Making of de um livro

Interrompemos a programação do “Rock (R)Evolution” para um comunicado realmente muito especial para mim, e, espero, para todos aqueles que participarem desse momento comigo!

Estou lançando pela Agbook um romance, intitulado “O Safári Doméstico”. Ele está sendo vendido somente online, através do site da Agbook, nas versões impresso e e-book. O endereço para adquiri-lo é este aqui: http://www.agbook.com.br/book/44234–O_Safari_Domestico

Nele, vocês podem encontrar todas as informações a respeito do livro, como preço, número de páginas, formato e sinopse, além de ler gratuitamente os dois primeiros capítulos! Mas, para facilitar a vida dos leitores do blog, aí vai a sinopse:

“Hugo Pacheco e Aline Lorencetti. Marido e mulher, parceiros em uma série de livros infantis… e, desde a primeira noite em sua nova velha casa na interiorana Teixeira dos Prados, e em todas as noites dali em diante, testemunhas de um hediondo assassinato ocorrido quatro anos antes.

Em um quarto vago no andar superior, o casal é capaz de presenciar Santino Goulart, filho de ouro de Teixeira dos Prados, cometendo o crime que abalaria a cidade, o homicídio de sua esposa, Lúcia. Uma cena que se repete através do tempo, na mesma exata hora. Um déjà vu estranho e perturbador que colocará em rota de colisão a mente analítica de Hugo e a fé de Aline, gradualmente deteriorando seu relacionamento, sua vida profissional e a convivência com os demais habitantes.

E, quando tudo parece suficientemente terrível, a possibilidade de interagir com a cena leva-os à encruzilhada que, em uma tétrica ironia, poderá definir o destino de ambos para sempre. Enquanto o sempre existir.”

A belíssima capa é de Fernanda Rodrigues. Vocês podem encontrar seus trabalhos e contatos em: http://www.behance.net/fer_er

Bom, quanto ao porquê de esse livro existir, e às condições em que isso aconteceu… vamos voltar lá para o início de 2010. Eu tinha acabado de escrever outro romance, “Os Grandes Sucessos de Julian Gordon”, ainda não publicado – vejam a bola fora das editoras nacionais, né?! -, que era bem extenso, que levou uns quatro anos para ficar pronto, e, então, para combater a estafa dessa epopeia, resolvi escrever alguns contos – dois deles vocês podem ler aqui no blog, na seção “Contos”. Tudo curtinho, tiro e queda. “O Safári Doméstico” era para ser desse jeito. Acontece que a história tinha um fator psicológico, de desgaste emocional para os personagens, de degradação de crença, de filosofia, muito, muito forte. Não dava para condensar tudo isso em quinze páginas, principalmente dentro de uma narrativa de suspense/terror, com toques de… Enfim, não vamos revelar muito, certo? E assim, o conto foi crescendo, aumentando, e, quando vi, estava com o tamanho que realmente deveria ter. Confesso também que estava difícil me separar desses personagens.

A ideia inicial veio de – e isso pode parecer uma daquelas lendas que autores adoram criar em torno de sua obra ou de si mesmos, mas juro que é verdade – um acontecimento bobo, certamente uma coincidência, uma motherfucker de uma coincidência, quando eu caminhava regularmente nos finais de tarde, sempre fazendo o mesmo percurso, na minha cidade natal. Toda tarde eu passava diante de um certo muro. E toda tarde, em cima desse muro, havia um pássaro, um bem-te-vi ou algo parecido, que, assim que me aproximava, saltava para trás do muro. Uma vez, beleza, é a coisa mais normal do mundo – tanto que nem sei por que comecei a prestar atenção. Duas vezes, já é um tanto esquisito. Da terceira vez em diante… aquela coceirinha atrás da orelha foi despertada. Será que estava testemunhando um fenômeno temporal? Um flashback recorrente, sempre na mesma hora, sempre no mesmo lugar? Aquele pássaro era tipo o gato de “Matrix”? Estaria ele preso em um paradoxo de espaço-tempo? Ou era minha cabeça que tinha algum defeito de fabricação, acionado toda vez que me aproximava daquele muro com aquele bicho empenado em cima? E se isso acontecesse em outro contexto, e o pássaro fosse pessoas, e uma delas estivesse sendo morta? E se essas pessoas não saíssem voando se nos aproximássemos delas, mas pudessem fazer coisa bem pior conosco?

E por aí foi… até que chegamos a Teixeira dos Prados. E a uma casa que pode ser a sua.

Tá, vai… Os dois primeiros capítulos, aqui, pra vocês. Espero que “O Safári Doméstico” também os deixe com aquela coceirinha atrás da orelha. Melhor ainda: um arrepio na nuca.

I

“A Aventurosa Jornada de Melinda” era a responsável pela caminhonete cabine dupla que os havia levado até ali, com o resto das suas coisas na caçamba. Por boa parte dessas coisas, era ela a responsável também. E agora, pela casa nova. Ali, na velha casa nova, tomaria forma o sucessor do livro que havia concedido a tão almejada, tão repetidamente decantada através dos séculos pós-advento do capitalismo – e tão desproporcionalmente experimentada, que chegava a ganhar ares de lenda urbana -, guinada profissional nas carreiras de Aline Lorencetti e Hugo Pacheco. Tal como o público a que era destinada, a próxima aventura de Melinda necessitava de um espaço apropriado e uma atmosfera saudável onde crescer. Os pais da rebenta – para eles, feita de papel, tinta, criatividade e dedicação; de uma combinação nada modesta de algarismos, para a editora; e, finalmente, de carne, osso, bons princípios e coração aventureiro, para a sonhadora e fiel legião miúda – tinham encontrado o ambiente durante as férias de dois anos antes.

Ponto pequeno no mapa mineiro, um pouco maior nos guias de turismo, Teixeira dos Prados, clima de montanha entre morros, havia conquistado o casal. Ao se decidirem por abandonar a capital, a escolha da cidade fora tão harmonicamente compartilhada quanto as boas memórias da semana passada ali. Haviam visitado as poucas imobiliárias do lugar com uma noção tão arraigada do que desejavam que a seleção não se mostrara tão complexa.

Despejando seus dois andares sobre bases que, a despeito de certa idade, pareciam tão sólidas quanto as elevações naturais que o circundavam, o casarão surgia contra o fundo verde tal qual um efeito de chromakey – como se houvesse brotado do solo ou sido ali colocado pelos dedos de um gigante, que posicionara a peça branca para o xeque-mate derradeiro de sua vida de enxadrista, indo em seguida hibernar preguiçosamente sobre os montes atrás de si. Claro que a reforma após a saída dos últimos moradores reforçava esse aspecto inabalável, de perpetuidade. Porém, assim como novas tintas e novas telhas não eram capazes de lhe caiar a elegância trintona, tampouco lhe conferiam uma vitalidade artificial.

Apesar do porte, a construção era um convite à vida pacata, ao aconchego em tardes frias (e haveria muitas a partir das semanas seguintes), a cadeiras na varanda em noites de verão… do pátio de entrada, nada mais que uma senda magra de cascalho cortando a grama baixa, às janelas de madeira, sem grades!, duas no segundo andar e duas embaixo na parte da frente, tudo remetia à palavra “sossego”, a mais bela do dicionário para a escritora e seu ilustrador. Estavam cientes de que a estradinha de terra a oito metros do casarão era trilha de turistas, mas também não haviam abraçado a causa ermitã de forma tão xiita. Como num clichê sagrado de comercial de condomínio, sua nova morada oferecia exatamente o que buscavam: tranqüilidade e espaço amplo. Uma parte dela seria gradativamente convertida no estúdio de Hugo. O restante ficaria para Aline, já que, embora as letras da esposa demandassem pouco mais que um canto, ela gostava de variar seu ambiente de trabalho. Hugo não se surpreenderia se a pegasse, qualquer ocasião, com o laptop no alto de um morro. Talvez até se juntasse a ela, já que volta e meia acabavam mesmo fazendo tudo próximos um do outro.

Hugo subia a escada de madeira escura olhando para baixo, tentando se acostumar com os degraus. A caixa de papelão estufada que carregava nos braços já cansados não colaborava com o reconhecimento topográfico-doméstico. Perdoou-lhe somente por ser a última de muitas. Depois dela, Aline e ele estariam oficialmente empossados como senhores de uma casa grande sem escravos exceto ele mesmo.

Não por comodismo – embora pudesse parecer (a esposa é que não o censuraria) -, Hugo havia destinado o dormitório logo no fim da escada para o ajuntamento de todos aqueles objetos que, ao longo de três anos, tinham oscilado pra lá e pra cá no apartamentoem Belo Horizonte. Eramcaixas e caixas de jornais e revistas com trabalhos seus ou de Aline ou matérias sobre os livros, esboços, telas, algum material de desenho e pintura da época do instituto de artes que, jurava, um dia tornaria a usar, prêmios, a coleção de DVDs e VHS, livros, volumes, volume. A sorte era que muitas vezes trabalhavam nos mesmos projetos, o que talvez ajudasse a reduzir o montante desses espólios de casal. Inclusive, em algum lugar ali estavam exemplares do primeiro livro assinado por ambos, início insuspeito da dobradinha, que rendera um coquetel de lançamento, a tradicional troca de elogios, um convite para uma cerveja qualquer dia desses (partindo dela – ele ainda não podia se dar ao luxo de convidar escritoras-revelação para sair), e vida sob um teto em comum não muito depois.

– Toda casa tem que ter o seu quarto da bagunça. Nós passamos três anos sem nos darmos conta disso. – esbaforiu ao encaixar sua carga num canto, fechando uma fileira como se estivesse em uma partida live action de Tetris. Passou a mão pelos cabelos ruivos, sentindo-os úmidos de suor. Apesar de tudo, estava radiante, e não só por haver terminado com as caixas.

– Eu não tinha me dado conta – Aline descansou o braço sobre o ombro do marido, e afagava seu peito arfante – é de quanta bagunça nós temos pra colocar aí.

Alguns segundos apenas observando o cômodo, e Hugo então disse, com seu semblante aberto num sorriso e arrematado por um olhar de devaneio que contrastavam com o teor da frase:

– E pensar que daqui a um tempo teremos que tirar tudo…

O casal não pretendia encerrar a prole com Melinda.

II

Enquanto não chegavam as primeiras páginas de texto de Aline, Hugo, à mesa da cozinha, matava o tempo esboçando no papel a pintura do futuro quarto do planejado bebê, unicórnios de esvoaçantes crinas saltando em fila uma cerca azul-celeste – sua criança contaria unicórnios ao invés das mundanas ovelhas! Por que dar o País de Gales se a arte permitia o cenário daquele filme com o Tom Cruise em início de carreira? Desenhou também o gorila com roupas e bigodinho chineses que sempre acabava fazendo quando se deixava perder no freestyle, o Hong King Kong, dando um golpe no ar com a mão espalmada e com uma enorme banana entre os dedos dos pés. Por fim, por mais simpatia que nutrisse pela versão símia do Bruce Lee que vinha criando meio sem perceber, achou melhor ater-se à iconografia unisex. Mas, se viesse um menino!…

Loucura era pensar que a criança, ela mesma, não passava de um esboço ainda. Mesmo Melinda era mais palpável. As inúmeras versões de capas para o livro que tivera de desenhar, as ilustrações internas, o material promocional. Os desenhos nos autógrafos. E depois, os blogs e fóruns de fãs, os comentários perdidos que às vezes captava nas livrarias, em supermercados, até no avião, sem que soubessem quem ele era. Tudo isso fora, de certa forma, solidificando, concretizando Melinda. E Aline e ele haviam decidido aguardar que chegasse ao fim a próxima “encarnação” da menina aventureira para que seu filho de sangue pudesse sair do papel. Loucura…

Foi o som da porta do armário sendo aberta que o trouxe de volta para o momento. Aline sacava a barra de chocolate aerado tamanho família, consagrada arma em tempos de labuta literária. Enquanto abria a embalagem, movia os lábios, e o esposo sabia que pela cabeça dela frases corriam como em uma esteira de linha de montagem.

– Como vai o trabalho? – perguntou sorrindo.

Os lábios se detiveram por um segundo, para então retomarem o ritmo, dessa vez acompanhados de áudio:

– Tô naquele capítulo em que a jovem, talentosa, esbelta escritora – sorriu – se vê diante da abominável folha em branco sem saber como dar a largada. – Encostou-se na pia e separou dois tabletes da barra de chocolate. Hugo se levantou e caminhou em sua direção.

– Sei. Mas já não rolou um capítulo parecido no livro anterior?

– Em todos eles, my baby.

Riram, abraçados, um no ouvido do outro. Era quase possível aspirar aquela doce cumplicidade de se saber tudo sobre o modus operandi da cara-metade. Cada pequeno mecanismo já havia sido exposto nesses três anos conjugais de forma interessante e natural.

– Quem sabe seja o ambiente novo? – foi o palpite de Hugo, antes dele abocanhar um tablete da barra, ainda em poder de Aline.

– Vai ver que é. Mas sabe o que ajudaria mesmo? – Olhou-o com grandes olhos negros e brilhantes de menina, olhos que outras mulheres da mesma idade, com ofícios menos lúdicos, teriam perdido lá pelos dezesseis, e respondeu – Meia-horinha de narguilé turco.

– Hum… – Ele balançava a cabeça, a considerar a sugestão. – Tô dentro. Tá lá em cima, né?

– Quarto da bagunça, isso mesmo. Vai lá pegar?

Hugo soltou um “deixa comigo” na cozinha e rumou pela sala até a escada. Foi saltando um em cada dois degraus, mostrando a casa quem é que mandava. Num piscar de olhos estava no andar de cima, diante da porta fechada – Aline preferia que a bagunça que alcunhava o quarto não ficasse tão à vista. Sabe como é… O pessoal que freqüentava o apartamento na capital não era do tipo que se incomodava. Até achava charmosas as quinquilharias espalhadas por cantos inusitados. Mas vai saber como seriam os novos amigos na nova cidade…

Pensava justamente nisso, nas pessoas que conheceriam ali, que levariam para o círculo interno de seu permanente clube de inverno, quando abriu a porta e o conceito de “visitante” saltou sobre seu rosto feito um felino entocado. Diante de si, passos adiante, não mais do que dois metros quarto adentro, havia um homem esfaqueando uma mulher. Viu o instante exato em que a faca de cozinha, de cortar carne, desceu sobre ela, na altura da clavícula esquerda, para então erguer-se lustrosa de sangue quase até o cabo, arrancando, com sua ascensão, um urro afogado da mulher. Hugo sentiu as pernas lhe faltarem. Perdeu o controle da bexiga por um segundo. Aquilo em que estava pensando ao abrir a porta e o que via embaralharam-se em sua mente e seu sistema nervoso. Este reagiu enviando um pulso primitivo, descargas de adrenalina que se espalharam pelo corpo estático como em uma bomba de pregos, assumindo diferentes formas e efeitos, dos pêlos arrepiados à garganta bloqueada para qualquer manifestação maior do que um soluço. A mão se cravou na maçaneta arredondada de tal maneira que as unhas engoliram lascas de tinta cinzenta. Aos seus ouvidos, tão atordoados quanto os demais sentidos, chegavam os gemidos entrecortados da vítima, a respiração ofegante do agressor, o farfalhar das roupas, os passos errôneos, de dança trôpega, sobre as tábuas do chão: ruídos que, embora culturalmente identificáveis como os sons de um embate físico, causavam estranheza quando captados de tão perto. Visualmente, era tudo tão claro, tão nítido, aquela afronta à inviolabilidade do recém-adquirido lar, ali, debaixo da lâmpada do teto, que não havia escolha a não ser olhar. Pior de tudo, não havia dúvida, engano. Estava acontecendo. Dois estranhos em um cômodo de sua casa, matando, morrendo.

Quando seus órgãos e músculos recuperaram as funções Hugo conseguiu puxar a porta. Teria feito barulho ao fechá-la? Deus, a chave precisava estar na fechadura! Se aquele homem saísse do quarto e descesse a escada!

Recuou, olhou para os dois lados semi-escurecidos do corredor, e de volta para a porta. Onde tinha colocado a chave? No porta-chaves, perto da geladeira, era lá? Tinha que ir lá buscar, voltar e trancar o quarto! Não, avisar Aline antes, claro! Voltar aqui como?! Tinham que chamar a polícia!

Se tinha subido saltando um em cada dois degraus, a descida, por sua vez, não respeitou lógica matemática ou normas de segurança doméstica. Usou o corrimão como guard rail na insana carreira até a sala – novamente temeu estar fazendo barulho, como se ele fosse o invasor -, quase se espatifou no tapete de centro ao ignorar o último degrau. Ainda na cozinha, preparando um chá, Aline ouviu o tropel escada abaixo, e a única coisa que pensou foi que Hugo ia acabar derrubando e quebrando o narguilé.

Aline!

Se ela estivesse manuseando a caneca com água, certamente a aparição do marido na entrada da cozinha, a segurar-se no batente para não varar reto, teria sido pivô de um pequeno e ardente drama caseiro. O máximo que provocou, contudo, foi uma interjeição de sobressalto, a qual Hugo atropelou:

– Aline, liga pra polícia!

Invadiu o espaço que a esposa ocupava – e, nesse instante, ela notou seu aspecto atônito, a pele ainda mais branca do que de costume, o que fazia as sardas se manifestarem com todo o esplendor de sua genética – e passou por ela em direção à porta dos fundos, andando de lado feito caranguejo, como se vigiasse a retaguarda. Os braços riscavam instruções no ar, apontando ao mesmo tempo para Aline, para o telefone na bancada sob o armário, para a sala.

– O que aconteceu?! – Como o arranque de uma Ferrari, Aline podia atingir um grau estratosférico de ansiedade em questão de segundos, especialmente ao ver seu homem daquele jeito.

– Tem gente na casa! – Hugo fazia com que as palavras soassem no menor volume que sua aflição e urgência permitiam – Lá em cima, com uma faca! Liga pra polícia! – Os olhos miravam a entrada da cozinha, antecipando o surgimento do sujeito com a faca, enquanto as mãos buscavam a maçaneta da porta dos fundos.

– Ai, minha nossa! – Aline levou a mão à boca num gesto que, conquanto fosse puro reflexo, dialogava com a preocupação de Hugo em se fazer silencioso. Hesitou pouco mais do que alguns segundos, o tempo de que seu mecanismo de crença necessitou para se desprender da atmosfera de amenidade doméstica e atrelar-se ao alarmante, quase inverossímil fato, e então se lançou ao telefone.

Enquanto ela discava o 190, Hugo contornava a casa, seus chinelos de borracha guinchando contra o passeio de concreto que torneava a construção. O suor da testa morria incansável nas sobrancelhas, a respiração explodia nos ouvidos como se a cabeça estivesse metida em um balde. Diante da situação, pela primeira vez era capaz de perceber a amplitude do isolamento do atual endereço, o quão sós ele e Aline encontravam-se no novo lar. Cercado por morros, o verde vivo do dia transformava-se em plena escuridão noturna. Pensava em Aline lá dentro, sozinha com o cara, que desceria a qualquer momento, pensava exclusivamente nisso quando o luar potencializou sua visão e, perto da garagem, ele encontrou o que procurava.

Ao retornar à porta dos fundos, tentava afastar a precipitação mortificante de um cenário onde o invasor já havia descido a escada, encontrado Aline sozinha, e ele chegava somente quando tudo já estava terminado. Tudo.

Mais uma vez precisou usar o batente para que não se atirasse à cozinha e fosse se chocar com o fogão. A mão direita estava tão firmemente cerrada ao redor do corpo de madeira da pá e tão programada para brandir a ferramenta suja de terra do jardim que Hugo, ao deparar-se com o piso livre do rio de sangue que corria pelo seu hipotético panorama mental e com a esposa morta, apenas, de medo, sentiu um espasmo lhe subir pelo braço, em um coito interrompido de medo e fúria.

– Onde você tava?! – sussurrou Aline, olhos escancarados, desolados, evocando sua proteção. Encolhia-se contra a quina da parede, na direção da entrada da cozinha, de onde podia observar a escada. Aproximando-se, Hugo notou a faca, quase tão grande quanto a que vira em poder do sujeito, que ela segurava entre as duas mãos trêmulas.

– Isso é o melhor que temos contra alguém como ele. – Ergueu a pá. Viu no olhar de Aline que ela concordava. Mas ela indagou:

– “Como ele”?

Hugo engoliu saliva.

– Não quis te dizer naquela hora… Também, não tinha tempo pra contar tudo… Ah, cara, – seus olhos reviraram – talvez a polícia viesse mais rápido se tivéssemos avisado…

– Do que cê tá falando? – O lábio inferior dela tremia, desconjuntado.

– Tinha… uma mulher no quarto com ele. – Hugo viu as sobrancelhas da esposa se arquearem diante da iminência de revelações que adensariam a já insólita ocorrência. – Tão desconhecida quanto o cara. Ele… ele tava esfaqueando essa mulher.

A voz de Aline sumiu, como se sugada garganta abaixo. Novamente, ela jogou a mão sobre a boca fendida. Não que houvesse necessidade… A fala só voltaria no decorrer da vigília: ela e Hugo, cada qual com sua arma em punho, amontoados no canto da cozinha de onde visualizavam a escada, à espera que o estranho que havia rompido a santidade da primeira noite no novo lar descesse os degraus, quem sabe carregando um corpo retalhado, quem sabe somente uma faca de cortar carne.

Dez minutos, mais ou menos, e eles bateram à porta. Boa idéia não tocar a campainha. Hugo atravessou a sala – não sem desviar um olhar para o topo da escada – e atendeu – não sem confirmar quem era, através do olho mágico. Estava em estado de alerta laranja, feito um americano.

Eram dois. O calvo atarracado, de braços curtos e cabeça acima da média, o Horácio em uniforme corporativo, apertou a mão de Hugo, e, de cara, fez menção, com o olhar, à pá na outra mão. Chamava-se Mattos. O loiro esticado, braços compridos caídos ao redor da barriga solta, era o Nepomuceno. Enquanto Hugo fechava a porta atrás deles, perguntaram se havia a possibilidade do sujeito ter saído do quarto para outra parte da casa. Hugo explicou que, de onde ele e Aline se encontravam, não conseguiam enxergar o quarto, mas que, naquele silêncio, teriam ouvido o cara abrir a porta e caminhar pelo segundo andar. Então, emendou o detalhe do qual não haviam sido postos a par: a vítima. Notou certo estranhamento no olhar trocado entre os policiais. Estava claro, Hugo refletiu, que coisas assim não faziam parte da rotina deles, dos colegas. Dos conterrâneos.

Revólver à mão, a dupla se dirigiu até a escada, atenta a todo o ambiente interno – só então foi que viram Aline na entrada da cozinha, e fizeram-lhe uma mesura com a cabeça. Sua faca não chamou atenção como a pá. Cautelosa e silenciosamente subiram os degraus, Mattos à frente.

Do pé da escada, Hugo e Aline acompanhavam o lento avanço. Sentindo-se amparada pela presença da polícia, ela havia se livrado da faca. Já Hugo mantinha sua pá atravessada sobre o peito, quase um cartaz de propaganda socialista soviética. Os pescoços doíam, reclamavam da constante posição rígida e alongada que tinha lhes sido exigida desde o início da vigília. Não havia escolha. Que unissem sua dor à dos olhos, secos e ardentes devido à fixação à cadeia de degraus, que, dali de baixo e à sombra dos acontecimentos, especialmente os próximos, desdobrava-se no que parecia uma seqüência irritantemente interminável. Os ouvidos, por sua vez, antecipavam o som da porta do quarto sendo aberta subitamente pelos policiais, e, então, vozes duelando, misturando-se, o sapateado caótico…

– Vocês podiam subir aqui?

Nepomuceno os chamava do topo da escada.

Mesmo escoltados pelo grandão, Aline e Hugo aproximaram-se do quarto tomados por um receio não muito menor do que o que fora cultivado até então. Apesar disso, era perceptível que nenhuma movimentação fora do normal desenrolava-se ali dentro, e, conforme adentravam seu ainda não tão familiar quarto da bagunça, que nada havia reinado de forma tão patente sobre aquele espaço quanto a mais pura ordem. Algo devidamente sancionado pela opinião especializada.

– Olha, seu Hugo… Dona Aline… – começou o Mattos, levando o olhar de um para o outro daquele jeito respeitoso que não era predicado exclusivo da polícia de Teixeira dos Prados, mas qualquer coisa inerente à população. – Nós demos uma averiguada no quarto… uma boa averiguada… checamos todo o andar, os outros cômodos, e, sinceramente, não existe nenhuma evidência de que alguém tenha invadido a casa. Principalmente, de que tenha feito o que o senhor nos contou aqui. – completou, com os polegares metidos na cinta e a tranqüilidade de quem sabia o que estava dizendo.

– Tem certeza? – Hugo perguntou, certamente por impulso, haja vista que nem mesmo o autor da questão poderia colocar em dúvida a ausência de sangue na “cena do crime”. Sangue que, em contrapartida, vira irromper ao primeiro golpe da faca do atacante no corpo da vítima.

– Absoluta. Como vocês podem ver, não há sinais de agressão por arma branca. – O quarto se encontrava perfeitamente iluminado pela lâmpada fluorescente recém-instalada. – O cômodo teria que estar respingado de sangue. Além do quê, não se desaparece assim com uma mulher esfaqueada.

– É, eu sei… – balbuciou Hugo, tentando evitar que sua imagem de ignorante se perpetuasse. Enquanto isso, Aline reparou que Nepomuceno cravava nela e no marido um olhar duro, severo.

– Veja, – prosseguiu Mattos – não há sinal de arrombamento em nenhuma das janelas dos quartos e do banheiro. O sujeito poderia ter entrado por uma das portas lá de baixo?

– Nós teríamos visto. – adiantou-se Aline. E, olhando para Hugo – Não é, amor?

– É. – Ele balançou a cabeça sem ânimo, com o olhar vago e a boca semi-aberta.

– Ele tava na cozinha, e eu, na sala. São as duas únicas entradas.

– Nós podemos dar uma olhada nas janelas lá de baixo, mas, pelo que parece, o que o senhor viu, seu Hugo…

Não aconteceu, era o que todos ali queriam dizer, e talvez dissessem, todos juntos ao mesmo tempo, pensava Hugo, então ele os atravessou:

– Eu posso descrevê-los.

Fez-se silêncio – isso em termos verbais, pois os olhares conversavam com a loquacidade de políticos em um debate televisivo: de Mattos para seu parceiro e no sentido inverso, de Aline para Mattos e então para o esposo (e neste, que se alongou mais do que os outros, uma gradual mutação ocorreu, do constrangimento inicial para uma incredulidade ansiosa, culminando em certa fé, algo solidária, na autenticidade da visão do marido).

– Foi tudo muito rápido, mas me lembro de alguns detalhes. – Hugo insistiu, tendo recuperado parte de sua fibra.

Mattos deu de ombros.

– O senhor pode falar.

Nepomuceno bufou. Seu olhar agora era de pura zanga, mas Aline estava concentrada em Hugo e, dessa vez, não percebeu.

– Bom… O cara era alto, pouco mais que eu… Magro, mas forte… Cabelo castanho ondulado… Tinha um nariz grande… Tava de camisa, com as mangas dobradas. Uma camisa vermelha. – Mattos pontuava cada traço acrescido ao retrato falado improvisado com um chacoalhar da cabeça calva. – Ele segurava a faca com a mão direita, e com a outra prendia a mulher pelo colarinho da camisa. Amarela. Amarelo-clara. Ela tinha cabelo curto, quase branco de tão loiro. Também magra. Os dois pareciam ter… acho que quarenta e poucos.

– Tá, é melhor isso parar por aqui! – Nepomuceno, que acompanhava tudo de braços cruzados, a certa distância, aproximou-se irradiando uma raiva genuína, direcionada, sem qualquer reserva, aos donos da casa. Estes mal tiveram tempo de se surpreender. – Não sei que tipo de graça vocês acharam que isso poderia ter, mas já deu, certo?

Agora estavam suficientemente surpresos. O policial os fuzilava com olhos faiscantes, despejava as palavras com tal ferocidade que pareciam poder machucar. Mattos, que ficara meio sem-jeito, talvez tivesse dito alguma coisa no sentido de acalmar o colega, mas, o que quer que fosse, teria sido afogado pelo tom da voz do grandão.

– É essa a imagem que vocês querem passar pra cidade pra qual se mudaram? – completou, deu as costas e saiu do quarto. Mattos encarou Hugo e Aline, completamente embasbacados pelo que acontecia, e, com olhos apáticos e um silêncio que sugeria apoio ao gesto do parceiro, seguiu-o.

Sentado na beira do sofá da sala, braços cruzados sobre o cabo da pá, cravada no piso, Hugo nem se dava conta do ridículo de sua figura. Não que Aline estivesse mais “digna”, sentada à mesa, mordendo a tampa da caneta, laptop rodando o protetor de tela há minutos, mas, na cabeça de Hugo, além da bizarra reviravolta final durante a visita da polícia, pesava também, até mais, muito mais, a cena que testemunhara no quarto, devidamente desmentida a despeito de sua convicção, extinta na origem por um exame do qual fora igualmente testemunha, e, nesse caso, suficientemente acompanhado.

– É isso que vai ser a nossa primeira noite aqui?

Ele voltou os olhos caídos para Aline, que o fitava da cadeira, aguardando uma resposta, qualquer uma, que colaborasse para dissipar o humor enjoado que se instalara ali. Erguendo-se, encostou a pá no braço do sofá.

– Tem razão.

Atravessou a sala, resoluto, e pôs-se a subir a escada, crente de que era exatamente o que Aline esperava de seu homem. Ela seguiu a trajetória do marido com um giro de cabeça, e os ombros escorregaram os poucos milímetros que haviam conseguido galgar.

Encontrou-o no quarto da bagunça, cinco minutos depois, absorto, de joelhos, a franja espanando as tábuas enquanto ele corria os olhos – quase literalmente – pelo chão. Dando vazão a uma faceta que Aline até então desconhecia, a de cientista forense – embora a posição remetesse mesmo a um cão farejador -, aparentemente procurava alguma molécula de sangue ou um resíduo de pele dos estranhos. Atitude louvável, considerando que necessitaria, no mínimo, de um microscópio. Aline permaneceu quieta, à porta, pensando se realmente achava louvável a atitude, quando começou a ficar com pena dele e deu-se conta de que não.

Seus passos fizeram com que se voltasse imediatamente. O acontecimento, independentemente de ser real, havia o deixado atento, à flor da pele. Ele se colocou em pé e esfregou os joelhos. Tinha abandonado o desalento no andar de baixo para encontrar nova chama no cenário de sua visão.

– Dei uma conferida. – disse, alternando o olhar entre Aline e a janela. – Estranho, tá do jeito que nós deixamos. Pra entrarem, teriam que ter quebrado umas tábuas… forçado de alguma maneira.

– Hm-hm. – Aline piscou demoradamente, amparando-se em um sorriso compreensivo, maternal. – Foi o que o policial disse.

Hugo respirou fundo, olhou sério para ela.

– Eu sei o que eu vi, Aline.

– Não duvido, amor. Mas já tá tão tarde… Eu tô tão cansada. Essa noite exigiu muito da gente. E aquele estúpido daquele policial, – soltou o ar pela boca – meu Deus, me deixou com dor de cabeça… – Hugo a encarou com o semblante vago. Ela o pegou carinhosamente pela mão e começou a conduzi-lo à porta. – Vamos pro nosso quarto. Deixa esse pra lá.

Deixou-se levar. Sua memória, concentração e imaginação, contudo, permaneceriam ligadas ao cômodo como se por um fio translúcido, mesmo depois de apagada a luz e fechada a porta, mesmo após horas na cama, a encarar o teto.

Continue acompanhando em “O Safári Doméstico”

Anúncios

Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
Esta entrada foi publicada em Literatura, Meus livros. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s