Rock (R)Evolution – Parte 18

ROCK (R)EVOLUTION

EPISÓDIO 18:

ENTERNECENDO SEM PERDER A DUREZA

Para ler ao som de: Black Flag, Bad Religion, Dead Kennedys, Circle Jerks, Social Distortion, TSOL, Suicidal Tendencies, Bad Brains, Minor Threat, Misfits, Hüsker Dü, Replacements, R.E.M., Sonic Youth, Dinosaur Jr., Pixies

 Início dos anos 80. Os EUA viviam a era-Reagan. A despeito da alienação de uma enorme parcela do povo americano, o conservadorismo republicano, a Guerra Fria e a constante ameaça nuclear não se encontravam a salvo da verborragia de uma nova estirpe de jovens contestadores, que gritavam dos porões para serem ouvidos no mainstream. Para eles, o punk rock havia se tornado “lento” demais. Se o inimigo era tão poderoso, era necessário atacar mais rápido. Surgia o hardcore.

Ao ser conduzido por uma batida mais acelerada, com guitarras mais pesadas e vocais ainda menos melódicos, quase falados, o hardcore se distinguia musicalmente do punk dos anos 70, enquanto que, nas letras, mantinha em pauta os mesmos temas, como falta de perspectiva, revolta, inconformismo e opressão social. Os componentes visuais deixavam de ser tão importantes. Saíam de cena os cabelos coloridos e o figurino rasgado e com alfinetes para dar lugar a roupas comuns – bandas e fãs vestiam-se da mesma maneira, e não era diferente do que usavam em suas “vidas diurnas”, manuseando a bomba de um posto de gasolina ou atrás do balcão de uma loja de ferragens.

Um dos primeiros grupos a ganhar notoriedade nesse circuito foi o Black Flag. Revezando peso e velocidade através de surpreendentes mudanças de tempo, o som da banda logo se espalhou pela Califórnia, inspirando outras formações a carregarem a bandeira do hardcore – e do “faça-você-mesmo”, visto que as gravadoras consolidadas não se arriscavam a investir no estilo. Iniciava-se um fértil período de independência, em que muitas bandas criaram selos para lançar e distribuir os seus álbuns e de outros grupos. Foi assim com o Black Flag, que fundou a SST Records…


… Bad Religion e sua Epitaph Records…


… e Dead Kennedys, com a Alternative Tentacles.

Comandados pela mente revolucionária do vocalista Jello Biafra, os Dead Kennedys provocaram mais polêmica do que seus pares ao baterem de frente com as majors, a MTV e as lideranças de direita. O auge dessa constante queda-de-braço ideológica talvez tenha sido a candidatura de Biafra ao cargo de prefeito de San Francisco, especialmente por ele haver terminado em um inacreditável – e ameaçador – terceiro lugar.

Um hino de protesto contra a MTV…

Bem estruturada, a cena hardcore californiana passou a abrigar uma infinidade de bandas, como Circle Jerks…

… Social Distortion…

… TSOL…

… e Suicidal Tendencies…

… germinando muitas outras regiões dos EUA, como a costa leste. Em Washington, D.C., duas bandas chamavam atenção não somente pelo som, mas também pela peculiaridade de sua formação ou doutrina. No primeiro quesito encontrava-se o Bad Brains, composto exclusivamente por negros – algo que se via cada vez menos no rock, e inédito no hardcore, ainda mais com a presença de reggaes entre as composições aceleradas. No segundo, o Minor Threat, que, com sua canção “Straight Edge”, pregava a abstinência de álcool e drogas, filosofia que chegou a gerar um verdadeiro movimento, de mesmo nome, dentro do cenário.

Pregar um estilo de vida passava longe das ambições de uma banda de New Jersey chamada The Misfits. Tudo o que o quarteto queria era celebrar sua paixão pelos filmes de terror, através de um visual único e de letras que exaltavam macabras noites repletas de mortos-vivos e outras abominações.

Em Minnesota, o hardcore era representado por duas bandas que dariam o passo determinante em direção ao que se convencionaria chamar de rock alternativo. Com trajetórias similares e paralelas constantemente cruzando-se, Hüsker Dü e The Replacements não estavam exatamente à vontade com o rótulo que sua música rápida e gritada recebia. Enquanto Bob Mould e Grant Hart, que dividiam as composições no Hüsker Dü, abriam espaço para canções melódicas e letras introspectivas, o mesmo acontecia com Paul Westerberg no Replacements.

Por maior que fosse seu amor pelo hardcore, eles sabiam que o formato poderia se tornar limitador. O vigor do estilo, porém, precisava ser mantido. O pop energético resultante disso conquistou a veiculação em college radios (as rádios de campus universitários) e também a confiança de grandes gravadoras.

Com os álbuns “Tim”, de 85, do Replacements, e “Candy Apple Grey”, de 86, do Hüsker Dü, fazendo a transição entre o hardcore e o college rock, algumas bandas do underground passaram a aventurar-se pelo mundo das altas cifras, ao mesmo tempo em que mantinham a admiração conquistada entre o público do circuito alternativo.

… um videoclipe de protesto contra a MTV.

O R.E.M. era uma delas. Frequentemente arranhando as paradas de sucesso com seu rock melódico, sublime e sombrio, descendente direto do pós-punk, o grupo da Georgia consolidou sua reputação e conquistou marcas até então inéditas para uma banda alternativa durante o longo caminho entre os singles “Radio Free Europe”, de 81, e “The One I Love”, de 88.

"Radio Free Europe", o primeiro single do R.E.M....

... e "The One I Love", aquele que os colocou de uma vez por todas nas paradas.

Enquanto isso, os nova-iorquinos do Sonic Youth adicionavam ao catálogo da SST o experimentalismo ensurdecedor da “música de guitarra mais original desde Hendrix”, antes de atingirem as majors e as listas de melhores do ano das principais revistas musicais a partir do álbum duplo “Daydream Nation”, de 88…

… mesmo ano em que o igualmente barulhento Dinosaur Jr., de Massachusetts, lançava o single “Freak Scene”, um instantâneo hit underground que capturava a estranha assinatura sonora do grupo: solos de guitarra distorcidos, vocais preguiçosos, e passagens calmas alternando com outras extremamente altas…

… uma dinâmica utilizada também pelos seus conterrâneos do The Pixies. Formado pelos colegas de universidade Charles Thompson (vulgo Black Francis) e Joey Santiago após Francis ter retornado de um intercâmbio em Porto Rico – onde aprendeu o espanhol que utilizaria frequentemente em suas bizarras e enigmáticas letras -, com a adesão, mais tarde, do baterista David Lovering e de Kim Deal – única pessoa a ter respondido o anúncio de jornal colocado pelos dois fundadores em busca de uma baixista que gostasse de folk music e Hüsker Dü -, o Pixies teve seu primeiro EP, “Come On Pilgrim”, de 87, lançado pela gravadora independente inglesa 4AD.

E era mesmo em terras britânicas que a banda alcançava maior êxito – em seu país natal, ainda era pouco mais do que um burburinho da imprensa especializada. Isso começou a mudar ao assinarem com a major Elektra Records e lançarem “Doolittle”, em 89. Com um som mais limpo, de apelo mais pop, o álbum dava mostras de que conduziria o quarteto de Boston a um merecido sucesso comercial…

… no entanto, seria um jovem músico de uma banda de garagem de Seattle que tornaria o rock alternativo a vertente musical mais influente e rentável da década que começava, lançando mão justamente da dinâmica sonora consagrada pelos Pixies.

No próximo capítulo: A nação alternativa.

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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