 17

  1. Hi,

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