Rock (R)Evolution – Parte 20

ROCK (R)EVOLUTION

EPISÓDIO 20:

REALIDADE ALTERNATIVA

Para ler ao som de: Smashing Pumpkins, Jane’s Addiction, Lemonheads, Buffalo Tom, Flaming Lips, Afghan Whigs, Rocket from the Crypt, Weezer, Pavement, Black Crowes, Blind Melon, Jeff Buckley, Green Day, Offspring, NOFX, Rancid, Mighty Mighty Bosstones, No Doubt, Sublime   

O grunge havia mudado tudo. A explosão do Nirvana trouxera visibilidade não somente às bandas de Seattle, mas a toda uma geração de artistas, a maior parte deles, com longas trajetórias no circuito independente. O que antes era o “lado B” da indústria musical tornava-se a sua “cara”. O que fora a alternativa, passava a ser a palavra de ordem.

Embora se beneficiasse dessa virada de jogo, as coisas não eram fáceis para o quarteto de Chicago chamado The Smashing Pumpkins. A imprensa dizia que os Pumpkins seriam o que o Nirvana era caso o Nirvana não houvesse aparecido. Insistia em rotulá-los de banda grunge. Explorava os boatos – verdadeiros – de que o líder Billy Corgan era um maníaco controlador, que gravava sozinho quase todas as partes de guitarra e baixo pois conseguia fazê-lo de forma mais rápida e eficiente. Para completar, alguns músicos da cena independente acusavam-nos de carreiristas e pretensiosos.

De qualquer maneira, a ambição do quarteto – mesmo que não apenas musical –, aliada à sua contrastante gama de influências, que desdobrava a estética punk de seus pares em um amplo espectro que incluía heavy metal, psicodelia, rock gótico e progressivo, foi o que os destacou feito um corpo estranho no cenário alternativo emergente do início dos anos 90. Tanto que a banda tomou como obrigação a realização de um álbum que fosse tão enorme quanto “Nevermind” – caso contrário, para eles, seria o fim.

A resposta ao segundo álbum de Cobain e cia. foi “Siamese Dream”, de 93. Com ele, os Pumpkins cumpriram sua missão autoimposta, e, mesmo assim, só não se dissolveram – devido ao estresse das gravações – por muito pouco.

Cair na estrada poderia ser um bom jeito de aliviar as tensões, então, em meio às turnês que se seguiram, eles se juntaram à caravana ensandecida do Lollapalooza, festival itinerante idealizado por Perry Farrell, vocalista do Jane’s Addiction, uma banda que, tal qual o Smashing Pumpkins, unia rock pesado, psicodelia e arroubos progressivos, e era uma enorme influência para o grupo de Chicago. As arrasadoras performances do Jane’s Addiction nos clubs de Los Angeles provocaram uma disputa entre poderosas gravadoras pelo passe da banda, que passou a angariar um êxito comercial maior a cada lançamento, principalmente com “Ritual de lo Habitual”, de 90.

Por causa da "escandalosa" nudez frontal dos bonequinhos (arte de Farrell), "Ritual..." teve que sair também com uma capa alternativa, totalmente censurada

A extensa turnê para divulgação do álbum, porém, levou o relacionamento entre os membros a um estado crítico. Já que estavam decididos a acabar com o grupo, Farrell resolveu fazê-lo em grande estilo: não com uma simples turnê de despedida, mas com um festival que reunisse a “Nação Alternativa”, como ele mesmo batizara, em um verdadeiro circo musical, completado com atrações que iam de comediantes a monges Shaolin, e espaço para debates sobre política e meio-ambiente.

Cartaz da primeira edição do Lollapalooza, em 91

O Lollapalooza começou a atravessar os EUA anualmente a partir de 91, demonstrando a força da geração alternativa e do seu público, que começava a empurrar para o mainstream artistas como The Lemonheads, do popular frontman Evan Dando…

Sim, é o Johnny Depp

… Buffalo Tom, que fora apelidado de “Dinosaur Jr. Jr.”, mas logo encontrou sua própria sonoridade, de melodias emocionantes sob um intenso ataque de guitarras…

… The Flaming Lips, e suas experimentações pop-psicodélicas espaciais…

… The Afghan Whigs, que adicionou distorção e sujeira à soul music – ou vice-versa…

… os malucos cheios de estilo do Rocket from the Crypt…

Entre outras doideiras em shows, o RFTC costumava decidir seu setlist girando uma roda estilo “Roletrando”

… Weezer, os nerds que uniam Beach Boys e Ramones em canções ingênuas e de melodias irresistíveis…

… e o imprevisível Pavement, especialista em estruturas musicais fraturadas e letras ácidas, que gerou um verdadeiro culto underground, embora se provasse excêntrico demais para as massas.

Ganha uma abóbora quem adivinhar qual banda leva uma cutucada nesta música

Peixe fora d’água – de algum rio lamacento do sul dos EUA – no cenário musical da época, o The Black Crowes, da Geórgia, resgatou o southern rock de Lynyrd Skynyrd e o som negróide dos Stones, e acabou agradando a grunges e hippies perdidos no tempo.

O revival setentista capitaneado pela banda dos irmãos Chris e Rich Robinson fez escola, e tornou-se a opção sonora também do Blind Melon. A banda californiana colocou-se em evidência não apenas com as incessantes apresentações, mas também graças à participação do frontman Shannon Hoon nos backing vocals de várias faixas do multiplatinado álbum “Use Your Illusion1”, de 91, do Guns N’ Roses, a convite de seu amigo Axl Rose. No entanto, com seu problemático histórico de uso de drogas, Hoon seria igualmente a causa da dissolução do Blind Melon, após sua morte por overdose no ônibus de turnê do grupo, em 95.

Shannon Hoon

Cerca de dois anos depois, outra tragédia atingiria mais um promissor talento roqueiro.

Jeff Buckley

Herdeiro de uma tradição musical que não se limitava ao folk praticado pelo pai famoso, Jeff Buckley ia do jazz de Nina Simone ao punk do Bad Brains com a mesma desenvoltura vocal emocionante. O fato era que o rapaz só havia se encontrado com seu pai, Tim Buckley, uma única vez, quando tinha oito anos – pouco tempo antes de Tim morrer de overdose -, e conduziria sua carreira de forma a evitar a sombra do respeitado artista. Seu começo não poderia ser mais modesto: guitarrista em bandas de estilos variados, e, mais tarde, atração solo no circuito de cafés em Manhattan. Descoberto pelas gravadoras, Buckley gravou aquele que seria seu primeiro e último álbum de estúdio. “Grace” saiu em 94, e garantiu espaço imediato nas listas de melhores do ano e na preferência de alguns dos heróis do músico, como Jimmy Page e Bob Dylan.

O sucessor de “Grace” começou a ser preparado em 96, mas o resultado não deixava seu criador satisfeito. Entre mudanças de produtor e de local de gravação – Buckley se instalou em Memphis -, o álbum era construído em passos lentos. Enquanto sua banda não chegava à cidade para prosseguir com o trabalho, ele foi dar um mergulho em um afluente do rio Mississipi, à noite, quando então, após a passagem de um rebocador, submergiu e não foi mais visto. O dia era 29 de maio de 97. Seu corpo foi encontrado quase uma semana mais tarde. Assim como seu pai, Buckley morria prematuramente. Contudo, por mais fugaz que sua trajetória houvesse sido, o material remanescente alimentaria o culto dos fãs e a inspiração de um sem-número de artistas nos anos seguintes.

O ano de lançamento do lírico “Grace” foi marcado pela ascensão, a um nível de popularidade até então inédito, de um gênero que sempre primara pela aspereza, ainda que, para isso, ele passasse justamente por um processo de polimento. O punk rock estava de volta à pauta do dia, mais pop e melódico do que a velha guarda de cabelos espetados um dia poderia ter sonhado. Assim como no grunge, tudo começou com bandas de gravadoras independentes vendendo surpreendentemente bem para um mercado tão pequeno, e, logo em seguida, sendo cobiçadas pelas majors. A diferença entre o Green Day e o The Offspring foi que o primeiro logo aceitou a côrte do mainstream, e alcançou vendagens arrebatadoras com o álbum “Dookie”, enquanto o segundo conseguiu um êxito equivalente com seu “Smash” – ambos em 94 -, porém através de uma gravadora independente, a Epitaph Records, de Brett Gurewitz.

A banda de Gurewitz, Bad Religion, foi tanto precursora do novo status do punk rock quanto beneficiada por ele, tal qual o NOFX…

… e o Rancid.

“Smash” se tornava o álbum independente mais vendido de todos os tempos, e, para o lançamento seguinte, o Offspring acabou assinando com a Columbia Records, sofrendo o mesmo tipo de crítica que o Green Day, de que haviam se vendido e não passavam de punks impostores. Quem soube melhor se equilibrar entre o mainstream e a independência foi o Rancid. O quarteto jamais perdeu sua base de fãs underground, consolidada desde que dois de seus membros, Tim Armstrong e Matt Freeman, tocavam na formação de ska punk Operation Ivy.

O Operation Ivy e o Rancid foram responsáveis por mais esse revival de meados da década, que remetia às incursões do Clash pelo ritmo jamaicano quase vinte anos antes. O ska punk fez a fama do The Mighty Mighty Bosstones…

O MMB é a banda que aparece tocando em um bailinho de colégio em “As Patricinhas de Beverly Hills”

… No Doubt…

… e Sublime, que viu seu momento de maior sucesso – com o lançamento de seu álbum homônimo, em 96 – acontecer apenas alguns meses após a morte por overdose do vocalista Brad Nowell.

"Sublime", lançado dois meses depois da morte do vocalista

As maiores paixões de Brad Nowell reunidas

Assim, entre mortos e vitoriosos, entre ondas passageiras, popularidade instantânea, credibilidades preservadas ou sob ameaça, o rock alternativo “deu as caras”, e cavou seu espaço no primeiro escalão da música pop.

No próximo capítulo: Manos do metal.

E não se esqueçam: meu livro “O Safári Doméstico” está à venda pela Agbook, em versão impressa e e-book, no http://www.agbook.com.br/book/44234–O_Safari_Domestico

Anúncios

Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
Esta entrada foi publicada em Música. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s