Rock (R)Evolution – Parte 22

ROCK (R)EVOLUTION

EPISÓDIO 22:

PERDIDOS NA ILHA

Para ler ao som de: U2, Primal Scream, Blur, Suede, Elastica, Placebo, Manic Street Preachers, Oasis, Supergrass, Ocean Colour Scene, Verve, Pulp, Radiohead, Travis, Stereophonics, Coldplay

 “Sonhar tudo de novo”. Foi a frase que o U2 usou para definir sua retirada do showbusiness na transição entre os anos 80 e 90. O quarteto irlandês apostava em sua própria reinvenção como única forma de manter a banda em atividade, após o desgaste resultante do estrelato alcançado com o álbum “The Joshua Tree”, e relevante, em um mundo que mudava tanto política – a queda do Muro de Berlim sinalizava o limite da Guerra Fria – quanto musicalmente – o que estava sendo produzido de mais excitante no rock era fruto da fusão do velho gênero de Chuck Berry com as batidas da house music e do hip hop. A banda, então, espalhou os ares efervescentes vindos de Madchester pelos ventos da mudança que sopravam na Alemanha reunificada, onde gravou boa parte de “Achtung Baby”, álbum lançado em 91.

O tal sonho por pouco não virou pesadelo enquanto eles tentavam acertar o caminho para sua nova identidade, que agora incluía dance music, texturas sombrias, cinismo, ironia e auto-depreciação. A turnê que se seguiu, a inovadora Zoo TV, carregava a audiência para dentro do universo multimídia de “Achtung Baby” através de paredões de telas de tevê que borravam as fronteiras entre o real das imagens da Bósnia em guerra e a ficção dos programas de entretenimento.

Encarnando seus personagens The Fly e MacPhisto, Bono passava trotes na Casa Branca durante os shows, numa tradução perfeita da principal meta da nova fase do U2: confundir as pessoas a respeito da imagem consolidada de uma porção de coisas, especialmente de si mesmos.

Os alter-egos de Bono: The Fly...

... e MacPhisto, mandando um salve pra Bush pai.

Lançado menos de dois meses antes de “Achtung Baby”, o terceiro álbum da banda escocesa Primal Scream também mostrava o rock caindo na noite ao som da dance music. Mas se o álbum do U2 era um flerte com os ritmos eletrônicos, no caso de “Screamadelica” a relação se consumava com tudo a que tinha direito. Chefiada por Bobby Gillespie, ex-baterista do Jesus & Mary Chain, a banda havia deixado para trás o pop alternativo praticado durante a década de 80 para abraçar de vez as experimentações psicodélico-dançantes movidas a lotes de substâncias ilegais.

Bandas menores e com menos experiência também vislumbraram no alvorecer da década de 90 o reinado da fusão entre acid house e rock, sem perceber que a onda Madchester já estava mais para uma manhã de domingo do que para uma noite de sábado. Assim, os ingleses do Blur estrearam com o álbum “Leisure”, em 91, para um considerável sucesso comercial e uma rigorosa recepção da crítica, que o acusava de datado e fora de época. Algo com que mesmo a banda parecia concordar.

Foi durante uma malfadada turnê pelos EUA, onde o Blur acabou ignorado em meio ao furacão grunge, que o vocalista Damon Albarn descobriu uma alternativa para o beco sem saída em que se encontravam. Infelizes e frustrados, o que os quatro integrantes mais desejavam era voltar para casa. Albarn começou a compor canções que evocavam o espírito da Inglaterra, inspirado principalmente por grupos como Kinks e Jam. O resultado foi o declaradamente anti-americano “Modern Life is Rubbish”, de 93.

Seu sucessor, “Parklife”, de 94, promoveu uma imersão ainda mais profunda no estilo de vida inglês, e elevou-os à condição de ídolos no Reino Unido.

“Parklife” – a música e o videoclipe – tem a participação do ator Phil Daniels, que estrelou o filme “Quadrophenia”, baseado no álbum de mesmo nome do Who.

“Modern Life is Rubbish” e “Parklife” recuperaram uma boa parcela da atenção dos britânicos, que, a essa altura, havia se voltado para outra banda londrina, o Suede. Formado pelo casal de namorados Brett Anderson e Justine Frischmann, o grupo encontrou, através de um anúncio na revista NME, aquele que formaria com Anderson uma dupla capaz de reviver a mística da parceria Morrissey/Marr: Bernard Butler. A referência aos Smiths não se limitava à característica do vocalista e letrista com influências literárias e do exímio e melódico guitarrista compondo juntos canções com altas doses de ambiguidade sexual – também incluía o embate de personalidades que iria aflorar com o passar dos anos.

No entanto, a primeira desavença interna envolveu Frischmann. Após romper o namoro com Anderson, a guitarrista começou um relacionamento justamente com o líder da banda rival, Damon Albarn. A situação foi se tornando insustentável, e só se resolveu quando ela deixou o grupo. Junto com outro ex-membro do Suede, o baterista Justin Welch, Frischmann formou o Elastica em 92.

“Connection” não deve ter sido o videoclipe do Elastica que o baterista Justin Welch mais gostou de gravar…

Enquanto isso, o Suede vivia um conto de fadas roqueiro ao ser festejado pela imprensa britânica com um hype visto até então somente em torno dos Sex Pistols. Antes de lançarem um single sequer, eram estampados na capa do semanário Melody Maker como “a melhor nova banda britânica”.

Suede: moral pouca é bobagem

E o apoio incondicional da crítica especializada não parava por aí: a NME promoveu uma campanha para que o quarteto se apresentasse na cerimônia de entrega do Brit Awards, território dos artistas consagrados – e ultrapassados – da música pop britânica, como Phil Collins e Rod Stewart. Chamado na última hora graças à pressão popular, o Suede desempenhou seu glam rock carregado de sexualidade, androginia e tonalidades obscuras para uma plateia que se dividia entre a apatia e o ultraje. Momento mais do que emblemático para simbolizar a nova geração substituindo a antiga.

A célebre apresentação do Suede no Brit Awards fez muito tiozinho desligar o Sonic 2000.

O primeiro álbum do Suede e sua capa ambígua

Embora se sentisse desconfortável com o título, o Suede – cujo álbum homônimo tornava-se, em 93, a estreia de vendagem mais rápida da História do Reino Unido em quase uma década – era celebrado como criador de um movimento que reavivava entre os jovens o prazer em ser britânico: o britpop. Este ia se caracterizando pelo resgate do rock inglês dos anos 60 e 70, pelas letras que examinavam temas essencialmente britânicos, e, ao contrário do grunge, por artistas que abraçavam sem medo ou culpa a fama e a fortuna.

Dentro do britpop, o glam rock era a opção estética também do Placebo…

… e do Manic Street Preachers. Formado no País de Gales em 86, o quarteto angariava influências tanto do punk do Clash quanto do hard rock do Guns N’ Roses, e dividia o trabalho de composição entre duplas, com o vocalista e guitarrista James Dean Bradfield e o baterista Sean Moore cuidando da música e o guitarrista Richey Edwards e o baixista Nicky Wire, das letras, de teor escancaradamente político. A estranha combinação de delineadores com ideologia de esquerda despertou a desconfiança do jornalista Steve Lamacq, da NME. Durante uma entrevista para ele em 91, Edwards usou uma navalha para provar a sinceridade da banda, cortando em seu antebraço a expressão “4REAL” (“de verdade”).

O incidente rendeu dezessete pontos, mas também um contrato com a Sony Music para o primeiro álbum, “Generation Terrorists”, de 92. Dentro de poucos anos, iria se provar algo muito mais perturbador do que uma simples jogada de marketing.

O peito de Edwards adorna a capa do primeiro álbum dos Manics

Os Manics conquistavam seguidores fiéis e entusiasmo da crítica na mesma medida em que Edwards perdia sua mente. Os episódios de auto-mutilação continuaram, bem como sua crescente depressão, dependência de álcool e anorexia. Ele acabou se internando em uma clínica em 94, ano de lançamento do álbum que era um verdadeiro raio-X de sua psique fragilizada, “The Holy Bible”.

Passado o período de tratamento, retornou à banda para a turnê promocional, que deveria levá-lo e a Bradfield para os EUA. No dia 1º de fevereiro de 95, porém, apenas o vocalista apareceu no aeroporto. Edwards havia deixado o hotel e desaparecido. Seu carro foi encontrado semanas depois, abandonado próximo à Severn Bridge, notório local de suicídios. O mesmo não aconteceu com o guitarrista, e sua ausência levou os companheiros a cogitar a separação, que só não se concretizou devido ao apoio da família de Edwards à continuidade da banda. Com mudanças sonoras e visuais para o álbum seguinte, o pop e épico “Everything Must Go”, de 96 – que contava com várias contribuições deixadas por Edwards -, os Manics atingiram o auge de sua notoriedade até aquele momento.

“Kevin Carter” é uma homenagem ao fotógrafo sul-americano responsável pela famosa foto de uma criança faminta observada de perto por um abutre igualmente faminto.

Richey Edwards se tornava o mito perdido do novo rock britânico menos de um ano após a morte de Kurt Cobain, desfecho simbólico do grunge, quando, mais do que nunca, o britpop pôde reinar absoluto na velha ilha. E, reprisando a História das novidades musicais inglesas, era em Manchester que as joias da coroa estavam guardadas.

Roadie de um dos principais grupos da onda Madchester, Inspiral Carpets, Noel Gallagher vinha aprimorando suas habilidades como guitarrista e compositor na mesma época em que seu irmão mais novo, Liam, penava para fazer acontecer sua banda, The Rain. A dificuldade em compor um bom material levou Liam a pedir para que Noel se juntasse a eles. Já com o nome de Oasis, e apoiado nas canções de seu novo guitarrista, o quinteto passou a despejar uma sonoridade que unia Smiths, Stone Roses e Jam em roupagem beatlemaníaca. Foi durante um show na Escócia que impressionaram Alan McGee, dono da Creation Records e experiente empresário. O Oasis voltou para casa com um contrato, e seus primeiros singles, todos incensados pela imprensa musical, alcançaram facilmente as paradas, pavimentando o caminho para o debute de vendagem mais rápida de todos os tempos no Reino Unido, “Definitely Maybe”, de 94.

A capa de "Definitely Maybe" traz referências a ídolos do Oasis, como o compositor Burt Bacharach e o jogador do Manchester City Colin Bell.

Com o sucesso e o dinheiro repentinos, os Gallaghers, que já tinham fama de hooligans, dedicaram-se a viver em tempo integral o pacote completo do rock n’ roll: concertos sob influência de drogas, declarações bombásticas à mídia, comportamento imprevisível e uma arrogante rebeldia, além de muitas brigas – ainda que costumeiramente elas acontecessem no seio da família. Liam e Noel mantinham uma relação conflituosa, com não raros confrontos físicos e ameaças, por parte do mais velho, de abandonar o grupo.

Mas em 95 os Gallaghers se uniram contra um “inimigo” comum. A rivalidade crescente (e estimulada pela imprensa) com o Blur ganhou ares bélicos quando o lançamento de seus novos singles foi marcado para o mesmo dia. A “Batalha do Britpop”, como ficou conhecida, colocou frente a frente “Roll With It”, da banda de Manchester, e “Country House”, dos londrinos.

O embate atingiu uma dimensão que extrapolava o mercado. Era Norte contra Sul. Classe trabalhadora contra classe média. Por uma pequena vantagem, o resultado pendeu para o Blur, o que levou Noel a declarar ao jornal The Observer que desejava que Damon Albarn e Alex James, da banda rival, “contraíssem AIDS e morressem”. A controvérsia foi tanta que ele precisou voltar atrás e desculpar-se publicamente.

A derrota na “Batalha do Britpop” não impediu que o segundo álbum do Oasis, “(What’s the Story) Morning Glory?”, de 95, tivesse um desempenho estrondoso tanto no Reino Unido quanto nos EUA.

O Oasis era agora a banda de frente do britpop, e podia escolher quem levava consigo para o primeiro escalão. Graças, em parte, ao apoio de Noel, grupos com mais anos de estrada tiveram enfim sua chance de atingir o mainstream. Foi o caso do Ocean Colour Scene…

… e do The Verve. A banda da região de Manchester havia se formado em 90 com a proposta de um resgate psicodélico, e logo se tornou uma sensação entre os críticos. Mas foi com o segundo álbum, “A Northern Soul”, de 95 – cuja faixa-título era uma homenagem a Noel -, com uma sonoridade mais voltada para o rock alternativo contemporâneo, que eles arranharam o topo.

Contudo, a única constante no grupo era a instabilidade, e o vocalista Richard Ashcroft anunciou seu fim nesse mesmo ano. Em 97, como se o momento houvesse permanecido congelado, o Verve se reuniu novamente e retomou seu caminho para o sucesso planetário. Embora alvo de um processo de plágio movido pelos detentores dos direitos sobre a obra dos Rolling Stones, por, segundo eles, utilizar “demais” o sample de uma versão orquestrada de “The Last Time”, de 65, o single “Bitter Sweet Symphony” foi extremamente bem sucedido…

… e abriu espaço para o álbum “Urban Hymns”, no qual o quinteto abraçava por completo o britpop.

Tente fazer isso nas ruas de São Paulo.

Se o Verve demorou sete anos para atingir as massas, o que dizer do Pulp? Mais de uma década e meia se passou entre a formação da banda e o lançamento do álbum “His ‘n’ Hers”, em 94. Durante esse tempo, as inúmeras mudanças de integrantes e de estilo e os fracassos comerciais não minaram a persistência do frontman Jarvis Cocker – de fato, apenas incrementaram seu repertório de observações sagazes sobre a vida, a celebridade e os relacionamentos humanos.

Mas seria outra banda, também anterior à onda britpop, que provocaria a revolução mais inesperada. Juntos desde meados dos anos 80, os cinco membros do Radiohead poderiam não ter passado de artistas de um único sucesso caso tivessem tentado repetir o êxito de seu single “Creep”, de 92.

O sucesso de "Creep" certamente não se deve à BBC Radio 1, que achou a música "depressiva demais" e recusou-se a tocá-la.

O mergulho em uma sonoridade que se distanciava da abordagem grunge do início da carreira, e que, ao mesmo tempo, destoava daquela praticada por Oasis, Blur e cia., rendeu-lhes uma fiel base de seguidores quando do lançamento do segundo álbum, “The Bends”, em 95.

As canções melódicas e melancólicas, ainda que, em certos momentos, grandiosas, podiam até sinalizar o passo seguinte, mas a surpresa global provocada pelo sucessor “Ok Computer”, de 97, transformou o Radiohead em uma das bandas mais respeitadas da década. O álbum trazia guitarras distorcidas explodindo em texturas e camadas oriundas do rock progressivo, com um toque eletrônico conferindo às letras sobre alienação, capitalismo e globalização um tom de profecia. “Ok Computer” era um manual para o milênio que se aproximava…

O título desta música é uma referência ao personagem Marvin the Paranoid Android, da série de livros “O Guia do Mochileiro das Galáxias”

… e o Radiohead, uma inspiração para a música feita nos últimos anos da década, que veriam a ascensão dos escoceses do Travis…

… dos galeses Stereophonics…

… e do Coldplay…

… todos eles menos comprometidos com o estilo de vida britânico do que a primeira leva de bandas do britpop, e, talvez por isso, com uma penetração mais massiva no mercado mundial. Era o necessário para manter a Union Jack tremulando no cenário musical dos anos 00.

No próximo capítulo: Episódio final – Garotos do século 21.

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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