Rock (R)Evolution – Parte 23 – Capítulo final

ROCK (R)EVOLUTION

EPISÓDIO 23:

2000 A 2010: O MILÊNIO DIGITAL

Para ler ao som de: Strokes, Hives, Vines, White Stripes, Kings of Leon, Yeah Yeah Yeahs, Interpol, Killers, Arcade Fire, Libertines, Franz Ferdinand, Bloc Party, Kaiser Chiefs, Arctic Monkeys, Gorillaz, Audioslave, Velvet Revolver, Blink-182, My Chemical Romance, Fall Out Boy, Klaxons, Hot Chip, MGMT, Vampire Weekend, Vaccines       

O século XXI começou para a música em um cenário que estranhamente parecia saído das profecias dos autores de ficção científica. Batidas eletrônicas dominavam as paradas, o álbum símbolo do rock em 2000, “Kid A”, do Radiohead, também apelava para sons criados em máquinas a fim de transmitir justamente a percepção da banda sobre a velocidade violenta do mundo contemporâneo, e um programa de compartilhamento de arquivos mp3 pela internet inventado por um jovem de 19 anos mudava a maneira como se consumia música – e como se fariam novos astros dali em diante.

Para os executivos da indústria da música, o gatinho do logo do Napster estava mais era pra capeta.

Projetado pelo estudante Shawn Fanning, o Napster logo se tornou objeto de uma cruzada judicial empreendida pela indústria da música, que o acusava de violação dos direitos autorais dos artistas cujas faixas eram compartilhadas gratuitamente entre os seus usuários. A questão ganhou ainda mais repercussão quando alguns (poucos) músicos, como os membros do Metallica, passaram a militar fervorosamente contra o programa. Mas tudo indicava que o download grátis de músicas pela internet era uma realidade sem volta, e o Metallica chegou a perder popularidade junto a seus fãs devido à atitude. Em sentido inverso, vinha toda uma nova geração de bandas, para as quais a divulgação virtual mostrava-se saudável e imprescindível, e que estourava inicialmente na internet para então ganhar o mundo.

A primeira delas foi o The Strokes. O quinteto nova-iorquino começou a gerar interesse no Reino Unido, através de uma demo enviada para a gravadora Rough Trade Records. Em seguida, a NME caiu de encantos pelo grupo, e, em 2001, disponibilizou o download da faixa “Last Nite” em seu website, pouco tempo antes do EP “The Modern Age” ser lançado e desencadear uma disputa entre as majors pelo passe dos Strokes.

Quase que da noite para o dia, a banda se transformava em uma sensação pop, comentada nas principais publicações culturais, com shows extremamente concorridos e ingressos inflacionados. O primeiro álbum, “Is This It”, de 2001, só ajudou a sacramentar o hype. Como se não bastasse, duas polêmicas atraíram ainda mais os holofotes para o lançamento: a substituição, no mercado americano, da capa original e da faixa “New York City Cops” – uma crítica pouco conveniente, após os atentados de 11 de setembro, aos policiais da Grande Maçã – por “When It Started” na versão em CD.

A capa "de mau gosto" de "Is This It" mostra um ângulo interessante da namorada do fotógrafo Colin Lane...

... enquanto esta revela uma colisão de partículas, algo que só um físico quântico consideraria sexy.

Esta é uma das muitas músicas que se tornaram “malditas” imediatamente após o 11 de Setembro.

À revolução garageira deflagrada pelos Strokes juntaram-se os suecos do The Hives…

… os australianos do The Vines…

… e a dupla de Detroit conhecida como The White Stripes. Com um apurado senso estético – figurino e iconografia invariavelmente em vermelho, branco e preto -, o guitarrista/vocalista Jack White e a baterista Meg White (que se declaravam irmãos, embora houvessem sido casados até 2000) apareceram para o grande público em 2001, com o álbum “White Blood Cells”. O frontman logo foi saudado como o guitar hero do início do milênio, por sua criativa e energética infusão de blues e country em uma sonoridade punk – ou vice-versa.

"Das latas de Coca-Cola à propaganda nazista": Jack White diz que as cores-símbolo do White Stripes são a mais poderosa combinação cromática de todos os tempos

O tributo aos ritmos de raiz americanos também marcava o Southern rock de garagem do Kings of Leon. Considerada um misto de Strokes e Lynyrd Skynyrd, a banda familiar de Nashville – formada por três irmãos e um primo – rapidamente destacou-se no sempre receptivo mercado britânico.

O sucesso dos Strokes ajudou a impulsionar a carreira de outras bandas de Nova York, que levaram adiante o resgate do rock produzido na virada dos anos 70 para os 80. O revival pós-punk foi encabeçado pelo Yeah Yeah Yeahs…

… Interpol, com seu som evocando as texturas sombrias do Joy Division…

… e The Rapture, que apostava no lado dance do estilo.

Com seu nome tirado do videoclipe da música “Crystal”, do também dançante New Order, o The Killers, natural de Las Vegas, mostrava no álbum de estreia, “Hot Fuss”, de 2004, a influência não somente da banda de Manchester, mas de toda a new wave oitentista, com uma inclinação à grandiosidade e ao espetáculo tão típicos de sua terra natal.

Em 2005, a frase “I’ve got soul but I’m not a soldier” de “All These Things That I’ve Done” foi incorporada por Robbie Williams, Coldplay e U2 em seus shows.

Mas talvez nenhuma outra banda do período tenha conseguido transformar grandiosidade em arte do modo como o Arcade Fire o fez. Contando com quase uma dezena de membros e instrumentos tão diversos e estranhos ao rock como harpas e acordeões, o grupo canadense afirmou sua complexa identidade já no primeiro álbum, “Funeral”, de 2004.

No Reino Unido, o rock da década 00 havia começado alguns anos antes, em Londres, quando os amigos Carl Barât e Pete Doherty largaram tudo para formar o The Libertines.

Barât e Doherty: quase irmãos siameses

Percebendo a “Strokesmania” ao redor do mundo, a empresária da banda, Banny Poostchi, comprometeu-se a conseguir um contrato com a Rough Trade no prazo de seis meses. Missão cumprida no final de 2001, no ano seguinte o quarteto lançava seu primeiro single, “What a Waster”, produzido pelo ex-guitarrista do Suede, Bernard Butler.

Atrair medalhões do rock britânico provou-se tarefa fácil para os Libertines: no álbum de estreia, “Up the Bracket”, de 2002, eles contaram com a produção de ninguém menos que o ex-Clash Mick Jones.

Por essa época, Doherty começou a usar crack e heroína com frequência, o que levou a tensões internas, especialmente com Barât. Na tentativa de fazer as pazes com o velho amigo, Doherty organizou um show surpresa em comemoração ao aniversário dele. Por já estar em outra festa, Barât acabou não comparecendo. A vingança do “garoto-problema” foi não embarcar para tocar com o Libertines na Alemanha. Impedido, então, de retornar à banda até que tratasse sua dependência, ele montou uma nova, chamada Babyshambles.

Pouco depois, enquanto seus ex-companheiros se apresentavam no Japão, Doherty foi preso por haver invadido o apartamento de Barât e furtado diversos objetos. Após passar cerca de dois meses na prisão, juntou-se novamente à banda, mas seus problemas com drogas continuaram, e gradualmente ele foi se afastando. Em 2004, quatro meses após o lançamento do segundo e homônimo álbum, Barât decidiu colocar um fim à trajetória dos Libertines, formando, em seguida, o Dirty Pretty Things.

Uma das imagens mais icônicas do rock recente, esta foto foi tirada durante o "Show da Liberdade", que o Libertines fez apenas algumas horas depois de Doherty ser solto da cadeia, em 2003.

Nesse mesmo ano, chegava às lojas o homônimo primeiro álbum de uma banda escocesa cuja intenção, segundo eles mesmos, era misturar Sex Pistols com Donna Summer. O Franz Ferdinand virou hit mundial com uma música que consumava completamente essa pretensão: “Take Me Out”.

Durante um show em 2003, Alex Kapranos, frontman do Franz Ferdinand, recebeu como presente de um fã a demo de sua banda. Impressionado com a qualidade das canções, Kapranos a convidou para tocar na festa de aniversário da gravadora Domino, com a qual o Franz tinha contrato. Menos de dois anos mais tarde, o tal fã, Kele Okereke, e a tal banda, Bloc Party, tornavam-se peças fundamentais do novo rock britânico…

… tais como Kaiser Chiefs…

Os Kaiser Chiefs dão uma de Mãe Dinah e antecipam os tumultos londrinos de 2011!

… Kasabian…

… e The Arctic Monkeys. O quarteto de Sheffield fez suas primeiras apresentações em 2003, e seu despojamento em relação ao sucesso ficou evidente desde cedo, com a distribuição gratuita de cópias de suas demos nos shows. O consequente compartilhamento via internet não os incomodava, até porque eles afirmavam não saber como disponibilizá-las – mesmo o popular My Space da banda fora criado pelos fãs. A divulgação espontânea surtiu efeito, e o hype em torno do Arctic Monkeys aumentava exponencialmente, embora eles preferissem lançar seus singles e o primeiro álbum, “Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not”, de 2006, de forma independente. Isso parecia não fazer diferença, pois o álbum se tornou o debute de vendagem mais rápida na História do Reino Unido, repetindo o feito dos compatriotas Oasis na década anterior.

Chris McClure, da banda The Violet May e amigo dos Monkeys, é o "modelo" na capa do álbum. Quem achou que ele não era modelo de nada foi o pessoal do Serviço Nacional de Saúde da Escócia, que criticou a foto por, segundo eles, passar a ideia de que fumar é uma boa

A nova safra do rock feito na Grã-Bretanha era resultado mais do punk e do pós-punk do que da “Geração Invasão Britânica” que alimentara o britpop. E mesmo um dos principais expoentes deste iniciou o milênio afastando-se das referências patriótico-nostálgicas e indo em direção ao hip hop americano. Fruto da mente inquieta de Damon Albarn, do Blur, juntamente com o quadrinista Jamie Hewlett, o projeto Gorillaz reuniu diversos músicos, como os produtores de hip hop Dan the Automator e Del the Funky Homosapien, ocultos por trás de uma banda de desenho animado – literalmente, pois as apresentações ao vivo consistiam em enormes telas que exibiam o quarteto virtual “dublando” os músicos reais, que ficavam escondidos atrás delas.

O inusitado projeto virou mania no mundo todo, gerando shows esgotados, vários álbuns, bonecos e colaborações com artistas como o rapper Snoop Dogg, Lou Reed, e os ex-membros do Clash, Mick Jones e Paul Simonon.

A gorilada reunida nas melhores lojas do ramo: em sentido horário, Murdoc Niccals, 2D, Noodle e Russel Hobbs

Com o último, mais Simon Tong, ex-guitarrista e tecladista do Verve, e o baterista nigeriano Tony Allen, Albarn desenvolveu outro projeto, chamado The Good, the Bad & the Queen, no qual retornou às suas raízes musicais e à sua obsessão temática, a vida londrina.

Outras superbandas surgidas durante os anos 00 foram o Audioslave, formado pelo ex-vocalista do Soundgarden, Chris Cornell, com os instrumentistas do extinto Rage Against the Machine…

O videoclipe de “Show Me How to Live” foi banido da MTV por mostrar a banda no melhor estilo Dick Vigarista na Corrida Maluca

… Velvet Revolver, que reunia Slash, Duff McKagan e Matt Sorum, saídos do Guns N’ Roses, com Scott Weiland, ex-vocalista do Stone Temple Pilots…

Êta trem bão!

… e Them Crooked Vultures, com Josh Homme, do Queens of the Stone Age, Dave Grohl, do Foo Fighters, e John Paul Jones, que fizera parte do Led Zeppelin.

Enquanto isso, o punk rock, que vinha vivendo seu período de maior popularidade desde que Green Day e Offspring haviam conquistado o mainstream, adquiria tonalidades ainda mais pop e alegres através do trio californiano Blink-182…

… e ficava à flor da pele, em sua vertente conhecida como emotional hardcore ou emocore. Caracterizado por uma sonoridade mais melódica e temas introspectivos, em contraste com o hardcore rude e político dos anos 80, o emo estabelecia uma conexão direta com os jovens que não se identificavam com a postura cheia de testosterona característica de Black Flag e cia. Nascido no cenário underground de Washington, D.C., o subgênero resultou em bandas díspares como Dashboard Confessional…

… Jimmy Eat World…

Para evitar uma má interpretação após o 11 de Setembro, “Bleed American”, o álbum que contém esta música, foi rebatizado simplesmente como “Jimmy Eat World”

… My Chemical Romance…

“Helena” é uma homenagem à falecida avó de Gerard e Mikey Way, membros da banda

… Fall Out Boy…

… e Panic! at the Disco.

Embora com tempo de vida muito mais curto, new rave foi outro termo a ficar conhecido nos anos 00. Criado como uma piada para ridicularizar a mídia por artistas e gravadoras envolvidos em uma cena que misturava rock, música eletrônica e new wave, e que era marcada por um visual com largo uso de cores fluorescentes, acabou sendo vinculado principalmente à banda inglesa Klaxons.

Outros grupos que exploraram a fusão do rock com a dance music foram o Hot Chip…

… LCD Soundsystem…

… e Friendly Fires.

Os últimos anos da década viram a ascensão de inúmeras novas bandas e tendências, do pop rock psicodélico da dupla MGMT…

Não, a dupla não é formada por um mineiro e um mato-grossense. MGMT é uma abreviação do nome anterior, The Management, que já era usado por outra banda. 

… ao indie africanizado do Vampire Weekend…

… passando por mais um retorno ao rock de garagem, promovido pelo The Vaccines.

Assim, em uma era em que toda manifestação artística parece acessível de uma maneira jamais vista, em que a diversidade resultante disso cria por si só milhares de nichos e segmentos, em que a música perde a sua (ilusória) materialidade e o poder das gravadoras é minado, em que o sucesso é ainda mais instantâneo e fugaz, os espíritos de velhos bluesmen do Mississippi e caubóis de Nashville permanecem vivos e radiantes em bits e arquivos virtuais. Eles e todo o restante do Olimpo roqueiro serão para sempre almas na máquina, seja ela um iPod, seja o inconsciente coletivo humano.

 

“Não dura até junho!” (Revista Variety de 1955, sobre o rock n’ roll)

 

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Sobre marcelobeat

Provavelmente o menos geek dos blogueiros, seu computador funciona com carvão e o girar de uma manivela que faz com que o vapor circule por toda a máquina, e sua conexão de internet consiste de um cabo amarrado a uma pipa, papagaio ou pandora. Mas ele se cansou de comprar papel almaço, então resolveu ter um blog. Comprem meu livro! "O SAFÁRI DOMÉSTICO", meu primeiro romance, está à venda pela AGBOOK, no endereço http://www.agbook.com.br/book/44234--O_Safari_Domestico
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2 respostas a Rock (R)Evolution – Parte 23 – Capítulo final

  1. vou relevar a ausência do new metal, metalcore, tecnical death metal, mathcore, rapcore e afins no 2000+, mas MGMT e vampire weekend representando alguma forma de futuro n dá hein beat! hahahaha… é capítulo final mesmo, apocalipse da música… o gênero em que a música e o ser excêntrico se dissociaram e o último ocupa uns 80% do que a banda é!

    de qualquer maneira, série muito foda! se tiver sua permissão, vou estudar fazer uma ramificação e falar dos estilos que ficaram de lado!

    parabéns beat! abrasss

    • Grande Deusa!
      Primeiro, obrigado pela assiduidade aqui no blog e pelos elogios. Realmente, cara, são muitos e muitos gêneros e estilos pra se falar. Só de …metal e …punk, já iriam mais uns 20 capítulos. Mas do nu metal e rap metal eu falei ainda nos anos 90, capítulo21, se não me engano, depois vc dá uma conferida. Qto a citar MGMT e Vampire, é mesmo uma aposta arriscada, pq estamos cobrindo um período ainda muito recente neste capítulo, e não dá pra saber se essas bandas vão manter o nome q, bem ou mal, elas possuem agora dentro do cenário pop/rock, ou se vão se tornar notas de rodapé na História. Só o tempo dirá. Agora, fica à vontade sim pra dar a versão “Conversa de Louco” dos fatos, nessas áreas das quais vc manja muito! Abração, cara, e sucesso no blog!!

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