Rock (R)Evolution – Parte 18

ROCK (R)EVOLUTION

EPISÓDIO 18:

ENTERNECENDO SEM PERDER A DUREZA

Para ler ao som de: Black Flag, Bad Religion, Dead Kennedys, Circle Jerks, Social Distortion, TSOL, Suicidal Tendencies, Bad Brains, Minor Threat, Misfits, Hüsker Dü, Replacements, R.E.M., Sonic Youth, Dinosaur Jr., Pixies

 Início dos anos 80. Os EUA viviam a era-Reagan. A despeito da alienação de uma enorme parcela do povo americano, o conservadorismo republicano, a Guerra Fria e a constante ameaça nuclear não se encontravam a salvo da verborragia de uma nova estirpe de jovens contestadores, que gritavam dos porões para serem ouvidos no mainstream. Para eles, o punk rock havia se tornado “lento” demais. Se o inimigo era tão poderoso, era necessário atacar mais rápido. Surgia o hardcore.

Ao ser conduzido por uma batida mais acelerada, com guitarras mais pesadas e vocais ainda menos melódicos, quase falados, o hardcore se distinguia musicalmente do punk dos anos 70, enquanto que, nas letras, mantinha em pauta os mesmos temas, como falta de perspectiva, revolta, inconformismo e opressão social. Os componentes visuais deixavam de ser tão importantes. Saíam de cena os cabelos coloridos e o figurino rasgado e com alfinetes para dar lugar a roupas comuns – bandas e fãs vestiam-se da mesma maneira, e não era diferente do que usavam em suas “vidas diurnas”, manuseando a bomba de um posto de gasolina ou atrás do balcão de uma loja de ferragens.

Um dos primeiros grupos a ganhar notoriedade nesse circuito foi o Black Flag. Revezando peso e velocidade através de surpreendentes mudanças de tempo, o som da banda logo se espalhou pela Califórnia, inspirando outras formações a carregarem a bandeira do hardcore – e do “faça-você-mesmo”, visto que as gravadoras consolidadas não se arriscavam a investir no estilo. Iniciava-se um fértil período de independência, em que muitas bandas criaram selos para lançar e distribuir os seus álbuns e de outros grupos. Foi assim com o Black Flag, que fundou a SST Records…


… Bad Religion e sua Epitaph Records…


… e Dead Kennedys, com a Alternative Tentacles.

Comandados pela mente revolucionária do vocalista Jello Biafra, os Dead Kennedys provocaram mais polêmica do que seus pares ao baterem de frente com as majors, a MTV e as lideranças de direita. O auge dessa constante queda-de-braço ideológica talvez tenha sido a candidatura de Biafra ao cargo de prefeito de San Francisco, especialmente por ele haver terminado em um inacreditável – e ameaçador – terceiro lugar.

Um hino de protesto contra a MTV…

Bem estruturada, a cena hardcore californiana passou a abrigar uma infinidade de bandas, como Circle Jerks…

… Social Distortion…

… TSOL…

… e Suicidal Tendencies…

… germinando muitas outras regiões dos EUA, como a costa leste. Em Washington, D.C., duas bandas chamavam atenção não somente pelo som, mas também pela peculiaridade de sua formação ou doutrina. No primeiro quesito encontrava-se o Bad Brains, composto exclusivamente por negros – algo que se via cada vez menos no rock, e inédito no hardcore, ainda mais com a presença de reggaes entre as composições aceleradas. No segundo, o Minor Threat, que, com sua canção “Straight Edge”, pregava a abstinência de álcool e drogas, filosofia que chegou a gerar um verdadeiro movimento, de mesmo nome, dentro do cenário.

Pregar um estilo de vida passava longe das ambições de uma banda de New Jersey chamada The Misfits. Tudo o que o quarteto queria era celebrar sua paixão pelos filmes de terror, através de um visual único e de letras que exaltavam macabras noites repletas de mortos-vivos e outras abominações.

Em Minnesota, o hardcore era representado por duas bandas que dariam o passo determinante em direção ao que se convencionaria chamar de rock alternativo. Com trajetórias similares e paralelas constantemente cruzando-se, Hüsker Dü e The Replacements não estavam exatamente à vontade com o rótulo que sua música rápida e gritada recebia. Enquanto Bob Mould e Grant Hart, que dividiam as composições no Hüsker Dü, abriam espaço para canções melódicas e letras introspectivas, o mesmo acontecia com Paul Westerberg no Replacements.

Por maior que fosse seu amor pelo hardcore, eles sabiam que o formato poderia se tornar limitador. O vigor do estilo, porém, precisava ser mantido. O pop energético resultante disso conquistou a veiculação em college radios (as rádios de campus universitários) e também a confiança de grandes gravadoras.

Com os álbuns “Tim”, de 85, do Replacements, e “Candy Apple Grey”, de 86, do Hüsker Dü, fazendo a transição entre o hardcore e o college rock, algumas bandas do underground passaram a aventurar-se pelo mundo das altas cifras, ao mesmo tempo em que mantinham a admiração conquistada entre o público do circuito alternativo.

… um videoclipe de protesto contra a MTV.

O R.E.M. era uma delas. Frequentemente arranhando as paradas de sucesso com seu rock melódico, sublime e sombrio, descendente direto do pós-punk, o grupo da Georgia consolidou sua reputação e conquistou marcas até então inéditas para uma banda alternativa durante o longo caminho entre os singles “Radio Free Europe”, de 81, e “The One I Love”, de 88.

"Radio Free Europe", o primeiro single do R.E.M....

... e "The One I Love", aquele que os colocou de uma vez por todas nas paradas.

Enquanto isso, os nova-iorquinos do Sonic Youth adicionavam ao catálogo da SST o experimentalismo ensurdecedor da “música de guitarra mais original desde Hendrix”, antes de atingirem as majors e as listas de melhores do ano das principais revistas musicais a partir do álbum duplo “Daydream Nation”, de 88…

… mesmo ano em que o igualmente barulhento Dinosaur Jr., de Massachusetts, lançava o single “Freak Scene”, um instantâneo hit underground que capturava a estranha assinatura sonora do grupo: solos de guitarra distorcidos, vocais preguiçosos, e passagens calmas alternando com outras extremamente altas…

… uma dinâmica utilizada também pelos seus conterrâneos do The Pixies. Formado pelos colegas de universidade Charles Thompson (vulgo Black Francis) e Joey Santiago após Francis ter retornado de um intercâmbio em Porto Rico – onde aprendeu o espanhol que utilizaria frequentemente em suas bizarras e enigmáticas letras -, com a adesão, mais tarde, do baterista David Lovering e de Kim Deal – única pessoa a ter respondido o anúncio de jornal colocado pelos dois fundadores em busca de uma baixista que gostasse de folk music e Hüsker Dü -, o Pixies teve seu primeiro EP, “Come On Pilgrim”, de 87, lançado pela gravadora independente inglesa 4AD.

E era mesmo em terras britânicas que a banda alcançava maior êxito – em seu país natal, ainda era pouco mais do que um burburinho da imprensa especializada. Isso começou a mudar ao assinarem com a major Elektra Records e lançarem “Doolittle”, em 89. Com um som mais limpo, de apelo mais pop, o álbum dava mostras de que conduziria o quarteto de Boston a um merecido sucesso comercial…

… no entanto, seria um jovem músico de uma banda de garagem de Seattle que tornaria o rock alternativo a vertente musical mais influente e rentável da década que começava, lançando mão justamente da dinâmica sonora consagrada pelos Pixies.

No próximo capítulo: A nação alternativa.

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Rock (R)Evolution – Parte 17

ROCK (R)EVOLUTION

EPISÓDIO 17:

83 A 90: PALHETAS E PICAPES

Para ler ao som de: P.I.L., Echo & The Bunnymen, Jesus & Mary Chain, U2, Smiths, Stone Roses, Happy Mondays, Inspiral Carpets, Charlatans

Se uma parte dos remanescentes do punk havia abraçado a despreocupada e dançante new wave, e outra parte descia às catacumbas góticas, existiam também aqueles que ficavam no meio do caminho entre um e outro, abrindo mão de tribos, rótulos e códigos visuais de imediata identificação pela liberdade de explorar além do universo rock, de buscar referências em um passado mais distante do que o final da década anterior, e de poder se equilibrar, política e liricamente, entre o descompromisso e o pessimismo. Conforme avançasse a década de 80, o pós-punk revelaria muito mais surpresas do que os pioneiros do rock furioso de três acordes seriam capazes de imaginar.

Um deles, movido talvez menos pela consciência de uma futura transformação musical do que pela necessidade de desconectar-se de sua imagem pública, esteve na linha de frente da “ressaca punk”. Com a dissolução dos Sex Pistols, Johnny Rotten enterrou a alcunha dos tempos de blasfêmia contra a Rainha, reassumiu seu sobrenome verdadeiro, Lydon, e cercou-se de velhos parceiros para dar prosseguimento à sua controversa carreira. Os recrutados foram Jah Wobble, baixista e amigo de adolescência com quem Lydon compartilhava o amor pelo reggae, e Keith Levene, guitarrista da primeira formação do Clash. O Public Image Ltd, ou apenas PiL, deixou a urgência punk para trás em benefício de canções vanguardistas, fundindo dub, reggae e sintetizadores. Shows tumultuados e anárquicas apresentações em programas de tevê, contudo, provaram que ainda existia um Rotten sob a pele de Lydon.

John Lydon soltando o Joãozinho Podre que existe dentro dele num programa caretão de tevê

A arrogância rock n’ roll do líder do PiL encontrava paralelo no vocalista de um jovem grupo de Liverpool. No início dos anos 80, Ian McCulloch proclamava que seu Echo & The Bunnymen era a melhor banda do mundo, e ele, o melhor cantor. Seguiria afirmando isso década afora, enquanto, como que sacramentando suas palavras, os Bunnymen galgavam, álbum após álbum, uma posição de destaque e respeito no rock britânico, com seu resgate melancólico da psicodelia sessentista.

O sucesso em seu país natal já não era novidade para o quarteto quando se iniciou a produção do quarto LP. Repleto de orquestrações e guitarras certeiras de Will Sergeant, “Ocean Rain”, de 84, foi divulgado pela gravadora como “o maior álbum já feito”. Algo que a banda, como não poderia deixar de ser, e boa parte do público assinaram embaixo.

O melhor álbum do mundo? Da melhor banda do mundo?

A música mais perfeita dos anos 80? Aí os caras podem até estar com a razão…

Enquanto isso, na vizinha Escócia, o resgate do rock apoiado nas guitarras virava assunto de família. Os irmãos Jim e William Reid davam origem ao The Jesus & Mary Chain como uma afronta pessoal ao pop eletrônico que dominava a época. Influenciados pelo protopunk do Velvet Underground, pela técnica da “parede sonora” criada pelo produtor Phil Spector e por grupos femininos dos anos 60, perceberam que podiam se diferenciar dos milhares de bandas barulhentas já existentes adicionando a todas essas referências justamente… mais barulho. Para completar a peculiar receita, uma doce cobertura de vocais suaves, quase sussurrados.

O J&MC fazia barulho por onde quer que passasse, e não apenas musicalmente falando. Seus shows geralmente terminavam em tumulto – depois de meros vinte minutos. A banda fazia questão de tocar de costas para o público, completamente bêbada ou drogada – ou ambos -, o que estimulava a plateia a reagir atirando garrafas, invadindo o palco e destruindo equipamentos. A (má?) fama dos rapazes espalhou-se, principalmente após o lançamento do aclamado primeiro álbum, “Psychocandy”, em 85, e rendeu-lhes o título de “o novo Sex Pistols” no jornal The Sun. O público cada vez maior passou a ser composto também por muita gente somente em busca de violência e confusão. Embora, nos anos seguintes, a banda acabasse limpando sua reputação, ao mesmo tempo em que espanava a sujeira sonora em favor das melodias, sua chegada ao cenário rock ficaria para sempre marcada pela definição do empresário Alan McGee: “arte como terrorismo”…

… conceito que o U2, banda criada em Dublin, Irlanda, no final dos anos 70, assimilava à sua própria maneira. Com uma bandeira branca no lugar do “terrorismo”, sua arte e a política passariam a ser indissociáveis.

Se o quarteto abraçava o rock de forma tão reverente e espiritual, isso se devia em parte ao conflito ideológico vivido por três de seus membros, o vocalista Bono Vox, o guitarrista The Edge e o baterista Larry Mullen, Jr., que decidiram abandonar a banda por causa da incompatibilidade entre sua religião, o catolicismo, e a vida roqueira. Ainda que voltassem atrás e se unissem novamente ao baixista agnóstico Adam Clayton, o estigma de “banda cristã” era a santa chaga do U2 – e o idealismo despudorado, seu diferencial, em tempos em que cinismo, alienação e pessimismo davam o tom do universo musical.

Em 85, na contramão de tal zeitgeist, dezenas de artistas uniram-se em um concerto contra a fome na Etiópia, o Live Aid, organizado pelo músico irlandês Bob Geldoff, do Boomtown Rats.

A escalação do Live Aid não era fraca, não...

Em meio a nomes como David Bowie e Paul McCartney, o “pequeno” U2 acabou sendo um dos maiores destaques, com Bono instituindo uma prática que se tornaria comum nos shows da banda ao tirar uma garota da plateia para dançar. Enquanto isso acontecia, o restante do grupo apreensivamente alongava a canção “Bad”, que, depois de 14 minutos, impossibilitou a última música programada para o set. Na realidade, a atitude de Bono foi a de um salva-vidas: ele notara a garota sendo esmagada pela multidão, e então se lançou entre as pessoas para puxá-la.

A apresentação, televisionada para 60 países, poderia ter se constituído em uma enorme chance desperdiçada. Porém, nas semanas seguintes ao Live Aid, todos os álbuns do U2 foram retornando às paradas. O mundo inteiro agora sabia quem eram aqueles quatro irlandeses otimistas.

Os convites de participação em causas humanitárias não paravam de surgir. Durante uma delas, o projeto contra apartheid “Sun City”, Bono começou uma amizade com Mick Jagger e Keith Richards. Os dois stones, profundos conhecedores de blues e country, fizeram-no dar-se conta de que sua banda sofria de uma incômoda falta de tradição musical – era fato que o quarteto não possuía qualquer intimidade com os ritmos de raiz americanos. Isso, somado ao crescente fascínio de Bono pelos aspectos conflitantes da sociedade dos EUA, absorvidos também pelos demais membros através de anos de turnê pela América, deu a direção musical de “The Joshua Tree”, o álbum que, em 87, transformaria o U2 em uma banda de estatura global.

O álbum em que o U2 se naturalizou americano

Da capa da revista “Time” às arenas, tudo o que envolvia o U2 passou a ser imenso. O novo status dos irlandeses não poderia deixar de ser registrado com toda pompa, e isso aconteceu em 88 com “Rattle and Hum”, que consistia de um documentário capturando a “The Joshua Tree Tour” e um álbum duplo com participações de Bob Dylan e B.B. King.

No entanto, o projeto gerou críticas que o apontavam como pretensioso e confuso. Aparentemente, era algo com que mesmo a banda concordava. O turbilhão em que o U2 mergulhou podia ser excitante, mas também atordoava. Eles estavam descontentes com suas performances ao vivo, com o rumo da carreira e, mais profundamente, com os conceitos, imagens e comportamentos tão automaticamente associados ao grupo. Assim, em um show em Dublin no final de 89, Bono anunciou uma saída de cena. O U2 estava voltando para casa a fim de “sonhar tudo de novo”.

O gigante adormecido que o U2 se tornou talvez pudesse ter crescido diferente, e ainda com igual capacidade de condensar política e ideologia em música e de gerar um culto em torno de si, caso tivesse nascido em Manchester, com o nome de The Smiths. Em contrapartida, o grupo do vocalista e letrista Morrissey e do guitarrista Johnny Marr, ao ser batizado com um dos mais comuns sobrenomes ingleses e permanecer independente de grandes gravadoras e empresários, mantinha-se conscientemente à parte da grandiosidade que caracterizava a banda de Bono. Não foram poucos os que se identificaram com isso. As letras confessionais, mordazes e desesperadas de Morrissey tabelavam com suas declarações contra Margaret Thatcher e o Band Aid e em apoio ao vegetarianismo. Seu visual retrô era copiado pelos jovens britânicos, que não dispensavam nem mesmo os lírios enfiados no bolso de trás dos jeans. E a guitarra sublime de Johnny Marr soava como a marcha fúnebre do pop de sintetizadores predominante em meados da década.

Ironicamente, a sensação alternativa que a banda havia se tornado – amparada por seguidores fanáticos e pela imprensa, em polvorosa após o lançamento do terceiro álbum, “The Queen is Dead”, de 86 – alcançou as graças de uma major somente às portas de sua separação. Em 87, as desavenças entre Morrissey e Marr acabaram impedindo que os Smiths se convertessem na próxima maior banda do mundo, em seguida ao U2.

Nessa época, os Smiths estavam quase dead.

Essa honra – ou incumbência – estaria reservada a outro grupo de Manchester, se sua história não tivesse sido ainda mais breve do que a de seus conterrâneos. Os Stone Roses foram celebrados como a “salvação do rock”, e seu primeiro e homônimo álbum, de 89, foi considerado um dos melhores de toda a História da música britânica…

O primeiro álbum dos Stone Roses. Dizem que eles teriam se tornado a maior banda do mundo caso tivessem feito mais alguns desse...

… que, por essa época, sofria um verdadeiro abalo sísmico, com a juventude de Manchester, e, mais tarde, de toda a Inglaterra, dançando como se não houvesse amanhã.

A cena que ficou conhecida como Madchester deve tanto ao guitar rock de Jesus & Mary Chain e Smiths quanto às picapes dos DJs de acid house e à fusão de dance music e pós-punk dos locais do New Order. Estes eram os proprietários daquele que acabou se tornando o templo do movimento, o Haçienda. Com a gravadora Factory abraçando algumas das bandas, como James e Happy Mondays, estava tudo em casa.

James, banda apadrinhada por Morrissey

Happy Mondays

Capitaneado pelos irmãos Shaun e Paul Ryder como uma gangue de hooligans sob constante efeito de ecstasy – a nova droga da moda, que fornecia a energia necessária para dançar a noite inteira -, o Happy Mondays era a tradução musical, visual e comportamental de Madchester. A banda foi esperta o bastante para captar toda a efervescência do exato momento em que Manchester deixava de ser a “capital da melancolia”, assombrada pelo fantasma de Ian Curtis e governada por Morrissey, para tornar-se ávida consumidora da música dançante feita em Ibiza e exportada para terras britânicas. O toque de mestre iria dar-se com a inclusão de Mark “Bez” Berry, amigo dos Ryder e traficante local, como membro ativo da banda na função de dançarino e tocador de maracas.

Sim, você conhece o refrão dessa música… que, por sua vez, já é chupado de “Lady Marmalade”, de 74

Nessa fusão de rock psicodélico, guitarras distorcidas e batidas dançantes, ainda destacavam-se bandas como Inspiral Carpets…

… e The Charlatans.

A cultura rave começava a nascer, vestida em roupas largas de cores ácidas e aditivada com drogas, rock e house. Em uma reprise atrasada do “Verão do Amor” de 67, a “geração ecstasy” teve até seu próprio Woodstock, o concerto de Spike Island, organizado pelos Stone Roses em 90, onde o quarteto foi adorado por 27 mil pessoas.

Parecia que a festa nunca iria terminar. Exatamente como a disputa judicial entre os Roses e sua gravadora, que atrasava mais e mais o lançamento do segundo álbum e lentamente afastava-os dos holofotes. Sob a mira da justiça estavam também os clubs – o Haçienda foi o local da primeira morte devido ao uso de ecstasy registrada no Reino Unido e de confusões diversas, como tiroteios e tráfico de entorpecentes.

Outro golpe fatal, tanto para a cena Madchester quanto para a Factory – também dona do Haçienda –, foi a produção do quarto álbum do Happy Mondays, “Yes Please!”, de 92. A fim de afastar os Ryder da heroína, a gravadora enviou a banda e suas famílias para um estúdio em Barbados… onde então os irmãos acabaram se viciando em crack. Depois de ficarem sem dinheiro para a droga, eles venderam os móveis do estúdio, e, de volta à Inglaterra, ainda tomaram as fitas master do álbum como “reféns”, ameaçando destruí-las caso a Factory não lhes conseguisse mais verba. Tudo isso para que, após pago o resgate, a gravadora descobrisse que não havia vocais nas gravações, já que Shaun fora incapaz de escrever qualquer letra durante a temporada em Barbados. Não bastassem todos esses percalços, as vendas de “Yes Please!” foram decepcionantes, e a Factory se viu obrigada a abrir falência.

O álbum que f***u com a Factory

Mesmo com as luzes estroboscópicas apagando-se em Manchester, a cultura rave continuaria se consolidando na década que se iniciava, e, de tempos em tempos, colocaria suas picapes a serviço das guitarras roqueiras. Êxtase total.

No próximo capítulo: Sujeira americana.

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Rock (R)Evolution – Parte 16

ROCK (R)EVOLUTION

EPISÓDIO 16:

80 A 83: SINTETIZANDO A ESCURIDÃO

Para ler ao som de: Devo, B-52’s, Gang of Four, Pretenders, Cars, Police, Joy Division, Bauhaus, Siouxsie & The Banshees, Sisters of Mercy, Cure, New Order

Final dos anos 70. O movimento punk havia sido tão eficazmente niilista que terminara por destruir a si próprio. Entre a explosão do gênero e a debandada da tribo para outras tendências que começavam a aflorar – além das baixas, como Sid Vicious – foram cerca de três anos, tão intensos quanto aquelas canções de três minutos.

Uma das correntes – em parte simultânea ao punk, em parte derivada dele – mais bem-sucedidas comercialmente na década que se anunciava era a new wave. Opção estética de artistas que, embora ligados ao punk, buscavam maior complexidade e experimentação sonora, a new wave abarcava habitués do CBGB como Talking Heads e Blondie, que jamais haviam escondido sua fascinação por funk, disco e sintetizadores. Juntavam-se a eles bandas veteranas do underground, como Devo e B-52’s, com seu rock básico e ao mesmo tempo inovador, dançante e vanguardista, eletrônico e visceral.

Se o Devo caprichava no conceito por trás de seu inusitado visual, o B-52’s apostava em um colorido cruzamento entre pop, surf e dance music, apoiado no duelo entre os vocais de Fred Schneider, Cindy Wilson e Kate Pierson.

O termo new wave passou a ser usado para categorizar um sem-número de artistas pop que surgiam – por vezes bastante diferentes entre si -, desde o funk-punk politizado do Gang of Four…

… até o rock n’ roll com ecos setentistas do The Pretenders…

… passando pela versão mais comercial do Television, o The Cars…

… e pelo “reggae de branco” do The Police.

O Police assumia a mais econômica formação roqueira, o trio com guitarra – cortesia do experiente Andy Summers, ex-Eric Burdon & The Animals -, baixo – a cargo de Sting, também vocalista – e bateria – por Stewart Copeland. A técnica musical e o leque de influências do grupo é que passavam longe da simplicidade. Emergentes da onda punk britânica, tal como o Clash, eles dominavam com fluência o idioma do ritmo jamaicano e do jazz, e logo cedo começaram a dialogar com as paradas de sucesso e audiências cada vez maiores.

Se o vigor do punk havia se convertido no entusiasmo da new wave, sua raiva de tudo transformava-se em melancolia. A bipolaridade do movimento revelava sua face escura através do gótico.

A falta de perspectiva da juventude inglesa não mudara muito desde que os Sex Pistols haviam entoado seu grito de “no future” em 77. Talvez tivesse mesmo se agravado. Se bater de frente com o sistema não rendera tantos frutos quanto se esperava, por que não desistir de tudo e apenas esperar pelo pior? Por que não flertar com o “outro lado” e ver o que ele tinha para oferecer? Se fosse com romantismo e poesia, tanto melhor.

Morbidamente seduzidos pelo estilo de arte dos séculos XIII e XIV, resgatado em tempos mais recentes pelo romantismo, os góticos se rendiam a temas lúgubres, maquiagem carregada combinando com as vestes negras, e uma música calcada em atmosferas etéreas e sombrias, alcançadas por meio de uma batida repetitiva, vocais graves, baixo marcante e efeitos eletrônicos.

De vez em quando os góticos saíam dos seus quartos escuros para socializar...

Com exceção da maquiagem, tudo isso era parte do obscuro mundo de um quarteto da região de Manchester chamado Joy Division, formado após um show dos Sex Pistols que insuflara os ânimos roqueiros na cidade. O nome, com referência aos campos de concentração da Segunda Guerra, já dava uma mostra do clima que norteava o som da banda, com o vocalista Ian Curtis derramando sua poesia sobre isolamento e depressão pelo leito encorpado fornecido pelo baixo de Peter Hook. A combinação atraiu o apresentador de tevê Tony Wilson, que escalou o Joy Division para se apresentar em seu programa e na Factory, festa que comandava em um club, e cujo nome batizaria sua futura gravadora. Em 79, a Factory lançava o primeiro álbum da banda, “Unknown Pleasures”, no qual o produtor Martin Hannett usou uma afinação mais baixa, praticamente criando a marca registrada sonora do quarteto, e de todo um estilo que começava a surgir na Inglaterra.

A capa de "Unknown Pleasures", primeiro álbum do Joy Division

A despeito da visibilidade alcançada pelo grupo, Curtis vivia angustiado e em estado de alerta devido à sua condição de epilético, com ataques inclusive durante os shows – ainda que o público acreditasse tratar-se de sua performance de palco. Em maio de 80, dois dias antes de o Joy Division embarcar em sua primeira turnê americana, Curtis foi visitar sua esposa Deborah, que entrara com um processo de divórcio. Esperava reatar o relacionamento. Sozinho na casa, após a recusa dela, ele se suicidou, enforcando-se na cozinha. Dois meses depois, o segundo álbum, “Closer”, era lançado, reforçando ainda mais a lenda de Curtis.

Curtis, morto aos 23 anos

A capa de "Closer", que acabou sendo lançado como uma obra póstuma de Curtis - e também do Joy Division

Curtis foi o arquétipo perfeito para a legião gótica que vinha tomando as ruas britânicas, e o som cinzento do Joy Division, a matriz ideal para o goth rock.

Considerado a pedra fundamental do subgênero, o primeiro single da banda Bauhaus, “Bela Lugosi’s Dead”, de 79, trazia referências ao expressionismo alemão e ao célebre ator que encarnara Drácula nas telas em 1931…

… e encontrava ecos soturnos na música do Siouxsie & The Banshees, que realizara a conversão do punk para o gótico…

… e do The Sisters of Mercy, que consagrou sua bateria eletrônica, Doktor Avalanche, como um verdadeiro membro da banda.

Um dos maiores fenômenos comerciais do movimento gótico, porém, foi o The Cure, outra banda derivada da explosão punk, e que manteve essa linha até 79, quando uma turnê abrindo os shows do Siouxsie & The Banshees mudou tudo. Profundamente tocado pela experiência de substituir o guitarrista dos Banshees, John McKay, durante a turnê, o vocalista Robert Smith decidiu levar o Cure para uma linha musical similar, sem perder de vista o aproach pop que sempre buscara. Nos anos seguintes, a banda mergulharia mais e mais na sonoridade gótica, enveredando, vez por outra, pela psicodelia e pelo pop “para cima”, ao mesmo tempo em que imprimia a figura de seu líder no consciente coletivo da década.

Durante tudo isso, os principais responsáveis pela cena goth rock reinventavam-se enquanto parte dela. Respeitando um pacto firmado antes da morte de Curtis, que estabelecia que a saída de qualquer dos membros levaria os remanescentes a alterar o nome da banda, o trio que restara do Joy Division passou a se apresentar como New Order. No início ainda bastante presos aos humores soturnos de sua primeira encarnação, foi somente em 81 – ironicamente, em um tour pela vida noturna de Nova York – que eles encontraram a luz, em vários sentidos. Voltaram para casa fascinados pela música eletrônica dançante que haviam descoberto, e logo passaram a experimentar composições carregadas de sintetizadores e bateria eletrônica. Coroando a transição, inauguraram, em Manchester, seu próprio nightclub – em sociedade com a gravadora Factory -, The Haçienda.

The Haçienda, o templo do hedonismo dance dos anos 80 em diante

O investimento no Haçienda foi bancado, em parte, pelas vendas do single que colocou definitivamente o reinventado New Order no mapa musical da época. Lançado em 83, “Blue Monday” trazia inovação desde a capa – que não continha o nome da banda ou mesmo do single, algo que se repetiria em lançamentos posteriores, dando ao New Order uma aura de “anti-astros” -, e estabelecia um parâmetro para todo tipo de música eletrônica feita depois dele.

É alguma nova invenção dos jovens Bill Gates e Steve Jobs? Não, é uma invenção do New Order: "Blue Monday"

Num tempo em que se tornava praxe classificar como new wave todo e qualquer artista de música pop com largo uso de sintetizadores, “Blue Monday” ajudou a separar o joio do trigo – ou o descartável daquilo que realmente importava -, além de unir punks, góticos, new wavers e clubbers. Na mesma pista de dança.

No próximo capítulo: O império das guitarras.

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Rock (R)Evolution – Parte 15

ROCK (R)EVOLUTION

EPISÓDIO 15:

O PESO DO SUCESSO

Para ler ao som de: Ozzy Osbourne, W.A.S.P., Mötley Crüe, Poison, Twisted Sister, Bon Jovi, Whitesnake, Guns N’ Roses, Beastie Boys, Slayer, Metallica, Megadeth, Anthrax, Faith No More

Em 1980, poucos poderiam prever que a morte prematura do carismático vocalista de uma banda em ascensão resultaria não em perda de popularidade e de rumo, e sim em um sucesso inédito até então, tanto para os membros remanescentes quanto para o redivivo heavy metal.

Para preencher a vaga deixada por Bon Scott, o AC/DC recrutou alguém que ele admirava. Brian Johnson, ex-vocalista de uma banda inglesa chamada Geordie – e tão rústico quanto Scott -, juntou-se aos australianos para completar o álbum que começara a ser criado antes de a tragédia ocorrer. Três meses após seu lançamento, “Back in Black” se tornava disco de platina, e permaneceria na parada da Billboard por um longo tempo.

No mesmo ano, Ozzy Osbourne colocava seu trem louco de volta nos trilhos, sob o comando de Randy Rhoads. O êxito comercial de “Blizzard of Ozz”, primeiro álbum solo do ex-frontman do Black Sabbath, mostrava que o primoroso guitarrista era fundamental na recuperação de Ozzy.

Seriam dois anos de uma fértil parceria, interrompida pela morte de Rhoads em um estúpido acidente de avião. Porém, assim como aconteceu com o AC/DC, o sucesso só aumentou, mesmo com a perda de alguém tão importante para a banda. Ozzy agora sabia como converter seu irrefreável comportamento, alimentado pela mesma combinação álcool-e-drogas da época do Sabbath, em combustível para sua lenda pessoal. Algumas prisões e episódios bizarros, como quando arrancou a cabeça de um morcego a dentadas em pleno palco, renderam-lhe a alcunha de “Príncipe das Trevas”.

"Ei, Ozzy, tem um resto de comida preso nos seus dentes..."

Se, por um lado, havia o príncipe, por outro havia Satã em pessoa. O Iron Maiden o estampava na capa de seu álbum “The Number of the Beast”, de 82, e transformava os tais algarismos, entoados pelo novo vocalista Bruce Dickinson, em um dos refrões mais hipnotizantes do ano. Enquanto o conceito do álbum catapultava as vendas, também o condenava – junto com LPs de Ozzy – a grandes queimas organizadas por grupos religiosos e conservadores.

O heavy metal já era o novo alvo das autoridades e terror das famílias cristãs quando, em 84, foi definitivamente para o banco dos réus.

Ozzy foi processado pela família de John McCollum, um garoto que cometera suicídio ao som de sua “Suicide Solution”, por tê-lo encorajado a tirar a própria vida, inclusive por meio de mensagens subliminares. Os autores, no entanto, alegavam que o tema da canção era o alcoolismo de Bon Scott. Após análise, a existência de tais mensagens foi refutada, e o cantor venceu o processo.

No ano posterior, a mira se voltou para a banda californiana W.A.S.P. Com seu visual agressivo, letras e aparatos de palco explorando perversões sexuais, eles viraram prato cheio para o Parents Music Resource Center, um comitê que tentava influenciar o Senado a censurar músicas e capas de álbuns consideradas prejudiciais aos jovens. Os mesmos que acusavam o W.A.S.P. de incitar a violência passaram a ameaçar a banda de morte – por duas vezes atiraram no vocalista Blackie Lawless, sem que o atingissem.

O PMRC lutou para censurar a capa com o cinto de castidade de Blackie Lawless

Ainda que a bordo de muita controvérsia, era inegável que o metal vivia uma era de ouro. A década ainda veria a explosão comercial de Def Leppard e Van Halen, auxiliada por um fator que mudaria para sempre a equação álbuns-rádios-shows: a estreia da MTV.

Imagem de uma das primeiras - e mais clássicas - vinhetas da Music Television

Com uma emissora especializada na veiculação de vídeos musicais, a imagem, de importância inegável para o rock desde os tempos de Elvis, jamais havia sido tão indispensável. Isso favoreceu a proliferação de um subgênero onde aparência era 50% da mistura. Baseada principalmente na Sunset Strip, em Los Angeles, e um reflexo da combinação exata de luxo e decadência que emanava da área, a cena glam metal tomou de assalto o mercado com cabeleiras pufantes, maquiagem, figurino colorido e melodias com forte apelo pop.

Uma das primeiras bandas a despertar atenção foi o Mötley Crüe, tanto pelo visual e pela música quanto pelo comportamento de seus garotos-problema. As festas intermináveis, com direito a exércitos de groupies e substâncias ilícitas, faziam parte do imaginário que cercava o Crüe, embora boa parte disso fosse sua mais pura realidade.

Vindos de vários pontos dos EUA, grupos como Ratt…

… e Poison…

… encontraram em Sunset Strip um cruzamento entre parque de diversões e mina de ouro. O glam metal ainda revelou os patinhos feios do Twisted Sister…

… e o Bon Jovi. Capitaneada pelo fabricante de hits e galã Jon Bon Jovi, a banda emplacou seu álbum “Slippery When Wet”, de 86, como o mais vendido do ano seguinte.

Mesmo veteranos como Ozzy e Whitesnake – formado por ex-membros do Deep Purple – renderam-se à onda, fosse apelando para o laquê e as roupas cintilantes, fosse lapidando refrões grudentos e baladas poderosas.

Ozzy foi ao camarim do Mötley Crüe para perguntar que tonalidade de blush era a tendência de 84

Em meados da década, a bela família glam daria à luz seu bebê de Rosemary. Com genes de duas bandas californianas, L.A. Guns e Hollywood Rose, o Guns N’ Roses usava a aspereza punk para arranhar a polidez que dominava o estilo. Seu álbum de estreia, “Appetite for Destruction”, de 87, combinava os excessos da fama típicos do Mötley Crüe com a atitude niilista dos Sex Pistols, e iria alçá-los ao status de estrelas máximas do rock pesado da época.

Esta primeira versão da capa de "Appetite" foi imediatamente censurada e substituída...

... por esta, que Axl Rose gostou tanto que tatuou no braço.

Ser uma das principais influências do Guns e do cenário glam metal em geral não poupou o Aerosmith do ostracismo. Depois de falências, problemas com drogas, idas e voltas de membros e baixas vendagens, era um milagre que ainda estivessem vivos e em atividade. Manter a fama de outrora seria pedir demais. Dessa vez, contudo, não era o rock n’ roll que iria salvar algumas almas, e sim o hip hop.

O barbudão Rick Rubin com seu sócio Russell Simmons e o Run-D.M.C.: considerado nas quebradas

Quando um músico egresso de bandas punk chamado Rick Rubin colocou suas mãos de produtor sobre a nata do rap nova-iorquino através de sua gravadora Def Jam, ele não deixou para trás as raízes roqueiras. O trio Run-D.M.C. foi o tubo de ensaio perfeito para que ele experimentasse a fórmula de MCs rimando sobre bases de rock pesado. Em 86, Rubin achou que um cover de “Walk This Way”, canção do Aerosmith de 1975, cairia bem tanto entre os fãs de hip hop quanto de rock. Mas não bastava samplear trechos da música. A energia de Steven Tyler e Joe Perry tinha que estar presente, viva. Assim, gravando a parceria e o videoclipe com o Run-D.M.C., os “Toxic Twins” acabaram por não apenas revitalizar a carreira de sua banda, como também contribuíram para criar as bases – feitas de guitarras altas e batidas cheias de groove – de uma nova e importante fusão…

… abraçada igualmente pelos Beastie Boys. Trajetória parecida com a de Rubin – que os produzia -, os rapazes do Brooklyn eram uma banda punk antes de começarem a gravar como um trio de hip hop. De 86, o primeiro álbum, “Licensed to Ill”, registrava suas rimas sobre cerveja, sacanagem e direito a festa com o acompanhamento inusitado – e de encaixe perfeito – de samples de Led Zeppelin e Black Sabbath, além de guitarras inéditas de Kerry King, membro do Slayer…

"Licensed to Ill" foi o primeiro álbum de hip hop a chegar ao primeiro lugar da Billboard

Os Beastie Boys tirando um sarro das bandas de glam metal

… quarteto californiano representante de uma corrente diametralmente oposta ao glam metal: o thrash. Caracterizado por um som extremamente veloz herdado do punk e da NWOBHM, guitarras graves e temática sombria e realista, o thrash metal era a válvula de escape ideal para os jovens da Bay Area, em San Francisco, que se sentiam deslocados no hedonismo colorido de Mötley Crüe e cia.

Alguns desses outsiders haviam se reunido em 81 em uma banda chamada Metallica, liderada pelo guitarrista e vocalista James Hetfield e pelo baterista Lars Ulrich. Logo no início, a dupla dispensou o guitarrista Dave Mustaine por causa do seu temperamento agressivo e envolvimento com drogas e álcool. Seguiram em frente com Kirk Hammett em seu lugar.

Quem ficou para trás não iria deixar barato. Pouco depois da expulsão, Mustaine formou uma nova banda, Megadeth, movido especialmente pelo desejo de vingança contra o Metallica. Como em uma letra de uma canção thrash metal, Mustaine queria o sangue dos ex-companheiros. E, para atingir seu intento, iria tocar mais pesado e mais rápido do que os inimigos.

Pra mostrar que muitos dos trechos de guitarra do primeiro álbum do Metallica eram de sua autoria, Mustaine compôs “Mechanix”, que tem o mesmo riff usado em “The Four Horsemen”, de sua ex-banda

Ainda que não devido à disputa com o Megadeth, sangue foi derramado no caminho do Metallica em 86, na Suécia, quando um acidente com o ônibus da banda provocou a morte do baixista Cliff Burton. Embora o futuro do grupo fosse incerto, a superação da tragédia com Burton iria levá-los ao início de sua fase de maior popularidade…

Cliff Burton

… enquanto o subgênero veloz e vestido de negro consolidava-se através de nomes como Exodus e Anthrax…

Exodus

… e ramificava-se em vertentes ainda mais extremas, como o death metal. Foi essa a linha adotada por alguns garotos do colegial para a banda de garagem na qual tocavam depois das aulas. O Mr. Bungle começou a gravar seu metal vanguardista em fitas demo, e uma delas foi parar nas mãos de Jim Martin, guitarrista de uma promissora banda underground chamada Faith No More, que havia acabado de demitir seu vocalista, Chuck Mosley, alegando falta de profissionalismo. Na fita do Bungle, encontraram uma voz que se encaixava na proposta sonora do FNM, bem como certa genialidade juvenil. Mike Patton foi convidado para assumir os vocais do grupo. Aceitou – sem abrir mão do seu próprio -, e, além de escrever todas as letras do novo álbum em duas semanas, reforçou as influências de funk e hip hop que já faziam parte do som. Em 89, chegava às lojas o primeiro álbum do Faith No More tendo Patton como frontman: “The Real Thing”, um êxito mundial, que mostrou ao público as possibilidades do chamado “funk metal”.

Mike Patton aproveita o videoclipe pra fazer propaganda da sua outra banda

Ao lado do Red Hot Chili Peppers, outra banda californiana que adicionava tempero funk ao seu rock pesado, o FNM apontava o caminho que o heavy metal iria seguir nos anos futuros…

No próximo capítulo: Dançando sobre as sepulturas.

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Rock (R)Evolution – Parte 14

ROCK (R)EVOLUTION

PARTE 14:

1977 A 1980: METAL SEM FERRUGEM

Para ler ao som de: Motörhead, Judas Priest, Iron Maiden, Def Leppard, Saxon, Diamond Head, Scorpions, AC/DC, Van Halen

Se, na Inglaterra, o punk havia surgido para subverter o status quo musical, no caso do heavy metal não era preciso fazer muita força. Alguns dos fundadores do gênero estavam sendo abatidos por auto-indulgência e pelos seus próprios egos. A energia dos primeiros anos do Led Zeppelin era sacrificada em prol do gigantismo. O Black Sabbath se afastava de seu som pesado e cru na mesma medida em que se deixava afundar em álcool e drogas.

Os jovens fãs do estilo, porém, ainda não haviam desistido dele.

Correndo paralelamente à “nova onda” que o punk representava, embora, ao contrário desta, à margem da atenção midiática que sua inerente controvérsia atraía, a New Wave of British Heavy Metal, ou NWOBHM, lançava mão de algumas características do gênero comandado pelos Sex Pistols, como a distribuição de singles e álbuns de forma independente. Musicalmente, emprestava os tempos acelerados, em detrimento da levada blues da origem do estilo. À velocidade punk somaram-se a técnica – instrumental e vocal – apurada e a iconografia medieval, tanto no visual quanto nas letras de temática fantasiosa ou macabra.

O maior símbolo desse cruzamento entre o heavy metal revigorado e o punk era liderado por um ex-integrante do Hawkwind, banda de som psicodélico e pesado do início da década, chamado Lemmy Kilmister. Expulso de seu grupo anterior devido a uma prisão por porte de cocaína que os levou a cancelar alguns shows, ele passou a se concentrar em uma nova formação, que pudesse, basicamente, tocar rápido, alto e de maneira insana. Com o nome tirado do título da última canção que Kilmister escrevera para o Hawkwind, nascia o Motörhead.

Conquanto estivesse em atividade desde o final dos anos 60, foi somente com a gradual diluição da influência do blues em sua sonoridade e a entrada do vocalista Rob Halford que o Judas Priest mergulhou no heavy metal, tornando-se precursor da NWOBHM…

… seguido pelo Iron Maiden. Liderando a banda com o profissionalismo de um veterano do ramo, o baixista Steve Harris rapidamente colocou o Maiden em uma posição de destaque dentro da cena, amparado pelo virtuosismo dos membros – embora entre eles estivesse o instável vocalista Paul Di’Anno – e por uma memorável mascote.

O arroz-de-festa Eddie na capa do primeiro álbum do Maiden

Com os pés firmes no cenário britânico, o Def Leppard mirava o mercado dos EUA. Em pouco tempo, as rádios comerciais da Europa e da América iriam se curvar à capacidade nata da banda de criar melodias bem mais pop do que as de seus pares.

Reforçado por grupos como Saxon…

… e Diamond Head…

“Helpless” foi imortalizada pelo Metallica nos “Garage Days” da vida

… o movimento inglês de renascimento do heavy metal ecoava além da ilha. Na Alemanha, por exemplo, o Scorpions adotava o idioma de Shakespeare para gritar ao resto do mundo…

… enquanto, na Austrália, um rapaz em uniforme escolar deixava sua guitarra Gibson falar igualmente com punks, roqueiros de pub e headbangers (como ficavam conhecidos os “batedores de cabeça” fãs de heavy metal). O AC/DC fazia jus a seu nome. Seu rock simples e descompromissado eletrizava as paradas. As performances ao vivo não ficavam atrás, com o guitarrista Angus Young realizando o “Duck Walk” aprendido com Chuck Berry ao mesmo tempo em que disparava riffs pegajosos e cortantes.

Angus engatando a primeira marcha da sua versão do "Duck Walk"

A banda sabia que era um longo caminho até o topo, mas a “auto-estrada para o inferno” os deixava cada vez mais perto de lá – ainda que reservasse uma desagradável surpresa…

Em termos de surpresa, a que tomou de assalto o líder do Kiss, Gene Simmons, em 77 tinha um nome, ou melhor, um sobrenome: Van Halen. Fundada por Eddie e Alex Van Halen, irmãos de origem holandesa – guitarrista e baterista, respectivamente -, a banda ganhou reputação tocando no circuito de clubs californianos. Simmons resolveu apostar nos rapazes, e produziu uma de suas primeiras demo tapes. Embora a Casablanca, gravadora que trabalhava com o Kiss, acabasse não aceitando o grupo, eles chamaram a atenção da Warner, com a qual fecharam contrato. O visual colorido e a performance vigorosa e irreverente do vocalista David Lee Roth exalavam Califórnia onde quer que se apresentassem. E a surpreendente e inovadora técnica de Eddie fariam dele um herói da guitarra…

Eddie dando um tostão da sua técnica

… algo que também estava prestes a ocorrer com o talentoso guitarrista de uma banda de sucesso moderado chamada Quiet Riot.

Com seus colegas, Randy Rhoads, um entusiasta da música clássica, tentava converter o sucesso das apresentações ao vivo por Los Angeles em um contrato para gravar. Quando isso enfim aconteceu, seus álbuns acabaram sendo lançados somente no Japão.

Em 79, a fama do outro lado do mundo talvez ainda fosse mais do que possuía um dos deuses do metal. Ozzy Osbourne amargava o esquecimento provocado pela sua demissão do Black Sabbath por estar constantemente mais bêbado e drogado do que seus companheiros. Ele esperava reunir uma nova banda, o que podia ser apenas outra tentativa frustrada de retomar o sucesso. Faltava um guitarrista à altura de Tony Iommi. Ao conhecer Rhoads, contudo, Osbourne sentiu que sua procura terminava…

Ozzy e Rhoads: "Esse é o início de uma bela amizade".

1980. A promessa de uma virada na carreira – ou da continuidade dela – estava fora do alcance de alguns astros, como John Bonham. O baterista do Led Zeppelin morria por asfixia após uma intensa bebedeira, encerrando a trajetória de sua banda.

John Bonham

Bon Scott

Meses antes, a mesma causa mortis era atribuída ao vocalista do AC/DC, Bon Scott. No caso dos australianos, no entanto, a tragédia não seria o fim do caminho. Seria apenas o último percalço antes do topo.

No próximo capítulo: Satã e laquê.

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Rock (R)Evolution – Parte 13

ROCK (R)EVOLUTION

EPISÓDIO 13:

LONDRES ESTÁ ARDENDO

Para ler ao som de: Sex Pistols, Clash, Siouxsie & The Banshees, Generation X, Damned, Elvis Costello, Jam, Buzzcocks

Após a temporada pouco rentável com os New York Dolls, Malcolm McLaren retornava a uma Inglaterra assolada por desemprego, greves em massa e ausência de perspectiva. Ele, ao menos, tinha um emprego, à frente da loja que abrira com sua namorada fashionista, Vivienne Westwood. A SEX, a partir de então, passou a vender roupas inspiradas na cultura sadomasoquista e no visual dos roqueiros underground de Nova York, principalmente Richard Hell. McLaren, que já empresariava o The Strand, banda formada por alguns frequentadores da loja, viu no grupo a oportunidade de vender mais do que somente o figurino punk. Ele poderia vender a música, a atitude, o pacote punk completo!

McLaren em frente ao seu negócio

Para isso, promoveu várias reformulações no Strand, como colocar um balconista da SEX, Glen Matlock, na função de baixista, e, obviamente, vestir os rapazes com as roupas de sua loja. Mesmo assim, ainda faltava um vocalista, alguém que não apenas cantasse – o que, na realidade, era um mero detalhe -, mas também parecesse o frontman de uma banda com o nada sutil nome de Sex Pistols, como ela seria rebatizada. A resposta aos seus anseios veio malcriada, insolente, na forma de um rapaz com cabelos verdes arrepiados, dentes arruinados, vestindo uma camiseta rasgada do Pink Floyd em que ele mesmo rabiscara as palavras “I hate”. Em suma, podre.

Depois de provar que era capaz de ficar atrás do microfone sem perder um décimo da postura provocadora, John Lydon – agora Johnny Rotten – juntou-se aos novos colegas.

Nesta foto, Rotten já tinha assumido o cabelo vermelho, com o qual se tornaria mais conhecido

Não demorou para arrebanharem um fiel contingente de seguidores, que adotavam o visual e o comportamento niilista da banda, além de se inspirarem nela para montar as suas próprias, como Siouxsie and the Banshees e Generation X.

Do Generation X saíram alguns “farofas”, como Billy Idol e Tony James, do Sigue Sigue Sputnik

O impacto dos Pistols atingiu mesmo quem já possuía certa experiência no ramo musical. Ao ter o show de sua banda, The 101ers, aberto por eles, o vocalista Joe Strummer imediatamente percebeu que seu repertório, mais clássico, voltado para o circuito de pubs, era coisa do passado. O punk rock era o futuro. Especialmente para quem não tinha nenhum.

Joe Strummer

Strummer vinha de uma formação completamente distinta de Johnny Rotten e cia. Filho de um diplomata, ele havia nascido na Turquia e vivido no Egito, no México e na Alemanha Ocidental antes dos nove anos, o que o ajudara a desenvolver um gosto musical extremamente variado. Pouco depois de ficar impressionado com os Pistols, ele foi procurado por Mick Jones e Paul Simonon, que buscavam um vocalista para a banda que estavam iniciando, The Clash. A proposta dos dois vinha de encontro ao que Strummer almejava: um som mais energético, cru.

“White Riot” fala sobre um conflito entre a polícia e jovens de um bairro negro de Londres

Além disso, encontrou nos rapazes almas gêmeas musicais, pois eles haviam absorvido a música que pulsava nos subúrbios de Londres, povoados por imigrantes jamaicanos: o reggae.

Se os punks representavam um levante contra a opressão, era natural que se identificassem com um ritmo vindo justamente de uma ex-colônia explorada pela Grã-Bretanha. Não só o reggae se entranhava nas composições do Clash, como também reinava absoluto nas festas punk inglesas, pois ainda nenhuma das bandas do movimento tinha lançado sequer um single.

Isso mudou em 1976, quando os excêntricos do The Damned lançaram “New Rose”. Com forte influência do rock teatral de Alice Cooper e algo tão bombástico como o primeiro registro fonográfico do punk britânico, o Damned logo atraiu atenção. Mais tarde, seriam também os primeiros da cena a lançar um álbum e excursionar pelos EUA.

“New Rose” seria regravada até pelo Guns n’ Roses

Na mesma época, os Pistols assinavam um contrato com a EMI, e, em novembro, lançavam o single “Anarchy in the U.K.”.

Rotten berrava que era um anticristo, anarquista, e queria destruir. Como se isso não ferisse suficientemente os pudores da sociedade inglesa, o quarteto ganhou mais uma oportunidade. No lugar da poesia político-caótica, entrava a prosa punk. No lugar das lojas de discos, a televisão.

Escalados para o programa do apresentador Bill Grundy, os Pistols acabaram soltando diversos palavrões – os primeiros da História da tevê inglesa – durante a transmissão ao vivo. No dia seguinte, os principais jornais estamparam o incidente em suas primeiras páginas, elevando a banda à condição de acontecimento (leia-se “ameaça”) nacional.

A estréia dos palavrões na tevê inglesa…

... e o dia seguinte.

Aproveitando a exposição, os Pistols saíram em turnê, ao lado de Damned, Clash e Heartbreakers. Porém, de cerca de vinte shows programados, poucos chegaram a se realizar. A tumultuada Anarchy Tour sofreu o boicote e a perseguição moral de religiosos, políticos e até de funcionários da EMI, que, não aguentando a pressão, acabou por rescindir o contrato com o grupo em fevereiro de 77.

No mês seguinte, McLaren firmou acordo com o selo A&M. A escolha do local para a assinatura do contrato – em frente ao Palácio de Buckingham – já antecipava a próxima injúria: o single “God Save the Queen”, uma releitura irônica e furiosa do hino do Reino Unido.

Os Pistols assinam o contrato bem debaixo dos narizes reais

Seis dias depois, a A&M também dispensava os Pistols. Foi apenas após se juntarem a um selo independente que eles conseguiram liberdade artística para a gravação do álbum de estréia, “Never Mind the Bollocks, Here’s the Sex Pistols”.

A troca de guarda não acontecia só no respeitável palácio. Em fevereiro, Matlock era demitido, para que em seu lugar entrasse alguém mais com a “cara” da banda. Sid Vicious, ex-baterista do Siouxsie and the Banshees, não possuía qualquer habilidade como baixista. Por outro lado, era a epítome de tudo que um punk deveria ser.

Distante da imagem consolidada dos adeptos do movimento, o The Jam revisitava a onda mod dos anos 60. Com seus ternos bem cortados, mais dispostos a celebrar uma Inglaterra idealizada do que destruir a existente, o trio explorava o som do Who e da Motown com mais perícia em seus instrumentos do que a maioria das bandas da cena…

… situação parecida com a dos Buzzcocks. Vindos de Manchester, eles adicionavam o apuro pop aos três acordes distorcidos do gênero, criando melodias perfeitas.

Enquanto isso, a Inglaterra era outra vez chacoalhada pelos Pistols. Ao passo que “God Save the Queen” se tornava a canção mais censurada de todos os tempos na Grã-Bretanha – e, também graças a isso, vendia feito água –, a banda se preparava para comemorar o Jubileu da Rainha à sua maneira. Dois dias antes do desfile oficial pelo Rio Tâmisa, os Pistols e seu séquito realizaram o mesmo percurso, tendo seu estrondoso single como trilha sonora. A “homenagem” terminou em prisões e mais notoriedade.

A ultrajante capa do ultrajante single: presentão pra Rainha

A repercussão do inocente passeio de barco

E, embora a fama do quarteto se espalhasse também pela América, em sua turnê pelos EUA em 1978 eles se viram escalados por McLaren para shows principalmente no sul do país, em bares de caipiras, onde eram vigiados pelos xerifes locais e hostilizados pelas plateias. Era tudo o que o empresário queria, e, na maior parte do tempo, Vicious convenientemente agia como catalisador da confusão.

O hospício itinerante foi saindo de controle. Vicious, cada vez mais afundado na heroína, mal conseguia tocar. McLaren e Rotten discordavam em tudo. O desgaste levou o vocalista a abandonar o palco durante o último show da turnê. Mais tarde, era anunciado o fim da banda.

Se os EUA significaram a ruína para os Pistols, com o Clash era bem diferente. Gozando de enorme popularidade por lá, eles estenderam sua temporada na Broadway – de sete para dezessete shows -, e chegavam ao terceiro álbum, “London Calling”, de 79, tanto artística quanto politicamente respeitados. Gravavam quase sempre na Jamaica, onde reforçavam suas influências de reggae e ska, mas, com o novo álbum, a abrangência sonora passou a englobar também rockabilly, jazz e funk.

O primeiro álbum duplo da História do punk - e a banda exigiu que fosse vendido pelo preço de um álbum simples

Requintado sem perder a crueza, o Clash representava o passo seguinte para o movimento punk, tornando-se uma banda de sucesso planetário sem trair seu passado. No álbum subsequente, “Sandinista!”, de 80, seriam influenciados, da mesma forma que acontecera com o punk, por outro gênero que florescia em Nova York, o hip hop. Com maestria e inventividade, o círculo se fechava.

No caso de Sid Vicious, estava mais para espiral. Descendente. Vivendo em Nova York com sua namorada Nancy Spungen, ex-groupie e ex-stripper, ele até tentou levar adiante uma carreira solo, porém o relacionamento conturbado, tanto entre ele e Nancy quanto entre ambos e a heroína, degenerou para ostracismo artístico e dependência mútua.

Sid e Nancy Spungen, a primeira encarnação de Courtney Love

Em outubro de 78, Nancy foi encontrada morta a facadas no quarto de hotel onde residiam. Vicious foi preso, acusado de assassinato.

Cerca de quatro meses se passaram, e ele foi libertado. Horas depois, morria devido a uma overdose, aos 21 anos. Apesar de diversos pontos nebulosos sobre o caso, este foi encerrado.

O músico que melhor (ou pior) simbolizava o modo de vida punk teve uma existência tão curta quanto a primeira encarnação inglesa do movimento. As chamas que esquentaram Londres consumiam-se rapidamente, como, afinal, tinha que ser. O incêndio já cumprira sua tarefa.

No próximo capítulo: Metaaaaal!!!

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Rock (R)Evolution – Parte 12

ROCK (R)EVOLUTION

EPISÓDIO 12:

1975 a 1977: DesCONCERTOS PARA A JUVENTUDE

Para ler ao som de: Ramones, Dead Boys, Dictators, Blondie, Patti Smith, Talking Heads, Television, The Heartbreakers, Richard Hell & The Voidoids

Os anos 70 se encaminhavam para o seu desfecho. As bandas de rock que atravessaram a década haviam acumulado fama, dinheiro e uma “gordura” musical em proporções mastodônticas. As longas canções com influência sinfônica e letras alienantes só contribuíam para o progressivo distanciamento entre ídolos e fãs. Em tempos de crise econômica, desemprego e conservadorismo, uma parte da juventude buscava refúgio da realidade justamente em astros musicais maiores do que a própria vida. Outra parte tentava construir um mundo próprio e novo, com o qual pudesse se identificar – ainda melhor se, para isso, fosse necessário destruir o antigo.

Em Nova York, estes últimos tinham seus pontos de convergência em dois nightclubs: o CBGB e o Max’s Kansas City. O Max’s era onde se reunia a trupe de Andy Warhol, incluindo músicos como Lou Reed, Iggy Pop e David Bowie. Egressos da decadente cena glam, com seu som sujo e básico, eles se tornavam precursores da onda musical que emergia na cidade, anunciando um oceano de caos, atitude e ruptura.

David Johansen, do New York Dolls, e seu xará Bowie numa mesa vip do Max's

As portas de ambos os clubs estavam abertas para bandas iniciantes, muitas delas adeptas do estilo que aos poucos ficava conhecido como punk, principalmente por causa de um fanzine sobre música underground de mesmo nome.

A publicação, artesanal e completamente independente, compartilhava o espírito “faça-você-mesmo” com bandas como The Dictators, The Dead Boys e The Ramones.

Formado em 1974 por quatro fãs do rock inocente dos anos 50 e 60, o Ramones tinha como grande ambição soar feito seus ídolos: Beatles, Beach Boys e Stones. Porém, o fato de não saberem como tocar seus instrumentos fez com que soassem diferente de tudo. O som se tornou acelerado e primitivo, com guitarras parecendo motosserras e uma batida marcante. E, não conseguindo tocar covers da maneira que deviam, a saída era criar suas próprias músicas. Três minutos, no máximo, era o que precisavam para desfiar letras sobre namoros adolescentes e cheirar cola.

Joey, Johnny, Dee Dee e Tommy assumiram não apenas o sobrenome artístico, como também o modo de vida Ramone, do qual faziam parte o uniforme básico, composto por jaquetas de couro e jeans rasgados, os gritos de guerra – “Hey Ho Let’s Go!” e “Gabba Gabba Hey!” – e a irreverência e total urgência, deflagradas no palco após o sinal de “one, two, three, four!”

A capa do primeiro álbum dos Ramones é uma das imagens mais marcantes da História do punk

O punk rock, no entanto, não se limitava a canções primordiais e rápidas. Tampouco era impermeável à influência do gênero que constituía, ao lado do rock progressivo, o alvo principal das bandas da cena CBGB: a disco music. A febre das discotecas ardia entre os membros do Blondie, mas apenas fez bem à saúde comercial do grupo. Hit após hit, o Blondie ia escalando o mainstream, e sua vocalista, uma ex-Coelhinha da Playboy chamada Debbie Harry, voltava a estampar as revistas, agora como uma musa pop.

Menos musa e mais madrinha – Madrinha do Punk, como seria apelidada -, a poetisa Patti Smith enveredou pela música com a mesma visceralidade com que transitava pela literatura. Com seu primeiro álbum, “Horses”, de 75, produzido por John Cale, ex-Velvet Underground, ela injetou lirismo na crueza punk, através de algumas das letras mais inspiradas do período.

Também adeptos de uma abordagem mais cerebral, os Talking Heads ajudavam a moldar a face funkeada e eletrônica do punk, a new wave.

Seu experimentalismo sonoro encontrava paralelo no trabalho da primeira banda punk a tocar no CBGB, o Television, formado pelo virtuoso guitarrista Tom Verlaine e o baixista Richard Hell.

Amigos desde a adolescência, eles haviam abandonado a escola e se mudado para Nova York a fim de viverem como poetas. Suas mentes criativas, contudo, começaram a entrar em conflito assim que o grupo surgiu. O trabalho de composição deveria ser dividido igualmente entre ambos, mas Verlaine sempre favorecia suas próprias canções, além de reclamar da inquieta postura de palco do companheiro. Assim, em 75 Hell deixou a banda, levando consigo suas criações, inclusive a música que denominaria a sua geração, “Blank Generation” (“geração em branco”).

Richard Hell deveria ter patenteado seu visual

Na mesma época, Johnny Thunders e Jerry Nolan, respectivamente guitarrista e baterista dos New York Dolls, também abandonavam sua banda, após a tumultuada experiência de serem empresariados por Malcolm McLaren. Considerando uma boa ideia unir-se a Hell, eles formaram com o baixista o The Heartbreakers.

Estava nas ruas a formação roqueira mais junkie de Nova York! “Venha ver estes caras enquanto eles ainda estão vivos” foi um dos slogans referentes aos Heartbreakers que se proliferaram pela cidade. A heroína era para eles mais do que recreação – era componente básico de seu charme marginal. Inspiração. Tanto que, ao lado de Dee Dee Ramone, Hell compôs uma declaração de amor conturbado a um novo tipo de heroína que circulava pela Grande Maçã. “Chinese Rocks” se tornou um dos hinos do grupo.

Entretanto, o choque de personalidades, desta vez entre Hell e Thunders, levou o primeiro a deixar mais uma banda. O fato era que Hell só conseguiria satisfazer sua gana artística caso se transformasse em único frontman. Para isso, ele juntou uma nova gangue, e, a fim de não deixar dúvidas sobre a liderança, colocou seu nome à frente: Richard Hell & The Voidoids.

Em 77, chegavam às lojas tanto o primeiro álbum do Television, “Marquee Moon”, quanto do novo projeto de Hell, “Blank Generation”. Ambos, cults instantâneos.

“Marquee Moon” e suas guitarras de outro mundo

Finalmente, o retrato distorcido da juventude criada no asfalto sujo de NY era registrado na faixa-título do álbum dos Voidoids.

Poucos anos antes… Com o fim dos New York Dolls, Malcolm McLaren voltava para a Inglaterra de mãos vazias, porém com a cabeça cheia. Dono de loja de roupas e namorado da estilista Vivienne Westwood, ele havia encontrado em Richard Hell o mais excitante e transgressor dos visuais. Cabelos espetados, roupas rasgadas e presas por alfinetes, com frases escritas a mão… Poderia dar certo na terra da Rainha…

No próximo capítulo: O luxo do lixo.

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