Rock (R)Evolution – Parte 21

ROCK (R)EVOLUTION

EPISÓDIO 21:

SOM, FÚRIA E REINVENÇÃO

 

Para ler ao som de: Pantera, Sepultura, Metallica, Guns N’ Roses, Faith No More, Red Hot Chili Peppers, Living Colour, Infectious Grooves, Primus, Body Count, Rage Against the Machine, Biohazard, Helmet, Tool, Ministry, Nine Inch Nails, Marilyn Manson, White Zombie, Korn, Limp Bizkit, Deftones, Slipknot, Kyuss, Queens of the Stone Age

O início dos anos 90, com o advento do grunge e do rock alternativo em geral, marcou a deposição dos alegres adeptos do glam metal da ponte de comando da música de guitarras. Porém, nem mesmo eles seriam capazes de imaginar que um dos mais certeiros golpes em sua hegemonia viria justamente de dentro de suas próprias e coloridas fileiras.

Liderada pelos irmãos Diamond Darrell e Vinnie Paul Abbott, a banda texana Pantera vinha atravessando a década de 80 em colantes espalhafatosos, lançando álbuns independentes – produzidos pelo patriarca dos Abbott e compositor de música country, Jerry – que pouco engrossavam o caldo da bem-sucedida e, por isso mesmo, saturada onda de rock festivo, baladas poderosas e cabelos armados. Paralelo a isso, a contraparte do glam metal, o thrash, ganhava cada vez mais força, com bandas como Metallica e Megadeth criando alguns de seus mais impactantes álbuns. Os irmãos Abbott foram aos poucos se rendendo ao lado negro da Força metal, arriscando composições mais pesadas, o que provocou o rompimento com o vocalista Terrence Lee em 86. O escolhido para substituí-lo foi Phil Anselmo, dono de um vocal muito mais potente.

O Pantera - já com Anselmo - como muita gente nunca viu.

Contudo, embora o som mudasse, o visual permanecia o mesmo. Até que, durante uma reunião entre os membros, Vinnie Paul defendeu que não eram as roupas, e sim eles, que faziam a música acontecer, e que, afinal, deveriam se vestir de maneira confortável e ver no que resultaria. Com o álbum de 90, “Cowboys from Hell”, o novo Pantera colocava as garras de fora, e o quarteto achou melhor fazer isso cortando todos os laços com seu passado extravagante. Para eles, “Cowboys” representava sua legítima estreia, e a sonoridade extremamente pesada, com uma pulsação repleta de groove, o rugido que anunciava que o heavy metal possuía um novo macho alfa.

E groove não poderia ser um componente estranho para uma banda vinda do país do samba. O Sepultura, também formado por dois irmãos, Max e Igor Cavalera, praticava seu death/thrash metal agressivo urrado em inglês desde o começo dos anos 80. Evoluindo a cada álbum independente, o grupo logo caiu nas graças da gravadora americana Roadrunner. Com distribuição internacional, os lançamentos seguintes atraíram o público em escala planetária, o que os levou a transferir-se para os EUA. Ao contrário do que haveria de se esperar, as raízes brasileiras não se enfraqueceram – de fato, entranharam-se definitivamente na concepção musical do álbum “Chaos A.D.”, de 93, através de um poderio percussivo que evocava uma ancestralidade tribal perdida…

… materializada especialmente na participação dos índios xavantes em “Roots”, de 96.

"Roots" e o índio da nota de mil cruzeiros

“Ratamahatta” tem participação de Carlinhos Brown

A época era de total reinvenção para o heavy metal. E uma das maiores provas disso foi que os reis do thrash surpreendentemente desaceleraram em sua corrida até o topo do gênero. Após ter atingido a velocidade máxima em longas composições musicalmente intrincadas, em 91 o Metallica colocava nas lojas seu álbum homônimo, também conhecido como “Black Album”. Despido dos excessos “para iniciados” que caracterizavam o thrash, “Metallica” era um tiro certeiro radiofônico, com suas baladas funcionando tão bem quanto o material mais pesado.

Por incrível que possa parecer, a inspiração para a sonoridade do "Black Album" foi o disco "Dr. Feelgood", do Mötley Crüe, produzido pelo mesmo Bob Rock

Com o sucesso absoluto de seu álbum negro, o Metallica se tornava uma das duas bandas de heavy metal mais populares do planeta. Era quase natural que medisse forças com a outra, mas imprevisível que elas fariam isso excursionando juntas, em uma das turnês mais controversas concebidas até então.

A Guns N’ Roses/Metallica Stadium Tour deu a partida em julho de 92, em meio à turnê em que a trupe de Axl Rose promovia seus mais ambiciosos álbuns, “Use Your Illusion” I e II, de 91, e reforçava sua fama de “banda mais perigosa do planeta”.

O comportamento indomável de Axl colocava à prova músicos e plateia, através de atrasos e confusões. Os casos mais infames aconteceram em St. Louis e Moscou. No primeiro, o vocalista se lançou sobre um fã que filmava o show para lhe tomar a câmera, e, após ser devolvido ao palco pelos seguranças, encerrou a apresentação. No outro, com o Guns tendo antecipado sua entrada após um acidente pirotécnico no show do Metallica, que provocou queimaduras em James Hetfield, a banda teve problemas com o som, e Axl logo abandonou seu posto, alegando dor de garganta. Em ambas as situações, a consequência foi tumulto generalizado, com o público em frenesi colocando os arredores abaixo. Tais incidentes começaram a minar o relacionamento entre os membros. A primeira baixa foi o guitarrista e compositor Izzy Stradlin, que se desligou do grupo ainda em 91.

Enquanto o Guns N’ Roses pouco a pouco se desintegrava, vítima da própria mitologia, o Faith No More, banda convidada para abrir a turnê com o Metallica, atingia o ápice de sua energia criadora. Derivando do funk metal praticado anteriormente – contra os desejos de sua gravadora, que esperava outro arrasa-quarteirão como “The Real Thing” -, o quinteto flertou com todos os ritmos e gêneros a que tinha direito em “Angel Dust”, lançado em 92. O lado dançante vinha temperado não apenas com funk, mas com camadas enlouquecedoras de samples inusitados; o peso se apoiava tanto no melódico quanto no gutural – e tudo isso podia acontecer dentro da mesma música. Afinal, era o primeiro álbum que o vocalista Mike Patton realmente compunha com sua banda mainstream, e ele não hesitou em levar toda a esquizofrenia presente no seu Mr. Bungle. Encarado por muitos como um autêntico suicídio comercial, “Angel Dust” era mais um desafio ao conformismo criativo de artistas estabelecidos – o guitarrista Jim Martin, metaleiro tradicionalista, acabou ficando para trás, deixando a vaga em 93.

Embora o Faith No More já não pudesse mais ser rotulado simplesmente como uma banda de funk metal, o subgênero foi um dos muitos que tiveram seu pico de popularidade na primeira metade da década. O que não significava que era novidade, ao menos não no caso do Red Hot Chili Peppers. O quarteto californiano já havia passado por poucas e boas quando o sucesso maciço aconteceu, incluindo vendas decepcionantes, inúmeras mudanças de formação e problemas com drogas, que levaram à morte o guitarrista Hillel Slovak, em 88.

Slovak como veio ao mundo, um pouco antes de ir embora dele

Seus amigos de longa data, Anthony Kiedis e Flea, respectivamente vocalista e baixista, por pouco não colocaram um fim na banda. Ao invés disso, selecionaram para a função um fã devotado de Slovak, John Frusciante, de apenas 18 anos, que, junto com o novo baterista, Chad Smith, revigorou o grupo. A formação reformulada gravou o álbum “Mother’s Milk”, de 89, que finalmente lhes angariou a atenção devida.

O império de liberdade e libertinagem funk-punk-metal dos Chili Peppers cravou suas bases em uma mansão – supostamente assombrada – em Los Angeles, em 91, para a concepção da obra que os tornaria mega-astros mundiais: “Blood Sugar Sex Magik”. A vida comunitária impregnou as gravações com uma alma – fantasmagórica ou não – muito mais hippie-psicodélica do que lhes era comum. Ainda assim, as sombras se projetavam longamente sob o sol californiano. O espectro do vício em heroína rondava o grupo, e a materialização da fama total assustava Frusciante. O guitarrista abandonou os companheiros em 92, durante a turnê do álbum, e deu início a uma longa descida ao submundo junkie.

O videoclipe de “Suck My Kiss” documenta o que foram as gravações de “Blood Sugar” na mansão mal-assombrada

Os Chili Peppers, entretanto, continuaram espalhando a vibração do funk, juntamente com a banda nova-iorquina apadrinhada por Mick Jagger, Living Colour…

… Infectious Grooves, supergrupo formado pelo vocalista Mike Muir e pelo baixista Robert Trujillo – ambos do Suicidal Tendencies – com Stephen Perkins, baterista do Jane’s Addiction…

Até Ozzy caiu no funk em “Therapy”

… e o tresloucado e experimental Primus.

Os vocais de rap que marcavam presença no funk metal do Faith No More e Chili Peppers eram a manifestação do espírito de uma época em que o hip hop começava a chegar aos brancos da classe média americana, fosse em sua forma mais pura, fosse através da mistura com o rock pesado – algo que os Beastie Boys, além da parceria Aerosmith/Run-D.M.C, faziam desde a década de 80. Em 91, outro ataque conjunto estremeceu ainda mais a barreira entre os dois mundos: o Anthrax regravou a música “Bring the Noise”, do Public Enemy, com a participação dos próprios.

Apesar da miscigenação entre os gêneros mostrar-se desde o início bem-aceita, ela suscitou uma das maiores polêmicas musicais e sociais do período. Tudo começou quando Ice-T, um celebrado rapper sediado na Costa Oeste, canalizou sua velha paixão pelo rock pesado em uma banda de heavy metal chamada Body Count. Formado apenas por negros, o Body Count debutou em uma faixa, homônima, do álbum de Ice-T, “O.G. Original Gangster”, de 91.

No ano seguinte, chegava às lojas em um álbum próprio, também homônimo, cuja última canção, “Cop Killer”, era um conto em primeira pessoa sobre um sujeito que, cansado da brutalidade policial, resolve fazer justiça com as próprias mãos.

Foi questão de (pouco) tempo para que organizações de policiais se manifestassem através dos EUA, por meio de protestos e boicotes contra a Warner Bros. Records, a fim de que o álbum fosse relançado sem a música, sob a alegação de que ela estava inspirando atentados contra agentes de polícia e inflamando os ânimos das minorias raciais. Até o então presidente George Bush se colocou contra “Cop Killer”. Por fim, Ice-T decidiu retirar a faixa, por acreditar que a polêmica havia se tornado tão gigantesca que acabara por eclipsar o real valor da música.

O rap metal prosseguiu sustentando opiniões fortes e controversas com o surgimento do Rage Against the Machine. Assim como as letras vociferadas pelo frontman Zack de la Rocha em meio à inovadora base guitarrística proporcionada por Tom Morello eram escancaradamente de esquerda e anti-imperialistas, a mistura entre hip hop e rock pesado jamais estivera tão evidente quanto no som do grupo. Do movimento zapatista mexicano aos direitos civis de presos políticos do Terceiro Mundo, o RATM atraiu os olhos e os ouvidos de seus fãs – e mesmo de seus detratores – para causas muitas vezes “esquecidas” pela mídia. Seu alvo preferido, porém, era a própria política americana.

A América retratada nas letras do Biohazard podia ser tão desigual quanto a das canções do RATM. Mas eram os problemas sociais que assolavam o seu Brooklyn o foco do quarteto nova-iorquino, que transitava com desenvoltura entre o hardcore, o heavy metal e o hip hop. Em 93, o Biohazard foi convidado pelo grupo de rap Onyx para contribuir em uma nova versão de seu single “Slam”. A parceria, batizada de Bionyx, seria repetida ainda no mesmo ano, na faixa-título do álbum que dissiparia definitivamente qualquer dúvida sobre o poder da junção entre rock e hip hop. “Judgment Night”, trilha sonora do filme de mesmo nome, documentava algumas associações inusitadas, como Pearl Jam e Cypress Hill e Mudhoney com Sir Mix-A-Lot, e outras nem tanto, como Ice-T com Slayer e Faith No More e Boo-Yaa T.R.I.B.E.

"Judgment Night": a trilha sonora acabou ficando mais famosa que o filme

O Helmet era outra banda cujo flerte com o hip hop limitava-se a “Judgment Night”. No entanto, assim como no caso do rap metal, o rock pesado praticado pelo grupo não era algo que podia ser chamado de convencional.

Sua abordagem dissonante e minimalista do hardcore tornou-os uma das principais bandas do chamado metal alternativo, junto com os representantes de Seattle Alice in Chains, Soundgarden e Melvins, o semi-progressivo Tool…

… e os papas do rock industrial, Ministry e Nine Inch Nails. Crias dos anos 80, quando ambas as bandas manipulavam sintetizadores, samplers e sequenciadores em uma abordagem eletrônica mais pop, elas foram aos poucos incorporando elementos do rock pesado, como riffs repetitivos, distorções e vocais mais agressivos. Enquanto Al Jourgensen, do Ministry, redescobria a paixão pelo som de sua guitarra, Trent Reznor assumia, em estúdio, todas as funções no Nine Inch Nails. Reznor reuniria uma banda de verdade apenas para os shows, tão intensos musical e visualmente quanto os da barulhenta orquestra do Ministry.

O videoclipe de “N.W.O.” utiliza cenas do espancamento do motorista negro Rodney King por policiais e os subsequentes tumultos que se espalharam por L.A.

Fala aí se esse videoclipe não foi inspirado por “Rock You Like a Hurricane”, do Scorpions…

Em 93, Reznor não só descobriu, como adotou o bebê de Rosemary.

Batizado com a junção dos nomes de um símbolo sexual feminino e de um assassino em série – assim como todos em sua banda -, Marilyn Manson surgiu para o grande público em um álbum produzido pelo líder do Nine Inch Nails, “Portrait of an American Family”, em 94.

Para religiosos e líderes de direita, foi como se o garoto Damien, o Anticristo de “A Profecia”, houvesse crescido para se tornar o líder de toda uma geração de jovens, que, por sua vez, viam no cantor um símbolo de transgressão e liberdade. Assumindo o papel que lhe haviam atribuído, em 96 ele lançou “Antichrist Superstar”, e, anos mais tarde, iria se ver no fogo cruzado resultante do massacre de Columbine, que reviveu a velha polêmica dos anos 80 em torno do heavy metal e sua suposta influência nociva sobre a juventude.

Mas Manson e sua banda não eram os únicos a resgatar a tradição, inspirada pelo pioneiro Alice Cooper, de chocar o público com uma temática macabra. Levando-se menos a sério do que o “Anticristo Superstar”, o quarteto White Zombie transformava suas músicas em verdadeiras odes de amor bizarro aos monstros sagrados dos filmes-B.

A iguana está entre nós! Iggy Pop dando uma força pros zumbis

O heavy metal chegava a meados dos anos 90 como uma síntese de todas as experimentações realizadas durante a década. Alcunhado de nu metal, o novo híbrido era caracterizado pelo groove do Pantera e Sepultura, e enfatizava as texturas e os climas sonoros do Faith No More em detrimento dos solos instrumentais típicos do metal, mais a incorporação de scratches e samples e letras calcadas em angústia e revolta adolescente. A safra contava com bandas como Korn…

… Limp Bizkit…

… Deftones…

… e Slipknot.

Antes que o novo milênio se anunciasse no horizonte, uma tempestade de areia ergueu-se no deserto da Califórnia. Seu nome era Kyuss. Construindo sua base de fãs através de vigorosos e psicodélicos shows ao ar livre nas áreas desérticas do sul do estado, o Kyuss se tornou a linha de frente do chamado stoner rock, de instrumental pesado, arrastado e viajante, e conquistou um status cult com o álbum “Blues for the Red Sun”, de 92.

Isso não impediu que o quarteto desbandasse em 95. Seu inventivo guitarrista, Josh Homme, que costumava plugar seu instrumento em um amplificador de baixo para obter um som fora do convencional, não ficou muito tempo sem emprego: juntou-se ao Screaming Trees como músico de turnê, mas logo saiu para formar sua própria banda. Sem conseguir convencer Mark Lanegan, cantor do Screaming Trees, a assumir os vocais do seu Queens of the Stone Age, Homme tomou para si a tarefa – ainda assim, era sua técnica na guitarra o que continuava surpreendendo o público e músicos tarimbados. Mesmo Lanegan voltou atrás e juntou-se ao QOTSA como membro fixo a partir do segundo álbum, “Rated R”, de 2000…

Rob Halford, do Judas Priest, que estava gravando em um estúdio vizinho, passou pra dar um alô e gravar uns backing vocals nessa música

… que abriu as portas de mais uma era para o heavy metal, o gênero do rock que, como na letra de uma típica canção do Black Sabbath, adentrou o reino dos mortos inúmeras vezes, apenas para sempre retornar triunfante.

No próximo capítulo: Manhãs de glória para o pop britânico.

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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