Rock (R)Evolution – Parte 19

ROCK (R)EVOLUTION:

EPISÓDIO 19:

90 A 94: MINA DE OURO DE FLANELA

Para ler ao som de: Green River, Mudhoney, Mother Love Bone, Screaming Trees, Alice in Chains, Soundgarden, Melvins, Nirvana, Pearl Jam, Temple of the Dog, Hole, L7, Stone Temple Pilots, Bush, Silverchair, Foo Fighters

Na virada dos anos 80 para a década de 90, o relativo sucesso comercial de bandas como R.E.M. e Sonic Youth dava mostras de que o rock alternativo era algo viável para as gravadoras estabelecidas. Ao mesmo tempo, também mostrava que o status quo musical não corria o risco de ser abalado; que a música underground não representava uma ameaça aos artistas do “primeiro escalão”. Talvez justamente por isso a transformação que estava prestes a acontecer tenha pegado o universo pop tão desprevenido… como uma gigantesca árvore despencando sem aviso de uma cidade povoada por lenhadores chamada Seattle.

Localizada no estado de Washington, Seattle não oferecia muitos atrativos aos seus jovens habitantes. Chuvosa e fria, ela parecia empurrar os entediados para suas garagens, das quais acabaria saindo uma geração de bandas surgidas do descompromisso e do isolamento. Uma cena compacta, onde estilos que ocupavam pólos opostos em locais como Los Angeles e Nova York misturavam-se em uma nova sonoridade, que devia tanto ao hardcore do Black Flag quanto ao heavy metal do Black Sabbath.

Exemplo disso era o Green River. Unindo a energia crua e a temática lírica do punk ao peso arrastado e a maior complexidade instrumental do heavy metal, a banda formada em meados dos anos 80 foi a primeira da cena a lançar um disco.

Seu segundo EP, “Dry As a Bone”, de 87, saiu pelo recém-inaugurado selo independente de Seattle Sub Pop, que, no material de divulgação, descreveu-o como “grunge que destruiu a moral de uma geração” – o termo grunge ganharia força conforme bandas da área, com estilos similares, lançassem seus álbuns, até passar a designar o “som de Seattle”.

Ainda nesse ano, águas turbulentas dividiram o Green River: enquanto o guitarrista Stone Gossard e o baixista Jeff Ament achavam que era hora do grupo tentar contrato com uma major, o vocalista Mark Arm preferia se manter independente. Com a cisão, Arm se juntou ao guitarrista Steve Turner, que havia deixado o Green River anos antes, para criar o Mudhoney, fortemente influenciado pelo punk…

… ao passo que Gossard e Ament, além do outro guitarrista da banda, Bruce Fairweather, formavam o Mother Love Bone, com tendências glam e hard rock.

Apoiado na experiência dos ex-membros do Green River e em seu espalhafatoso e magnético vocalista, Andrew Wood, o Mother Love Bone não encontrou dificuldades em atrair atenção, e, logo, estava sendo integrado ao cast de uma subsidiária da PolyGram. Enquanto a banda se preparava para o lançamento de seu primeiro álbum, Wood procurou a reabilitação para livrar-se do vício em heroína. O esforço, porém, foi em vão: em 16 de março de 90, o vocalista entrou em coma devido a uma overdose, morrendo três dias depois.

Andrew Wood, a primeira baixa do grunge

O álbum, “Apple”, foi lançado em julho, quando a banda já não existia, e ajudou a aumentar ainda mais o hype em torno da cena de Seattle…

… reforçada por bandas como Screaming Trees, com seu potente resgate psicodélico…

Um tostão da voz do “garganta de ouro de Seattle” e homem dos mil projetos, Mark Lanegan

… e Alice in Chains, quarteto que encaixava intrincadas harmonias vocais e passagens acústicas em um heavy metal sujo e arrastado. Enquanto ganhavam projeção, os membros do Alice in Chains substituíam o figurino glam do início da carreira pelo despojado visual roqueiro que imperava em sua cidade, como camisas de flanela xadrez (típicas dos lenhadores da região) e jeans surrados – uma estética que aos poucos passava a ser tão associada ao grunge quanto a própria música.

O vocalista Layne Staley também caminharia no fio da agulha, como Andrew Wood

Contudo, foi o Soundgarden, a fábrica de riffs sabbathianos comandada pelo vocalista Chris Cornell, a primeira banda grunge contratada por uma grande gravadora. Com uma indicação ao Grammy e um pé no mainstream, o Soundgarden se tornou a aposta da imprensa especializada como a banda que iria escancarar as portas para o rock alternativo.

Durante tudo isso, em Aberdeen, cidade nos arredores de Seattle, uma banda chamada The Melvins se distinguia de seus pares ao explorar inusitadas e bizarras estruturas musicais que não davam espaço a qualquer aproximação mais pop.

O pioneiro trio virou não somente uma influência artística, mas também um incentivo para que um amigo de adolescência e ocasional roadie chamado Kurt Donald Cobain começasse a compor.

O Quik Morango que ajudava a suavizar as dores estomacais de Kurt. Logo, ele estaria apelando para drogas mais pesadas

Com Dale Crover e Buzz Osborne, respectivamente baterista e vocalista/guitarrista do Melvins, Cobain formou em85 abanda punk Fecal Matter, que teve vida curta. A demo gravada por ele e Crover, entretanto, foi instrumental para que Cobain convencesse seu amigo Chris Novoselic a criarem juntos um novo grupo. Começava aí um rodízio de guitarristas, bateristas e nomes para a formação. Esta se estabilizou por um tempo em Cobain nos vocais e guitarra, Novoselic no baixo e Chad Channing na bateria. Quanto ao segundo problema, o vocalista queria algo que destoasse completamente da tendência punk de nomes “malvados”. Algo que fosse belo e agradável. Como Nirvana.

Entre 88 e 89, com as baquetas sob responsabilidade de Crover em diversas faixas, o Nirvana gravava seu primeiro álbum, “Bleach”, com produção de Jack Endino, o “faz-tudo” da Sub Pop, pela bagatela de pouco mais de 600 dólares, pagos por Jason Everman, um guitarrista que ficara impressionado com a demo do grupo. A boa ação renderia a Everman um lugar na banda como segundo guitarrista e seu nome creditado em “Bleach”, mesmo sem ter tocado em qualquer faixa.

Everman depois tocaria baixo no Soundgarden… e, mesmo tendo tocado em duas das maiores bandas dos últimos 25 anos, ninguém se lembraria dele em ambas 

Por volta dessa época, Bruce Pavitt e Jonathan Poneman, os fundadores da Sub Pop, estavam colocando em ação suas mirabolantes estratégias para converter o selo em uma verdadeira máquina de sucesso e dinheiro.

Poneman e Pavitt, os "Berry Gordys" da Sub Pop

Uma delas consistia em alardear o tal “som de Seattle”. Outra, que se provou bastante eficiente, em promover a cena através da imprensa musical britânica. A dupla convidou o jornalista Everett True, da Melody Maker, para conhecer o que acontecia na cidade. Foi paixão à primeira vista. Os britânicos sentiram que aquele era um movimento genuinamente autônomo, descontrolado, exatamente do que necessitava o momento. Num piscar de olhos, o público dos shows em Seattle triplicou.

Tendo sido lançado em tais circunstâncias, “Bleach” foi uma sensação no circuito alternativo. O Nirvana saiu em turnê pela Europa e América por tempo suficiente para que a gratidão a Everman se dissipasse – o guitarrista realmente não se encaixava, e eles voltaram a ser um trio. A próxima baixa seria Channing. O descontentamento mútuo fez com que ele abandonasse o grupo logo após a gravação da demo do segundo álbum. Cobain e Novoselic acabaram preenchendo a vaga com um músico de estilo poderoso egresso da finada banda de hardcore Scream, Dave Grohl.

Nirvana com Grohl (o do meio)

Nesse meio-tempo, a demo havia transformado o Nirvana em objeto de desejo nos bastidores do mundo corporativo musical. Assim, não foi surpresa quando o grupo trocou a Sub Pop pela major DGC Records. A surpresa, mesmo, ficou reservada para quando o álbum “Nevermind”, lançado em 91, ultrapassou as expectativas de vendas da gravadora – 250.000 cópias -, passando a vender 400.000 cópias por semana. Menos de quatro meses após o lançamento, “Nevermind” mostrava quem era realmente perigoso ao derrubar “Dangerous”, de Michael Jackson, do primeiro lugar da Billboard.

Se Cobain não tivesse se mantido duro, a gravadora teria cortado o bigulim do bebezinho da capa

O êxito de “Nevermind” havia sido deflagrado pelo seu primeiro single, “Smells Like Teen Spirit”, uma composição em que Cobain assumidamente tentava criar uma canção típica dos Pixies e sua dinâmica de passagens calmas intercaladas por trechos pesados. Embora o título tivesse surgido de uma pichação – “Kurt Smells Like Teen Spirit” – feita por uma amiga de Cobain chamada Kathleen Hanna, significando que ele cheirava a Teen Spirit, o desodorante usado por sua namorada na época, Tobi Vail, e ainda que a letra fosse desconjuntada e o vocal, resmungado, a canção começou a ser descrita como “o hino da Geração X”. Uma geração desiludida e apática, e, ao mesmo tempo, pronta para explodir, que viu no grunge uma válvula de escape altamente inflamável.

Repentinamente, aquele ponto perdido no noroeste americano tinha se tornado o olho de um furacão cultural. Para a indústria, isso significava ótimos negócios. Começava a desesperada busca pelo “novo Nirvana”. Bandas de Seattle assinavam contratos milionários antes mesmo de terem feito seu primeiro show. Catálogos inteiros de selos independentes eram adquiridos de forma voraz. Até a alta costura se aproveitou do momento, vendendo o surrado visual grunge a peso de ouro.

Enquanto o Nirvana decolava, levava consigo vários conterrâneos. Foi o que ocorreu com Alice in Chains, Mudhoney, Soundgarden e Pearl Jam, a banda de Stone Gossard e Jeff Ament pós-Mother Love Bone.

A gênese do Pearl Jam está intimamente ligada a do Temple of the Dog, supergrupo criado por Chris Cornell em memória de Andrew Wood, seu grande amigo e ex-colega de quarto. Cornell chamou Gossard e Ament para gravarem ao lado dele e de Matt Cameron, baterista do Soundgarden, algumas músicas que havia composto em homenagem ao falecido vocalista. A dupla levou consigo o guitarrista Mike McCready, com quem trabalhavam na demo de um novo projeto. Esta, por sua vez, foi entregue a Jack Irons, ex-baterista do Red Hot Chili Peppers – eles estavam à procura de músicos para assumir as baquetas e os vocais. Irons não quis se juntar à formação, mas enviou a demo a um amigo que morava em San Diego, frentista de posto de gasolina à noite, vocalista da banda Bad Radio e surfista no resto do tempo. Foi justamente durante uma sessão nas ondas que Eddie Vedder criou as letras para algumas das canções instrumentais presentes na demo. Impressionados com o que ouviram, Gossard e Ament chamaram Vedder até Seattle, onde ele se tornou não só parte do Pearl Jam – completado pelo baterista Dave Krusen -, como também do Temple of the Dog, ao gravar vocais para o álbum homônimo, de 91. No mesmo ano, chegava às lojas o début do Pearl Jam, “Ten”.

O grupo de Vedder seria um dos mais afetados pela superexposição e exploração midiática do grunge. Embora boa parte das bandas da cena se sentisse desconfortável com o sucesso, o Pearl Jam foi aquela que tomou medidas drásticas para contê-lo, ao recusar-se a gravar videoclipes a partir de 93 e fugir de entrevistas e aparições televisivas.

Evitar os holofotes parecia ainda mais difícil para Kurt Cobain, especialmente após seu casamento com Courtney Love, da banda Hole, em 92. O casal logo foi apontado como “Sid e Nancy dos anos 90”, devido ao abuso de drogas.

Nancy e Sid? Não, Courtney e Kurt

Durante as gravações e a turnê de promoção do sucessor de “Nevermind”, “In Utero”, de 93, Cobain sofreu duas overdoses, uma delas devido à mistura de champanhe e remédios, naquilo que seria, segundo Love, sua primeira tentativa de acabar com a própria vida. Em 94, acatando o desejo da esposa e de amigos, ele se internou em um centro de reabilitação em Los Angeles, apenas para, dias depois, fugir e voltar secretamente para Seattle. Algum tempo se passou sem que ninguém tivesse pistas sobre seu paradeiro. No dia 8 de abril, o corpo de Cobain foi encontrado em sua casa no Lago Washington. O músico havia cometido suicídio com um tiro na cabeça, três dias antes. Em seu bilhete de despedida, ele deixava claro que perdera o prazer em criar música, que se sentia acabado enquanto artista e incomodado com sua posição de astro do rock. Simplesmente não seria capaz de enganar os fãs, e, assim, parafraseando Neil Young, era “melhor queimar do que se apagar aos poucos”.

Cobain, mais um astro do rock morto aos 27 anos

Longe de se apagar, a arte de Kurt Cobain tornou-se ainda mais influente após sua morte. Para o bem ou para o mal, o consequente fim do Nirvana não sepultou o grunge, e o termo, que já abrigava bandas como as californianas L7…

… Stone Temple Pilots…

… e o próprio Hole, de Love – que tivera seu álbum “Live Through This” lançado quatro dias após a descoberta da morte de Cobain…

Há quem jure que Cobain compôs este álbum inteirinho pra patroa

… seria aplicado também aos ingleses do Bush…

… e aos australianos adolescentes do Silverchair.

Ainda em 94, declinando de vários convites para juntar-se a outras bandas, Dave Grohl entrou em estúdio com uma grande quantidade de músicas que havia composto enquanto esteve no Nirvana. Grohl gravou todos os vocais e praticamente toda a parte instrumental sob o pseudônimo Foo Fighters, e então começou a montar uma banda real. Para o baixo e a bateria, ele recrutou, respectivamente, Nate Mendel e William Goldsmith, do recém-extinto Sunny Day Real Estate, de Seattle, e, para a guitarra base, Pat Smear, que integrara o Nirvana a partir de 93. Em 95, o Foo Fighters lançava seu primeiro e homônimo álbum.

A massiva exploração comercial do “som de Seattle” continuaria controversa, com alguns clamando que ela fora responsável pela destruição da cena alternativa, e outros, que fora necessária para agitar a repetitiva indústria musical. Porém, a única certeza era que, dali em diante, não existiriam mais certezas no mundo pop.

No próximo capítulo: Lado B, lado A.

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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